“Do jeito que está acho bastante difícil”, diz ex-preparador sobre Barão voltar ao topo

Artur Dantas,

Renan Barão conseguiu o que poucos lutadores arrematam com pouca idade. Maturidade suficiente para construir uma carreira sólida com uma breve ressalva. Até 2014, quando acumulava 34 lutas, sendo 32 vitórias em sequência e uma derrota, o potiguar tinha no “no contest”, em 2007, a exceção que o impedia de ter registrado uma das maiores sequências invictas no MMA no mundo. Natural das Quintas, bairro com indicadores sociais pouco desenvolvidos, Renan Pegado realizou o maior sonho de qualquer lutador. Aos 25 anos, conquistou o título mundial interino após cinco rounds de dominação sobre o conhecido californiano Urijah Faber. E mais: nocautes e finalizações seguidas fizeram com que ele tivesse a chance de disputar o título linear contra Faber, a quem não tomou conhecimento e nocauteou ainda no primeiro round no segundo encontro entre os dois, em 2014. O caminho seguia firme, não fosse um outro americano ter colocado fim ao reinado e decretado, na brilhante carreira do filho de boxeador e que teve o tatame como segunda casa desde a infância, uma história com final aberto. TJ Dillashaw, conhecido carrasco do potiguar, conseguiu duas vezes o que ninguém havia sonhado até aquele momento: aplicou nas duas oportunidades dois nocautes avassaladores que parecem ter tirado não só o cinturão, mas o ímpeto de campeão de Barão. Em uma conversa com o ex-preparador físico do lutador, Thiago Macedo revela em primeira mão algumas nuances da época que esteve com líder da preparação física, junto dos técnicos na ocasião Dedé Pederneiras e Jair Lourenço, head coaches da Nova União, no Rio de Janeiro, e Kimura (RN), respectivamente. Hoje, aos 32 anos, e com 4 derrotas seguidas no UFC, entre elas o nocaute sofrido no último dia 17 para Luke Sanders, Barão pode figurar na próxima lista de demissão do UFC, levando em conta um outro número: nas últimas 10 lutas, ele conseguiu três vitórias. Será o fim?

*Colaborou com o conteúdo André Pacheco, ex-atleta de MMA e professor de educação física

1- Você foi preparador físico de Renan Barão durante quantas lutas? Quando você teve seu primeiro contato profissional com ele e até quando você treinou o ex-campeão?

Thiago Macedo - No UFC Foram três lutas. Treinei ele até a disputa do cinturão interino, que seria entre Dominick Cruz e Urijah Faber, mas em virtude de Dominick se machucar, acabou sendo casada a luta com Barão.

O meu contato com ele foi que eu já treinava Ronny Markes e ele apresentou uma resposta muito boa fisicamente nas lutas. A partir dai Barão, que tinha outro preparador físico, achou que poderia melhorar determinadas áreas. Não que o trabalho estivesse ruim, mas cada preparador impõe seu modo. Assim como um piloto de Fórmula 1 quando pega o mesmo carro que outro piloto guiou. Cada um vai impor seu estilo de pilotagem, mas não quer dizer que o outro estava guiando mal. Nesse caso, após a conquista do cinturão interino, Barão teve péssimos pilotos.

2- Então, vamos aos detalhes. Dentro dessas três lutas que você esteve com o Renan até ele conquistar o cinturão interino do UFC, como você vê  Barão em termos de evolução como lutador ? No que você acha que ele mais evoluiu e o que acha que ele tinha mais para evoluir?

Thiago Macedo - Foi justamente uma análise das deficiências que ele apresentava em algumas lutas. Por exemplo, o fato de ele ser um cara que não tinha potência. Ele não era do tipo de o cara bater e o oponente sentir, se balançar ou ser nocauteado. Ele era um cara que ganhava muitas lutas pelo volume de golpes, pela duração da luta, ele ia vencendo, vencendo. O principal enfoque foi nisso, na explosão, na velocidade dele, que eu achava que isso poderia ter sido melhorado. Então, a gente fez um trabalho muito forte em cima disso.

E foi justamente a partir daí que ele começou a ganhar lutas no primeiro round. Porque os caras entravam em knock down ou até mesmo eram nocauteados. Foi a partir desse trabalho intenso que a gente fez com ele, sem esquecer nunca de manter ele condição de perdurar por quantos rounds na luta fossem necessários. Veja por exemplo a luta que ele conquistou o cinturão interino contra Faber. Ele lutou cinco rounds! Outro dia eu até postei no meu Instagram o último minuto do quinto round para todo mundo ver que ele não estava começando a luta. Era o minuto final de cinco rounds e ele parecia que estava começando. Saltitando, chutando… inclusive um dos chutes quebrou a costela de Faber, para se ter uma ideia da potência dele.

E também o fato de ter o conhecimento de qual era o estilo de Barão. Fazer uma analise muito precisa. Nisso também devo muito aos técnicos de luta dele como Dedé Pederneiras e Jair Lourenço. Eles me ajudaram muito para traçarmos quais as característica do adversário e o que ele teria que fazer fisicamente para que pudesse impor a sua característica. Isso porque eu já escutei de muitos preparadores depois de mim dizerem que a preparação física é igual independente do lutador, não interessa qual lutador. Então, na cabeça deles, tanto fazia qual lutador viesse que ele estaria pronto fisicamente. Eu nunca trabalhei dessa forma. A gente sempre fazia uma análise de quem era o adversário que poderia prejudicar ele dentro da estratégia dele e o que teríamos que fazer para que, em cima disso, Barão pudesse impor a estratégia e as características dele. Então, ele impunha o estilo dele, não deixava que os outros impusessem o estilo porque ele estaria muito bem preparado fisicamente para fazer isso.

3- Depois do seu período de treinamento com Barão ele ainda consegui emplacar uma sequência de três vitórias. Lutas curtas, é verdade. Foram nocautes ou finalizações, e depois veio aquele fatídico primeiro embate com TJ Dillashaw. O que você achou dessa luta? Como você avaliou o desempenho físico dele no primeiro combate contra o americano?

Thiago Macedo - Vamos lá. Primeiro o que acontece é o seguinte: como foi feito um trabalho de potência muito forte para Barão, ele conseguiu nessas três lutas, que foram de primeiro round, bater e o adversário sentir. Então ele finalizava ou nocauteava. Até hoje ele luta muito bem o primeiro round porque ele tem uma condição física que permite isso. Só que agora ele não tem mais a potência e a velocidade/explosão que tinha antes. Ele não consegue mais impor o jogo e não consegue resistir aos rounds subsequentes.

Na primeira luta podemos analisar da seguinte forma: TJ é um cara que tem uma movimentação muito grande. Barão tem como característica jogar mais parado. Mas o que Barão fazia com isso? Ele fazia com que os adversários que se movimentavam muito fossem atraídos para entrar nele. E quando isso acontecia, ou ele conseguia conectar uma sequência de dois três golpes, em caso de golpe recebido, às vezes terminando com um chute muito forte. Isso, alem de tirar a movimentação do cara, acabava inibindo o lutador de continuar entrando nele com muita velocidade. E ele tinha uma coisa que era positiva. Ele ficava parado e isso atraia os caras para dentro e eram recebidos com muita velocidade e explosão que ele tinha. Ele nunca foi um cara de ficar se movimentando , de ficar pulando de um lado para o outro com Dominick Cruz e Dillashaw, mas ele conseguia dar sequência que fazia com que ele impusesse o jogo dele.

A partir do momento que ele começou a perder potência os caras começaram a perder a timidez de entrar nele. Os caras pensavam: “Pô, isso que vem eu consigo assimilar”.  Barão perdeu velocidade também e começou a perder em número de golpes. Então, ele levava dois ou três golpes para desferir um. Isso levou ele à desvantagem. Além disso a condição física dele foi se deteriorando e ele não conseguiu mais manter o pico de rendimento que tinha em rounds subsequentes.  Pode observar que daquela luta em diante ficou claro o declínio físico dele.

O declínio não foi técnico porque técnica não se perde, mas um declínio físico dele em todas as outras lutas. O fato que pode aparentar que ele perdeu técnica é que porque o estilo de jogo dele precisa de muita explosão, muita velocidade para que seja imposto perante adversários do mesmo peso e que se movimentam bem mais do que ele.

4 - Tirando por base que o condicionamento físico dele já não é mais ou mesmo, no que isso poderia estar influenciando o aspecto psicológico? Isso teria alguma influência com a confiança, já que ele não faz mais lutas como antigamente? Às vezes parece abatido durante a luta…

Thiago Macedo - Concordo entre aspas porque se você analisar ele sempre faz um ótimo primeiro round. Normalmente, ele se impõe no primeiro round. Não acredito que ele está sentindo uma grande pressão psicológica. Agora, lógico, depois dessa sequência negativa, você senta no intervalo do primeiro para o segundo round e vê que “morreu”, que fisicamente você acabou… Deve pensar “de novo?. Cansei, e agora?”. Aí com certeza é onde a gente vê o abatimento. Vê uma perda muito brusca  da questão física ele deve pensar: “Morri de novo. O cara tá melhor do que eu. Eu tô cansado, pregado, o quê eu vou fazer?”.

O fato é que quando se está cansado nada funciona, nada sai direito, por isso o abatimento. Mas eu não acredito que ele é um cara com medo de lutar, ou nervoso com a luta. É tanto que se reflete nos primeiros rounds. A grande questão é que Barão perdeu aquilo que fazia ele vencer. A grande característica dele era a variabilidade que tinha. Barão era um cara que derrubava, finalizava, era o que dava vários chutes giratórios, que dava chute de todo jeito, que batia de todo jeito. Ele tinha uma variabilidade muito grade e esse tipo de característica demanda um condicionamento físico muito bom.

Quando você sente que seu físico não tem condições daquilo você começa a se segurar e aí surgem os comentários que a técnica não é mais a mesma, que não faz mais o que fazia… Não é que ele não saiba fazer, mas ele sente que fisicamente não tem condições de executar. Porque se ele for fazer vai cansar. Então, começa a perder a confiança de soltar o jogo, o conhecimento que tem, e começa a pensar: “vou segurar minha onda para ver se a luta demora e eu consigo manter o padrão”.

O que eu tenho fé, e acredito de verdade, é que no momento que ele tiver bem e sentar no intervalo do primeiro pro segundo round, se sentir bem fisicamente, e olhar para o adversário e notar o oponente mais cansado, aí ele pode ser ajudado pelo psicológico. Aí eu acho que aquele instinto assassino volta. Por isso eu acho que ele tem muita lenha para queimar, até pela pouca idade que tem, e pela experiência pelo número de lutas.

5 - Com relação a perda de peso, nas últimas lutas tem sido uma constante ele não bater o peso e acabar perdendo parte da bolsa. Por que ele agora não bate mais o limite dos galos?

Thiago Macedo - Eu não sei explicar porque não tenho conhecimento da dieta atual dele, quem está acompanhando e o quê está fazendo agora. Na época que fiz a preparação física nunca tivemos problema porque eu ficava com ele 24 horas. Eu vi o que ele estava comendo, como estava comendo, as horas que comia. Muitas vezes era eu que cozinhava as refeições para ele. Sabia tudo. Eu não sei hoje em dia como está isso, se alguém está fazendo isso. Quando estávamos no camp, eu dormia no mesmo apartamento que ele, controlava a hora que dormia, que acordava, as horas de treinamento, como estava se alimentando, o que estava suplementando, fazia as projeções de perda de peso. Tínhamos uma metodologia para a perda de peso. O que eu sei é que depois que saímos a metodologia de perda de peso mudou, ele passou por vários nutricionistas…

Além da dificuldade natural que a gente começa a ter com a idade para diminuir peso, ainda tiveram essas modificações. Eu não sei quais foram essas modificações e como isso poderia ter influenciado negativamente porque não estou acompanhando. Tínhamos uma balança que ele se pesava antes de dormir e quando acordava. Todos os dias. Então, com isso, a gente projetava a perda. Projetava que na semana tal ele deveria estar com determinado peso, na semana tal tinha que bater tanto. Quando ele viajava precisava perder apenas dois quilos, dois quilos e meio em uma semana.

6 - Essa foi a quarta derrota consecutiva de Barão no UFC. Foi acachapante e ele apresentou todas essas deficiências que você citou. Como você vê a carreira dele daqui para frente? O que você acha que ele pode melhorar para voltar a lembrar o Barão que foi citado por Dana White como número 1 ou 2 pound for pound do mundo? O que ele precisa fazer para voltar a ser aquele lutador?

Thiago Macedo - Da forma que está acho bastante difícil [voltar ao topo], pois para isso ele teria de ter uma equipe auxiliar, (preparadores, nutricionistas e etc), com a qual ele se sentisse seguro e confiante, teria de investir alto nisso, e ele não investe.

7 - Seria preciso concluir que ele é uma vítima de um mau gerenciamento da carreira também?

Thiago Macedo - Não acho que ele é vítima de um mau gerenciamento de carreira, veja como exemplo José Aldo, que mesmo sempre apresentando recorrentes falhas na parte física, teve uma ótima carreira. Na mesma equipe tiveram vários outros atletas em outros eventos também, menos talentosos que Barão, que e fizeram a sua vida de forma bem satisfatória. Barão fez suas escolhas, bateu o pé em certos momentos, se mantendo de forma às vezes equivocadas em algumas decisões, e mesmo com os resultados negativos se manteve nelas. Às vezes ele não dá o investimento adequado (financeiro) na sua carreira, mas investe alto no lazer (que deveria ser focado após fim de carreira). Entender que o foco nesse momento deveria ser nos profissionais que lhe dariam resultados positivos. Então, desta feita, culpo nesse item, e apenas nesse, ele mesmo e as escolhas que ele fez, e ainda se manter nelas. Amigos levamos para nossa casa, saímos para nós divertir, mas trabalho é quem é o melhor. Não se contrata um mecânico de fórmula 1 por ser meu amigo, mesmo não tendo nenhuma experiência. Faltou a ele uma visão de negócio, e isso especificamente não foi culpa de ninguém, mas dele mesmo.


Tags: Preparação física Renan Barão Thiago Macedo UFC
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