Ali, muito mais do que um legado esportivo

Artur Dantas,

A morte ao 74 anos do que é considerado por alguns o maior boxeador entre todas as categorias do pugilismo não chegou a ser uma surpresa para o mundo. Muhammad Ali “The Greatest" não resistiu às complicações do Mal de Parkinson que o acometia desde 1984. Foram exatos 32 anos de uma luta inglória contra o adversário mais implacável que já passou pela vida do controversa e polêmica de um dos lutadores mais brilhantes de que se tem registro na história do nobre arte. A morte de Muhammad Ali coloca fim ao sofrimento do homem que chocou o mundo por seus feitos desportivos, mas também soube causar muito barulho fora dos ringues. 

Não foram as vitórias marcantes sobre George Foreman, Joe Frazier ou Sonny Liston que fizeram de Ali ser o que era; não foi a forma como ele vencia seus oponentes, como brincava com eles no ringue, como fazia homens fortes caírem em um piscar de olhos com os golpes na velocidade da luz, como se gabava em propagar. 


Muhammad Ali, como muitos sabem, nem sempre foi este que morreu. Ainda criança, Cassius Marcellus Clay Jr, garoto sem muitas perspectivas para um norte-americano negro e pobre de Louisville, no Kentucky, que vivenciou a realidade muito presente da segregação racial que subjulgava homens, mulheres e crianças, começou a praticar boxe aos 12 anos após ter sua bicicleta, que fora dada pelo seu pai, roubada. Ao relatar o caso para um policial, Clay externou a vontade de bater no ladrão quando o encontrasse. O oficial, que também era treinador de boxe, disse que ele precisava aprender a boxear e assumiu os treinamentos do menino que venceu a primeira luta no boxe seis meses depois. 

A carreira de privações começou a despertar o lado mais social de Ali aos 18 anos, quando conquistou a medalha de ouro dos meio-pesados nas Olimpíadas de Roma, em 1960. Recebido com festa na cidade natal, Cassius sentiu pela primeira vez que nem toda fama ou sucesso que fizesse no esporte poderiam superar o racismo. O caso clássico retratado no documentário “Quando éramos reis” (When we were kings), produzido em 1996, mostra o depoimento indignado dele após ser barrado em um "restaurante de brancos”. 


Após a conquista, Clay disse que libertaria o seu povo e foi a um restaurante da cidade, sentou e pediu uma xícara de café com um cachorro quente, o que foi recusado pelo funcionário ao dizer que “não serviam negros” no estabelecimento. Ele brincou dizendo que não comia negros, queria apenas um cachorro-quente. O caso ligou o sinal de alerta do jovem que passou a ser uma espécie de porta-voz dos negros pelo mundo, que ficaria marcado mais forte na década de 70 com o “Rumble In The Jungle”. 


Ainda na década de 60, Clay ostentava muita fama decorrente de sucesso nos ringues. Invicto na carreira, o boxeador teve diante de Sonny Liston, em 1964, o maior desafio da carreira. Aos 22 anos, Liston foi à lona no sétimo de 15 rounds previstos por nocaute técnico. A vitória deu a Cassius os títulos da Confederação Mundial de Boxe e do Conselho Mundial de Boxe. Foi a última luta de Clay com o nome de batismo. Após o combate, ele anunciou a conversão ao islamismo, por intermédio pelo líder Elijah Muhammad, e adotou o nome que ficou conhecido até a morte, Muhammad Ali.

Parte da mudança é explicada pela forma com Ali se sentia em relação ao tratamento que recebeu do próprio povo e da igreja católica. Ele não se sentia representado mais pela religião que adotou quando criança. A mudança de nome veio porque não queria mais usar nome de escravo. Ali se uniu ainda a Malcolm X, líder negro dos Estados Unidos, na luta pela igualdade racial. 

Mas foi em 1967 que Ali teve o maior desafio da carreira longe dos ringues. Convocado para combater no Vietnã, ele se negou, após ter três recursos negados, e recebeu como pena por violação das leis de serviço de seleção a reclusão por cinco anos, o pagamento de multa de US$ 10 mil, além da perda do título dos pesados e ter a licença de lutar revogada. Ele respondeu em liberdade. A recusa em participar da guerra foi explicada pelo entendimento religioso atual e por não concordar com o envolvimento norte-americano no assunto. 

Na época disse o porquê não combateria na guerra. “Não tenho nenhuma desavença com os vietcongues. A minha consciência não me deixa atirar no meu irmão, ou em algumas pessoas mais escuras, ou alguns pobres famintos jogados na lama por causa dos poderosos na América. Matá-los para quê? Eles nunca me chamaram de negro, eles nunca me lincharam, não colocaram cães em cima de mim, não roubaram minha nacionalidade, estupraram minha mãe ou mataram meu pai. Como posso matar essas pessoas pobres? Apenas me coloque na cadeia”.

Apenas em 1970, Ali voltou a lutar novamente após a Suprema Corte dos Estados Unidos ter decidido em seu favor na instância judicial estadual para poder conseguir novamente a licença para lutar. Apesar do tempo afastado, a vitória estava selada. Muhammad conseguiu chamar atenção para as causas da guerra e do racismo no período que esteve afastado, e que chegou a flertar com a aposentadoria. 

Renascimento

Após o período longe dos ringues, Ali voltou a competir e conheceu a primeira derrota da carreira como profissional na terceira luta depois da suspensão. O adversário era Joe Frazier, contra quem Ali construiu uma das mais latentes rivalidades do esporte. No que foi considerada a “A Luta do Século”, em 1971, Frazier e Ali duelaram durante 15 rounds, em Nova Iorque, no Madison Square Garden. O resultado: Ali perdeu os dois títulos que ostentava da WBA e WBC.


Quatro meses depois, voltou a ser dono de um cinturão. Derrotou Jimmy Ellis e ficou com o título vago dos pesados da NABF. Ali permaneceu invicto por nove lutas até encontrar Ken Norton, que o venceu por decisão dividida após 12 rounds. Na luta seguinte, também em 1973, ele venceu o mesmo adversário também por decisão dividida dos juízes e recuperou o cinturão da NABF. 

Mas o melhor ainda estava por vir. Três anos após ser derrotado por Frazier, ambos voltaram a se encontrar em Nova Iorque. Aos 32 anos, Ali venceu por decisão unânime depois de 12 rounds, empatando a contagem de vitórias para cada lado. O desdobramento viria viria em 1975, mas antes disso uma outra grande luta estava sendo arquitetada...

África, um capítulo à parte 

A luta por igualdade racial promovida por Ali chamou a atenção do mundo de novo. Dessa vez, longe dos Estados Unidos. Em 1974, a cidade de Kinshasa, no Zaire, atual Congo, recebeu uma das lutas mais aguardadas no boxe. George Foreman, que vinha de uma sequência de 24 nocautes, incluindo os que davastaram Ken Norton e Joe Frazier, e era o dono dos cinturões que já haviam pertencido a Ali, se enfrentariam em um megaevento, promovido por Don King, que envolveu mais do que esporte. Estrelas da música como James Brown, BB King, The Spinners e artistas locais promoveram shows durante três dias. Pela luta, cada um dos lutadores recebeu US$ 5 milhões.

“Quando éramos reis” retrata de forma detalhada como se deu o combate entre os dois e como se processou a rivalidade criada por Ali para tentar desestabilizar o oponente. No embarque dos Estados Unidos para o Zaire, Muhammad apareceu cercado de jornalistas dizendo que aposentaria o campeão dos pesados. E mais, fez uma comparação com um fato político norte-americano, deixando ainda mais clara a sua veia de misturar política com esporte. “Se você ficou surpreso quando Nixon (Richard Nixon, ex-presidente americano que renunciou após o escândalo Watergate, retratado no filme “Todos os Homens do Presidente”) espera até eu chutar o traseiro de Foreman. O mundo ficará atordoado no dia 25 de setembro”.

Na África, o carismático e articulado Ali suou mais uma vez a questão social para trazer a torcida para o seu lado, e incentivou os africanos a usarem a expressão “Ali, bumaye”, que significa “Ali, mate-o”. Muhammad tratou o evento como “a primeira assembleia sobre negros americanos e africanos na história”.

Ao desembarcar no Zaire, Foreman foi recebido com menos empolgação que o adversário. Muito disso explicado por descer do avião com o seu cachorro, um pastor alemão, animaal usados pelos belgas para reprimir os nativos que se insurgiam na época do Congo Belga, território dominado pelos europeus de 1908 até 1960. 

Constrangimentos à parte, Ali continuou usando os microfones para tentar quebrar mentalmente Foreman. “Ele é o touro, eu sou o matador”, “Eu lutei com um jacaré. Briguei com uma baleia. Algemei o trovão e joguei ele na cadeia. Matei uma pedra, hospitalizei um tijolo” e “Ontem a noite eu acertei o interruptor e estava na cama antes do quarto ficar escuro” eram algumas das pérolas do lutador ao dizer que era mais rápido do que George e que Foreman se movimentava como uma múmia. 

Porém, o combate não ocorreu na data programada. Durante uma sessão de sparring, Foreman acabou sendo atingido por uma cotovelada não intencional e teve que, como falou na coletiva, reagendar o combate do dia 25 de setembro para 30 de outubro do mesmo ano. 

Na luta, o que se viu foi uma superioridade de Foreman, então com 25 anos, contra 32 de Ali. A potência dos golpes minaram a resistência e movimentação do ex-campeão que usou o trash talking em cima do ringue para quebrar mentalmente o adversário e o apoio da torcida de 100 mil pessoas que gritavam, a pedido de Ali, “Ali, bumaye”.

Em entrevistas que deu anos após o combate, Foreman disse: “Eu batia com toda a força que tinha, e ele me perguntava ‘vamos, George. É essa toda a sua força?”. No ringue, Ali continuava a falar entre um soco e outro. “Você não bate tão forte quanto eu pensava, George. Você não está fazendo pipocas. É o mais forte que você pode bater?”. E George respondeu em entrevistas que deu depois: “Era o mais forte que eu podia bater e ele não caia”.

A estratégia, por mais equivocada que pudesse parecer, deu certo. Ali nocauteou o cansado Foreman no oitavo round, dos 15 previstos, impondo a primeira derrota da carreira do compatriota, recuperando os cinturões da WBA e WBC.

Frazier parte III

Ali e Joe Frazier encerraram a triologia em janeiro de 1975. Com uma resultado posivito para cada lado, ambos se enfrentaram para a melhor de três. Por nocaute no  14º round, de 15 assaltos, “The Greatest” venceu novamente um dos maiores nomes doboxe mundial no evento realizado nas Filipinas, “Thrilla em Manila”.

Para tanto, Frazier decidiu não ficar como coadjuvante apenas e iniciou os ataques ao explicar como faria para impedir que Ali dançasse no ringue, como gostava de dizer. "“Depois que eu parar seus órgãos, quando esses rins e fígado pararem de funcionar, ele não vai poder se mover tão rápido. Os órgãos em seu corpo têm que estar funcionando. Se você machucá-los, ele não pode fazer o que ele quer fazer.”


E deu certo na maior parte da luta. Até o ponto de Ali dizer no descanso para o décimo round que os golpes desferidos por Frazier, com destaque para os ganchos de esquerda, “era o mais próximo que esteve da morte. Entretanto, Ali passou a trabalhar uma sequência de jabs que foram entrando no olho esquerdo de Joe e dificultaram a esquiva dos golpes de Ali. As combinações de cruzados e diretos se tornaram mais frequentes, forçando o staff de Frazier assinalar a desistência no intervalo do último round. Era o fim. Ali permanecia com os cinturões. 

Um líder político e étnico

Fatos como ocorreram no restaurante, quando foi impedido de comer por ser negro,  suspensão da licença para lutar por se recusar a combater no Vietnã e a luta no Zaire fizeram de Ali um megafone para a questão da segregação racial e para o militarismo norte-americano. Durante o período que esteve afastados dos ringues, Ali assumiu a postura de mártir do movimento negro, claramente inspirado por Martin Luther King. Em 1968, foi capa da revista “Esquire” retratado como São Sebastião crivado de flechas, uma alusão aos críticos no mundo do esporte e os que contestavam a posição religiosa assumida pelo lutador. 

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O fato é que Muhammad Ali não brilhou apenas no ambiente esportivo, tendo sido considerado o maior atleta do século XX. Desde o início da carreira, com as mais de cem vitórias no cartel amador, ele se mostrava um atleta diferenciado. Inteligente, provocador, divertido e bonito, Ali levou o boxe a um outro nível. Sabia falar e tinha desenvoltura com a câmera, entendia a melhor forma de promover os combates em uma época sem tantas produções artificiais, e usou a prisão e o afastamento do boxe como um fato que, se não alavancou a carreira, deixou como legado que quem tem voz e conteúdo pode fazer a diferença em qualquer instância. 

Ali, que dizia não querer ser líder, assumiu um posicionamento - e pagou por ele - ao declarar frases como “tomei a decisão de ser um negro que não se deixa ser pisado por brancos”. Não era unanimidade nos Estados Unidos justamente por não ter filtro, mas construiu um caminho muito menos difícil para quem luta por igualdade de direitos e para quem entende que cor da pele não define caráter ou sucesso. Ali morre e deixa como principal mensagem o que gostava de fazer no auge da carreira: voar como uma borboleta, picar como uma abelha.


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