"Mirá", o balanço do samba de Valéria Oliveira

Nicolau Frederico,

A compositora e cantora Valéria Oliveira lançou recentemente o seu nono disco de sua carreira musical. “Mirá”, resultado dos três últimos anos de sua dedicação, é puramente um disco com músicas de sua autoria e de parcerias com compositores cariocas e potiguares, composto de sambas e boleros. Tem o maestro Hildo Hora como produtor e Jubileu Filho como co-produtor em Natal. A distribuição nacional fica a cargo da Biscoito Fino.

Valéria Oliveira recebeu “Espaço MPB” para uma entrevista exclusiva que segue nesta edição.

Nicolau (Espaço MPB) Valéria, com este novo CD “Mirá”, quantos já editou na sua carreira artística?

Valéria – Este é o meu nono CD, fora alguns projetos especiais, que eu digo, como coletivos, discos de carnaval e outros projetos que eu produzi.

Nicolau (Espaço MPB) – Fale um pouco sobre o “Mirá”.

Valéria – É praticamente um disco com músicas autorais, com muitas parcerias com compositores potiguares, alguns que já ligados ao samba e outros não, mas que compuseram samba. É um disco que em sua maioria é composto de sambas, mas tem alguns boleros também. Fiz uma releitura apenas, mas todas as músicas são inéditas, com alguns compositores que me deram a honra de lançar suas obras.

Nicolau (Espaço MPB) – Você dá destaque em algumas delas?

Valéria – Tem algumas obras inéditas de compositores cariocas que eu tenho a maior admiração, como por exemplo a compositora Fátima Guedes. Então, estou lançando um samba dela, que se chama “Razante”; um samba de Moacir Luis em parceria com Délcio Luis que é “O amor que eterniza”, com a participação do próprio Moacir Luis; também estou lançando um samba do Rico Dias, que é um compositor carioca e que reside aqui em Natal; além de várias parcerias com compositoras potiguares como Simona Talma, Luis Gadelha, Ivando Monte, que é um cara super envolvido com a história do samba potiguar; com Vinicius Lins, também com uma veia forte do samba; e algumas músicas minhas sem parcerias.

Nicolau (Espaço MPB) – E na produção do CD, quem participa?

Valéria – Este disco tem a produção coparticipada com o maestro Hildo Hora, uma personalidade da história da música popular brasileira. Ele foi quem produziu meu disco anterior “Em águas claras”, em homenagem à cantora Clara Nunes, e esteve no lançamento do disco no Teatro Riachuelo, em 2013. Neste novo trabalho, um trabalho bem autoral, ele está comigo de novo em uma parceria maravilhosa. Sinto que estamos num crescendo, em termos de entendimento e de afinidade musical. O maestro é uma grande figura. Ele fez alguns arranjos para o disco, dirigiu algumas músicas e compartilhou esta produção comigo. A maioria desse trabalho de produção em Natal foi feita por Jubileu Filho, que também fez alguns arranjos do disco e está comigo neste trabalho uns três anos, especificamente para este disco. Ele pensou o disco comigo, passamos um ano e meio fazendo shows, até desembocar no CD.

Nicolau (Espaço MPB) – Falando sobre os seus nove discos que produziu, como você avalia este trabalho, como você vê o seu crescimento na música popular potiguar e brasileira?

Valéria – Bom, eu acho que cada trabalho é um momento único, reflete aquilo que você está vivendo naquele período, o que a gente escolhe para colocar no disco, em termos de repertório, de parcerias com as quais pretendemos trabalhar. Então eu considero toda esta parte da discografia, do estúdio, da produção fonográfica, como um grande aprendizado. A gente não pára de aprender, o tempo inteiro. O aprendizado é constante. O disco em sí, reflete isso, acho que reflete cada momento.

Nicolau (Espaço MPB) – Mas você tem algum xodó com alguns deles, não?

Valéria – Claro! Tenho alguns xodós com alguns deles, como por exemplo, eu gosto muito de um que fiz em 2007 que se chama “Leve são as pedras”. São momentos assim de uma transição mais radical, de representar com muita profundidade aquilo que estou vivendo. Também foi o meu primeiro disco autoral, que me apresentei como compositora. Talvez por isso tenha um gosto especial, um disco experimental, muito livre em que eu pude experimentar. São quatorze faixas com duas regravações: “A sua presença morena”, de Caetano Veloso e “O último por do sol”, de Lenine e Lula Queiroga.

Nicolau (Espaço MPB) – E “Em águas claras” enquadra-se também nessa categoria de xodó?

Valéria – É um deles também! Pois foi em um momento assim de uma interação muito grande com muitos mestres do nosso samba que entraram neste universo mágico de estúdio, com muita gente que eu admirava, com muita gente boa perto de mim e me apoiando e me acolhendo. A obra de Clara Nunes emocionando intensamente cada vez mais. A viagem que fiz a terra dessa cantora, os contatos com dona Mariquita, sua irmã; o pessoal da Velha Guarda da Portela, como o mestre Monarco, o Guaraci Sete Cordas e tantos outros. Eles me trouxeram coisas muito boas e essa coisa do aprendizado e do conhecimento “in loco” da linguagem do samba. Antes do lançamento do disco eu trouxe a Velha Guarda a Natal, em um show no Teatro Riachuelo. Foi um momento muito especial também que eu acho que não devo deixar de falar. E foi este CD que me levou assim para este trabalho atual no “Mirá”.

Nicolau (Espaço MPB) – Valéria, me parece que você agora está também envolvida em um movimento para a valorização da música potiguar, não é mesmo?

Valéria – É uma campanha chamada “Música potiguar, nosso som tem valor”, lançada no final do ano passado e estamos assim dia-a-dia criando força para que a música potiguar ocupe o seu devido lugar na cultura do estado. Assim, criando espaços para que os músicos, compositores, cantores e produtores musicais possam ter um lugar para apresentar suas músicas, composições e canções. O importante que este esforço da campanha envolva toda a cadeia produtiva da música potiguar para que a sociedade natalense e potiguar possa ver, conhecer e apoiar. Ainda enfrentamos muitas dificuldades. Estamos assim na busca incessante de plateia, de mostrar ao público a importância de se pagar para assistir o artista, pois ainda enfrentamos muito este entendimento para a valorização do artista no seu show. Assim, nós estamos nos apresentando de uma outra forma, nos mostrando e chegando mais perto desse público, falando mais sobre o nosso trabalho, falando mais uns sobre os outros nas suas redes sociais. O que a gente quer na realidade é criar esta empatia com o nosso público e com nós mesmos, fortalecendo essa divulgação e proximidade com o público potiguar.

Nicolau (Espaço MPB) – Você poderia destacar algum evento ou acontecimento já programado ou realizado nesta campanha?

Valéria – Sim! Eu destaco os pockets shows que estamos realizando com os artistas potiguares nas escolas públicas e privadas. E as conversas com os professores de arte para que possam aproveitar o material que os artistas apresentam em seus pockets shows. Isso é muito legal. Uma escola particular leva para uma outra escola pública a idéia da campanha. Temos pessoas que atuam como articuladores entre os artistas e os professores das escolas. Assim criamos uma rede de colaboração para que essa música chegue a esses alunos, para que, futuramente, esses jovens de hoje possam ter uma visão muito mais aprofundada e uma intimidade muito mais firme com esta música, do que a minha geração e as gerações anteriores. Só assim mudaremos este quadro em que a gente vive, em que as pessoas considerem justo pagar para assistir um artista potiguar, por um produto desse artista ou por show deste artista. Trago a experiência vivida no lançamento recente do meu disco “Mirá” no Teatro Riachuelo, que muito me emocionou e me senti gratificada pela grande presença do público que se fez presente e que me aplaudiu e se expandiu nas redes sociais. Quando isso acontece, o artista se sente recompensado e feliz, como me senti naquele momento. Que isso se multiplique por todos os artistas e que o público se sinta também recompensado quando paga para assistir o artista e que as atuais parcerias continuem e se multipliquem.

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