Gilberto Gil: nos bastidores de "Não chore mais"

Nicolau Frederico,

O músico,  compositor e cantor Gilberto Gil, postou em sua FanPage e este "Espaço MPB" reproduz o seu comentário e explicações sobre a sua música "Não chore mais". É uma série, denominada "Por trás da música" que o compositor baiano criou.  

"Eu pensava na transposição de uma cena jamaicana para uma cena brasileira a mais similar possível nos aspectos físico, urbano e cultural. Emblemática do desejo de autonomia e originalidade das comunidades alternativas, No Woman, "No Cry" retratava o convívio diário de rastafaris no 'government yard' (área governamental) em Trenchtown, e a perseguição policial, provavelmente ligada à questão da droga (maconha), que eles sofriam. Esta situação eu quis transportar para o parque do Aterro, no Rio de Janeiro, também um parque público, onde localizei policiais em vigília e hippies em rodinhas, tocando violão e puxando fumo, como eu costumava vê-los de noite na cidade. Coincidindo com o momento em que a abertura política estava começando, "Não Chore Mais" acabou por se referir a todo um período de repressão no Brasil." , comenta Gilberto Gil.

Sobre a canção  "Não chore mais", Gil explica que "Minha tradução para o refrão-nome foi uma escolha arbitrária, porque eu nunca entendi direito o que os autores queriam dizer com o proverbial 'no woman, no cry'. Até procurei, mas não tive meios de saber. Alguns me disseram que a expressão significa 'nenhuma mulher, nenhum problema'; eu pensei em 'nenhuma mulher, nenhum choro', um adágio local talvez. E também numa possível forma em inglês dialetado para o correto 'no, woman, don't cry'.

 "Optei por algo próximo disso inclusive porque, assim, eu me aproximava mais do sentido dos outros versos da música, uma espécie de lamento pela perda dos amigos e pela presença pertubadora da repressão que, na versão pelo menos, adquire um ar de canção de despedida, com o homem dizendo à mulher que está indo embora, mas que isso não é o fim do mundo, e que é pra ela se lembrar do tempo dos dois juntos etc. Uma instauração de um espaço afetivo que eu até hoje não sei se o original contém." , destaca o músico e compositor.

Sobre as palavras "Amigos presos, amigos sumindo assim, pra nunca mais", Gil comenta que "Eu não pensava em ninguém especificamente; a tradução vinha diretamente dos versos em inglês, com o detalhe do uso do termo 'presos' - surgido naturalmente com a lembrança do modo de atuar da repressão, através das prisões, torturas e mortes de pessoas."

 E a sua explicação para a frase "Melhor é deixar pra trás", ele registra que "Há uma certa licenciosidade interpretativa aí. 'You can't forget your past' ('Você não pode esquecer o seu passado'), diz o original. Me referindo ao período que estava terminando no Brasil, eu digo: 'Vamos passar a borracha nisso tudo. O passado tem um débito conosco, mas vamos dar um crédito ao futuro'. Uma posição típica da minha ideologia interna, do meu otimismo, do meu gosto pela conciliação, do traço tolerante da minha personalidade."

Novo CD e DVD vem aí...

Vem aí o CD e DVD "Gilbertos Samba - Ao Vivo", registro do show que Gilberto Gil e banda fizeram no Teatro Municipal de Niterói em setembro deste ano.

Produzido pela Conspiração Filmes, com direção de Andrucha Waddington e lançado pela Sony Music Brasil, "Gilbertos Samba - Ao Vivo" apresenta repertório que passeia por canções que fizeram sucesso na voz de João Gilberto - de autores como Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Caetano Veloso - e canções que de alguma forma dialogam com João e com aquilo que ele representa. A partir de semana que vem disponível para encomenda no iTunes.

Com informações de Gilberto Gil, músico, compositor e cantor  

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