Entre lanternas e livros

Versos íntimos

Michelle Paulista,

O poema homônimo de Augusto dos Anjos é um dos mais impressionantes que já li. Conheci-o na faculdade de Letras e, como não poderia deixar de ser, passei a admirar o talento inquestionável desse paraibano inclassificável.

Em vão, a historiografia literária tenta classificá-lo em alguma escola literária ou estilo de época, mas o poeta, grande que é, se faz como quer: ora simbolista, ora parnasiano, ora pré-modernista. Enquadramentos à parte, é a obra augustiana que interessa.

Augusto dos Anjos é desses poetas únicos, cuja obra perturba qualquer leitor. Cético quanto à vida, às pessoas e ao amor, compôs versos melódicos, com temáticas mórbidas e científicas, em que a desesperança e a concretude da falência humana são expostas como uma ferida purulenta.

“Versos íntimos” o são sem qualquer relação com sombra de romantismo. A intimidade dos versos em questão não passa da constatação que só temos a nós mesmos diante das agruras da vida.

A célebre passagem “O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja”
revela uma potente intimidade do poeta consigo próprio, num lampejo de sobriedade e percepção do real que chega a chocar quem o lê.

Fato é que talvez a única companheira inseparável de qualquer ser humano do mundo é a solidão, embora estejamos rodeados de pessoas e acumulemos mais de 1.500 contatos nos aplicativos de redes sociais.

Já no início do século XX, temas como solidão, desesperança, ingratidão eram temas dos versos de Augusto dos Anjos, o que torna seus sonetos tão atuais quanto impactantes, ainda nessa sociedade pós-moderna do século XXI.

Versos íntimos, Psicologia de um vencido, O morcego, Solitário estão dentre os poemas mais célebres de Augusto dos Anjos, publicados no livro “Eu e outros poemas”, um clássico da literatura brasileira, diria mundial. A singularidade dos sonetos assim o credencia.

Convido à leitura de “Versos íntimos”. A interpretação fica por conta de você, leitor, que, certamente, como eu, conseguirá se identificar com as verdades cortantes que habitam os versos abaixo:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Tags: Poema
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