Entre lanternas e livros

Um susto a se pensar

Michelle Paulista,


Sentada no sofá de casa, contemplando o nada, aproxima-se um barulho histérico. Julguei tratar-se de uma briga, coisa incomum por aqui. Era voz de mulher, esbravejando impropérios. Mediante inusitada situação, saí pra ver o que se passava na última e mais calma rua do condomínio onde moro. Meu filho conversava com os colegas na frente de casa.

Demorei a entender que se tratava de uma mulher, acompanhada de dois filhos pequenos. Um no braço, pouco mais de 2 anos; outro, se muito tivesse, quatro anos. Este último era o alvo dos impropérios.

Batidas ocas na parede. Esse era o som que, mais tarde, compreendi ser a mãe batendo no pequeno que sequer tinha um quinquênio de vida.

A fúria se deu porque, segundo ela, fazia uma hora que procurava o filho pelo condomínio. Certamente, ele estava brincando, imagino.

Não faço aqui julgamentos sobre a educação que cada um deve dar. Eu mesma já dei, em algum momento, umas palmadas no meu filho. Mas não posso negar que fiquei chocada quando vi aquele pedacinho de gente absorvendo bordoadas que davam pra ser ouvidas de dentro de casa. Fiquei pensando como seria o desfecho daquilo tudo, quando chegassem a casa.

Era uma mulher jovem, com um filho no braço e outro puxando pela mão. Estressada? Descompensada? Saturada pela maternidade que nem sempre é glamorosa como comercial de margarina?

As bordoadas são mesmo educativas?

Não tenho respostas. Fiquei com um terrível gosto de sabão na boca, misto de impotência e estarrecimento. Essa é pra gente pensar. Sem mais.


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