Entre lanternas e livros

Um escudo, como o do Capitão América

Michelle Paulista,


Gosto das metáforas com heróis: são leves, didáticas e fantásticas.  Nessas aventuras, tudo é mágico e possível e trazê-las para o mundo da vida ajuda a encarar o alucinante dia a dia, como versou Belchior.

Não sei se por consequência da idade (indícios de maturidade?), leituras sobre inteligência emocional ou saúde um tanto debilitada, decidi adotar duas ferramentas no cotidiano – um filtro e um escudo. O filtro é demanda da vida moderna: menos tv, menos grupos de whatsapp, menos barulho, menos aglomeração, menos roupa no armário, menos, menos, menos. Mas a grande “sacada” foi a adoção do escudo. Sim, um escudo é necessário. Nosso corpo é alvo fácil de toda série de ataques. Todos os dias somos bombardeados por agressões – vezes por olhares, comentários ou palavras grosseiras. Já reparou como isso nos faz mal em grandes proporções? Pois resolvi adotar um escudo na tentativa de barrar ao menos parte da energia negativa e perniciosa que emana de certos seres humanos.

Uma resolução. Decidi que tentaria criar um invólucro invisível ao meu redor, tão imaginário quanto consistente, na tentativa de me preservar de algumas grosserias e injustiças que nos acometem de vez em quando.

Foi aí que o “Inmetro” divino resolveu testar o padrão de qualidade do meu escudo e me submeteu a uns testes de qualidade bem rigorosos. Num mesmo mês, vários bombardeios poderosos.

Certo dia, uma antiga conhecida disse numa infantilidade mesclada de estupidez e bizarrice que não “queria ser minha amiga”. Faltaram só os dedos indicadores em sinal de “tô de mal” pra coisa ficar um pouco mais ridícula, posto que foi patética. Dizer desaforos, xingamentos e outras coisas afins me daria um terrível prazer, mas optei por sorrir e dar as costas.

De outra vez, fiz um comentário de solidariedade num desses grupos de whatsapp, na mais cândida e terna intenção e recebi uma interpretação exatamente ao contrário. Descontada a absoluta falta de capacidade interpretativa, ainda houve a grosseria pública. O que fazer? Emendar uma discussão virtual, com expectadores e tudo? Respirei fundo e tentei, sinteticamente, explicar a minha real boa intenção, acompanhada de um pedido de desculpas (pelo que não fiz).

Poderia citar ainda as conclusões e acusações precipitadas no trabalho, os mal-entendidos, os xingamentos e agressões verbais no trânsito, a fúria das pessoas quando passamos uma fila apenas para tirar uma dúvida etc. Escudo. Vamos de escudo.

Todas as vezes que somos afrontados, sentimos vontade de revidar, de dar o troco, de ter a última palavra. Mas será que assim ganhamos sempre? Ganhar uma discussão ou gritar mais alto é lucro? Já imaginou quanta energia dispensada? Sim, somos energia. Somos matéria. Cada vez que revidamos um ataque, que batemos boca, empreendemos força, energia, vida e saúde. Não digo que sejamos corpos dóceis, letárgicos, mas é preciso avaliar aquilo em que VALE A PENA aplicarmos energia. Temos realmente necessidade de ganhar todas as discussões? Que lucro há em bater boca com gente estúpida, afetada, grossa e destemperada? Não é melhor guardar força/energia/vida/saúde para os bons combates – aqueles nos quais se usam argumentos em vez de palavras encharcadas de ódio e imbecilidade?

Sim, é preciso dizer não. Sim, é preciso reagir. Mas é mais necessário AINDA avaliar em que batalhas estamos gastando nossos cartuchos. Como dizem os antigos: gastar cartucho em fogo de palha é tática errada. Sejamos combativos, firmes, destemidos nas causas que realmente interessam e que nos tragam algum ganho. Discutir com tolos e descompensados nos torna igualmente tolos e descompensados, pensemos nisso!

É preciso respirar fundo, avaliar a causa, preparar as armas e usá-las em batalhas mais nobres. Nos embates imbecis, lancemos mão do escudo.

Meu desejo é que Deus tenha encerrado a bateria de testes e não me ponha mais essas provas indigestas: o escudo é frágil, pode fissurar. 


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