Entre lanternas e livros

Sugestão de leitura: Indez, de Bartolomeu Campos Queirós

Michelle Paulista,


"O mundo não estava dividido em dois, um para pessoas grandes, outro para os miúdos. As emoções eram de todos."(Bartolomeu Campos Queirós)


  O início da narrativa utiliza-se das estações do ano como se fossem personagens de um reino, semelhante àquele das Águas Claras, de Monteiro Lobato. A figura de um reino remete o leitor à fantasia, cumprindo a tarefa de suscitar encantamentos. Provavelmente, essa fosse a intenção do narrador: olhar, do presente, para o passado como um reino distante, em que as divisões geográficas dessem lugar às marcações temporais, às estações climáticas do ano.

Em Indez, temos um narrador onisciente, que decide contar a história delegando a voz ao protagonista Antônio. Artifício literário ou questão de estilo?

Se em Indez essa fragmentação é ainda mais latente, poderia ser sintoma do “eu fragmentado” de BCQ, ainda tentando trilhar um caminho ou atalho para a escrita de suas memórias.

Indez não se divide em capítulos, mas em marcações de tempo, em etapas de um dia, ciclo de vinte e quatro horas. Em vez de usar termos como “alvorecer ou amanhecer”, “entardecer, anoitecer” e “escurecer ou cair a madrugada”, BCQ, por intermédio deste narrador meio distanciado e, ao mesmo tempo, aproximado, escolhe denominar cada fase de sua infância como partes de um dia, numa evidente influência da forte religiosidade do meio sociocultural em que nasceu e no qual fora criado e faz questão de preservar ainda na idade adulta. Numa disposição que sugere extremos, o primeiro momento do dia alude ao seu nascimento e reinado como caçula até que chegasse a irmã mais nova, tendo essa parte a tarefa de imprimir frescor e novidade aos primeiros tempos de vida do menino, ao passo em que o final do dia  representaria o escurecer ou anoitecer, etapa que batiza o momento de separação entre Antônio e sua família (pais, irmãos), por ocasião de sua partida para a cidade de Pitangui, onde passa a viver por um período em casa de avós paternos, cuja despedida fora marcada de rupturas e sofrimentos silenciados.

Acontecimentos comuns como nascimento, batismo, doenças típicas infantis, primeiros aniversários, brincadeiras infantis e outros semelhantes perdem o aspecto de trivialidade e ganham contornos diferenciados graças à habilidade de BCQ no trato com as palavras. Por conseguinte, a sua capacidade de engendrar arranjos semânticos de surpreendente força metafórica, mobilizam recursos de estilo que valorizam a mistura de sons, cores, cheiros e leituras. A culminância desse trajeto é a confecção de um pano estampado de cores vivas e sóbrias, alegrias e angústias na vida de um menino a quem estaria reservado o maior dos dissabores: a separação imperativa da mãe.

O desfecho da narrativa é estranhamente nostálgico e provocador de curiosidade. Diríamos que a nostalgia residiria no fato de o autor-narrador desvelar o “segredo” guardado até então: serem ele e Antônio a mesma pessoa, quer dizer, a mesma pessoa em épocas distintas, e agora já também com personalidade e identidade diversas. A provocação aconteceria pela inesperada leveza que as últimas linhas sugerem; a história se encarrega de arrematar a construção de um caráter poético em Antônio, pois em cada coisa, em cada ser, há recados de Antônio para o autor-narrador. Certamente, o leitor será acometido de grande vontade de experimentar e degustar os outros “ovos” que se seguem após Indez ter sido posto. E uma vez consumindo-os, têm-se o privilégio do sabor de um texto literário de gosto refinado.


A+ A-