Entre lanternas e livros

Sobre mudança de rota e leveza

Michelle Paulista,


Rota comum, trivial, a de todos os dias. São três, mas todas comuns, repetidas, deliciosamente rotineiras; que rotina, em certa medida, também é parte do viver.

Ouvia a rádio preferida, quase amiga que , carinhosamente, reproduz as canções que me afagam a alma. Pensava demandas, agenda do dia, requerimentos do filho – a chuteira nova, a bolsa escolar que rasgou, vencida pelo peso dos livros e dos dias, a festa da escola, a ida ao shopping – o carro pra lavar, a calota que sucumbiu ao asfalto pra repor.

De súbito, ela entra no meu campo de visão. Rosto rosa, cabelos de um loiro gasto e mal cuidado. Eram tantas e fartas as lágrimas, que precisou tirar os óculos pra contê-las. Chorava copiosamente, alto. Eu  conseguia ver o som do choro, pelo vidro fechado.

Segui minha rota. A agenda. Os pedidos do filho. O horário do trabalho. O carro e suas calotas.

Tentei dançar a música massageadora do rádio. Sem êxito. As lágrimas da outra me pesavam, mesmo dissipadas pelo vento e sol do instante.

Tive que voltar. Ela deve ter tomado um susto; carro parando e abordando-a, do nada.

Disse estar bem. Não precisava de ajuda. Ficou grata.

Eu atrasei um pouco, mudei a rota – do trajeto e do dia. Mas a consciência... essa ficou ao ponto de flutuar com o peso da situação experimentada.


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