Entre lanternas e livros

Sobre a melhor companhia, a de si mesmo

Michelle Paulista,



Embora haja uma demonização quase unânime das redes sociais, é certo que existem páginas de conteúdo deveras interessante. Isso à parte, é sempre importante reafirmar o aspecto nocivo que a pseudofelicidade exibida na web causa, gerando desconforto em mentes e corações desacautelados. Tais exibições de fartos sorrisos alvejam autoestimas já cambaleantes e delirantes com a experiência alucinante advinda da realidade, como cantou Belchior. Inúmeros estudos apontam que esses desencontros e ruídos têm sido gatilho para estados depressivos e outras patologias do mundo pós-moderno, cada vez mais liquefeito.

Entretanto, escolho falar por um viés positivo. Refiro-me aos conteúdos de alguns perfis, especificamente da rede Instagram. Vejo páginas sobre feminismo, empoderamento feminino; outras sobre ansiedade, depressão, fibromialgia e outras temáticas pouco aprazíveis.

Passando longe da autoajuda, são posts de encorajamento, reconhecimento de fraquezas, imperfeições e outras inadaptações a padrões pré-estabelecidos. Quem os lê, consegue sentir conforto na empatia que se sobressai num mero flyer virtual.

Numa dessas postagens, num dia cinza, li sobre a importância de apreciar nossa própria companhia. Dei-me conta de que precisamos prementemente romper com a dependência da companhia alheia. Estar junto de outro é deveras bom; estar junto de si é indescritível. Foi assim que, movida pelo desejo de assistir a um filme infantil – certa nostalgia do tempo infante do meu filho – combinei com uma amiga uma ida ao cinema. Ante a declinação dela, decidi ir sozinha, acompanhada de mim.

Foi fácil. Estacionamento, guichê, ingresso, pipoca, água.  Poltrona, corpo espichado, sala vazia, lugares a escolher. Sem bagagens, sem horários, sem roteiro, a não ser o do filme.

Não sei se já sabiam, mas é perfeitamente possível assistir a um filme desacompanhada de outrem; a imagem na tela, suas cores e emoções prescindem de outras companhias: é você e você! Afirmo que não doeu. Foi prazeroso, libertador. Fui minha melhor companhia. Ao final, saí normalmente, peguei a estrada, sintonizei o rádio na minha estação preferida e curti o momento como um deleite de um banho tépido, assim como Luísa, ao receber o bilhete do primo Basílio.

Dizem que ir sozinha ao cinema é um dos primeiros passos da emancipação das amarras patriarcais. Se é assim, quero me desprender de vez, refestelando-me no mar, um dos meus amores de vida. A dificuldade é tão somente logística: não há quem “pastoreie” meus pertences.

Sozinha entrarei no mar, salgarei o corpo e adoçarei o instante. A logística, logo resolverei.


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