Entre lanternas e livros

Serenata do Pescador, Praieira ou a canção do povo potiguar

Michelle Paulista,

Homem de muitas cidades, Othoniel Menezes é o autor de  “Serenata do Pescador”, poema que se popularizou ao ser musicado.

Nascido em Natal, criado no sertão, Othoniel Menezes também viveu um tempo em Macau, tendo convivido, inclusive, com o mestre Edinor Avelino, pai de Gilberto Avelino.

O decreto-lei nº 12, de 22 de novembro de 1971, considerou “Praieira” (como ficou mais conhecido o poema), o Hino da cidade ou Canção tradicional da cidade.

Sem dúvida, a canção, juntamente com “Linda baby” e “Avenida 10”, formam a tríade representativa das coisas de Natal, da essência do potiguar, traduzida em notas musicais.

Com música de Eduardo Medeiros, “Serenata do pescador” ou “Praieira” ganhou a célebre interpretação do cantor potiguar Fernando Tovar – versão que embalou muitos amores e verões nas varandas do litoral potiguar.

Considero lamentável que muitos estudantes natalenses jamais ouviram a canção ou leram o poema, desprovidos de acesso à cultura do seu lugar, insipientes da produção literária “clássica” do estado ou mesmo contemporânea.

Aos que nos leem, seguem o poema e o link da versão musicada (interpretação de Fernando Tovar).

https://www.youtube.com/watch?v=VA7Gbt8UvSk

SERENATA DO PESCADOR (OTHONIEL MENEZES)

Praieira dos meus amores,
Encanto do meu olhar!
Quero contar-te os rigores
Sofridos a pensar
Em ti sobre o alto mar...
Ai! Não sabes que saudade
Padece o nauta ao partir,
Sentindo na imensidade,
O seu batel fugir,
Incerto do porvir!

Os perigos da tormenta
Não se comparam querida!
Às dores que experimenta
A alma na dor perdida,
Nas ânsias da partida
Adeus à luz que desmaia,
Nos coqueirais ao sol-pôr...
E, bem pertinho da praia,
O albergue, o ninho, o amor
Do humilde pescador!

Quem vê, ao longe, passando
Uma vela, panda, ao vento,
Não sabe quanto lamento
Vai nela soluçando,
A pátria procurando!
Praieira, meu pensamento,
Linda flor, vem me escutar
A história do sofrimento
De um nauta a recordar
Amores, sobre o mar!

Praieira, linda entre as flores
Deste jardim potiguar!
Não há mais fundos horrores,
Iguais a este do mar,
Passados a lembrar!
A mais cruel noite escura,
Nortadas e cerração
Não trazem tanta amargura
Como a recordação,
Que aperte o coração!

Se, às vezes, seguindo a frota,
Pairava uma gaivota,
Logo eu pensava bem triste:
O amor que lá deixei,
Quem sabe se inda existe?!
Ela, então, gritava triste:
Não chores! Não sei! Não sei...
E eu, sempre e sempre mais triste,
Rezava a murmurar:
“Meu Deus, quero voltar!”

Praieira do meu pecado,
Morena flor, não te escondas,
Quero ao sussurro das ondas
Do Potengi amado,
Dormir sempre ao teu lado...
Depois de haver dominado
O mar profundo e bravio,
À margem verde do rio
Serei teu pescador,
Ó pérola do amor


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