Entre lanternas e livros

Saudade de ter medo de barata

Michelle Paulista,


Os medos contemporâneos são muitos e nos apavoram. Desde sempre, tenho medo de barata. Algumas pessoas – aquelas que julgam saber de nós mais que nós mesmos – dizem não ser medo, mas nojo. A ojeriza existe, mas não é preponderante nesse caso.

Sim, é medo. A simples presença de uma barata parece-me algo intimidador, desafiante, até. Lembro-me bem de um episódio na adolescência, em que fui preparar um lanche e uma barata saltou em mim. Resultado: tive uma crise de choro que até hoje não sei se foi pelo susto, pela sensação de pavor ou tudo isso misturado.

Ocorre que esses dias estava eu absorta em pensamentos vários: as contas, as injustiças e contradições da vida, as reivindicações sem propósito, o dever de ser mulher bonita, elegante, amante ardorosa, esposa perfeita, mãe exemplar, a profissional irretocável, pesquisadora elogiável e magra! São muitas eus que me vejo obrigada a ser.

O orçamento doméstico. As provas escolares do filho. A excelência no trabalho. O sorriso no rosto. O “look” adequado. O vazamento da pia. A limpeza do quintal. O garrafão de água que secou. O almoço de amanhã. O boleto. O, o, a. Infinda é a lista de “O” e “A”.

Então ela surge: preta, enorme, atrevida. Não deu tempo de ter medo. Saquei o aerossol de veneno e com não mais que três borrifadas, minha oponente convulsionava aniquilada.

Caro leitor, cara leitora, a barata é metafórica, está claro. Ela pode ser qualquer coisa que, inexplicavelmente, nos apavora, nos fazer sentir vontade de gritar ou sair desesperadamente em busca de alguém que resolva nosso problema, mate a barata, seja ela o que for.

Nossos medos merecem respeito. Nem sempre podem ser explicados. Mas há de chegar um dia que eles se tornarão tão ínfimos e bobos ante as inúmeras demandas que a vida contemporânea nos impõe. Não temos tido tempo de curtir nossos medos inofensivos, como o de barata. Eles, os medos, ganharam vulto e hoje são de outros tipos: violência urbana, relações pessoais contaminadas pela falsidade e superficialidade, os inúmeros papéis a que somos instadas a representar, especialmente nós mulheres.

Seria ótimo que os nossos medos modernos fossem resolvidos ao sacarmos um frasco de veneno comprado em supermercado; não seria prático e libertador? Mas a vida tem-nos imposto outros medos que nem mesmo chineladas e mais chineladas amenizam. Nosso “spray” moderno são os ansiolíticos; nossas chineladas são passos confusos em direção ao não-sei-o-quê.

Saudade imensa do tempo em que meu medo maior e mais apavorante era o de encontrar uma barata.


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