Entre lanternas e livros

Perguntas e acasos

Michelle Paulista,



Não sei se o destino de cada um está traçado. Não sei se cada um faz sua jornada. Às vezes penso que nossa sorte (expressão aqui tomada como desdobramento, curso de vida) é a interseção de inúmeras e simultâneas ações humanas. Talvez o ato de alguém comprar pão e leite nesse momento na padaria do bairro, de alguma forma, cause alguma implicação na minha vida. Não seria o exercício de viver uma espécie de jogo de dominó, em que cada peça escolhida e encaixada mexe no jogo do outro?

Enquanto rabisco agora sob a luz do abajur que faz as vezes de abraço, penso: o que faz agora uma mulher de minha idade, também professora, mãe de um filho, que adora comprar esponjas de lavar louça, escovas de dente e papel higiênico e que mora na Nova Zelândia?

Quem, além de mim, almeja uma companhia tão incrivelmente interessante a ponto de me fazer desejar fazer a sobrancelha e colocar a manicure em dia?

Não sei se me confortariam uns versos dos bons. Se me fazem pensar na finitude da vida e na imensidão do universo, rejeito-os. Tem-me pesado o exercício diuturno de observar as cenas da vida e suas pequenas grandes questões. As respostas fogem de mim e eu me apavoro delas, não comungamos caminhos.

Quero o agora, o efêmero, o dulçor dos instantes descompromissados, fragmentos de vida coloridos, que durem o suficiente para provocar , oportunamente, riso no canto da boca, enquanto dirão, na sala de espera do médico “ela é louca, ri sozinha, do nada.”


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