Entre lanternas e livros

Pequeno conto (des)florido ao pé da porta

Michelle Paulista,


Eram duas. Embora parecidas, cada uma conduzia a um trajeto diferente. Opostos eram. Não se dava o caso de apenas optar por uma ou outra; antes, precisava posicionar-se ao menos de pé diante de uma delas. Chamou de portas, por falta de coisa melhor. Era assim, de olhos fechados, que metaforizava as opções que a vida lhe impunha naquele pedaço de viver.

Por trás, alguém lhe sufocava o pescoço, com unhas encravadas no couro que revestia sua cervical. A pele não é tão elástica nesse lugar, o que tornava o instante tão dolorido como inusitado.

De dia, tudo era amarelo. Cor alegre, iluminada, cheirinho de flores e pasta de dente. O lápis de olho, em parceria com a máscara de cílios, ajudava a dar um ar de causar inveja nos inocentes.

À noite e em dias não úteis, a evidência se estabelecia de forma implacável. As muitas flores desapareciam, como se uma criança as tivesse apagado de uma pintura no papel. Possuía várias delas, mas nenhuma era, de fato, sua.

Muitos queriam seu jardim, daria tudo para tê-los ou simplesmente regá-lo. Dessa forma, era capaz que trocasse os vastos campos floridos por um único e real botão de girassol. Um girassol que secasse e sujasse o jardim, mas um girassol.

Sublimadas as roseiras, sobravam as portas. Não tinha clareza se eram tubulações ou estrada aplainada. Não sabia sequer se elas poderiam ser abertas. Ou fechadas.

Do outro lado de cada uma dessas coisas-portas-entradas, havia um irrestível motor de sucção, tão apavorante quanto sedutor. Todos os clichês residem nas encruzilhadas da vida. Não é possível estilizar o aperto que acomete alguém que vislumbra um jardim e não pode desfrutar do caminho florido.

Não abriu nenhuma delas, as duas. Talvez haja mais duas dentro delas e mais duas, mais duas. Talvez nem haja tais portas. Nem flores. Nem girassóis. Nem cervical, nem couro esganado. Talvez o nada seja a maior das obviedades.


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