Entre lanternas e livros

Páreo de mães

Michelle Paulista,


Torna-se lugar comum falar que o mundo está cada vez mais competitivo. Não me refiro às competições salutares da vida – essas são até necessárias e nos impulsionam a melhorar a cada dia. Quem nunca disputou com o irmão ou o colega de classe a melhor nota, o trabalho mais legal da feira de Ciências? O chute mais forte ou o mais belo gol na pelada com os amigos?

Contudo, nada se me apresenta mais curioso e sem fundamento que o páreo de mães. Isso mesmo, aquela disputa entre mulheres que estreiam na maternidade e parece mais um certame, cheio de categorias.

Ainda no período pós-parto, começa a briga: parto “normal” ou cesáreo? Que horror! Mãe que faz cesariana é fresca, não quer sentir dor, não sabe o que é ser mãe de verdade, o bebê vai ter problemas respiratórios... a lista de contravenções é imensa. Depois, a amamentação. Ninguém questiona que leite materno é excelente para os bebês, mas há mulheres que não conseguem, porque não produzem o suficiente, porque os seios ferem até sangrar, porque estão sozinhas, estressadas, desassistidas, porque, porque... Vivi um pouco disso: muito pouco amamentei o meu filho (nascido prematuro), doía muito, não tive orientação, tempos difíceis. Inúmeras vezes, fiquei angustiada ao ver aquelas fotos de mulheres amamentando felizes da vida e satisfeitas, enquanto as sessões pra mim mais pareciam tortura.  Fiquei fora do comercial de margarina; não recebi a medalha de mãe nota 10.

Depois, vem a fase “meu filho sentou com 4 meses, andou com 8 e falou com 1ano”. Fico me perguntando se essas coisas farão dele um gerente de multinacional ou o tornará um ser humano mais... humano! Não deveriam ser o centro das preocupações a problemática da pedofilia (tão horrenda quanto real), a formação do caráter, a construção de um ambiente familiar adequado e sadio?

Li, dia desses, um texto interessantíssimo nas redes sociais: falava do fuso horário de cada indivíduo. Quer dizer, cada um tem um tempo e não ter casa própria aos 30, ter casado e construído família aos 35 e ser concursado aos 40 não significa que estamos atrasados ou à frente das demais pessoas. Estamos simplesmente no nosso tempo! Quem pode legislar sobre o tempo, essa abstração que decorre das mais variadas formas em cada vida humana?

Somando o parco período em que dei leite materno para o meu bebê ao fato de ter tido um parto cesariano (meu filho estava enlaçado no cordão umbilical), devo estar catalogada como uma mãe de quinta categoria, se seguidos os critérios das supermães. Por algum tempo, me senti assim, mas logo percebi que a maternidade é muito mais que um tipo de parto e a quantidade de tempo amamentando.

Não me considero uma mãe infalível, tampouco uma péssima mãe: sou a melhor mãe que posso ser, dentro dos meus critérios e valores. Tenho orgulho de ter abdicado de muitas coisas na vida pessoal e profissional para privilegiar os cuidados com meu pequeno; nunca o joguei em casa de vovó para que eu tivesse uma vida igual a antes da maternidade, terceirizando uma responsabilidade que era minha. Sempre fiz questão de cuidar dele, não hesitei em declinar de empregos pra ficar com ele, de investir tempo em devocionais noturnas – prática que cultivo até hoje – ensinando-lhe do amor de Cristo e de valores humanitários que considero essenciais. Jamais me eximi das minhas responsabilidades de mãe e tenho até certo orgulho dos meus erros, chiliques e excessos.

Agora grandinho, assisto a outra disputa: o filho-troféu. Há uma moda que considero bastante perigosa: os filhos “adiantados na escola”. Tenho visto uma espécie de gosma escorrendo no canto da boca de alguns pais que se envaidecem de terem filhos em séries desniveladas de sua idade. Pessoas assim desconhecem que existe uma série adequada para cada idade, inclusive do ponto de vista legal. “Adiantar” uma criança de série só traz um benefício: os pais podem se gabar disso nas reuniões entre amigos. Por vezes, a criança pode estar preparada do ponto de vista cognitivo, mas provavelmente não o estará do ponto de vista da maturidade. Resultados: adolescentes inseguros, terminando o ensino médio aos 16 anos sem saber que rumo tomar na vida. Claro que não há problema em terminar a 3ª série do ensino médio com essa idade, mas também não há nenhuma vantagem nisso. De que serve a educação “carbureto”? Quem nunca ouviu um depoimento de alguém que entrou na faculdade muito jovem e depois se deu conta de que não era aquilo que queria como profissão? Sem falar nos casos em que um estudante conclui o ensino médio precocemente e passa mais alguns anos fazendo cursinho, o que dá na mesmíssima coisa.

Não intento aqui normatizar a maternidade ou a paternidade de ninguém; antes, pelo contrário. Apenas sugiro que não há um jeito perfeito de parir, de amamentar, de educar ou de ofertar escolaridade. Cada um tem um jeito, do seu jeito, da melhor forma que puder fazer. Seja a melhor mãe que você puder ser; você é seu referencial. Demorei a entender que um parto vaginal, seios fartos de leite e apenas um filho (ainda tem isso, a moda de “mãe de dois, mãe de três, mãe de dez”) não me faz menos mãe que qualquer outra mulher deste mundo. Sou a melhor mãe que consigo ser, dentro das minhas módicas possibilidades e da vastidão das minhas imperfeiçoes. E quer saber? Isso me torna a melhor mãe que o meu filho poderia ter.

A maternidade, enfim, é um poema. Uns a compõem em rimas parnasianas; outros em versos modernistas. Eu, por exemplo, fico com a turma dos Andrade e a Semana de 22.


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