Entre lanternas e livros

Para todas as idades, Um garoto chamado RoRbeto, de Gabriel o Pensador

Michelle Paulista,


Um dos mais interessantes livros ditos de literatura infanto-juvenil que tive a oportunidade de ler foi “Um garoto chamado RoRbeto”. De autoria do rapper e compositor Gabriel o Pensador, é uma surpreendente viagem à singela e igualmente significativa vida de um garoto de seis dedos.

Já de início, o texto é simbolicamente representado pelas tentativas de encontrar um caminho para o exercício da escrita:

Vez uma era...

Quer dizer:

Uma era vez...

Ou melhor:

  Vez era uma...

  Desculpem:

   Era uma vez...

  (Agora sim!)

O próprio nome do protagonista é singular, pois, ao deslocar o R para a sílaba primeira, oferece certo desconforto à pronúncia.

O texto de “Um garoto chamado RoRbeto” é uma narrativa em versos melódicos, ritmados, o que entrega ao leitor uma leitura “cantada”. A certa altura, observa-se um quê de pragmatismo, metonímia do mundo da vida, quando, após o nascimento, os pais do garoto dizem: obrigada, tchau, doutor!

Elemento deveras significativo na história é a figura do rio – presente no início, meio e fim, banhando de significados a vida do garoto. Aqui o rio assume a perspectiva de Heráclito, agente transformador e meio de vida; suas margens, paradoxalmente, unem e dividem a vila e a vida de RoRbeto:

O rio ia sempre passando,

Sem nunca parar um segundo,

E o tempo, imitando o rio,

Passou também pra todo mundo.

E assim foi crescendo RoRbeto,

Ao lado dos seus bons amigos:

O tempo, o cachorro, as pessoas,

As árvores e o rio antigo.

Assim, a certa altura, há a descoberta dos seis dedos do menino do rio antigo, suas vivências na escola e o processo de aceitação de que era diferente, fora dos padrões previamente estabelecidos e dos enquadramentos sociais a que somos submetidos. É possível, ainda, degustar de passagens descritivas de deliciosas artimanhas infantis, carregadas de surpresas e solidariedade.

Não há dúvida de que se trata de uma das mais encantadoras obras para jovens de todas as idades – crianças ou adultos, que, como quase tudo no Brasil, termina em futebol!


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