Entre lanternas e livros

Outra vez, Diógenes da Cunha Lima

Michelle Paulista,


Todas as vezes que subo determinado viaduto, lembro-me dele. Há viadutos e viadutos. Este é encaracolado, dá até certa diversão. A gente vai experimentando uma espécie de decolagem, subindo afoitamente a pista e, do alto, consegue contemplar a emenda dos dois municípios: de um lado, a cidade Trampolim, que ainda não se deu conta de sua grandeza e se comporta como adolescente, espécie de anexo da capital. Do outro, a capital do estado, majestosa e confusa em seus próprios limites.

Já em cima, momento curto, vejo um quadro celeste que me remete ao firmamento do planalto central – azul claro, adornado de muitas nuvens. Se acontece esse momento nas primeiras horas úteis do dia, é possível ver os primeiros raios de sol se estabelecendo, escolhendo os lugares que vão abrilhantar.

Todas as vezes, me lembro dele. E fiquei pensando, certa feita, por quê?

Acho que ele tem ares de manhã nascendo. Nos seus mais de 80 anos, ousa ostentar uma pele firme, viçosa. Ela assim o é para combinar com a polidez dos seus gestos e a grandeza de sua poesia. Quando estou perto dele, sinto-me subindo numa montanha, quase uma decolagem de avião, entre as nuvens, abraçada por incipientes e matinais fios de sol.

De muitas formas, fui agraciada com sua gentileza e, ao seu lado, vivi grandes alumbramentos. Alguns públicos, como na ocasião da abertura do FLIN em 2017 e do FELICCIDADES (Festival literário e cultural das cidades) em 2018. Outros, reservados, em seu escritório, quando me levou às lágrimas com sua poesia e seus depoimentos sobre Deus, vida e amor.

Às vezes, quando sinto saudade, ligo pra ele. De outras vezes, ele me surpreende com um telefonema, dizendo que eu lhe vá visitar. Diz que tem novidades, que me quer bem. E eu me sinto novamente aquecida pelos mesmos raios solares da decolagem na subida do viaduto.

Todas as vezes que subo determinado viaduto, lembro-me de você, Diógenes da Cunha Lima, poeta do meu coração, dono dos mais significativos afetos que carrego. Você é experiência incrível de contemplação da paisagem das cidades sobre uma montanha de concreto entre duas urbes. Vida longa, meu poeta!


A+ A-