Entre lanternas e livros

O poema em sala de aula II

Michelle Paulista,

CONTINUAÇÃO DO TEXTO PUBLICADO NESTA COLUNA EM 05/02/2018, ACERCA DE UMA PROPOSTA DE TRABALHO COM OS POEMAS "ELOGIO À PREGUIÇA" DE JUVENAL ANTUNES E "O PREGUIÇOSO", DE ALMYR LIRA.


Os dois textos possuem evidente aproximação. Não apenas pela temática, mas pela irreverência ao tratar de tão inusitado assunto. Não que a preguiça seja incomum; incomum é tê-la como tema de poemas. Em geral, os substantivos mais comuns em matéria de versos são conceitos mais “nobres”, como amor, alegria, coragem, nobreza etc.

  Juvenal Antunes nasceu em Ceará-Mirim, no século XIX, tendo como irmã a escritora memorialista Madalena Antunes Pereira. Entretanto, foi no Acre que viveu a maior parte de sua vida adulta, ocupando o cargo de promotor público. Juvenal é dono de uma biografia curiosa, pois passava seus dias vestido de chambre, a declamar poemas em homenagem a sua amada Laura, com quem teria vivido um romance clandestino. Existe uma estátua em homenagem ao poeta na calçada do antigo hotel onde residia e vivia de farras pagas “no fiado”.

  Almyr Lira, por sua vez, é nascido em Campina Grande e advogado por formação. Mantém um blog chamado “Cordel, poesia e repente” onde é possível se ter acesso a sua vasta produção de cordéis. Há poucas informações biográficas no blog.

  Nessa atividade, não iniciaremos tratando das noções de rima ou métrica, tampouco se este ou aquele poeta pertence à determinada ‘escola literária’. O texto é o ponto de partida e de chegada. Obviamente, conclusões serão encontradas e conteúdos inerentes às duas produções aflorarão durante a atividade. Mas esse não é o objetivo maior.

A atividade de leitura deve se colocar como uma provocação, para que o leitor, diante do texto, ou seja, dos conflitos, das personagens, de suas experiências, de seu universo, de tudo que lhe revela sua humanidade, possa se colocar frente a si mesmo, na medida em que se depara com a vida do outro, ou se sente tocado pela subjetividade alheia (...). (CRUVINEL, 2008, p.126)

  Podemos dividir a turma em grupos; a depender do número de alunos, uma parte se encarregará do poema de Antunes e a outra parte, do cordel de Lira. Ressaltamos ser fundamental o papel mediador do professor, não para “interpretar” o poema, mas como instigador da leitura de inferências dos alunos.

Chamamos a atenção para a responsabilidade do professor mediador. Antes de tudo, é preciso que esse professor demonstre entusiasmo pela leitura, que a realize com certa efusão e, que, finalmente, seja um professor leitor. 

   

Eis os poemas:

TEXTO 1: Elogio à Preguiça, Juvenal Antunes



Bendita sejas tu, Preguiça amada, 
Que não consentes que eu me ocupe em nada!

Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras, 
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.

Não permuto por toda a humana ciência 
Esta minha honestíssima indolência.

Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã. 

Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício. 

Ó sábios , daí à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento! 

Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em na paz, preparar a luta, a guerra! 

Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões! 

Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas. 

Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas... 

Cresce o teu filho? É belo? É forte? É loiro?
- Mas uma rês votada ao matadouro! ... 

Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz, 

Que arda, depressa , a colossal fogueira
E morra assada, a humanidade inteira! 

Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente? 

Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte? 

Queres riquezas, glórias e poder? ...
Para que, se amanhã tens de morrer? 

Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro, 

Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens? 

Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas! 

Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras! 

Ó Laura, tu te queixas que eu, farsista,
Ontem faltei, à hora da entrevista, 

E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor - por outro amor... 

Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal. 

Que me não faças mais essa injustiça! ...
Se ontem não fui te ver - foi por preguiça. 

Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir... sonhar ...

TEXTO 2 – O preguiçoso, de Almy Lira

O que ora sinto faz lembrar

D’um sermão dito na missa:

- Atire a primeira pedra

Quem, incansável na liça.

Nunca parou pra dizer:

‘Ai, Jesus, que preguiça!’

Mas não é da preguicinha

Do cansaço da labuta

Da fadiga do espinhaço

Querendo u’a cama de juta

Ou depois se empanzinar

Comendo um balaio de fruta

Não! Essa todo mundo tem

É fisiológica, normal

O pecado é o da preguiça

Que o cabra morre no pau

Mas não move um dedo só

Nem pra ir pro hospital

É um Macunaíma da vida

Não sabe o valor do que come

Pois quando ouve: ‘ao trabalho!’

É o primeiro que some

E se o chamam pra mesa

Da cama diz: ‘perdi a fome’

Se o preguiçoso está

Sentindo frio ou calor

Não vai pegar um agasalho

Nem liga o ventilador

E se o mandam ir à farmácia

Logo diz: ‘passou a dor’

Eita cabra preguiçoso

Esse geme de preguiça

Pra se levantar da rede

Nem um par de seios o atiça

E pode ir ver se o danado

Não cheira igual a carniça...!

Brincadeiras à parte

Não concebo um tal seujeito

Sem vitaminas, proteínas

Um Macunaíma perfeito

Mas se existir, o mal está

Num DNA com defeito.

Dividida a turma em grupos, sugerimos que cada aluno, individualmente, faça a sua leitura preliminar, sucedida da leitura em voz alta do professor mediador. Consideramos fundamental a leitura em voz alta, pois o professor certamente usará a entonação adequada, com oscilações no volume da voz ou mesmo uma vez “com tom de riso”, se for o caso.

Em seguida, pode-se solicitar que identifiquem as semelhanças entre os dois textos e de que maneira os poetas abordam o tema. Quem é mais irônico? Quem faz uso de uma linguagem mais popular, regionalista? Concomitantemente, cada grupo se encarregará de fazer um levantamento das imagens mobilizadas no texto; a partir do 9º ano, já é possível identificar as figuras linguísticas utilizadas, as rimas, a sonoridade.

Nessa mesma empreitada, os alunos poderão localizar vocábulos desconhecidos e, a partir de inferências e análise do contexto, recuperar o sentido de cada palavra que não conhece. Apenas em último caso, o dicionário deverá ser consultado, visto que o sentido de uma palavra é construído no contexto em que está empregada e esse “treino” estimulará o aluno a reconhecer as  relações semânticas existentes no texto.

Realizada essa primeira aproximação, o professor pode, se achar oportuno, solicitar aos alunos que pesquisem sobre os autores, suas obras, o gênero cordel. Para estimular a curiosidade da turma, basta lembrar da presença de Juvenal Antunes na minissérie Amazônia, da Rede Globo, papel que teve como intérprete o ator Diogo Vilela. É de muita ajuda a exibição de trechos da minissérie em que Antunes apareça. A depender da realidade local e da particularidade da turma, pode-se pensar numa visita a um sebo ou, ainda, realizar uma oficina de cordéis.

Sobre o cordel de Lira, talvez não seja encontrado farto material sobre o autor, a não ser um blog no qual o poeta publica seus poemas. Outros cordelistas podem ser pesquisados, ou mesmo sugerida uma coleta de informações sobre o gênero: como surgiu, a relação com a cultura popular etc.

Logo, qualquer que seja o desdobramento da atividade proposta, ela precisa fazer sentido para o aluno, precisa propiciar a ele a oportunidade de ampliar sua competência leitora e sua capacidade de fazer inferências; precisa promover uma leitura do mundo que o rodeia:

As competências e habilidades propostas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (...) permitem inferir que o ensino de Língua Portuguesa, hoje, busca desenvolver no aluno seu potencial crítico, sua percepção das múltiplas possibilidades de expressão linguística, sua capacitação como leitor efetivo dos mais diversos textos representativos da nossa cultura. (PCN+, 2006, p.52)

Considerações

  O que propomos aqui não é algo inédito. Muitos professores de língua portuguesa têm-se esforçado para encontrar outros caminhos, outras estratégias metodológicas para uma aula de leitura “interessante”, uma aula de literatura que não se limite à simples memorização de nomes e épocas; de características textuais ou classificação estilística.


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