Entre lanternas e livros

O dia em que o texto teve que ser preenchido com clichês

Michelle Paulista,


Há verdades e mentiras nos clichês. Alguns se consagraram porque resultam das observações sobre a vida, partindo de pessoas comuns. Outros são equívocos. Um dos clichês que não fazem qualquer sentido é o que diz que os opostos se atraem.

É preciso só um pouquinho de atenção para perceber que os iguais é que se atraem. Pessoas agrupam-se conforme suas preferências. Veja uma sala de aula em que os alunos não se conheçam: logo, logo os grupinhos se formam, pequenas “panelinhas”, agremiações. E assim o é também entre adultos, vizinhos, confrades, salas de professores, funcionários de uma empresa... Pessoas se declaram melhores amigas nas redes sociais consoante preferências musicais, de programações de lazer, lugares a frequentar etc.

E pensando nos clichês e observando a cena cotidiana, concluo que é preciso admitir que a idade chegou, que a pele não tem mais viço e que estamos passando, muito, mas muito longe, da preferência e do interesse de quem ainda está na casa de idade anterior. Vale, de igual modo, para amizades.  Não, não é uma enfadonha queixa amorosa. É uma constatação ante os arranjos sociais e de amizade que contemplo nessa aventura ora entediante, enfadonha e cansativa de viver.

Por mais que nós, mulheres, nos achemos seguras, maduras, cheias de nós, independentes, o fato é que corremos o risco de contemplarmos os casais que, orgulhosamente, ostentam seus aniversários de relacionamento, sempre acompanhados de depoimentos cheios de orgulho e cumplicidade. Alguns farsescos, é certo. Mas lá estão. Constam. Acreditam-se neles, até.

Por mais que o feminismo tenha contribuído em grande medida pra emancipação da mulher, ainda persiste aquele modelo de quem chama pra sair/jantar é o homem. Mulheres que têm iniciativa são tomadas de dois grupos: se for jovem, é atirada, oferecida. Se for mais madura, é uma coroa desesperada à procura de alguém.

Mas o que ninguém sabe ou percebe ou entende é que nem todo convite traz, necessariamente, de forma subliminar, um pedido de namoro. Nem todo convite pra tomar um café é sinônimo de "tô a fim de você". Às vezes é só a aposta de que o convidado é alguém de papo interessante, que seja capaz de engatar meia hora de conversa sem fazer sinal de arma com a mão ou falar da última dupla de “sofrência”, produzida em série, do momento.


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