Entre lanternas e livros

Minha primeira vez

Michelle Paulista,



A primeira de todas as coisas é, naturalmente, um marco. Para alguns, é só um início; pra outros é adentrar no inédito.

Sou mãe há 12 anos. E ser mãe sempre foi, pra mim, uma explosão de coisas. Meu filho é a pessoa mais importante da minha vida, ao lado do meu marido e meus pais - em qualquer ordem. Entretanto, nunca encarei a maternidade com o glamour do qual normalmente é revestida: chá de bebê singelo, solidão no resguardo (o que significa isso mesmo?), amamentação traumática, pouco leite, pouco tudo. Paradoxalmente, ver meu filho pela primeira vez foi o maior alumbramento que já vivi. Mas não é um memorial desse período que pretendo fazer.
Posso dizer que sempre batalhei muito pra enfrentar a tarefa mais difícil da minha existência: sem vovós, titias, vizinhas legais, aprendi a "me virar" pra dar conta de uma vida profissional e a vida daquele serzinho tão dependente. Sempre juntos estivemos. Até hoje é pesaroso e assustador deixá-lo ir ao cinema com algum coleguinha, ainda que acompanhado dos pais. Mas eis que recebo uma proposta de trabalho para passar uma semana fora. O que fazer? 
Para alguns que agora me leem, isto pode parecer drama de novela mexicana. Mas, como disse, as primeiras coisas são portais: nos levam para os começos. Pensei em desistir, inventar uma desculpa; pensei até em uma doença deliberada. Encarei. Expliquei que precisava me ausentar para uma atividade profissional, que ele já estava um "rapazinho" e que, futuramente, talvez fosse ele quem precisasse viajar pra estudar ou trabalhar e - estou certa - não levará a mamãe a tiracolo.
Ia tudo bem, até que um silêncio tomou conta da casa, antes do embarque. Preteridos o futebol e as brincadeiras com os colegas de condomínio, pra assistir tv.
Na hora do espetáculo, todo ensaio perde o sentido. Eu fui a primeira a liberar as lágrimas. Imperativas elas são. Não há músculos nos olhos que as segurem quando vêm como torrentes, empurrando as pálpebras, como batedores num evento cívico. Chorei, choramos. Era nossa primeira vez.

Contudo, os dias passaram, fui me acostumando com a ideia, envolvida em trabalho. Percebi que em casa ia tudo bem também. Tudo seguindo a ordem natural das coisas e a constatação óbvia que, apesar de importantes, não somos indispensáveis.

A vida é um tanto assim: abraçamos incumbências, desempenhamos nosso papel da melhor forma. Mas o fato é que as vidas são livres, independem de outras para viver. Ficou todo mundo bem e isto, de certa forma, é também um portal para mais um início: meu filhote já é um rapazinho e eu, apenas mais uma mãe neurótica. 


A+ A-