Entre lanternas e livros

Ler, escrever e fazer conta de cabeça - uma narrativa para qualquer vida

Michelle Paulista,


Ler, escrever e fazer conta de cabeça

O tempo amarrota a lembrança e subverte a ordem

(Bartolomeu Campos Queirós)

(O título da obra – Ler, escrever e fazer conta de cabeça – será referenciado pela sigla LEFCC)

Não é por acaso a mensagem da epígrafe que abre a narrativa. Os fatos que materializam LEFCC aconteceram antes da época em que Bartolomeu Campos de Queirós vivera em casa dos avós paternos, cujos acontecimentos principais ganham relevância em outro título seu: “Por parte de pai”(PPP). Entretanto, LEFCC é publicado somente após PPP, “subvertendo” a ordem e descompromissando-se com qualquer noção de sequência cronológica, pois a fase em que nosso protagonista viveu em Pitangui junto com S. Joaquim e D. Maria Queirós aconteceu após as primeiras experiências escolares que dão corpo ao enredo de LEFCC. Ou seria, possivelmente, um artifício do escritor para mostrar que a linguagem possibilita arranjar acontecimentos em qualquer ordem, dado o seu poder criativo. O título faz referência a uma fala do pai quando disse que essas três competências seriam as funções que a escola deveria ensinar. Tal postura do pai diante da função escolar nos remete, inevitavelmente às primeiras experiências escolares de Graciliano Ramos, descritas em Infância (1945). Ainda mais fortemente naquela época, existia a concepção de que à escola era atribuída a tarefa de ensinar a ler (decodificar a língua escrita), fazer contas e redigir palavras (sem qualquer noção de atividade textual enquanto produção). Letramento literário era algo de que sequer se ouvia falar. Este mesmo pai, que se parece com muitos – haja vista a metamorfose que a descrição feita por BCQ sofre – tinha momentos de anjo e de algoz. Já aqui Bartolomeu nos deixa escapar a angústia da expectativa de conhecer a escola. Numa perspectiva paradoxal, experimentava o medo e a vontade de conhecer o novo, o mundo escolar.

Contrapondo-se a essas perdas, havia a vontade de desamarrar os nós, entrar em acordo com o desconhecido, abrir o caderno limpo e batizar as folhas com a sabedoria da professora, diminuir o tamanho do mistério, abrir portas para receber novas lições, destramelar as janelas e espiar mais longe. Tudo isso me encantava. (QUEIRÓS, 1996, p. 8)

Embora o nome Antônio não seja, em momento algum, mencionado em LEFCC e o narrador seja em 1ª pessoa, há diversos elementos que atam a narrativas às demais (Indez e Por parte de pai), como, por exemplo, a recorrência do chocalho de cascavel amarrado ao pescoço do garoto, simpatia popular para acabar com o hábito de urinar na cama à noite.

É relevante igualmente pontuar que, desde as primeiras linhas de LEFCC, há o flagrante sentimento de não pertencimento que se deixa à mostra, como ilustrado no trecho:

Um pesar estrangeiro andou atordoando meu pouco entendimento. Ir para a escola era abandonar as brincadeiras sob a sombra antiga da mangueira; era renunciar o debaixo da mesa resmungando mentiras com o silêncio; era não mais vistoriar o atrás da casa buscando novas surpresas e outros convites. (QUEIRÓS, 1996, p. 7)

A matéria para LEFCC é – tal qual em Indez e em PPP – a descrição da vida simples no interior. Entretanto, nesta etapa da trilogia, a descrição da escola e os episódios que envolvem seus irmãos são postos mais em evidência. Interessante pontuar que os avós Joaquim Queirós e Sebastião, paterno e materno, respectivamente, também atuam nessa história. É aqui também que BCQ toma a coragem de narrar a morte prematura da mãe, aos trinta e três anos, vítima de câncer.

Embora extremamente triste e comovente, o relato da morte da mãe é, paradoxalmente, a mais bela passagem do livro. Não pela morte em si, mas pelo arranjo de palavras pelo qual BCQ decide contar tão triste acontecimento. Ele não recorre à palavra “morte”. Ele a sugere, comovendo-nos e transportando-nos para aquele triste fim de tarde:

Entrei de manso. Vi suas mãos afogadas sobre os panos da cama, como se não tivessem mais comando. Estavam imóveis. Lembrei-me do ferro de brasa acariciando a roupa, da colher de pau raspando o fundo do tacho, do regador fazendo chuva por sobre as hortaliças, da espuma no tanque esfregando nossas manchas, do pão repartido em seis, pela manhã. Um resto de sol morno do crepúsculo entrava pela janela sem muita luz, filtrado pela tristeza que arrastava as nuvens pelo céu, naquela hora. Insisti meu olhar sobre suas mãos e não vi as meias-luas nascendo em suas unhas. O padre Viegas chegou com a latinha de água-benta e o missal. (QUEIRÓS, 1996, p. 75-76)

O vazio (ausência física da mãe) serve de “recheio” para o término do livro. Desenvolvendo a ideia do nada, agora representado pela falta materna, a partir do trecho acima e de como ele é decisivo para os desdobramentos seguintes na narrativa, pensamos no episódio da morte da mãe como um marco, espécie de portal de transição, através do qual o menino deixa de sentir uma dor emocional difusa para ter a consciência de que inquietações eram partes irremediavelmente agora constantes em sua existência de órfão: “No nada cabe tudo” (QUEIRÓS, 1996, p. 78).

Ler, escrever e fazer conta de cabeça é uma narrativa para ler e sentir com o corpo inteiro. É usufruir da escrita visceral e , ao mesmo tempo, terna de Bartolomeu Campos de Queirós. 


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