Entre lanternas e livros

Humor natalense por Veríssimo de Melo

Michelle Paulista,


Para quem deseja conhecer a obra do poeta, músico, etnógrafo, folclorista e pesquisador Veríssimo de Melo sugiro que comece pela leitura deliciosa de seu “Pequena antologia do humor natalense”. Publicado em abril de 1959, o livro é um apanhado de “causos” engraçados de 18 personagens reunidos como numa festa, uma porção de boêmios, de contadores de “histórias de sete varas”, de improvisadores de respostas admiráveis, que ainda hoje são contadas em nossas bancas de café entre risadas e ardentes goles de bebida” como prefaciou, à época, Newton Navarro.

A antologia foi reeditada em 2003 pelo Sebo Vermelho e reúne verdadeiros clássicos do humor de uma Natal que já não existe, mas que continua viva na memória dos que viveram aquele tempo e dos que não deixam que a nossa cultura e literatura percam-se no esquecimento.

Separei alguns personagens e causos, como pequena amostra do que o leitor pode encontrar:

CEL. OLINTO GALVÃO

Conta-se que era um antigo comerciante que não costumava tratar os clientes com muita polidez. Contudo, segundo conta Veríssimo, aqui e acolá saía com tiradas muito engraçadas:

Uma vez o vigário da Catedral foi pedir ao cel. Olinto um auxílio para a Noite dos Casados, da tradicional festa da Padroeira. Ele recebeu o sacerdote muito bem, mas quando soube que era auxílio para a Noite dos Casados, fez psiu e disse: - Fale baixo, pra Candinha não ouvir! Eu não sou casado, não! Sou amigado!... (p. 23)

ROMUALDO GALVÃO

Dizem que era um homem muito “esquisito”. Carrancudo, falava pouco e adorava cerveja, tanto que teria confeccionado um paletó de bolsos enormes para carregar garrafas de cerveja. “De todos os tipos de ferramentas ele possuía três unidades. Não vendia, não dava nem emprestava”. (p. 37)

Romualdo estava uma noite na janela, com sua genitora, quando passou um cidadão bem vestido, na calçada. Muito naturalmente, a senhora indagou a Romualdo, baixinho, quem era aquele homem. Galvão, que também não o conhecia, gritou chamando o cidadão e disse:

- Mamãe quer saber quem é o senhor, como é o seu nome, se é casado, tem filhos, onde é empregado, o que anda fazendo em Natal. Diga tudo a ela! (p.39)

CARMELO PIGNATARO

Boêmio de Extremoz, com inúmeras histórias de farras.

Ouvi contar que, uma noite, Carmelo chegou em casa pelas três da madrugada, vindo de uma farra grossa. Como é lógico, sua exma. Esposa recebeu-o contrariada e reclamou: - Agora, Carmelo? Três horas da madrugada! Ao que ele contestou: -Três horas, não! Uma hora da manhã! Por coincidência, no mesmo instante, o relógio da parede bateu as três horas fatais. A senhora, vitoriosa, exclamou: - Eu não disse que eram três horas? Carmelo teve ainda esta saída genial: - Mas, minha mulher, você deixar de acreditar em mim, que sou seu marido, para acreditar num simples relógio de parede!...

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Aos caros leitores, fica a sugestão de leitura!


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