Entre lanternas e livros

Gosto cheiro de plástico

Michelle Paulista,


Aquele plástico com fedor cheiroso que envolve as caixas de brinquedos comprados em magazines. Aquele plástico. O cheiro-gosto dele. Era isso que eu sentia. E subia e me fazia inventar, desafiadoramente, uma careta que não fosse dor ou nojo; fosse a expressão do gosto daquele plástico na boca, mastigado.

Nas pioneiras horas, acordei com as comuns dores. Íntimas- dores de corpo, dor de alma, dor de ausências e presenças ( é certo que há gentes que doem). A urgência em viver. A decisão de não dar corda aos questionamentos existenciais que ficam espremidos no portão da sala do pensamento, refletindo sobre os sentidos: da vida, da morte, de tudo e de nada. São mal educados, esses questionamentos. Não vêm ordenados, empurram-se, acotovelam-se.

E não estranharia se tivesse o gosto daquele plástico de fedor cheiroso. Cheiro de fuga, de transposição de momentos, de “tenho brinquedo novo”, de décimo-terceiro (fortuna dos menos abastados). O plástico. O cheiro.  Mas, para alento, resiste o  afeto operoso e vigilante, captando os empurrões e maledicências dos nada polidos questionamentos. Odores, pensamentos, existir.


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