Entre lanternas e livros

Gestos concretos importam

Michelle Paulista,



Tenho escrito muito aqui sobre o atualíssimo “a gente marca”, espécie de virose que atacou as relações de amizade na era das redes sociais. Mas existe algo bem parecido, que é a “comiseração fake”, para combinar com o método do último pleito eleitoral.

Desde sempre, usa-se a função fática da linguagem para as saudações cotidianas, os famosos “como você está?” e “tudo bem?”, quando , na verdade, não estamos nem um pouco interessados em saber como vai a vida do outro, visto que a nossa já é cheia de demandas.

O problema é que as pessoas desaprenderam a ser amigas: amizade virou sinônimo de foto em rede social. Amizade de verdade ficou fora de moda. Refiro-me a ir à casa do outro, acompanhar-lhe numa atividade para não deixar o amigo só, ligar pra saber se o outro está bem, emprestar dinheiro pra comprar o botijão de gás, essas coisas.

Dia desses, numa das minhas visitas ao vale escuro, experimentei uma coisa já fora de moda: uma amiga importou-se com minha causa e agiu. Foi como um unguento num machucado, desses pelo qual a gente chora mais pelo episódio que pela dor física.

Sim, há cores nas estações doloridas. A viagem é positiva, embora o processo seja nauseante e com picos de dores. Elas, as estações, são pedagógicas e reveladoras, tal qual o velho rolo de filme da máquina de fotografar.

A companhia das letras e das artes é premente. Elas fazem seu papel com maestria, ofertando-nos instantes de catarse, ora de alumbramento, quiçá de deleite e inspiração. Mas falo de gente, essa invenção que traz em si a centelha do Criador de todas as coisas. Vejo bolas de sabão bailando nas pequenas atmosferas particulares de cada consórcio de amizade, quando duas almas fazem entre si um pacto de lealdade, amor fraterno e solidariedade.

Pois a amiga pegou o telefone, chamou o mensageiro e enviou o unguento, arcando com metade do ônus da remessa. Sim, o gesto foi maior que o bálsamo. 


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