Entre lanternas e livros

Festa-poema; não fui mas estive lá

Michelle Paulista,



Eu não fui, mas estive lá. Não sei se cabe o termo festa. Era uma festa-baile-dia-de-alegria-alumbramento. Havia pó mágico, como o de pirlimpimpim, colorindo os ares perfumados do lugar.

De repente, eu me via como que no Reino das águas claras, da história da Narizinho, mas... espere, lá vem o príncipe escamoso espalhando jatos de água azulzinha, à procura da menina do nariz arrebitado.

Ouvi dizer que tudo saía de uma cápsula, espécie de fábrica de ideias. Elas, as ideias, não surgiam como um pensamento articulado de gente grande; antes, eram fabricadas, inusitadas, coloridas e com cheiro de lavanda e aromas de infantil alegria. Alegria no raso, beirinha de arrebentação, em que não se precisa de afogamentos para desfrutá-la. Alegria de graça, redundante, hiperbólica. Alegria alegre.

Havia um pouco de João e Maria também, nos docinhos dispostos sobre as mesas flutuantes, adornadas de frutas convidativas, cuidadinhos e amostras de pôr-do-sol. Cada convidado saía levando um alvorecer ou um entardecer de lembrança, ao seu gosto.

Não era mais uma festa, era um poema modernista, desobrigado de rimas, versos livres, afrontando o parnasianismo hermético de quem insistia em ser sisudo. Festa-poema, festa-cor, festa-cheiro.

Estive lá, contemplando pelo vidro do aquário (tudo que é bonito me lembra um aquário, por isso a metáfora). Minhas digitais apareciam marcando o vidro, olhos grudados, estupefatos, distinguindo cada cor, cada matiz.

Era uma festa dessas que, além de gosto na boca, deixa cor no olhar. Parabéns, seu dono fabricador de ideias coloridas e perfumadas. A paleta de cores do seu baile ainda passeia na minha retina.


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