Entre lanternas e livros

Ex- crevendo

Michelle Paulista,

Escrevo como quem rouba. Como quem delínque. Como quem engendra verdades enlameadas de ficção.

Escrevo como quem afunda, como quem se suja nos dejetos do exercício de viver. Escrevo como quem tem os dedos rasgados de segurar tão fortemente na corda que lhe é lançada nas horas estressadas de ser.

Escrevo, pois, solenemente, num arrepio de agonia, num arroto de existir, bolhas de sabão saindo de dentro, sabor de sardinha enlatada. Estranho familiar doloroso gosto de saber-se viva, regurgitada  boca afora.

Escrevo por necessidade, por fuga, por masoquismo. Por falta, por excesso, por perceber-me incabível, inquieta, inconveniente, inviável, in-vida.

Por ora não mais penso, apenas escrevo. E o faço entre o gosto de detergente na boca e a flecha que comprime o estômago.

Ex-crevo. Ex-isto.


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