Entre lanternas e livros

Eu, essa ilha

Michelle Paulista,



As pequenas gotas salgadas ou o lento-rápido submergir? Coisa difícil era eleger qual deles era o protagonista desse meu espaço e momento nos quais trafego agora.

Predominava em minhas vistas o azul- esbranquiçado- marrom -meio verde da água ao redor. Era quase um alvo daqueles de atirar. Ao redor da bola central, vários outros círculos, assim como se espremendo, empurrando o círculo menor. Até ali se via a opressão e o poder que uma força maior tem sobre algo que teima em existir e resistir.

Eu era quase uma ilha, envolta de livros, pessoas, lista de compras, boletos bancários por todos os lados. Também me cercavam os aplausos, os elogios, o falso glamour, a conta bancária, os parentes. E eu não alcançava a boia, embora, de certa forma, ela estivesse em minhas mãos.

Os intervalos eram resultados de uma cansativa maratona de empurrar pensamentos positivos juízo abaixo. Tão curtos os intervalos, que não valiam a pena almejá-los. Não se podia avaliá-los intervalos, mas pequenas sobras de tempo em que as gotinhas salgadas não achavam lugar.

Insistia em me vestir de amarelo e vermelho, essas cores-tudo. Insistia em muitas outras coisas, até mesmo em insistir. Uma estranha iniciativa de fazer-me resistente, como um militante que não abandona o front. E elas, as amostras.

Amostras de vida têm gosto. Falo de paladar. Para cada hora do dia, um sabor diferente. Excedem o salgado/doce/ azedo a que somos familiarizados.

 Algumas amostras de vida têm gosto de arroz queimado, resultado de uma postura de que as coisas não vão acontecer; vou deixar o arroz no fogo, ainda tem muita água. E, de repente, o cheiro invade a casa, a panela fica quase imprestável, com as marcas de queimado ao fundo. A refeição fica incompleta, sem o elemento básico, parelha do feijão nosso de cada dia.

Há também o gosto de detergente de louça, quando tentamos abrir o bico do vasilhame com os dentes, desdobramento de minimizar o efeito horrível do líquido espumante que, ao atingir os dentes frontais, escorrem pela língua e provocam gosto terrível. É o gosto derivado da certeza de que podemos manipular substâncias indevidas, achando que sairemos incólumes.

Há o gosto de sabão na boca, de sangue na língua, de água de praia no nariz. São os sabores que a vida empurra cotidianamente e a que somos obrigados a deglutir. Mas há quem não perceba esses sabores e desfrute da incrível feliz alegria de conhecer apenas os palatos tradicionais, doce, azedo e amargo.

Morro de inveja de quem vive uma vida de triplo sabor; almejo ter somente os dissabores clássicos da existência: falta de dinheiro, filho doente, fila de ônibus, boleto atrasado. São sabores palatáveis.

Mas olhando para o meu oceano particular e para a boia que vejo em minha mão e não consigo enxergar, as amostras de vida- de minha vida- com seus sabores exóticos adentram agora minha matéria; não poupam narinas, ouvidos, boca, olhos: experimento-os por todos os órgãos do meu corpo. Sabores cruéis.


A+ A-