Entre lanternas e livros

Em louvor a Macau

Michelle Paulista,



Hoje minha terra natal completa 143 anos. Constato, atônita, que menos da metade da minha vida passei lá, no chão salgado. É curioso porque, até dia desses, maior parte da minha caminhada na vida tinha como cenário a Salinésia. Coisa relevante, visto que o tempo não despreza o clichê de voar – ora, tempo, não poderia ser mais metafórico e passar mais devagar?

Tomando de empréstimo os versos do maior poeta macauense (em minha opinião), volto ao meu chão de sal, sempre volto...

Nasci e vivi metade da vida em Macau. Quando cerro a visão, consigo contemplar o desenho de uma Macau da minha infância/adolescência. As aulas no Duque de Caxias, com ousadas fugidas para a Rua da Maré, em que o nível máximo de transgressão era molhar os pés na maré da “rampa”, perto da lancha que me conduzia para a casa de vovó Adalgiza, na Ilha. Lembro, com emoção lhana, o medo sedutor que nos acometia violar o prédio assombrado – hoje aglomerado de lojinhas, na rua Martins Ferreira. Éramos expedicionários em busca de uma caveira enforcada, no andar de cima, sob a constante expectativa de que o prédio desabasse conosco dentro.

Mais tarde, já subindo de status escolar, estudando no colégio dos “ricos” (ainda que com livros comprados de segunda mão), o trajeto era o oposto: diariamente, uma caminhada para o porto, passando pelo mercado e enchendo as mãos de feijões, furtados docemente daqueles sacos enormes, dispostos e oferecidos nos corredores do mercado modelo, ocasião em que seus proprietários vigilantes entregavam-se à modorra da tarde.

Mas nem tudo é méleo nas reminiscências infanto-juvenis. Lembro-me da adolescência, do trabalho cheio de responsabilidades como estagiária de um banco. Impossível esquecer as incompreensões da época, a minha absurda incapacidade de me encontrar num modelo social que se estabelecia; muito ao fato de ser meio guache, acometia-me um confuso sentimento de pertencimento e não-pertencimento, coisa estranha a simultanear meu juízo. E a partida para a capital, à procura de um monte de coisas e à procura de não-sei-o- quê. Acho que fui meio “tangida” por mim mesmo da minha Macau.

Hoje visito minha terra bem menos que poderia. Encontro-me descobrindo a Macau que existiu nesse lapso de tempo entre minha viagem e este agora cheio de retornos.

Posso dizer que a amo: um amor estranho, de marcas, de sentimento natural. E, em seu louvor, não julgo que mereça uns versos meus, embora os tenha escrito algumas vezes. Ofereço-lhes, Macau, uns versos de Gilberto Avelino que, como ninguém, cantou as belezas marinhas da terra das salinas:

“Na paz das estâncias onde estás,

Eu te digo com pungir antigo:

Em mim escorre o rio, o mesmo rio

Cantando em violinos sobre espumas,

E em cujas águas de cristais em soledades

Os teus olhos de verão repousavam.”

(A paz das estâncias infinitas – Gilberto Avelino)


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