Entre lanternas e livros

As rádios da minha infância

Michelle Paulista,


Na minha época de criança, as rádios eram coisa muito presente no cotidiano das pessoas. E essa, sem dúvida, é uma das lembranças afetivas mais doces que trago na memória. Falo de rádios AM. As FMs eram “coisas da capital”, que eu só poderia ouvir quando viajava para Natal, onde passava os dias de férias na velha Quintas, em casa de tia que morava perto do Grupamento de fuzileiros navais. Vir de ônibus da Cabral para a capital para passar uns dias perto da Guarita era um verdadeiro veraneio.

Lembro, na adolescência, que achava o máximo ouvir a Rede Transamérica e sua seleção de canções de pop rock internacional, bem como o adesivo promocional da emissora que trazia um enorme T vermelho. Uma vez ganhei um e grudei na parede do quarto, como troféu.

Mas eu falava de rádios AM. Em Macau, a campeã de audiência era a Rádio Verdes Mares, a verdinha, 810. Cresci ouvindo João Inácio Jr., Ênio Carlos, José Augusto, Paulo Oliveira, Paulo Lélis, Tom Barros e outros. Também ouvíamos muito as rádios Difusora e Rural de Mossoró, com o lendário locutor “Seu Mané” e sua inconfundível voz nas “mensagens musicais”. Era o máximo, em data natalícia, receber uma mensagem musical na rádio. Ao mesmo tempo em que surgiam histórias pitorescas e até certo ponto fabulosas, de mensagens enviadas para parentes de outros lugares, visto que o telefone era coisa de rico e não contávamos ainda com o advento da internet. Assim, para encomendar um porco para um churrasco ou solicitar um remédio caseiro, até avisar da ida de alguém para casa de outrem, tudo era matéria para as famosas mensagens de seu Mané.

No fim da década de 80, em 1986, se não me trai a memória, foi inaugurada a Rádio Salinas de Macau, 1520. Naquele tempo, as músicas tocadas obedeciam ao sucesso natural; não havia cantores ou estilos fabricados, impostos goela abaixo aos ouvintes, condicionando-os a uma hegemonia que se vê hoje, pobre de arte e em plena era da reprodutibilidade técnica, como já escreveu Walter Benjamin.

A Rádio Salinas tinha uma programação relativamente variada: lembro-me do programa “Mulher em Debate” (apresentado por Regina Barros e Wilma Pinheiro), que tinha como trilha sonora “Maria, Maria” de Milton Nascimento. Eu achava o máximo aquele programa diferente, que tanto estranhamento trazia a mim, pois era algo a frente do seu tempo, numa Macau provinciana e machista. Mas eu, que sempre fui meio guache, gostava de ouvir e pensar sobre as temáticas trazidas.

Também me recordo das transmissões esportivas feitas por Nicolau Dantas e Luizinho, com comentários de Jota Batista. De igual modo, foi pelas transmissões esportivas da Verdes Mares, capitaneadas por Gomes Farias, que aprendi a simpatizar com o Ceará Sporting Clube, o Vovô, depois, por semelhança, virei abecedista.

Havia ainda na moderna Rádio Salinas o programa “Rimas e Violas”, programa de cantorias, ao fim de cada tarde, quando chegava da escola. Não posso esquecer a voz inconfundível de Arafran Peter, que comandava um programa muito parecido com a dinâmica dos programas afins das FMs da capital. Lembro-me com perfeição das cartas que eu enviava pedindo músicas: O nosso amor a gente inventa, de Cazuza; O exército de um homem só, dos Engenheiros do Hawaii, Tédio, do Biquíni Cavadão, dentre outras do Rock nacional (Titãs, Paralamas do Sucesso etc). Importante destacar que me tornei amiga aproximada de Arafran, que sempre me mandava “alôs”, o que era o máximo, na época. Embora eu ainda bem menina e ele já adulto, sempre tivemos uma amizade respeitosa, sem maldades, cujos assuntos eram sempre música e, certa vez, fui apresentada ao rádio amador pelo meu amigo locutor.

À noite, a pedida era o programa “Noite total” (será mesmo esse o nome?) com Magnus Fonseca, cuja trilha sonora era a lindíssima Naja, do RPM.

Nessa época eu ganhara um “motoradio” da minha mãe, presente que me encantou imensamente. Eu colocava o rádio embaixo do travesseiro, no quarto improvisado, dividido por uma cortina, na velha esquina da Princesa Isabel, 223. Quando batiam as 23h e eu ouvia “Despedida”, de Roberto Carlos, era sinal de que a rádio encerrara a programação daquele dia. Eu detestava aquela música;  era frustrante ter a programação interrompida... eu, que desobedecendo a ordem de hora pra dormir, queria mais música! Então, eu ia passando o seletor de sintonia e ouvia a distante Rádio Sociedade da Bahia, cuja vinheta lembro até hoje, com palminhas e tudo.

Houve também a época de ouvir o “Panorama esportivo” da Rádio Globo, fortemente influenciada pelo amigo Marcos Cabral, botafoguense que não me conseguiu tornar alvinegra. Adorava ficar feito uma maluquinha, na esquina da Casa Cabral, tentando sintonizar o sinal que “fugia”, exatamente quando Gilson Ricardo iria trazer as notícias do Flamengo.

Ouvi muita música dita “brega” e elas fazem parte do meu repertório musical afetivo. Assim como preciosidades que aprendi a gostar, grandes nomes da MPB, que tocavam nas rádios, numa época em que tínhamos mais ecletismo e menos uniformização da cultura musical popular.

Não tenho dúvidas de que esse convívio com as rádios AM da minha infância tem relação estreita e direta com meu gosto musical de hoje e, por conseguinte, pela aproximação com o literário.

Afirmo que, indubitavelmente, muito da minha literatura veio das ondas compridas das Rádios AMs que forjaram a trilha sonora do meu gosto musical e artístico.


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