Entre lanternas e livros

Arrevessos de ódio no meio da rua

Michelle Paulista,


Os grandes temas da vida estão escancarados no cotidiano e parecem nos caçar em dias nublados para dispararem aquele momento reflexivo.

Pois eu saía de um lugar “pesado” – sim, existem, para além de qualquer imaginação – e tais lugares parecem funcionar como uma esponja, sugando toda e qualquer vibração positiva.

Não deveria ser preciso apresentar meu currículo de motorista. Faço isso desde a adolescência, sem nenhum incidente que desabone minha trajetória de condutora. Mas isso não faz a menor diferença quando o machismo e os ódios alheios afloram.

Andava pelo centro da cidade, devagar com todas as cautelas, no exercício de respeitar os pedestres e dirigir com prudência. Ao entrar numa rua estreita e de trânsito absurdamente desordenado, sem faixa de pedestres e semáforo, fiz com cuidado e pouca velocidade. Elas tentavam atravessar a rua, correndo com sacolas, por entre os carros, driblando-os. Parei e fiz sinal para que atravessassem caminhando, com tranquilidade, a passos, sem correr.

Foi então que ouvi um xingamento; não tenho dúvida de que era maior que o calor que  assolava. Não distingui claramente, mas era algo relacionado a ser mulher, juntamente com outros adjetivos do tipo imbecil, idiota e outros semelhantes. Era um vômito de impropérios, misturado com pedaços de frustrações, machismo feminino e uma absurda necessidade de agredir alguém.

Certa feita, escrevi sobre como seria oportuno termos uma espécie de escudo igual ao de Steve Rogers. Nessas horas, é vital lançar mão dele e pensar que aquela investida odiosa é um problema de quem agride e não nosso.

Dirijo muito bem, obrigada. Faço isso com muita responsabilidade há quase 25 anos. E confesso que acho chato, mas acho fácil também. Difícil mesmo é compreender como nós, mulheres, temos uma grande responsabilidade: fazer com que outras mulheres não precisem recorrer ao exercício do machismo e da desunião para atacarem umas às outras. Que os ódios guardados nas mais profundas infelicidades sejam substituídos pela gentileza, pela polidez e pela empatia. Tenho fé. 


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