Entre lanternas e livros

Alma de flores e senador

Michelle Paulista,


Ele era baixinho, gordinho, branco. A esposa queixava-se de que quando ele estava “bom”, era o maior cara-dura, não falava com ninguém, mas quando tomava umas cervejas, saía cumprimentando todo mundo. O seu “tá bom, tá bom?” que acompanhava os apertos de mão em todos os moradores da rua, ecoa na minha memória até hoje.

Meu quarto dividia a parede com a sala dele. Do outro lado, a sua “3 em 1” era emparelhada com minha cama. Dormi muitas vezes embalada ao som de “Meu vício é você”, de Nelson Gonçalves. Quando fecho os olhos, vejo-o sentado na cadeira de balanço, ouvindo a melodia e ostentando um riso travesso, de canto de boca.

Eu o conheci quando nos mudamos para a Marechal, uma das principais ruas de Macau. Morando vizinho, logo adotei Raimundo Andrade como uma categoria inexistente, que não consigo descrever: era meio pai, meio tio, meio avô. Eu tinha por ele um apego, um amor que talvez ele nem tivesse tomado conhecimento de sua extensão.

Na sala de estar da casa comprida, ele tinha uma cadeira de balanço que ninguém ousava ocupar. Sentava-se de frente à tv e os demais que procurassem se posicionar para poder ter acesso à visão da tela. Lembro-me das suas bermudas jeans amarradas com um cinto, do relógio bonito sempre adornando o braço. E da inseparável bicicleta, que teimou em pedalar até longa idade.

Particularmente, nunca experimentei sua carranca, como acusava Madrinha (a quem eu adotei como tal, sua esposa, dona de grande percentual do meu amor). Comigo era sempre amigo, carinhoso, de risada generosa.

Com ele e Madrinha e o resto da família, vivi alguns dos melhores anos da minha vida. Sandra, Tonho (que me deram as minhas meninas Aninha e Cecília), Tia Elza tornaram-se gente promovida em meu coração a parentes queridos. Impossível esquecer as conversas na calçada à noite, os almoços de Páscoa que sempre tinham baião-de-dois, peixe e pão; do frango à cabidela, infalível aos domingos.

Minha última lembrança dele foi de quando estava internado, depois de retirar as cordas vocais. Quando me viu, tentava me dizer coisas que não podia vocalizar. Percebi que reclamava do soro e da fralda geriátrica. Não sei se me reconhecia, mas eu fiz um grande esforço pra demonstrar o grande amor que habita em mim, desde e para sempre. Dias depois, a confirmação de sua ida, que recebi como um soco na boca do estômago. Fui covarde, não consegui ir ao seu sepultamento; meu corpo fibromiálgico não deixou.

Esse texto se desenhou prontificado num corredor de supermercado, quando ousei cheirar dois sabonetes: “Alma de flores” e “Senador”, o aroma característico do banheiro da casa comprida da Marechal, onde viviam S. Andrade e Madrinha Mundinha, amores de uma vida inteira. Talvez tenha sido o cheiro forte dos tabletes de sabonete, mas alguma coisa saiu de meus olhos, como sai agora, lubrificando este teclado.


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