Entre lanternas e livros

Acerca de contatos e café

Michelle Paulista,



É possível que haja verdades em clichês. Um deles reza que as novas tecnologias aproximam distantes e afastam os próximos. Impossível não pensar: há distantes e próximos? Num mundo digital praticamente uniformizado, quem está perto ou longe? Todos perto, todos longe, constato.

Alvorocei-me ao descobrir que amealhei cerca de dois mil contatos em um aplicativo mensageiro. Quem são e onde estão? Acaso desse eu uma festa, caberiam? Se os convidasse, compareceriam? Que motivos os fariam declinar da invitação? Ou declinariam assim mesmo sem motivos e desculpas cuidadosamente engendradas?

O que fazem esses humanos enquanto escrevo, leio, bocejo, me enraiveço, imagino viagens e beijos ou quando acordo pra ir ao banheiro pela madrugada? O que fazem quando sentem medo? Têm dor de barriga e soluços? Ocorrem-lhe aftas e saudades? O que emociona esses dois milheiros de gentes?

Não sei se gosto de todas ou se gostam de mim. Inquiro-me se o papo com elas seria agradável como um banho de chuva com companhia, se sentiria uma vontade imediata de trocar um abraço espontâneo.

Com elas, viajaria alegremente? De alguma beijaria a boca com consistente vontade? De qual dessas gentes me agradaria o cheiro e o toque?

Que viver estranho esse em que precisamos pedir acesso para telefonar pra alguém (porque denota quase que intimidade), ao passo em que as mensagens instantâneas têm passe livre! Nosso lugar, esse de agora, em que conferimos as breves histórias de outrem é o mesmo de onde esforçamo-nos para forjar as nossas, felizes, de preferência.

Entremeio, o rádio irrompe com “Miss Sarajevo” e desperto, concordando que há, sim, um tempo para inverter o olhar e encontrar o vestido certo para se usar.

Ao descobrir tantos “contatos” em meu pequeno e valente dispositivo móvel, fico a pensar como seria tomar um café com alguns deles. Não sei se os convidaria, não sei se aceitaria o convite se convidada fosse: não bebo café. Todavia, me aprazeria receber a proposta de um; pareceria uma vida mais real tanto quanto possível.


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