Entre lanternas e livros

A vida, essa máquina de lavar

Michelle Paulista,


Máquina de lavar, vontade louca de usar. Nós, adultos, somos meio crianças, como que ávidos ante um brinquedo para experimentar. Aperta botão, descobre função, cheira as peças com perfume de plástico novo, estoura bolinhas de proteção, como que terapia.

Peças dispostas no cesto, uma sobre as outras, velhas, novas, delicadas, brancas, coloridas. Daí que a velha teoria aprendida nas aulas de “educação artística” faz sentido e vemos o branco embolado, mistura de todas as cores.

Quando a máquina para, temos um ciclo completo. Retirando as peças, quis pegar um lençol azul que repousava no fundo do cesto. Ele não vinha. Enroscou-se naquele tubo central e recusava-se a sair. Tentei de todo jeito e nada. Foi preciso retirar as outras peças para que o teimoso pano aceitasse o resgate. Não na minha hora, mas somente em determinado instante pude retirá-lo para, então estendê-lo. Disposto e em repouso, ele impunha suas vontades celestes, azul que é.

Se bem reparamos, nosso viver é bem assim. Somos roupas, indumentárias especialmente escolhidas para cada tempo e circunstâncias. Às vezes queremos remover outra peça que disposta está no fundo de algum cesto por aí. Mas ocorre que cada pedaço de pano tem sua hora de ser removido. Nós, pedaços de tecidos, nos misturamos e vamos nos debatendo num ciclo louco de lavagem, secagem e centrifugação. Uns saem úmidos desse processo, outros secos.

É preciso dosar o sabão, acertar no amaciante e aproveitar o ciclo para que, em vez de sairmos manchados e mal lavados, apresentarmos diante da vida limpos de alma e coração e perfumados.

E antes que eu me esqueça: nessa metáfora alucinante que é a vida – essa máquina de lavar – o amor existe, acontece e a magia da paixão ainda perfuma os pedaços de panos viventes.


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