Entre lanternas e livros

A gente marca...

Michelle Paulista,



São muitas as expressões que ouvimos cotidianamente, mas poucas são tão corriqueiras quanto “a gente marca”, pedaço de diálogo quase obrigatório nas conversas entre amigos e conhecidos.

Ouço muito que “a semana tá voando”, “já estamos pertos do Natal”, “o tempo tá passando rápido demais” e nesses falares fica evidente que, de fato, o correr da vida tem embrulhado tudo, como disse Guimarães Rosa.

Mas o que significa a expressão “a gente marca” ou a igual “vamos marcar”? 

Acho que às vezes dizemos isso por educação mesmo, quase a tal função fática da linguagem, equivalente a “tudo bem?” Tenho certeza de que, se perguntarmos a alguém como essa pessoa está, se realmente está tudo bem com ela e se a tal resolver responder... imagino que não tenhamos paciência para ouvir tudo que possa ser dito. Afinal, quem está mesmo interessado nos problemas alheios, visto que os nossos abundam?

Mas voltando ao “a gente marca”, me pego refletindo sobre o que esse texto realmente expressa. Confesso que já emiti um “a gente marca” assim meio sem querer, deixando uma possibilidade de alguma programação com a pessoa em questão. Mas, de igual modo, também já disse a mesma coisa realmente com vontade de fazer algo junto, de compartilhar momentos, de estar com. Há pessoas de quem gosto mas que parece que as agendas não batem, os horários não cruzam, os caminhos não se encontram. É um constante desencontro. Há, ainda, aquelas pelas quais não fazemos qualquer movimento para que as coisas aconteçam e os motivos são os mais diversos.

Passei a pensar muito sobre isso quando percebi que há pessoas que promovem verdadeiros entroncamentos na nossa história; para essas, separamos horários, oferecemos nosso tempo, esprememos a agenda, invertemos prioridades, aperta aqui, acomoda ali, delega-se função, acorda-se cedo...

Vejo ainda uma terceira situação: às vezes, há pessoas com as quais gostaríamos muito de estar, mas não fazemos muito esforço que aconteça, engolidos que somos pelas inúmeras demandas pós-modernas. Mas tem jeito: que tal marcarmos um encontro concreto, uma programação com aquela amiga ou amigo querido cujo papo tanto nos alegra? Ou, quem sabe, fazer uma visita àquela pessoa amiga de infância que agora já é de idade avançada e que tanto se alegrará com sua presença? Ou mesmo fazer aquela caminhada na praia, tomar um sorvete gostoso, assistir a um filme ou simplesmente ficar “de boa”, fazendo nada?

O tempo é hoje, a vida é agora, as relações são no momento; sobre amanhã, nada sabemos: quem estará vivo ainda quando resolvermos marcar algo de verdade?

Vivamos, encontremo-nos com os nossos queridos! E então, vamos marcar algo?


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