Entre lanternas e livros

Avenida de todos, Avenida 10

Michelle Paulista,

Uma das mais emblemáticas canções da música potiguar é “Avenida 10”, composição do natalense Babal, imortalizada na voz de Geraldo Azevedo.

Encravada no gracioso Alecrim, é hoje denominada Leonel Leite/ Paianazes, mas consagrada como Avenida 10 pela boca do povo, língua certa do povo, o povo que fala gostoso, como rezam os versos modernistas de Manuel Bandeira. Quem é dos filhos de Natal, legítimos ou adotados, que não conhece a “10”? Rua de comprar utensílios diversos, sandálias oferecidas, dispostas em banquinhas de madeira, arranjos de flores plásticas, capas de celular, relógios e tudo o mais que não possa imaginar algum incauto a quem não foi dado o azo de conhecer o mais cheio de predicativos bairro da cidade do sol...

“Avenida dez” é uma daquelas canções que são metonímia de um lugar, tal qual “Linda Baby”, de Pedro Mendes e Serenata do pescador (Praieira), de Othoniel Menezes.

Seguem os versos:

Desde o tempo de menino eu brincava 
Com ar de sonhador 
Conheci a natureza 
Beijando meus pés 
O movimento da vila da rua 
O ronco do tambor 
Em todos os arredores 
Da avenida 10

Os guaranis festejando a paz 
O guerreiro bumbum 
Éramos todos devotos 
Meninos fieis 
Quando não era possível ter sonho 
A gente tinha um 
E ele girava em torno 
Da Avenida 10

O movimento do parque 
O jogo de bola na lama 
A bandeirinha é o poste 
Bom barquinho eu quero passar 
A lata no carnaval 
Pra nós tudo aquilo era a vida 
Em meio aquela alegria 
A bagunça saía a tocar

Minha casa bananeira o jardim 
Os meus amigos, eu, 
Quinho, Bonfim, Nelson, 
Neguinho e Moisés, 
Galvão, Fernando, João e Omar 
Todos irmãos Eris 
Hoje nós somos saudades 
Da Avenida 10

“Avenida 10” parece ter braços, ousa- nos conduzir ao movimento, à dança; quase uma redação persuasiva. Impossível ouvir essa pérola e não ter vontade de dançar. A melodia tem poder sobre nossos músculos faciais: vamos fazendo aquela expressão de satisfação, um sorriso de lábios ajuntados, uma vontade de fechar os olhos, tal qual quando comemos aquela guloseima proibida. É executar Avenida dez e constatar as expressões faciais que resultam da audição dessa linda letra!

“Avenida 10” promove a mesma sensação de pegar um ônibus vazio, no meio da tarde: o vento soprando no rosto, assanhando o cabelo e refrescando o corpo: canção deliciosa de degustar. Não se contenta em dominar a audição, empreende um caminho sinestésico, adentra os poros, invade as narinas e faz uso de todos os nossos sentidos, proporcionando sabores, inclusive.

Considero Avenida dez mais que uma declaração de amor ou uma reminiscência de infância... é um valoroso presente às letras, à música, à poesia e às almas do povo de Natal, sedentas de belezas que são.



Jorge Fernandes, 90 anos de poesia

Michelle Paulista,

Nos dias 26 e 27 de outubro, acontecerá o evento “Jorge Fernandes: 90 anos de poesia”, na UFRN.

É uma celebração alusiva aos 90 anos do Livro de Poemas de Jorge Fernandes, poeta precursor do Modernismo no Rio Grande do Norte, amigo de Câmara Cascudo, conhecido por Mario de Andrade e elogiado por Manuel Bandeira.

As atividades acontecerão no Auditório do Instituto Ágora, UFRN, com inscrições via SIGAA. Segue programação:

26/10/2017

14h às 17h

Oficina: “Leitura do texto poético de Jorge Fernandes”

Prof.  Humberto Hermenegildo

Prof.  José Luiz

19h às 21h

Mesa-redonda:  “Jorge Fernandes e a literatura local”

Prof.  Humberto Hermenegildo

Prof. João Palhano

Prof. Tarcísio Gurgel

27/10/2017

14h às 17h

Oficina: “Leitura do texto poético de Jorge Fernandes”

Prof.  Humberto Hermenegildo

Prof.  José Luiz

19h às 21h

Mesa-redonda:  A poesia de Jorge Fernandes: texto e circulação

Joatan Medeiros

Charlyene Sousa

Alexandre Alves


Caju nasceu pra cachaça - a verve musical de Veríssimo de Melo

Michelle Paulista,

A obra folclórica de Veríssimo de Melo é consolidada e serve hoje de fonte para inúmeros trabalhos acadêmicos. Etnógrafo, folclorista, antropólogo, imortal da Academia norte-rio-grandense de Letras, membro do Conselho Estadual de cultura, fundador do Museu Câmara Cascudo e... compositor!

Como se não bastassem todos os predicativos humanos e culturais, nosso Vivi também se aventurou pela música, tendo composto algumas canções em parceria com nomes como Diógenes da Cunha Lima, Oriano de Almeida e Hianto de Almeida – este último um dos precursores do movimento Bossa nova.

Em parceria com o macauense Hianto, Veríssimo compôs “Caju nasceu pra cachaça”, interpretada com primazia por ninguém menos que Cauby Peixoto, em 1956, pela RCA – aquela gravadora do “cachorrinho”...

Caju nasceu pra cachaça

Pirão pra o peixe nasceu

Mulher nasceu pra o amor

Do amor também nasci eu

Nasci também pra os carinhos

Pra os abraços, pra os cheirinhos

Coisas boas assim

Por isso eu gosto da lua

Do violão e da rua

Da boêmia sem fim

A letra é uma ode à vida alegre da província, da Natal dos idos de 50, dos cabarés, das noitadas. Mas é, também, um louvor ao caju, fruta tipicamente potiguar, como metonímia da combinação caju-cachaça, a mais democrática das parcerias que agrada do cidadão comum ao poeta; do magistrado ao operário.

Veríssimo empresta sua irreverência, seu profundo senso de leitor da vida a esses versos, eternizados na voz grave de Cauby, com a grife de Hianto de Almeida, homem nascido nas salinas e um dos maiores nomes da Bossa Nova.

“Caju nasceu pra cachaça” é uma daquelas letras pra se degustar lentamente, sem caretas ao gole, mas de olhos fechados, apreciando o sabor da poesia que dela emana...



A poesia latente de um quiosque no mercado

Michelle Paulista,


Dizem que o poeta é a antena da raça. Se literatura é arte, sou artista da palavra e dela vivo e me alimento. Muitos artistas dizem se alimentar dos seus sonhos, de projeções futuras, do modo de enxergar o mundo...

Longe dos salões nobres e do (necessário e confortável) ambiente acadêmico, a matéria prima das minhas letras é o ambiente fértil das ruas, das “bodegas” do bairro, do ponto de frango assado, da fila do supermercado, da conversa com o garçom que me serve, da barraca da praia onde frequento... O quiosque de S. Tião e D. Rose é um desses locais.

Conhecemos o local nas nossas andanças, meu esposo e eu. Em busca de fugirmos dos ambientes herméticos, saímos muitas vezes à procura de respiro e frescor nas ruas, botecos, mercadinhos... Foi assim que nos deparamos com o “local” encravado no Mercado velho de Parnamirim.

No quiosque de S. Tião e D. Rose é preciso ter paciência para ser atendido: os bancos compridos de madeira não dão conta dos muitos clientes que se avolumam à espera de café da manhã, antes de ir trabalhar. S. Tião, com a serenidade de quem comanda a orquestra há anos, vai dizendo: “pera aí, o seu é o quê?, quer leite por cima?, tá bom assim? ” e vai atendendo os clientes conforme ordem de chegada... os demais? Ora, os demais esperam, claro. Do contrário, terão que ir embora sem degustar as delícias do local.

É lá no quiosque de S. Tião e D. Rose que se servem o melhor cuscuz com leite das paragens: disposto em um prato, enorme, inteiro e firme, o cuscuz parece um poema modernista. Até gosto de milho tem – qualidade pouco encontrada nos cuscuzes por aí afora. Outra diva é a tapioca molhada: gostosa, macia, sem o empelotado das concorrentes de outros estabelecimentos. É lá também que se degusta a melhor vitamina de abacate (onde mais se encontra uma vitamina geladíssima?) e um café com leite que fumaça e desenha beleza no ar.

D. Rose é a fiel escudeira. De poucas palavras, me presenteou com sua amizade: vez em quando vem até o balcão conversar conosco. Geralmente, exaltamos o ABC e tiramos “onda” com o América de S. Tião que, risonho, deixa a seriedade de lado e cai na graça do curto e gostoso papo.

Talvez o diferencial do quiosque de S. Tião e D. Rose não seja a limpeza impecável do local. Lá é tudo muito limpo, asseado. Nem mesmo os preços justos são o diferencial também. Para mim, o que distingue o local é a multiplicidade de frequentadores: donos de loja, comerciários, policiais militares, flanelinhas, donas de casa, pedintes, servidores públicos. O que me encanta os olhos lá é a poesia latente que emana do espaço. Dela, a poesia das ruas, do povo, me alimento e sustento as minhas modestas letras.

Como dizia Manuel Bandeira: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros. Vinha da boca do povo, na língua errada do povo, língua certa do povo. Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil, ao passo que nós o que fazemos é macaquear a sintaxe lusíada”.



As obras que retratam a infância de Bartolomeu Campos Queirós

Michelle Paulista,


Indez, Por parte de pai e Ler, escrever e fazer conta de cabeça foram publicados, pela primeira vez, em 1989, 1995 e 1996, respectivamente. Pouco a pouco, o autor vai-se revelando, à medida em que expõe momentos da sua infância, como se fosse uma ação terapêutica, de libertação; como um desejo e uma necessidade de cauterizar uma dor quase incessante e indescritível. No primeiro livro, o autor traz a história do nascimento de Bartolomeu, no interior de Minas Gerais, por intermédio de um narrador em terceira pessoa que se incumbe da tarefa de contar a vida de Antônio, protagonista da história. O dicionário Houaiss — Editora Nova Fronteira, sobre o termo Indez, conceitua: trata-se deum ovo que se deixa no ninho para servir de chamariz às galinhas; do latim ‘indicii’: sinal, indicação, denúncia; dar a saber, anunciar, denunciar; raiz do verbo indicar; index, índice, referência; fig. Diz-se de uma pessoa muito suscetível ou delicada”. Nesta escolha de título, já é possível perceber a habilidade com a qual BCQ lida com as palavras e brinca com elas. O ovo em questão pode representar a ele mesmo, como alguém sensível, delicado, o que possibilita o início do relato de uma parte de sua infância. De igual modo, faz menção ao início de uma escrita voltada a tratar de suas emoções mais escondidas, suas dores e saudades, expostas de forma paulatina no ato de resgatar suas lembranças de infância, numa atitude de muita coragem.

Algo que chama atenção no texto queirosiano é o movimento de transição entre temas universais e particulares. BCQ consegue captar no seu discurso o lúdico da primeira infância, os mergulhos engolindo piabas, as brincadeiras infantis, as crendices, mas também se aventura a um exercício de reflexão sobre vida e morte, memória e esquecimentos, medo e dores.

Dono de uma escrita simples (em termos de figuras de construção), BCQ é capaz de tecer uma escrita altamente metafórica, revelando-se um artesão da palavra, reciclando metáforas, fazendo outras surgirem. Formas, sons, arranjos semânticos são matéria-prima para sua prosa poética:

Se eu já sabia decifrar a língua dos dromedários, agora, com meu avô, aprendia a dizer uma coisa para valer outra. Lembrei-me do canto da parede, onde estava escrito: “Para quem sabe ler, um pingo nunca foi letra”. Não sei o que foi feito do fígado da vizinha de Jó. As palavras têm muitos gostos – pensava – e era impossível saber seus sabores verdadeiros. (QUEIRÓS, 1995, p, 63)

Embora suas obras encontrem lugar privilegiado entre o público infanto-juvenil, é impregnada de questionamentos existenciais e filosóficos; sem, contudo, constituir-se um discurso cifrado, mas, antes, narrativas construídas de um estilo de escrita de notório diferencial poético.

Em BCQ, parece que seu mundo reduzia-se aos ambientes familiares, ora em casa dos pais, ora em casa dos avós. Há na escrita queirosiana uma significativa mobilização em recuperar a oralidade das tradições. Desta forma, sua literatura escreve o oral, registrando-o, tal qual fazia em outros tempos o velho Joaquim Queirós, personagem fundamental em Por parte de pai. Não se trata, absolutamente, de desvios da convenção escrita, mas um estilo que opta por preservar, na linguagem verbal escrita, diversos traços da oralidade.

  Ler, escrever e fazer conta de cabeça é publicado somente após Por parte de pai, “subvertendo” a ordem e descompromissando-se com qualquer noção de sequência cronológica, pois a fase em que nosso protagonista viveu em Pitangui junto com seu Joaquim e dona Maria Queirós aconteceu após as primeiras experiências escolares que dão corpo ao enredo de Ler, escrever e fazer conta de cabeça. Ou seria, possivelmente, um artifício do escritor para mostrar que a linguagem possibilita arranjar acontecimentos em qualquer ordem, dado o seu poder criativo. O título faz referência a uma fala do pai quando disse que essas três competências seriam as funções que a escola deveria ensinar.

  Vale muito a pena ler Bartô. Para o corpo, para a alma e para a criança escondida em nós.



Crônica dominical sem nenhuma graça

Michelle Paulista,

  Há tempos não viajávamos. As viagens são muito isso, viajosas. Sai-se de casa à espera de muitas coisas e nesse mundo arengueiro de agora, o medo de não voltar. Melhor, voltar em outro veículo, que voltar mesmo... todos havemos de.

  Depois de uma visita ao chão salgado, eis que decidimos esticar a brincadeira de rico até o mar. Para o cartão postal fomos.

  Crepe-churrasquinho-picolé-quanto é- três por cinco-tapioca-ginga-caldo de leite de coco ou industrializado-espreguiçadeira-promoção-mar-sol-sal-foto.

  Pano cobrindo o corpo.

  De repente, a ciência de que não era brincadeira de pai e filho, o volume esticado na areia coberto por um lençol. A última coisa que poderia cogitar. Não combina com praia... igualmente a blusa de bolinha com saia listrada, não “senta”.

  E coisas e pessoas circulavam livremente, nada obstante o episódio morbifúnebre. Agora faz sentido o lugar-comum “vida que segue”: continuavam bolas, frescobol, casal brigando por ciúme, caldos, porqueirinhas de praia, mesa e cadeira por dez reais.

  A maré avançava. As gingas com tapioca minguavam nos grandes depósitos plásticos que saíram dos subúrbios ainda na madrugada. O ITEP está em greve, vem agora não. O enchimento de boias seria a causa. O coração não deu conta.

  Barrigas fartas, guloseimas até a glote, areia no corpo, cabeleira salgada, vamos embora? O volume inerte, obsequiosamente transportado. Lado a lado subíamos, à procura dos nossos transportes.

  De manhã, ao sairmos, pensávamos muitas viagens. Dinheiro apurado do aluguel das boias, ele. Dia de lazer no mar, nós. E subíamos nós, ele e os funcionários da funerária. Carros estacionados paralelamente... Fomos cada um para o seu túmulo. Qual será a próxima viagem?



Poesia refinada, temperada com sal

Michelle Paulista,

Salinas, maresia, espumas de sal, barcos. Eis o conjunto de palavras-imagens que habita a poesia de Gilberto Avelino. Embora nascido em Assu, o poeta teve a cidade de Macau como seu berço, cidade com a qual estabeleceu um pacto incondicional de amor e fidelidade, refletido na sua poética. Bacharel em Direito por profissão e poeta por vocação, Avelino escrevia sobre sua terra como quem faz uma declaração de amor à mulher amada; Macau foi para ele mais que a cidade onde viveu sua infância e juventude: foi o chão que fez brotar seu talento de poeta, sensível a cada cheiro, cada vento, cada acontecimento da pequena cidade salineira.

Leitora de Literatura e estudiosa dela, descobri a produção potiguar um pouco tarde. Somente na Academia tive contato com autores norte- riograndenses e, mais tarde, na Pós-graduação, esse contato transformou-se em paixão e interesse profissional.  Até então, apenas ouvia falar dos Avelino: Emídio, Edinor, Gilberto. Como qualquer macauense, esses eram nomes conhecidos, geralmente a nomear escolas e ruas. Gilberto Avelino, vi-o desfilar nas ruas salgadas de Macau, portando uma bengala, uns óculos de grossas lentes e um olhar de espanto e contemplação. Tive o privilégio de ouvir sua voz grave, cadenciada, como quem estava sempre a recitar versos, ainda que estivesse tão somente proferindo um “bom dia, como vai?”

Na leitura do poema a seguir, é possível identificar o apelo social feito por Gilberto Avelino. O poeta, que também era advogado trabalhista, afirmava que herdara do pai o desejo constante de fazer o bem.  Devido ao grande número de salineiros em Macau, as causas trabalhistas sempre foram constantes e havia, desse modo, muito trabalho para os bacharéis em Direito. Essa, aliás, foi a atuação profissional de Avelino: a defesa dos direitos trabalhistas dos empregados das Salinas que exploravam a produção e a comercialização do sal marinho.

ESTE CANTO, NÃO

Este canto, este fado triste

De águas de grau intenso,

De luminosidade de punhal,

Ombros abrindo em chagas,

E olhos ferindo, não canto.

Amarga e cruel servidão:

Da malacacheta à lama,

Os pés em sandálias desciam.

Eram arados de carne,

Escavando o chão de sal.

Ó salmoura quente e cortante,

Ombros em chagas abrindo.

Olhos ferindo, cegando,

De luminosidade tanta.

Esta história de cobiça,

Gerada por desamor,

Friamente executada,

Durante anos a fio,

Não canto, canto não.

  Para realçar os tons tristes da temática abordada no poema, o poeta compara seu canto ao fado, estilo musical popular em Portugal, que é caracterizado pelos acordes melancólicos, por vezes, lúgubres. Chamamos a atenção para a expressão “águas de grau”, como uma fala bastante comum em Macau; a água salgada é bombeada para baldes (porções represadas de água do mar), ficando em estado de repouso até que atinja determinado grau de salinidade; daí deriva a expressão “estar no grau”, entendida como “estar no ponto certo”, “estar pronto ou apto para algo”. A imagem dos ombros “abrindo em chagas” que aparece ainda na primeira estrofe, alude ao processo mecânico de beneficiamento do sal, feito pelos salineiros, carregando cestos de sal grosso, ferindo os ombros e fazendo-os sangrar.

  A segunda estrofe compara a atividade salineira com a escravidão, aqui também reforçada pela imagem do homem da salina cujos pés “eram arados de carne”. Avançando para a estrofe seguinte, Avelino faz referência à claridade peculiar da cidade, visto que as pirâmides de sal, tão brancas, refletem a luz solar, não sendo raros os casos de antigos trabalhadores das salinas que perderam a visão ou tiveram sérios problemas nesse sentido.

  Por fim, a última estrofe constitui uma afirmação de convicções do poeta advogado. Isto se constrói por meio de uma negativa, que chega a imitar o coloquialismo, quando encerra: “Não canto, canto não”.

  Não pretendo aqui oferecer análise do poema em questão; nossa proposta é apenas um recorte de uma das joias deste grande poeta potiguar; cuja poesia, embora produzida aqui, não é do Rio Grande do Norte: é da Literatura. 



A preguiça poética de Juvenal Antunes

Michelle Paulista,

           

Juvenal Antunes nasceu em Ceará-Mirim, no século XIX, tendo como irmã a escritora memorialista Madalena Antunes Pereira. Entretanto, foi no Acre que viveu a maior parte de sua vida adulta, ocupando o cargo de promotor público. Juvenal é dono de uma biografia curiosa, pois passava seus dias vestido de chambre, a declamar poemas em homenagem a sua amada Laura, com quem teria vivido um romance clandestino. Existe uma estátua em homenagem ao poeta na calçada do antigo hotel onde residia e vivia de farras pagas “no fiado”.

Em 2006, a Globo exibiu a série “Amazônia: de Galvez a Chico Mendes”, na qual o personagem de Antunes foi interpretado com muita competência pelo ator Diogo Vilela, em cenas inesquecíveis.

Dedicado ao próprio Juvenal, o “Elogio da preguiça” é o mais famoso de seus poemas, em que exalta o ócio, desconstrói verdades estabelecidas e confronta o senso comum.  Vejamos alguns trechos:

Bendita sejas tu, preguiça amada,

Que não consentes que eu me ocupe em nada!

(...)

Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:

- Não te importes com o dia de amanhã.


Para mim, já é grande sacrifício

Ter de engolir o bolo alimentício.


Ó sábios, dai à luz um novo invento:

- A nutrição ser feita pelo vento!

(...)

Não seria melhor viver à sorte,

Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte?

(...)

Ó Laura, Tu te queixas que eu, farsista,

Ontem faltei, à hora da entrevista,


Que me não faças mais essa injustiça!...

Se ontem não fui te ver – foi por preguiça.


Desfrutemos, pois, da irreverente poesia do boêmio inolvidável, como o chamou Esmeraldo Siqueira...



Da Salinésia para o Olimpo

Michelle Paulista,

Olá! Estamos chegando nesse espaço para conversarmos sobre Literatura, Educação, Poesia e tudo de bom que as Letras nos trazem. Reservaremos um lugar especial à produção literária potiguar, objeto da nossa pesquisa acadêmica.

Para começar, compartilho o motivo da escolha do título acima... Boa leitura, espero que apreciem!


Minhas primeiras experiências de leitura remontam ao final da minha infância. Por volta dos oito ou nove anos, brincando na rua com outras crianças, uma das minhas colegas me mostrou uma ficha de leitura que fizera na Biblioteca Municipal Rui Barbosa. Era um cartãozinho verde no qual se registravam empréstimos de livros e o mais bacana era encher a fichinha de registros. Fiquei encantada com a possibilidade de acesso a tantos livros de histórias, assim tão disponíveis. A partir dessa abertura, li toda a coleção de Monteiro Lobato, do Sítio do Pica-Pau amarelo. Por conseguinte, me apaixonei pela Grécia, pois são inúmeras as referências à Mitologia grega nas aventuras de Emília, Pedrinho e Narizinho. Lembro-me, inclusive, de que numa grave crise econômica por que a Grécia atravessou em 2010, me sobreveio um misto de nostalgia e comoção: aquela não era, definitivamente, a “minha” Grécia. A Grécia das minhas primeiras leituras havia ficado nas estantes da Biblioteca pública em Macau.

Não sei bem se antes ou depois de ter sido apresentada à fichinha de empréstimos, passei a frequentar mais a casa da minha madrinha, interessada em livros. Maria do Rosário Bezerra Guerra mantinha uma estante repleta de títulos, os quais deixava à minha disposição. Eu ia sempre lá e adorava o fato de ter passe livre para pegar quantos quisesse. Minha madrinha Rosário me contou, dia desses, que certa vez eu lhe pedi um livro de crônicas e não mais um livro de “histórias”. Não me lembrava desse pedido, tampouco do que o motivou. Mas imagino o quão surpreendente deve ter sido para ela.

Também foi nessa época que minha mãe começou a ficar apreensiva com a quantidade de livros que eu lia. Tratou de me proibir de fazê-lo, sob alegação de que ler muito faria “mal”: gastava a vista e poderia me deixar “maluca”. Facilmente, consegui burlar a proibição materna, pedindo a meu primo Davi que me comprasse uma lanterna. A parede que dividia a sala do meu quarto era uma cortina de pano; a lâmpada que iluminava os dois ambientes era uma só, de modo que era impossível ler até mais tarde sem provocar as admoestações da minha mãe. Por isso, a lanterna era providencial, artefato perfeito: permitia que eu transgredisse a proibição (infundada) da minha mãe e continuasse a frequentar a minha Grécia, lugar que costumo visitar ainda nesses tempos adultos e menos ousados.


E assim, a luz opaca da lanterna era iluminada pela luz da leitura literária. Lobato foi apenas um, talvez o primeiro. Houve outros autores em minha vida de leitora incipiente: Maurício de Sousa (e sua Turma da Mônica), Mort Walker (e o subversivo Recruta Zero), Eleanor H. Porter (sim, Pollyana!), Lewis Carrol, Pedro Bandeira, Stella Carr, Giselda Laporta Nicolelis, Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Ganymédes José... tantos... a lista é imensa e se perde no labirinto da memória.

Até a próxima!




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