Entre lanternas e livros

De gratidão ou sobre Manoel Onofre Jr.

Michelle Paulista,


  A gentileza tem muitos nomes e um deles é Manoel Onofre Jr.

  A bajulação é flácida, não se porta com substância. A gratidão é firme, altiva, de pé. Diria que, se personificadas, a primeira seria uma senhora caquética, cheia de recalques e amarguras, manca e feia. A última, uma jovem senhora de andar endireitado, passos incisivos, cheia de frescor.

  Promessas de fim de ano, faço muitas. Como não consigo emagrecer nem juntar dinheiro, resolvi almejar algo mais possível e nobre. A perda de um velho vizinho boêmio – por quem eu nutria um amor de avô – me motivou uma promessa de fim de ano: jamais deixaria de expressar gratidão por medo da velha mole e feia.

  Neutralizada a velha, fico livre para expressar meu agradecimento sem parecer bajulação. Gratidão de graça, assim mesmo, redundante. Porque gratidão é mesmo superlativa, transbordante: um dos mais belos gestos-sentimentos.

  E em se tratando de Manoel Onofre Jr., vem junto à admiração a sua exuberante simplicidade. A simplicidade de quem carrega um dos mais importantes títulos da carreira jurídica. De quem é imortal com assento na Academia norte-rio-grandense de Letras. No entanto, falo de alguém que sempre me tratou – uma professora anônima da rede pública – como se fosse uma figura de grande notoriedade social. Mais que isso, emprestou-me seu tempo e atenção em conversas fundamentais à escrita do meu projeto de ingresso ao doutorado e artigos diversos.

  Chamo-lhe gentleman. Tenho-o assim. Gentil nas palavras e nos gestos; também o é nos silêncios. Eu seria capaz de passar muito tempo conversando com ele ou ouvindo-o falar de outros grandes, tais quais ele.

  Esse não é um texto para sair em revistas ou jornais. É, digamos, um Hermes de papel, mensageiro que diz por mim: obrigada, muito obrigada, Manoel Onofre Jr. A gratidão tem uma irmã menos virtuosa: a audácia. Não é que ela me autorizou a nos considerarmos amigos? Já me refiro a você como tal. Não me censure. Dessa vez, livre a mim e a velha caquética. É agora culpa da gratidão.

  Junto com a jovem senhora, muitos sentimentos nobres. 

A sinestesia que habita no integrar

Michelle Paulista,


Tenho com as palavras uma relação sinestésica. Algumas são mofadas, umas cheirosas, outras têm forma de um tacape, tamanho seu poder de nos pôr no chão.

Integrar, por exemplo, tem cor e cheiro, pra mim. Acho que é um vocábulo meio verde. Meio azul. Não digo verde-lodo, escuro, sombrio. Seus matizes transitam entre verde natureza e azul céu. Assim mesmo, do tipo propaganda natureba.

É certo que o verde imprime frescor. O azul, ah, o azul... enlevo, regularidade... fluxo contínuo.

Nessa mistura de sensações, começo a ver rumores de impressão colorida, em vez de preto e branco. Parece que o novo ano deseja revestir-se de novos tons – ano cromoterápico. Vê-se um movimento, embora incipiente, de se pintar o mundo da vida de verde e azul, as cores cheirosas e simpáticas da integração. Tarefa difícil, mas de resultados maravilhosos. E o vermelho, cor das sensações quentes, metaforiza as coisas do coração.

Não, não estou me deixando seduzir. Quem é das letras e das lutas e faz dessas coisas uma militância pessoal tem lentes para enxergar que, do outro lado, também pode haver colorações interessantes.

Suspeito de que há uma aquarela diferente no país. De perto, é possível começar a enxergar outros ângulos do mesmo caleidoscópio. Sim, há cores gris. Mas vejo também uma “horda do bem”, seres humanos que se dispõem a cuidar dos animais, das plantas, do planeta, do outro. Para cada tirano, um jovem cheio de esperança; para cada gesto de violência, uma iniciativa voluntária; para cada campo queimado, uma horta orgânica.

Vamos em frente: há esperança em processo. Se bem observarmos, há amarelos saltitando pelas ruas, a aquarela da vida aí está... diante de nós. Já pegou seus lápis-de cor?



Os Marvel em mim – Uma crônica carnavalesca

Michelle Paulista,


Alguns dirão que não tive infância. Teria eu nascido já adolescente/adulta? Tive infância sim, numa família comum de interior, que não era paupérrima tampouco abastada. Vida comum, todas as refeições, sem grandes luxos. Assisti, muitas vezes, à programação de tv na casa da vizinha, todos deitados no chão de cerâmica da finada Alzenir, deleitando-nos com a tv colorida de sua sala, artefato raro naqueles tempos. Anos depois, chegaria uma preto e branco em minha casa. Vi muitos episódios de He-Man, She-Ra, Caverna do dragão, Tartaruga ninja etc.

Mas foi na adolescência que conheci os heróis da Marvel. Sempre os preferi aos da DC. E hoje, podendo pagar pelo serviço de streaming nos televisores sabidos e o ingresso do cinema, não perco um filme dos Vingadores.

Você deve estar estranhando, leitor. Como uma professora pesquisadora de literatura gosta do “lixo ianque”? Talvez pelo fato de não considerar lixo. Assim como existe a literatura de banheiro (aquela consumida na intimidade do vaso sanitário), existem também filmes que esvaziam a mente e alimentam a fantasia. Onde tem dizendo que só podemos/devemos assistir a filmes que tratem das grandes questões da vida? Preciso eu da chancela de alguém na hora de ver uma película?

Mas eu falava dos Marvel. Sou fã confessa do Iron man. Adoro o personagem Tony Stark e admiro a excelente interpretação de Robert Downey Jr. Guardadas as proporções devidas e (espero) perdoadas por algum zeloso, me lembra Macunaíma. É o anti-herói: playboy, beberrão, presunçoso e de grande coração. Não tenho paciência para heróis extremamente bonzinhos; tem um quê de chato nisso. Thor, por exemplo, só ganhou minha simpatia quando assisti ao primeiro filme e vi sua verve rebelde e egoísta, seu temperamento intempestivo: nada mais humano.

Acho que somos um pouco herói da Marvel, assim nos seja conveniente. Somos incrivelmente maravilhosos ao ajudar uma campanha de arrecadação nas redes sociais, chegando a pingar filantropia dos nossos poros. Mas somos igualmente antipáticos quando, de manhã cedo, alguém resolve sentar justamente ao nosso lado no ônibus, mesmo havendo várias cadeiras vazias. Por vezes, vivemos como se fôssemos imortais como Wolverine, apontando nossas garras impiedosamente pra qualquer suposta ameaça.

Amamos nossa melhor amiga, mas julgamos a outra pessoa de quem alguém falou mal, sem sequer ouvir o outro lado. Falamos tanto em bondade, solidariedade, ser do bem, mas somos incapazes de convidar um morador de rua pra cear conosco.

Como Stark, gostamos de aparecer. Escolhemos a dedo a foto e a legenda para “postar” nas redes sociais, geralmente com conotação de extrema felicidade e leveza. Mas daqui a pouco viramos um Hulk, explodindo em fúria, destruindo tudo ou lançando flechas envenenadas como o Arqueiro verde. Isso sem falar nos dramas existenciais do Thor, que usa uma ferramenta de apoio, porque sozinho não é nada; a propósito, qual é o meu martelo e o seu?

Nesse período momesco, em que reinam as fantasias, vale perguntar: Em que muletas pomos nossa crença de poder? Quais martelos, capas, armaduras, escudos e martelos usamos para encobrir nossos eus? Pensemos nisso!

Dando o devido desconto para a manifestação imperialista cinematográfica de Holywood, dá sim pra pensar na vida nossa de cada dia entre uma armadura e outra do Homem de ferro. Fiquemos atentos ao nosso sensor aranha.



O poema em sala de aula

Michelle Paulista,


  Um dos depoimentos mais comuns dos professores de Língua Portuguesa e Literatura é a dificuldade de se trabalhar com textos literários, visualizando a boa recepção dos alunos. Decerto, a resistência deve existir. Entretanto, percebemos a resistência igualmente de muitos colegas docentes em buscar alternativas metodológicas para sua prática. Segundo o professor Hélder Pinheiro (2012), três grandes desafios precisam ser assumidos e enfrentados: os conteúdos de fortes vieses historiográficos – especialmente os de literatura, os procedimentos metodológicos equivocados e, por fim, a dependência quase total dos livros didáticos com seus “manuais do professor”.

  É certo que todo aluno tem direito a conhecer e fruir do texto literário (CANDIDO, 1995). Mas igualmente certo é o fato de que, embora cursem nove anos de Ensino Fundamental e mais três de Ensino Médio, os nossos estudantes apresentam resultados pífios nas avaliações nacionais de proficiência na língua materna, tais como Prova Brasil, Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

  Entretanto, mesmo cientes de tais lacunas, pouco se tem feito no sentido de alargar o horizonte literário dos alunos, submetendo-os a procedimentos estéreis nas aulas de leitura. Geralmente, tais momentos constroem-se a partir de leituras fragmentadas de obras literárias, com as tradicionais fichas de leitura, prescindindo-se o efetivo contato com o texto literário, experiência “pessoal e intransferível”.

  É claro que os aspectos historiográficos das obras literárias devem ser considerados, mas nunca podem ser um fim em si mesmo, sob risco de termos aulas nas quais os alunos passem o tempo todo a olhar para os relógios, torcendo para que a aula acabe logo.

Nesse sentido, pensamos numa proposta de trabalho com o gênero poema, muitas vezes mal compreendido em suas particularidades e pouco utilizado como instrumento de fruição estética e humanizadora. Há ainda que se quebrar o preconceito que persiste na leitura de tais textos, como sendo coisa “de mulher” ou de gente muito “delicada”.

Para tal intento, escolhemos o poema Elogio à preguiça, de Juvenal Antunes e o cordel O preguiçoso, de Almyr Lira, por considerarmos que se trata de um tema bastante sugestivo para o público adolescente.

A temática em si já causará respostas dos alunos: certamente, muitos se identificarão como “preguiçosos” e ficarão curiosos para descobrir qual elogio pode ser feito a quem assim o seja.

Com um pouco de vontade de realizar um trabalho efetivo de letramento literário e um repertório satisfatório de leitura, o professor de língua portuguesa e literatura deve buscar textos que atendam às expectativas dos alunos. Isso pode ser feito a partir de conversas informais, aparentemente sem intenção didática, nas quais é possível “descobrir” as preferências da turma. Num bate-papo mais despojado de contornos de “aula”, vamos ouvindo os gostos, os temas que interessam nossos alunos; vamos traçando uma espécie de “perfil” da turma. Semana que vem, conversaremos mais... Até logo!



Um dever amaríssimo

Michelle Paulista,


Talvez seja uma das expressões mais célebres da literatura nacional, essa de José Dias. Descrito como agregado no famoso romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, José Dias é um personagem deveras interessante. Ou interessantíssimo, como ele provavelmente definiria a si próprio. José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as havendo, servir a prolongar as frases. (Dom Casmurro, capítulo IV).

Por expedientes de charlatanismo, JD chega à casa de Bentinho e por lá fica, tornando-se quase da família. Figura caricata, “chupado”, é dúbio, camaleônico. No início da narrativa, é autor da “denúncia” do amor indisfarçável entre Bento e Capitu; ao avançar da narrativa, é peça fundamental à consumação do amor dos dois. Se fora José Dias o responsável pela ida de Bentinho para o seminário, também foi ele quem ajudou o jovem seminarista a sair.

Considero o agregado de Bentinho um dos personagens mais interessantes da obra machadiana. Assim como ele, também sou afeita aos superlativos, especialmente os absolutos sintéticos. Por vezes, transgrido a regra gramatical e transformo tudo em superlativos, desde nome de pessoas a substantivos incomuns. É meu chegado o obrigadíssimo, como o é o endereço de correio eletrônico.

De igual modo, também cometo inocentes maldades quando faço denúncias...

Tolero intolerantes, concedo meio sorrisos, acato um modismo aqui e acolá, um silogismo completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!

Mas a redenção vem e chega por “Bentinhos e Capitus” que, desmerecidamente, ajudo, poupando-lhes do pagamento das feridas que me causam...

Caro JD, nesses tempos pós-modernos, em que o termômetro de uma vida bem sucedida é uma selfie sem filtros, viver e sermos nós mesmos é, por vezes, um dever muito amargo: um dever amaríssimo!



Pipocas e fror

Michelle Paulista,

Se era imaginação ou realidade...  Vezes tantas, não poucas. Muitas vezes me perguntei: delírio individual, amigo imaginário?

Era um homem moreno, pele marrom. Não era negro, exatamente. Um marrom bem marcado, do tipo coleção de madeira: o marrom longe das cores quentes, justapostas na caixinha de papel.

O expediente vespertino era na praça da Bíblia, meu castelo de Grayskull, hoje apenas um recanto minúsculo na salina motorizada. Eram palestras de horas marcadas, regadas às pipocas de S. Chico da pipoca, lentes grossas e sorriso franco. O velho pipoqueiro esbanjava generosidade, quando não tínhamos moedas e ele nos dava um saco cheinho, dizendo: pegue, filha, são só torreiros – não eram, eram pipocas mesmo!

Lembro-me das pernas. Sim, tortas e paralelas. Inclinadas, organizadamente inclinadas. Mas o sorriso era franco, sem economia. Nada aprovisionado, jorrava e se derramava, permanecendo enquanto durasse a palestra. Era um sorriso arrumado, limpo, uniforme, alegre. Era um sorriso-manhã no meio das tardes. Jamais vi depois uma pessoa que falasse e calasse sorrindo.

Jesus era sempre o tema. Gostava de sentar perto dele na Praça da Bíblia, à tarde, para ouvir ser chamada “frozinha de Jesus”, acompanhadas de gentis exortações afáveis sobre o Filho e o Pai.

Miguel, seu nome? Sim, existiu. Vive ainda nas minhas lembranças salgadas que me sustentam a adultice, adoçando-me a alma...


OBS: Soube, por meio de uma colega, que S. Miguel andou voltando à Salinésia. De S. Chico da pipoca não mais tive notícias.



De roupas, vida e gente

Michelle Paulista,

“No presente, a mente, o corpo é diferente. E o passado é uma roupa que não nos serve mais” (Belchior)

Em tempos de liquidação, observo o quanto a vestimenta virou peça importante na sociedade pós-moderna. Muito além da função primeira de vestir, as roupas são também índice de determinação do sujeito – diferentemente da nomenclatura gramatical.

É nesse período summer que assistimos também aos desfiles de moda e tendências e as roupas da série “tem que ter”. Mas há os que, insubordinadamente, preferem as mesmas roupas do verão passado e as tratam com o critério da funcionalidade: bom estado, tamanho adequado, preço justo. Estou no grupo das pessoas que relutam e usam uma peça de vestimenta até o dia em que se rasga, velhinha, tendo cumprido sua missão...

Preferimos roupas velhas porque elas sabem de nós. Viveram conosco muitas aventuras; dormem coladinha em nós, compartilharam noites de agonia, quiçá de insônia ou noites de sono restaurador. Podemos dizer que estavam conosco nos momentos bons e ruins, como sonha dizer qualquer pessoa - romântica ou não. As roupas são um pouco gente: marcas de ferrugem, um furo aqui ou ali, uma mancha de água sanitária.  Assim somos: cicatrizes, manchas de idade ou doença, avarias que a vida nos dá de coleção. Por vezes, tentamos remendar, costura aqui, ajusta ali, aperta, afrouxa. Já dizia Guimarães Rosa, em “Grande sertão, veredas”: O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

Se prestarmos atenção, um  armário de roupas é uma metáfora da vida: todas expostas,  à espera de ser escolhida para uso.  Banho, cama fofa e a inevitável escolha por um pijama velhinho... As roupas velhas um dia já foram de tecido áspero, cores firmes, mas vencidas foram pelo uso, pelo dia a dia; amarrotadas ficam. Às vezes, por isso mesmo, são descartadas. Sempre haverá os que não gostam da vivência delas, doam-nas ou substituem por uma peça da moda. Mas há também, no equilíbrio da diversidade universal, quem goste das roupas mais experientes, sentem conforto habitando-as. Sentem-se acalentados pelas fibras lassas, afrouxadas.

Roupas velhas são generosas, parecem abraçar. Já não têm a etiqueta espetando a gente; não requerem maiores cuidados, não são melindrosas, aceitam se misturar com tudo que é pano. Não soltam mais cor; não têm necessidade de aparecer. Gosto delas, lembram - me velhas amizades − as que resistem ao tempo − trazem histórias que são um pouco da nossa também; quantas coisas testemunharam? Quantos abraços foram por elas recepcionados, secretárias de corpo que são?

Roupas velhas somos nós mesmos: manchados, um pouco rotos, tentando parecer um tecido vibrante, ávidos de escapar do próximo bazar ou virar pano de chão. Sorte se virarmos roupinha de dormir.



Especialização em Literatura e Cultura do Rio grande do Norte

Michelle Paulista,

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte, por meio do NCCEN (Núcleo Câmara Cascudo de Estudos norte-rio-grandenses) está promovendo a Especialização em Literatura e Cultura do RN, um curso importantíssimo para professores. O curso de Letras apresenta uma lacuna na sua grade, na minha opinião, que é trabalhar de forma tímida a produção artística e literária do estado.

Nesse sentido, a referida especialização cobrirá essa "falta", oferecendo aos docentes conhecer, aprimorar e aplicar conhecimentos sobre as "potiguaridades", tão nossas.

O curso terá duração de 18 meses e a mensalidade custará R$ 190,00, com 66 vagas. 

Inscrições www.sigaa.ufrn.br

Acesso ao edital: http://sigaa.ufrn.br/sigaa/public/processo_seletivo/lista.jsf?nivel=L&aba=p-lato

Confira o folder!


Feliz detox

Michelle Paulista,

Tenho visto as propagandas de detox pós-ceias, mas acho mesmo que precisamos de um detox pós-ano.  Eu mesma já sou uma faxina constante: há tempos eliminei da minha vida pessoas que não têm absolutamente nada a ver comigo. Sei que falando assim, corro o risco da incompreensão: alguns me tomarão por intransigente, ou não-fraterna, algo do tipo.

Mas não. Cada vez mais me compadeço com os mais miseráveis, não tenho dificuldade alguma em doar coisas ou ajudar quem precisa; me envolvi bastante na causa animal (tendo inclusive uma despesa mensal fixa com ajuda para cães resgatados).  

Quando falo em detox, refiro-me a respeitar a mim mesma, minhas vontades e meus limites. Sou obrigada a conviver com pessoas que não me dizem nada, absolutamente; com as quais não tenho qualquer afinidade. Dou-lhes bom dia, empresto meu sorriso, procuro ser gentil e cortês. Entretanto, reservo-me ao direito –por profundo respeito a minha pessoa e saúde – de não tê-las em minha casa, não abraço, não lhes dou dois beijinhos, não curto suas postagens nas redes sócias, acompanhando um “linda”. Que ganho eu com isso?

Alguém dirá: as pessoas vão me achar chata. Problema algum, sou mesmo. Se olharmos pra dentro de nós mesmos, todos somos “chatos”: temos nossa dose de rabugice, de preconceito e de intransigência. Todos nós temos – em maior ou menor medida – aquele hábito de escolher alguém pra “não ir com a cara”. Pode não ser a maior das virtudes, mas nada mais humano que o conflito de conviver. Tenho meus dramas, meus azedumes e os destilo na minha poesia ou afogo-os numa play list bem minha. Já as doçuras, ofereço-as aos mais queridos e aos bichos. Tudo nessa vida é balança, companheiro.  Ao levar o pacote de ser autêntica e furtar-se a fazer média pra ficar bem na fita, leva-se junto a leitura alheia, o julgamento de outrem. Posso garantir: o troco dessa transação vale muito a pena!

Defendo que cada um deve fazer constantemente o seguinte exercício: o que faz bem? Quais pessoas afagam sua alma? Com quais delas você ri de graça? Por que você tem que ir a festas e usar roupas que não o/a vestem?

Jogue fora os papéis, as embalagens vazias que jamais serão reaproveitadas, a roupa apertada para um dia que venha a caber em você. Vá à praia, à piscina, ao chuveiro. Dê-se ao direito de curtir suas fossas, sua tpm, sem a obrigatoriedade de postar fotos diárias de felicidade nas redes sociais, acompanhadas de bordões como “aí, sim”, “suave na nave” ou daquela musiquinha de filme de suspense gravado no quintal.

Nossas dores são nossas amigas: sem elas, não há movimento de mudança.  Faça um detox na vida, na casa e nas relações pessoais: dê uma descarga em gente que não enxerga qualquer possibilidade de crescimento que não seja mentindo, fraudando ou caluniando os outros. Dica: se acompanhado de abacaxi e hortelã, melhor ainda.

Feliz e abençoado 2018 pra você!!!



Sessenta e poucos minutos

Michelle Paulista,

Com votos sinceros de que 2018 seja maravilhoso, republico uma das minhas crônicas preferidas. Que o Ano Novo seja tão lindo como um passarinho...

                Era mesmo de se estranhar. Não era comum aquele ser, contrariamente à sua natureza, em atitude inerte. Como não me interessar por aquela vidinha tão fixamente instalada em um território no qual só costuma frequentar como visitante?

  Cheguei perto e, inusitadamente, ela não ofereceu resistência alguma, tampouco fez menção de levantar voo.

  - Que foi, meu amorzinho? Você está tão quietinha... que foi, hein?

  Peguei-a na mão e pude experimentar um prazer infantil de ter um bichinho daqueles na palma da mão, coisa que jamais experimentara nas terras salgadas da minha infância. Subi as escadas com cuidado, coloquei-a num cantinho da sala. Com um senso de humor que considerei negro, ouvi:

  - É uma rolinha! Isso assada é bom demais!

  - Que horror! Vou leva-la a um hospital de bichos.

  Terminado o banho (eu teria aula logo mais), acomodei-a numa ambulância improvisada – uma caixa de sapatos – e levei-a ao pronto-socorro de bichos. Pedia a Deus que tivesse misericórdia dela, tal como intercedo por pessoas. Já me achava responsável por aquela vidinha – digo pelo tamanho e não pela importância que despertara em mim. No trajeto, ela se debatia, soltava penas e girava na caixa-maca. Chegando ao hospital, debateu-se de maneira particularmente intensa, como se fosse uma bailarina que julgava ser aquela a sua última apresentação. Recusei-me a enxergar o óbvio e me encaminhei à recepção, mesmo sabendo já ser tarde. Ela parecia ter-se recusado a ser atendida e antecipou-se, pondo fim à agonia – mais minha que dela. Resolveu terminar no exato momento em que chegávamos no lugar que poderia ser seu socorro.

  Chorei. A voz embargou. O que fazer com aquele corpo miúdo, agora inanimado? Deixar num cesto de lixo para ser comido por algum cachorro ou outro bicho? Olhei em volta e no calor das 14h, que acentuava o mal-estar, vi uma calçada cheia de flores, com lindas roseiras. Depositei ali a caixa, que de ambulância tornou-se ataúde, como quem participa de um velório de um ente muito querido.

  Entrei no carro com a garganta apertada. Tinha um compromisso, enfim, e estava deveras atrasada. Que diria? Perdão, professora, me atrasei porque precisei levar uma rolinha moribunda ao hospital veterinário. A sensação de impotência me assaltava. Não conseguira socorrê-la a tempo. Talvez se não tivesse me demorado tanto na arrumação...

  Mas precisava ir. Ao menos o jazigo era uma calçada fresca, entre flores, na sombra.

  Resolvi que o melhor seria esquecer aquele acontecimento – como se fosse possível. Mas quando olho para o banco do carona, ela estava lá, na presença de uma pena que me deixou de presente, adorno usado naquela última apresentação.




Linda Natal, linda Baby

Michelle Paulista,

(Por ocasião do aniversário de Natal, republico texto de minha autoria sobre a canção "Linda Baby")


A música linda de Pedrinho Mendes

Parnamirinense de nascimento e natalense de corpo, alma, canto e tudo o mais. Assim é possível começar a falar de Pedro Mendes. Em 1981, há quase 36 anos, ele compôs aquela que seria um dos símbolos de Natal, ao lado de “Serenata do pescador” de Othoniel Menezes.

“Linda Baby” é aquela canção que mesmo os mais desatentos são capazes de dizer “já ouvi, sim”.  Não bastasse a letra constituir-se de uma escancarada declaração de amor a Natal, a música exala “potiguaridades”. Os acordes lembram o embalo gostoso das ondas: ao ouvir a linda “Linda Baby”, sinto-me entrando nas águas mornas do litoral, embalada pela maresia e o ninar das ondas. Difícil eleger o trecho mais emblemático da canção, mas se pudéssemos sintetizar a beleza da composição, bem poderia ser esse excerto:

“Linda terra para a mãe gentil

Belo cai o sol sobre esse rio

E esse rio também está perto daqui...”

Na canção-poema de Pedrinho, o mar é elevado à condição de deus, uma vez que nele habitam muitas vidas: as marinhas e as terrestres. Sim, o mar é casa dos peixes, baleias e o é também daqueles que se sentam diante dele, num fim de tarde, para apreciar a natureza, fazer poema ou uma oração. Mar e rio formam um tecido poético, cheio de cores e sais. “Linda baby” é esse apanhado de imagens, organizadas pela fina percepção artística de Pedrinho, que mobiliza cenários, num jogo sinestésico: cor, visão, sabor. Isso é Natal, palavras do poeta.

O rio que banha a cidade está perto de nós. É o coração da cidade, fonte onde beberam grandes nomes da cena literária do estado. Mas o rio também metaforiza a cartografia afetiva de um povo que vive do Potengi, tem-no como referencial (quem nunca ouviu falar da divisão “do lado de lá do rio – do lado de cá do rio”?)

“Curte-se aqui ao natural

A natureza espalha o nosso chão

Estou cantando a terra que é o meu viver

E acontece que eu estou cansado de dizer”

Há versos que se perdem no vagão do tempo. Entretanto, esses não poderiam ser mais atuais: quase 36 anos depois de composta “Linda Baby”, Pedrinho continua fazendo jus ao gerúndio do quarto verso, estrofe acima: nunca parou de cantar Natal, sua terra, seu viver.

Pedrinho Mendes é mais que “Linda Baby”. Na verdade, coexistem. “Linda Baby” é Pedrinho. Pedrinho é “Linda Baby”. Linda é a música que habita em Pedrinho Mendes. Para mim, com profundo respeito aos demais artistas da terra, Pedro Mendes é hoje a maior representação musical da cidade de Natal.

Obrigada, Pedrinho Mendes, pelo seu canto, sua musicalidade, pelo balanço gostoso que emana da sua poesia musical.

Viva Pedrinho e viva sua lindíssima “Linda Baby”.



Sobre sombrinhas

Michelle Paulista,

(Republico texto já publicado na Revista literária Kukukaya)

Gosto de observar o mundo da vida e, nessa prospecção cotidiana, ainda me surpreendo com certas prosopopeias inusitadas, que muito me ensinam... Esses dias me deparei com uma sombrinha, nem status de guarda-chuva tinha (tampouco o almejava, certamente).

Era uma sombrinha graciosa, de tecido vermelho de bolinhas brancas, toda alegre. Sim, alegre. As sombrinhas são alegres, flexíveis, femininas e cheias de personalidade. Já reparou como essa espécie é personificada? Sombrinhas e guarda-chuvas dão-se ao direito de ficarem onde bem querem. Fazem-se esquecer em lugares tantos.

Acho que, quando entram num ambiente, se gostam, resolvem ali fazer morada... outros, inadvertidamente, entregam-se literalmente ao sabor dos ventos e se curvam à delícia de se deixarem levar... algumas trabalham como bailarinas indispensáveis. Mas eu dizia das travessuras das sombrinhas... Arteiras, elas. Pois uma veio morar aqui e eu precisei dela. Toda sedutora se abriu e não é que não queria de jeito nenhum ficar firme? 

Fez greve, ria do meu aperreio e continuava mimosa, no vestido vermelho de bolinhas brancas. Sombrinha, eu, que aprendo com os passarinhos e amo igualmente os cães, digo-lhe: hoje você me deu uma lição de feminismo, elegância e subversão. Linda, quando crescer quero ser como você: livre, de posições claras e, quem sabe, me deixar levar por alguma boa tempestade!


Porque você, caju...

Michelle Paulista,


Caju é gostoso, é doce, é símbolo das terras de Poti, por ser fruta tropical abundante por essas paragens. Também é no RN que está o maior cajueiro do mundo.
Contudo, o meu gosto pelo caju vai além das percepções do palato. Eu quero bem à fruta, assim quase um gosto da pessoa. É afetivo, é isso. Eu os vejo deslumbrantes, dispostos em uma espécie de pirâmide frugal ( já tendo passado pelo filtro dos mais bonitos, porque nem caju escapa da seletividade da vida).
Você, caju, nem precisava ser tão nutritivo e vitaminado. Você abusa dos predicativos; quando abocanhado, entrega toda maciez, explosão de sabores, sumo, fruta dulcíssima...
Porque você, caju, me desperta relações afetivas - consigo mesmo, não é caso de lembranças de infância ou coisa do tipo. Você é lindo, é amigo, não tem braços e os tem abertos, como se constantemente solícito a um abraço...
Porque você, caju, já foi metáfora de canção de um nordestino arretado; você habita gravuras e poemas de valiosos artistas potiguares.
Gosto muito, caju. Do seu sabor, da sua textura, de você como você, caju. É pessoal.


Sobre voos e pousos

Michelle Paulista,


Os passarinhos me visitam. Na verdade, me seguem. Não, não é psicose pós-moderna.

É uma perseguição, quase uma fidelidade, posto que descobrem onde estou morando e ainda que mude de endereço, vêm me visitar...

Uma rolinha, certa feita, me fecundou de uma crônica. Coisa linda, com velório em jardim, choro sincero e texto publicado. E não é que agora um pardalzinho se escondeu atrás de um eletrodoméstico, a fugir da cadela da família, filha caçula mimada?

Aprendia a voar. Peguei-o nas mãos, afaguei-o, tentei alimentá-lo: não queria. Voar, queria. Pus-lhe a salvo do algoz canino, soltando-o no jardim externo.

Dia seguinte, lá estava de novo em minha casa e lembro agora que há dois dias escondera-se num quarto de despejo, tendo eu aberto a janela para o seu treino de voo. Tinha a teimosia nobre da juventude, mesmo a juventude dos passarinhos, que decerto deve ser mais bonita que juventude de gente.

Prontamente procurei uma gaiola para hospedá-lo até que ficasse fortinho e pronto para ganhar os quintais. Foi aí que se chateou, voou e não veio mais. A amizade estremeceu. Acho até que deve ter falado mal de mim para os outros amiguinhos: não me apareceram mais...

Sabe, pardalzinho? deveria aprender com você. Estranhamente, eu volto a frequentar aqueles e aquilos que tentam me engaiolar. Prometo me esforçar, em nome da nossa amizade. Volte a me visitar...  Sem gaiolas, dessa vez, de lado a lado.



Professor de Português não é dicionário

Michelle Paulista,


Como em muitos aspectos do mundo da vida, a licenciatura é também cercada de mitos e lugares-comuns. O primeiro deles é o título de “professora de português”, como se fosse possível ensinar o idioma materno a alguma pessoa – visto que o que se pode ensinar é uma variedade de prestígio social - mas essa é uma conversa para outro momento.

Para além do chavão “Português é difícil”, outro mito que se cultiva é a figura do Professor de Língua Portuguesa como dicionário ambulante. Aviso: não o somos, tampouco temos a intenção de sê-lo. Há milhares de verbetes no Dicionário, o que torna impossível o extraordinário feito de memorizá-los todos.

Falando nisso, lembro-me de um aluno que, numa determinada época em uma escola privada, me perguntava diariamente o significado de palavras. Assim como acontecia naquela época, continuo há 18 anos sendo inquirida sobre o que é “parcimônia”, “embuste”, “aquiescer”, “ilação”... Isso me faz pensar em como essa prática nasceu... Pensam nossos amigos que o curso de Letras é quadriênio de estática leitura/memorização de verbetes? Ou as imaginações engendram que existem as disciplinas “Dicionário I, II, III, IV”?

Um profissional licenciado em Letras é, antes de tudo, alguém que estuda Linguística (descritiva, sócio, cognitiva, neuro, funcional, aplicada...); que faz do exercício da palavra e suas inesgotáveis possibilidades o seu material de “trabalho”; que crê no viés humanizador da Literatura e no Direito fundamental de a ela ter acesso... que estuda práticas pedagógicas e didáticas...

Em tempos de sites de busca rápida, nada custa consultá-los a fim de descobrir as conotações e denotações dos vocábulos. Na falta de franquia de internet, os bons e velhos Dicionários impressos nos esperam de páginas abertas.



Cartas de Oswaldo Lamartine - primor e estilo

Michelle Paulista,


  Não sem muita resistência do próprio Oswaldo, em 1995 Veríssimo de Melo reuniu em um livro as “Cartas e cartões de Oswaldo Lamartine”, publicação feita pela Fundação José Augusto. Nas palavras do próprio Veríssimo, Oswaldo teria sido o maior entre os escritores potiguares contemporâneos.

  A resistência de Oswaldo em ter suas correspondências publicadas justifica a seguinte explicação por parte de Veríssimo: Estamos escrevendo para o futuro. Trata-se de contribuição nossa ao conhecimento da figura humana e do intelectual Oswaldo Lamartine de Faria – que ele queira quer não – será amanhã motivo de indagações, pesquisas e estudos.

  De fato, muitos pesquisadores têm-se voltado para o estudo da correspondência de autores, em busca de vestígios culturais e literários que expliquem ou dialoguem com uma tradição que se reinventa, no presente.

  O conjunto da correspondência de Oswaldo Lamartine é um tratado etnográfico do sertão potiguar, com vieses folclóricos e humanistas. Temas de interesse regionais, fauna, flora e tradições sertanejas; bom e refinado humor, estilo esmerado sem perder a simplicidade, composições e arranjos linguísticos: é diverso o conjunto de questões tratadas nas correspondências lamartinianas. Considero um primor estilístico: mobilização com muita arte de tantas conotações que o uso da linguagem possibilita.

  Por fim, alguns fragmentos da correspondência de Lamartine nas quais as temáticas supracitadas encontram exemplificação:

E que neste 1965/ Deus lhe guarde:/Da água, / E de ladeira acima – o fogo. / Do homem assinalado/ e da mulher do papo encarnado. / Do indivíduo caviloso/ e de baba de raivoso. / Dos sentimentos mesquinhos/ e de pote que não esfria. / E das três palavras de castigo: “Esteja preso! ”/ “Eu vos declaro marido e mulher: ” / “e Jesus vai contigo. ” (30 de outubro de 1988).



O caso da onça que deu literatura

Michelle Paulista,

(Republico um dos meus textos preferidos, ainda em clima de Flin)


  O professor, pesquisador, folclorista e etnógrafo Veríssimo de Melo cultivava o hábito de corresponder-se com seus amigos ora para tratar de assuntos pessoais, ora para falar-lhes de poesia, política, literatura ou... amenidades. Tal correspondência constitui hoje um valioso acervo e fonte de pesquisa de indiscutível valor histórico e cultural, pois há nas missivas registros de importantes acontecimentos do panorama artístico-cultural do Rio Grande do Norte – quiçá do Nordeste.

  Espalhadas entre amigos e familiares de amigos, as cartas de Veríssimo, além de acontecimentos relevantes, registram ainda “trivialidades”. Todavia, são as aparentes banalidades do cotidiano o combustível e a matéria prima para as crônicas mais interessantes, se é que podemos falar nesses termos módicos.

   Silvio Rabello, em prefácio de um dos livros de Veríssimo, faz menção a um nome igualmente importante da cena literária potiguar: Nilo Pereira, escritor radicado em Recife, nascido em Ceará mirim, terra que nunca saiu de sua mente e coração. Para Rabello, Nilo parecia escrever “de pijama”, tamanha seria sua naturalidade com as letras. Em muito por seu espírito visionário, Veríssimo já vislumbrava a necessidade de deixar como legado aos pesquisadores futuros o acervo de cartas de que dispunha. A exemplo do que fez com sua correspondência com outros importantes nomes, reuniu algumas das mais significativas missivas trocadas com Nilo Pereira.

 Mais uma vez, o intento do etnógrafo e folclorista, ao publicar parte de sua correspondência, era oferecer às futuras gerações um lugar de contribuição para futuros ensaios e análises interpretativas do fulgurante escritor e humanista norte-rio-grandense, nascido em Ceará- mirim. Nilo, O barão de Guaporé, “valia por uma Universidade”, nas palavras do escritor, acadêmico e ensaísta Manoel Onofre Jr. Em 1992, Veríssimo publica “Nilo Pereira – cartas de emoção e de humor”, pela Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, síntese de uma amizade de trinta anos, grafada em correspondências que, na opinião de Veríssimo, trouxe-lhe “maiores conhecimentos literários e culturais”.

  Em uma das cartas publicadas no referido volume, há uma que chama à atenção pela intertextualidade que estabelece com o célebre romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. No famoso romance realista, Brás Cubas, em delírio, acha-se “cavalgando” em um imenso hipopótamo, a ir em busca da origem dos séculos, sobre planícies de neve...  Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino. -- Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos”.

  Não faremos considerações acerca dos aspectos filosóficos/estéticos/literários que permeiam o excerto machadiano; citamo-lo apenas como referência. Nosso deleite é o diálogo Nilo-Veríssimo. Com todos os perdões, o bruxo do Cosme Velho será matéria para outra prosa.

A onça

  Certamente que o episódio que intitula este artigo é mais pitoresco e – ousamos dizer – verossímil. Não pela narrativa propriamente, posto que há contornos literários. Mas porque se desdobra de um acontecimento real: uma onça que fugiu de um circo em Ceará Mirim, nos idos de 1951. Sobre esse acontecimento, Nilo escreve uma carta, qualificada por Veríssimo como “deliciosa”. Eis um trecho:

“Fiquei imaginando um animal de proporções gigantescas – uma cachorra bíblica ou besta apocalíptica, ─ sobre o vale, uivando de cólera. Os olhos chispam de rancor, as patas sussurram iras sobre os canaviais, a cauda espadana rancor como um látego dantesco. Depois desse delírio machadiano, o felino volta ao natural. E é neste momento que chegamos nós, os caravaneiros, para liquidar o monstro. A hora é crucial. Não pode haver um instante de indecisão. A onça olha-nos de sua toca, sinistra e hedionda. Alçamos a mira. E, ou fazemos fogo, rápidos e firmes, ou o animal, como um demônio alado, se precipita sobre os homens bons, que defendem o vale. Os tiros atingem o alvo. Um uivo de dor atroa os ares. E o vale todo se enche de um bafo morno de ira e vingança. A onça estende sobre o canavial o seu negrume derrotado”. (...) Basta de tanta imaginação, caro Veríssimo. Essa onça já arrancou muita literatura”.  E encerra, sempre muito estilístico: “(...) aqui pingo o ponto final, com um fel no abraço do velho amigo da onça, Nilo”.  (Carta de Nilo Pereira a Veríssimo de Melo, em 23 de março de 1951).

  Homem de leitura que era, Nilo chegou a receber prêmio na Academia Brasileira de Letras (afora ele, somente o mestre Cascudo). Não se discute que lera com “independência” o clássico que conta a história de Brás Cubas. Numa aventura narrativa bem-sucedida, a meu ver, o barão tece um enredo mesclado de elementos místicos/religiosos com aspectos épicos, tendo os caravaneiros (nos quais se inclui) como vencedores. Final feliz! O que intentava Nilo? Metaforizar alguma peleja política? Ou materializar alguma aventura vivida ou sonhada durante a infância nos canaviais? Talvez simplesmente (?) a balbúrdia que se estabelecera numa pacata e provinciana cidade do interior, ausente de expedientes, quando de um acontecimento tão inusitado. Se tentarmos responder, a graça desaparece. Fica a cargo do leitor.

  É de muita felicidade, por fim, a descrição que Veríssimo faz da visão de Nilo, num belo tracejo semântico: “É que ele, apesar de ter sido operado de catarata, ainda vê melhor do que qualquer um de nós. Vê perscrutando. Mais por dentro que por fora”. Decerto, só os de visão de metades, visão privilegiada (veem simultaneamente dentro e fora), são capazes de delirar acordados.



A formiga e o poeta

Michelle Paulista,

Por ocasião da mesa de abertura do FLIN - Festival literário de Natal, relembro o início da amizade com o professor Diógenes. 

(Texto publicado na Revista da Academina norte-rio-grandense de Letras, Edição 47 - abril/junho/2016)


  A data exata, não lembro. Sei que era uma manhã junina. Dias antes, num misto de ousadia e coragem – não são, absolutamente, a mesma coisa – liguei para o escritório do Dr. Diógenes da Cunha Lima, cujas apresentações são desnecessárias. Já supunha as respostas prováveis: “quem gostaria”?, “é sobre o quê?”, “Michelle, de onde?” Mas enquanto imaginava negativas, eis que ouço uma voz grave do outro lado: pois não, Michelle?

  Como assim? Me chamou pelo nome! A secretária deve ter avisado que uma certa pesquisadora desejava falar-lhe e ele... atendeu! Existe, acaso, algo mais gentil que dirigir-se a alguém chamando-lhe o nome?

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  Volto à manhã de junho. Estou na sala do Dr. Professor poeta; frente a frente, estamos. Falo coisas sem ordem; desobedeço ao “script” ensaiado na véspera: tento, sem sucesso, dizer que busco cartas entre poetas potiguares para um projeto acadêmico de pesquisa. Embora leitora de muitos poetas e já tendo estado com alguns, devo confessar que a presença de Diógenes me desconcertou. Não sei se me pus nervosa, alegre, comovida. Diante de mim, um homem tão sensível, erudito, tão bem sucedido nas letras e na profissão, mas de tamanha generosidade e solicitude. Um homem tão... poeta!

  Ainda que eu mobilizasse todas as construções estilísticas que pudesse – ou as tomasse de empréstimo de algum poeta dos bons – custar-me-ia descrever os instantes em que estivemos versando sobre poetas, poesia, vida, amor, Deus. Os olhos marejaram, não nego. Saí daquela sala com alma, corpo, roupa, adornos impregnados de poesia e vida, assim como fumaça de fogueira junina gruda seu odor em todas as coisas.

  Obrigada, Diógenes da Cunha Lima, por me fazer vivenciar tão belo instante poético.

  Com incomensuráveis admiração e gratidão.



FLIN - Natal será, por quatro dias, a capital da literatura

Michelle Paulista,

Nos próximos 8, 9,10 e 11 de novembro, acontecerá o Festival literário de Natal, na boêmia Ribeira. Os entusiastas da literatura esperam ansiosamente por este momento, numa cidade de tão parcos incentivos às letras.

Neste ano, terei  a honra de participar do festival mais ativamente, na mesa “O literário em Veríssimo de Melo", juntamente com o imortal Diógenes da Cunha Lima.

Minha alegria é imensurável. Certa vez, ouvi de um velho professor que nós, amantes e pesquisadores da Literatura, éramos como que zumbis ambulantes. Literatura não vende, não dá votos, não causa frisson. Principalmente a literatura que assim se justifica por seu valor estético. De modo que eventos como FLIN é uma espécie de refúgio, afago às almas que amam a humanização que somente a Literatura promove.

Portanto, queridos leitores, convido todos que me leem a nos prestigiar com suas presenças na quarta-feira, 08, na Tenda Moacyr Cirne para falarmos dos aspectos literários da obra do nosso Vivi.

Eis a programação completa do Festival:

PROGRAMAÇÃO DO FESTIVAL LITERÁRIO DE NATAL - FLIN 2017

QUARTA-FEIRA (08.11)

18h – Tenda Moacy Cirne

‘O Literário em Veríssimo de Melo’

Diógenes da Cunha Lima e Michelle Paulista

19h – Tenda dos autores

MESA 1: ‘Tropicália Lixo Lógico’

Com Tom Zé | André Vallias

20h - Tenda dos autores

Mesa 2: Tropicalismo: inserção & desdobramentos

José Carlos Capinan | Carlos de Souza

Participação Gereba Barreto

21h -Mesa 3 - O Escritor Militante

Com Zuenir Ventura | Mauro Ventura | Edney Silvestre

22h – Palco

Show musical de Tom Zé

QUINTA-FEIRA (09.11)

8h - Abertura do Espaço Sesc/Flin

8h às 9h - Contação de Histórias com Ivan Zigg- RJ

9h às 10h - Contação de Histórias de O Tapete Voador- PE

Com Mila Puntel (atriz e contadora de histórias) & a pernambucana Bruna Peixoto (musicista e contadora de histórias).

10h às 11h   - Um livro para cada leitor: Kalliny Moura e Márcio Benjamin Mediação da jornalista e poeta Michele Ferret

13h às 14h - Contação de Histórias- Ivan Zigg- RJ

14h às 15h - Contação de Histórias- O Tapete Voador- PE

15h às 16h - Traço e rabisco, o que é isso? : Luiza de Souza-RN e Aureliano Medeiros-RN. Mediação de Michele Ferret RN

18h – Tenda Moacy Cirne

‘Nísia Floresta’

Com Diva Cunha e Nivaldete Ferreira

FESTIVAL DE VIOLEIROS

19h – Tenda dos Autores

Tema:  ‘A poesia de Hilda Hilst, por Zélia Duncan”

Com Zélia Duncan

20h – Festival da viola

Apresentações de Sebastião Dias e Zé Carlos do Pajéu | Oliveira de panelas e Zé Viola | Ivanildo Vila nova e Raimundo Caetano | Valdir Teles e Severino Feito | Ismael pereira e Jonas Bezerra | .Aboiador Amâncio Sobrinho

Participação especial: Jessier Quirino – pocket show

22h – Show musical de Zélia Duncan

SEXTA-FEIRA (10.11)

8h as 9h - Contação de histórias Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare-RN

9h as 10h -  Contação de histórias Companhia Pé de Baobá- PB

10h as 11h - Nerd e Otaku: diálogos de força: Gabriel Andrade-RN, Giovana Leandro-RN e Paulo Morais-RN. Mediação de Milena

Intervalo

13h as 14h - Contação de histórias Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare-RN

14h as 15h - Contação de histórias Companhia Pé de Baobá- PB

15h as 16h   Mistura de versos: poesia, cordel e rap: Manoel Cavalcante-RN, Regina Azevedo-RN e Fábio Brazza- SP. Mediação de Carlos Fialho-RN

17h40 – Lançamento da Revista cultural digital #Brouhaha – 2017/01

18h – Tenda Moacy Cirne

“Conversas com Woden Madruga – 60 anos de jornalismo”

Com Tácito Costa, Franklin Jorge e Beatriz Madruga

Os convidados pontuarão a trajetória do decano do jornalismo potiguar, falando em jornalismo, política, cultura, cultura popular, memória, livros, amigos e cartas

19h – Tenda dos Autores

MESA 1: ‘romance: Ficção e Memória’

João Almino e Humberto Hermenegildo

20h – Tenda dos Autores

MESA 2: ‘Vale Tudo em Poesia?’

Antônio Cícero, Nelson Ascher  e  Vicente Serejo

21h – Lançamento de “Entre Facas, Algodão”, de João Almino

(Local: Estande da Cooperativa Cultural no FLIN)

21h10 – Tenda dos Autores

Mesa 3: Literatura e Cinema

Marcelo Rubens Paiva e Carla Camurati

22h – Palco

Show musical de “Os Nonatos”

SÁBADO (11.11)

18h – Tenda Moacy Cirne

“Frei Miguelinho e Manuel Dantas”

Com Edgar Dantas e Gustavo Sobral

19h – Tenda dos Autores

MESA 1: “Políticas Públicas para a Cultura Popular ”

Antônio Nobrega e Luiz Assunção

20h – Tenda dos Autores

MESA 2: “O Rebelde do Traço & Outros Traços”

Jaguar  | André Dahmer  | Claudio Oliveira | Ivan Consenza

21h – Tenda dos Autores

MESA 3: Xica da Silva, a Princesa Negra

Ana Miranda  e Marlui Miranda

22h - Show: Antônio Nóbrega em

 “Um Recital para Ariano Suassuna”

ESTANDES DAS EDITORAS

EDITORA SEBO VERMELHO

Lançamentos:  “Vila Nova – Mito, Versos e Viola” e “Fabião das Queimadas – de Vaqueiro a Cantador” (Irani Medeiros)

Curta-metragem: “O recanto de Carmin” (dir.: Felipe Silva de Oliveira)

EDITORA QUEIMA BUCHA

Quinta-feira: “1927‑2017 – 90 Anos da Invasão de Lampião a Mossoró “,  Livro de Literatura de Cordel (autor: Neto Braga)

Sexta-feira

 “Uma história de fé e cura – Contada em prosa e em prece” (autora: Francisca Fernandes de Oliveira Gomes). Relato da autora, sobre a descoberta do câncer de mama em sua filha. Do tratamento à cura.

  “Aves de arribação-Lendas e canções sertanejas” (Autor: José Leão – 2ª edição. Livro do poeta assuense, publicado originalmente em 1877. Com posfácio de Alexandre Alves

Sábado: “Espelho” – Poesia (Autora: Camila Paula)

Disponível em: http://natal.rn.gov.br/noticia/ntc-27255.html. Acesso em 04/11/17



De Salinas e Poesia: Uma leitura de "O navegador e o sextante", de Gilberto Avelino

Michelle Paulista,

Novamente faço questão de tratar dos poemas reunidos na obra “O navegador e o sextante”, do poeta potiguar Gilberto Avelino. Radicado em Macau e filho do também poeta Edinor Avelino, Gilberto fez das salinas o seu chão poético e a matéria principal da sua poesia. Lançado em 1980, o livro reúne quarenta e três (belos) poemas nos quais a temática principal é a terra que adotara como natal e suas salinas, maresia, lendas e águas coloridas a formarem-se pedras de sal. O poeta também homenageia, em seus versos, alguns nomes do cenário literário potiguar, tais como Jorge Fernandes, Veríssimo de Melo, Newton Navarro, dentre outros. Além de exaltar a sua cidade Macau, Avelino também milita em causas sociais, sempre com o olhar refinado de um poeta que cantou as tradições da sua terra, a beleza das mulheres, a denúncia social e as angústias pessoais. São publicações suas: Moinho de vento (1977), O navegador e o sextante (1980), Pontos cardeais (1982), Elegias do mar aceso em Lua (1984), O vento leste (1986), Além das salinas (1991) e As marés e as ilhas (1995).

Leiamos “O meu canto”, um dos mais belos de Gilberto:

O MEU CANTO

O meu canto quero assim,

Claro, livre, sereno.

Suave de neblinas,

De som de asas de andorinha.

Participante, simples.

Rosa nascendo

Para o prazer

Do olfato e do tato.

Descendo em mão

Para o aperto sincero

De outra mão,

Que padece e anseia.

Eu o quero

Claro, livre, sereno.

E que tenha a saudade

Dos lenços em aceno.

  Em contraste à tensão lida no poema Este canto, não, temos outro canto: o da esperança e do desejo de liberdade. Avelino parece denunciar a ânsia de um novo modo de tratar os salineiros e suas condições de trabalho. É possível, sob outro olhar enxergar, ainda nesses versos, a necessidade de uma poética sem prisões, formatos ou balizas. Para referir-se ao tal canto almejado, Avelino mobiliza os adjetivos suave, participante, simples, claro, livre, sereno. Os termos aqui empregados sugerem leveza, coisa aprazível. Remetem à solicitude de quem estende a mão a quem precisa de ajuda: “Descendo em mão para o aperto sincero de outra mão, que padece e anseia”. (Avelino, 1980, p. 68). Na penúltima estrofe, vê-se a reiteração de como o poeta quer o novo canto, comparando-o ao sentimento de saudade; não à concepção ampla do termo saudade, mas uma saudade “específica”: aquela materializada em lenços usados em despedidas.

  Viva o doce sabor da poética de Gilberto Avelino, poeta das marés e dos cercos de sal!

 

AVELINO, Gilberto. O navegador e o sextante. Natal: Fundação José Augusto, 1980.


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