Entre lanternas e livros

Um escudo, como o do Capitão América

Michelle Paulista,


Gosto das metáforas com heróis: são leves, didáticas e fantásticas.  Nessas aventuras, tudo é mágico e possível e trazê-las para o mundo da vida ajuda a encarar o alucinante dia a dia, como versou Belchior.

Não sei se por consequência da idade (indícios de maturidade?), leituras sobre inteligência emocional ou saúde um tanto debilitada, decidi adotar duas ferramentas no cotidiano – um filtro e um escudo. O filtro é demanda da vida moderna: menos tv, menos grupos de whatsapp, menos barulho, menos aglomeração, menos roupa no armário, menos, menos, menos. Mas a grande “sacada” foi a adoção do escudo. Sim, um escudo é necessário. Nosso corpo é alvo fácil de toda série de ataques. Todos os dias somos bombardeados por agressões – vezes por olhares, comentários ou palavras grosseiras. Já reparou como isso nos faz mal em grandes proporções? Pois resolvi adotar um escudo na tentativa de barrar ao menos parte da energia negativa e perniciosa que emana de certos seres humanos.

Uma resolução. Decidi que tentaria criar um invólucro invisível ao meu redor, tão imaginário quanto consistente, na tentativa de me preservar de algumas grosserias e injustiças que nos acometem de vez em quando.

Foi aí que o “Inmetro” divino resolveu testar o padrão de qualidade do meu escudo e me submeteu a uns testes de qualidade bem rigorosos. Num mesmo mês, vários bombardeios poderosos.

Certo dia, uma antiga conhecida disse numa infantilidade mesclada de estupidez e bizarrice que não “queria ser minha amiga”. Faltaram só os dedos indicadores em sinal de “tô de mal” pra coisa ficar um pouco mais ridícula, posto que foi patética. Dizer desaforos, xingamentos e outras coisas afins me daria um terrível prazer, mas optei por sorrir e dar as costas.

De outra vez, fiz um comentário de solidariedade num desses grupos de whatsapp, na mais cândida e terna intenção e recebi uma interpretação exatamente ao contrário. Descontada a absoluta falta de capacidade interpretativa, ainda houve a grosseria pública. O que fazer? Emendar uma discussão virtual, com expectadores e tudo? Respirei fundo e tentei, sinteticamente, explicar a minha real boa intenção, acompanhada de um pedido de desculpas (pelo que não fiz).

Poderia citar ainda as conclusões e acusações precipitadas no trabalho, os mal-entendidos, os xingamentos e agressões verbais no trânsito, a fúria das pessoas quando passamos uma fila apenas para tirar uma dúvida etc. Escudo. Vamos de escudo.

Todas as vezes que somos afrontados, sentimos vontade de revidar, de dar o troco, de ter a última palavra. Mas será que assim ganhamos sempre? Ganhar uma discussão ou gritar mais alto é lucro? Já imaginou quanta energia dispensada? Sim, somos energia. Somos matéria. Cada vez que revidamos um ataque, que batemos boca, empreendemos força, energia, vida e saúde. Não digo que sejamos corpos dóceis, letárgicos, mas é preciso avaliar aquilo em que VALE A PENA aplicarmos energia. Temos realmente necessidade de ganhar todas as discussões? Que lucro há em bater boca com gente estúpida, afetada, grossa e destemperada? Não é melhor guardar força/energia/vida/saúde para os bons combates – aqueles nos quais se usam argumentos em vez de palavras encharcadas de ódio e imbecilidade?

Sim, é preciso dizer não. Sim, é preciso reagir. Mas é mais necessário AINDA avaliar em que batalhas estamos gastando nossos cartuchos. Como dizem os antigos: gastar cartucho em fogo de palha é tática errada. Sejamos combativos, firmes, destemidos nas causas que realmente interessam e que nos tragam algum ganho. Discutir com tolos e descompensados nos torna igualmente tolos e descompensados, pensemos nisso!

É preciso respirar fundo, avaliar a causa, preparar as armas e usá-las em batalhas mais nobres. Nos embates imbecis, lancemos mão do escudo.

Meu desejo é que Deus tenha encerrado a bateria de testes e não me ponha mais essas provas indigestas: o escudo é frágil, pode fissurar. 



Professora lança livro "Entre salinas e maledicências: Uma leitura do romance Macau em contexto de ensino"

Michelle Paulista,



A professora Aparecida Rego lançará, no próximo 04 de maio, o livro "Entre salinas e maledicências: uma leitura do romance Macau em contexto de ensino". A obra é resultado da dissertação de mestrado da professora, sob orientação do Profº. Dr. Humberto Hermenegildo, imortal da Academia de Letras do RN.

"Macau" é um romance da década de 30, de autoria de Aurélio Pinheiro e é considerado um dos mais representativos da época.

Aparecida Rego é competente professora das redes estadual e municipal de Natal, mestre em Estudos da linguagem pelo PPgEL - RN e traz, nessa pesquisa, relevantes contribuições para a prática de ensino de literatura, algo que aflige diversos colegas professores de Língua Portuguesa.

Certamente é leitura indispensável, sobretudo pelo que conheço de Aparecida nos aspectos pessoal e profissional. Vale a pena conferir.


O poema em sala de aula II

Michelle Paulista,

CONTINUAÇÃO DO TEXTO PUBLICADO NESTA COLUNA EM 05/02/2018, ACERCA DE UMA PROPOSTA DE TRABALHO COM OS POEMAS "ELOGIO À PREGUIÇA" DE JUVENAL ANTUNES E "O PREGUIÇOSO", DE ALMYR LIRA.


Os dois textos possuem evidente aproximação. Não apenas pela temática, mas pela irreverência ao tratar de tão inusitado assunto. Não que a preguiça seja incomum; incomum é tê-la como tema de poemas. Em geral, os substantivos mais comuns em matéria de versos são conceitos mais “nobres”, como amor, alegria, coragem, nobreza etc.

  Juvenal Antunes nasceu em Ceará-Mirim, no século XIX, tendo como irmã a escritora memorialista Madalena Antunes Pereira. Entretanto, foi no Acre que viveu a maior parte de sua vida adulta, ocupando o cargo de promotor público. Juvenal é dono de uma biografia curiosa, pois passava seus dias vestido de chambre, a declamar poemas em homenagem a sua amada Laura, com quem teria vivido um romance clandestino. Existe uma estátua em homenagem ao poeta na calçada do antigo hotel onde residia e vivia de farras pagas “no fiado”.

  Almyr Lira, por sua vez, é nascido em Campina Grande e advogado por formação. Mantém um blog chamado “Cordel, poesia e repente” onde é possível se ter acesso a sua vasta produção de cordéis. Há poucas informações biográficas no blog.

  Nessa atividade, não iniciaremos tratando das noções de rima ou métrica, tampouco se este ou aquele poeta pertence à determinada ‘escola literária’. O texto é o ponto de partida e de chegada. Obviamente, conclusões serão encontradas e conteúdos inerentes às duas produções aflorarão durante a atividade. Mas esse não é o objetivo maior.

A atividade de leitura deve se colocar como uma provocação, para que o leitor, diante do texto, ou seja, dos conflitos, das personagens, de suas experiências, de seu universo, de tudo que lhe revela sua humanidade, possa se colocar frente a si mesmo, na medida em que se depara com a vida do outro, ou se sente tocado pela subjetividade alheia (...). (CRUVINEL, 2008, p.126)

  Podemos dividir a turma em grupos; a depender do número de alunos, uma parte se encarregará do poema de Antunes e a outra parte, do cordel de Lira. Ressaltamos ser fundamental o papel mediador do professor, não para “interpretar” o poema, mas como instigador da leitura de inferências dos alunos.

Chamamos a atenção para a responsabilidade do professor mediador. Antes de tudo, é preciso que esse professor demonstre entusiasmo pela leitura, que a realize com certa efusão e, que, finalmente, seja um professor leitor. 

   

Eis os poemas:

TEXTO 1: Elogio à Preguiça, Juvenal Antunes



Bendita sejas tu, Preguiça amada, 
Que não consentes que eu me ocupe em nada!

Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras, 
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.

Não permuto por toda a humana ciência 
Esta minha honestíssima indolência.

Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã. 

Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício. 

Ó sábios , daí à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento! 

Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em na paz, preparar a luta, a guerra! 

Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões! 

Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas. 

Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas... 

Cresce o teu filho? É belo? É forte? É loiro?
- Mas uma rês votada ao matadouro! ... 

Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz, 

Que arda, depressa , a colossal fogueira
E morra assada, a humanidade inteira! 

Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente? 

Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte? 

Queres riquezas, glórias e poder? ...
Para que, se amanhã tens de morrer? 

Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro, 

Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens? 

Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas! 

Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras! 

Ó Laura, tu te queixas que eu, farsista,
Ontem faltei, à hora da entrevista, 

E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor - por outro amor... 

Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal. 

Que me não faças mais essa injustiça! ...
Se ontem não fui te ver - foi por preguiça. 

Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir... sonhar ...

TEXTO 2 – O preguiçoso, de Almy Lira

O que ora sinto faz lembrar

D’um sermão dito na missa:

- Atire a primeira pedra

Quem, incansável na liça.

Nunca parou pra dizer:

‘Ai, Jesus, que preguiça!’

Mas não é da preguicinha

Do cansaço da labuta

Da fadiga do espinhaço

Querendo u’a cama de juta

Ou depois se empanzinar

Comendo um balaio de fruta

Não! Essa todo mundo tem

É fisiológica, normal

O pecado é o da preguiça

Que o cabra morre no pau

Mas não move um dedo só

Nem pra ir pro hospital

É um Macunaíma da vida

Não sabe o valor do que come

Pois quando ouve: ‘ao trabalho!’

É o primeiro que some

E se o chamam pra mesa

Da cama diz: ‘perdi a fome’

Se o preguiçoso está

Sentindo frio ou calor

Não vai pegar um agasalho

Nem liga o ventilador

E se o mandam ir à farmácia

Logo diz: ‘passou a dor’

Eita cabra preguiçoso

Esse geme de preguiça

Pra se levantar da rede

Nem um par de seios o atiça

E pode ir ver se o danado

Não cheira igual a carniça...!

Brincadeiras à parte

Não concebo um tal seujeito

Sem vitaminas, proteínas

Um Macunaíma perfeito

Mas se existir, o mal está

Num DNA com defeito.

Dividida a turma em grupos, sugerimos que cada aluno, individualmente, faça a sua leitura preliminar, sucedida da leitura em voz alta do professor mediador. Consideramos fundamental a leitura em voz alta, pois o professor certamente usará a entonação adequada, com oscilações no volume da voz ou mesmo uma vez “com tom de riso”, se for o caso.

Em seguida, pode-se solicitar que identifiquem as semelhanças entre os dois textos e de que maneira os poetas abordam o tema. Quem é mais irônico? Quem faz uso de uma linguagem mais popular, regionalista? Concomitantemente, cada grupo se encarregará de fazer um levantamento das imagens mobilizadas no texto; a partir do 9º ano, já é possível identificar as figuras linguísticas utilizadas, as rimas, a sonoridade.

Nessa mesma empreitada, os alunos poderão localizar vocábulos desconhecidos e, a partir de inferências e análise do contexto, recuperar o sentido de cada palavra que não conhece. Apenas em último caso, o dicionário deverá ser consultado, visto que o sentido de uma palavra é construído no contexto em que está empregada e esse “treino” estimulará o aluno a reconhecer as  relações semânticas existentes no texto.

Realizada essa primeira aproximação, o professor pode, se achar oportuno, solicitar aos alunos que pesquisem sobre os autores, suas obras, o gênero cordel. Para estimular a curiosidade da turma, basta lembrar da presença de Juvenal Antunes na minissérie Amazônia, da Rede Globo, papel que teve como intérprete o ator Diogo Vilela. É de muita ajuda a exibição de trechos da minissérie em que Antunes apareça. A depender da realidade local e da particularidade da turma, pode-se pensar numa visita a um sebo ou, ainda, realizar uma oficina de cordéis.

Sobre o cordel de Lira, talvez não seja encontrado farto material sobre o autor, a não ser um blog no qual o poeta publica seus poemas. Outros cordelistas podem ser pesquisados, ou mesmo sugerida uma coleta de informações sobre o gênero: como surgiu, a relação com a cultura popular etc.

Logo, qualquer que seja o desdobramento da atividade proposta, ela precisa fazer sentido para o aluno, precisa propiciar a ele a oportunidade de ampliar sua competência leitora e sua capacidade de fazer inferências; precisa promover uma leitura do mundo que o rodeia:

As competências e habilidades propostas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (...) permitem inferir que o ensino de Língua Portuguesa, hoje, busca desenvolver no aluno seu potencial crítico, sua percepção das múltiplas possibilidades de expressão linguística, sua capacitação como leitor efetivo dos mais diversos textos representativos da nossa cultura. (PCN+, 2006, p.52)

Considerações

  O que propomos aqui não é algo inédito. Muitos professores de língua portuguesa têm-se esforçado para encontrar outros caminhos, outras estratégias metodológicas para uma aula de leitura “interessante”, uma aula de literatura que não se limite à simples memorização de nomes e épocas; de características textuais ou classificação estilística.



Minha primeira vez

Michelle Paulista,



A primeira de todas as coisas é, naturalmente, um marco. Para alguns, é só um início; pra outros é adentrar no inédito.

Sou mãe há 12 anos. E ser mãe sempre foi, pra mim, uma explosão de coisas. Meu filho é a pessoa mais importante da minha vida, ao lado do meu marido e meus pais - em qualquer ordem. Entretanto, nunca encarei a maternidade com o glamour do qual normalmente é revestida: chá de bebê singelo, solidão no resguardo (o que significa isso mesmo?), amamentação traumática, pouco leite, pouco tudo. Paradoxalmente, ver meu filho pela primeira vez foi o maior alumbramento que já vivi. Mas não é um memorial desse período que pretendo fazer.
Posso dizer que sempre batalhei muito pra enfrentar a tarefa mais difícil da minha existência: sem vovós, titias, vizinhas legais, aprendi a "me virar" pra dar conta de uma vida profissional e a vida daquele serzinho tão dependente. Sempre juntos estivemos. Até hoje é pesaroso e assustador deixá-lo ir ao cinema com algum coleguinha, ainda que acompanhado dos pais. Mas eis que recebo uma proposta de trabalho para passar uma semana fora. O que fazer? 
Para alguns que agora me leem, isto pode parecer drama de novela mexicana. Mas, como disse, as primeiras coisas são portais: nos levam para os começos. Pensei em desistir, inventar uma desculpa; pensei até em uma doença deliberada. Encarei. Expliquei que precisava me ausentar para uma atividade profissional, que ele já estava um "rapazinho" e que, futuramente, talvez fosse ele quem precisasse viajar pra estudar ou trabalhar e - estou certa - não levará a mamãe a tiracolo.
Ia tudo bem, até que um silêncio tomou conta da casa, antes do embarque. Preteridos o futebol e as brincadeiras com os colegas de condomínio, pra assistir tv.
Na hora do espetáculo, todo ensaio perde o sentido. Eu fui a primeira a liberar as lágrimas. Imperativas elas são. Não há músculos nos olhos que as segurem quando vêm como torrentes, empurrando as pálpebras, como batedores num evento cívico. Chorei, choramos. Era nossa primeira vez.

Contudo, os dias passaram, fui me acostumando com a ideia, envolvida em trabalho. Percebi que em casa ia tudo bem também. Tudo seguindo a ordem natural das coisas e a constatação óbvia que, apesar de importantes, não somos indispensáveis.

A vida é um tanto assim: abraçamos incumbências, desempenhamos nosso papel da melhor forma. Mas o fato é que as vidas são livres, independem de outras para viver. Ficou todo mundo bem e isto, de certa forma, é também um portal para mais um início: meu filhote já é um rapazinho e eu, apenas mais uma mãe neurótica. 



Kukukaya: precisamos

Michelle Paulista,


(Republico texto de minha autoria sobre a excelente Kukukaya, da qual tenho a honra de ser colaboradora)


Embora vivamos em terreno fértil de artistas e produção literária, falta “paú” às vezes para que nossas artes floresçam.

Talvez tenha sido essa a inspiração para a revista Kukukaya, um dos mais importantes lugares de divulgação da arte, cultura, literatura e poesia potiguares. Conversando com meu amigo Alfredo Neves, ele me contava um pouco da etimologia do termo: palavra de origem cigana que remete a algo que nasce entre dificuldades, regado a suor e lágrimas.

  Creio que é bem assim mesmo: quando tivemos alguma facilidade para tratar de literatura? Literatura não vende, não enriquece, no Brasil é difícil viver de arte em geral, quiçá de literatura... Não dá votos, nem audiência... No máximo, uma condecoração ali e acolá...

  A revista mescla poesia potiguar e nacional, artigos acadêmicos e sobre o cotidiano, crônicas, política, entrevistas. É hoje um importante refúgio para nós, quixotes das Letras, num mundo cada vez mais mecanizado, coisado, “empreendorado”, “proativado” e tantos ados, igualmente discutíveis.

  Diria que a revista traz a grife de Alfredo Neves, amigo, artista plástico, poeta e outros predicativos. Thiago Gonzaga, amigo e pesquisador da literatura potiguar (um dos melhores). Para arrematar, Manoel Onofre Jr., sem apresentações, pois sua figura e nomes assim dispensam.

  É bom saber que suor e lágrimas, líquidos que são, resultaram na virtual concretude da Kukukaya, necessária, literária e artística.



Câmara Municipal recebe visitas de estudantes da Rede básica às suas dependências

Michelle Paulista,

A Câmara Municipal de Natal, por meio da Escola do Legislativo Municipal Wilma de Faria, dá início às atividades do Programa "Escola na Câmara" para este ano letivo. 

O Programa recebe visitas de estudantes da Educação básica de escolas públicas e privadas e consiste em um "tour" pelas dependências da Casa legislativa. Os estudantes têm a oportunidade de conhecer o Plenário Érico Hackradt (onde acontecem as sessões ordinárias e audiências públicas), a TV Câmara, a Biblioteca Carlos Moreno e outros espaços. Em seguida, lancham e seguem para o Auditório da Escola, onde interagem com um dos vereadores (que explica sobre o papel do parlamentar) e, por fim, assistem a uma palestra com um mentor do PROERD, programa da Polícia Militar.

As visitas são acompanhadas pela equipe técnico-pedagógica da Escola do Legislativo e acontecem às quintas-feiras, a partir das 8h.

Interessados em agendar uma visita, basta entrar em contato com a Escola por meio do telefone 3232-9403 ou pelo e-mail [email protected]



Escola do Legislativo faz aula inaugural e apresenta programação

Michelle Paulista,

A Escola do Legislativo da Câmara Municipal - agora Escola do Legislativo Wilma de Faria - faz sua aula inaugural do ano letivo 2018 nesta terça, 13/03. 

Na ocasião, serão apresentados os projetos desenvolvidos pela Escola, tais como "Escola na Câmara", "Câmara na Escola" (que promovem a interação com os estudantes da Educação Básica), "Pensando a Grande Natal" (Ciclo de Discussões acerca das problemáticas da Região Metropolitana) e os Programas "Câmara no Enem" e "Hora-aula", exibidos pela TV Câmara Natal.

A aula inaugural será ministrada por um representante do MPT, com o tema: "Contratos de prestação de serviços terceirizados na administração pública e a Reforma Trabalhista".

Segue programação da Escola do Legislativo Wilma de Faria para o mês de março:

13/03 - Aula inaugural - 9h

14/03 - Oficina: "Processo Legislativo", com Waldenir Oliveira, 9h

15/03 - Workshop "Empoderamento feminino", com Kalina Veloso, 9h

19/03 - Curso de Cidadania para líderes comunitários, Módulo I, 1º encontro (com lanche) - 8h

21/03 - Minicurso: "Regra de ouro: o que é? Necessário mudar? Com Ana Paula (TCE) - 9h

26/03 -  Curso de Cidadania para líderes comunitários, Módulo I, 2º encontro (com lanche) - 8h

27/03 - Minicurso "Políticas públicas para as mulheres", Parceria coma Fundação Ulysses Guimarães - 9h

28/03 - Workshop "Como empreender nas redes sociais", com Vítor Santhiago - 9h


Todos os eventos acima são gratuitos e com emissão de certificado de participação. A Escola do Legislativo Wilma de Faria está situada na Câmara Municipal de Natal, R. Jundiaí, 546, Tirol.


Mais informações: 

[email protected]

3232-9403

99988-5989

99941-7894

@escolacmn (Instagram)




Páreo de mães

Michelle Paulista,


Torna-se lugar comum falar que o mundo está cada vez mais competitivo. Não me refiro às competições salutares da vida – essas são até necessárias e nos impulsionam a melhorar a cada dia. Quem nunca disputou com o irmão ou o colega de classe a melhor nota, o trabalho mais legal da feira de Ciências? O chute mais forte ou o mais belo gol na pelada com os amigos?

Contudo, nada se me apresenta mais curioso e sem fundamento que o páreo de mães. Isso mesmo, aquela disputa entre mulheres que estreiam na maternidade e parece mais um certame, cheio de categorias.

Ainda no período pós-parto, começa a briga: parto “normal” ou cesáreo? Que horror! Mãe que faz cesariana é fresca, não quer sentir dor, não sabe o que é ser mãe de verdade, o bebê vai ter problemas respiratórios... a lista de contravenções é imensa. Depois, a amamentação. Ninguém questiona que leite materno é excelente para os bebês, mas há mulheres que não conseguem, porque não produzem o suficiente, porque os seios ferem até sangrar, porque estão sozinhas, estressadas, desassistidas, porque, porque... Vivi um pouco disso: muito pouco amamentei o meu filho (nascido prematuro), doía muito, não tive orientação, tempos difíceis. Inúmeras vezes, fiquei angustiada ao ver aquelas fotos de mulheres amamentando felizes da vida e satisfeitas, enquanto as sessões pra mim mais pareciam tortura.  Fiquei fora do comercial de margarina; não recebi a medalha de mãe nota 10.

Depois, vem a fase “meu filho sentou com 4 meses, andou com 8 e falou com 1ano”. Fico me perguntando se essas coisas farão dele um gerente de multinacional ou o tornará um ser humano mais... humano! Não deveriam ser o centro das preocupações a problemática da pedofilia (tão horrenda quanto real), a formação do caráter, a construção de um ambiente familiar adequado e sadio?

Li, dia desses, um texto interessantíssimo nas redes sociais: falava do fuso horário de cada indivíduo. Quer dizer, cada um tem um tempo e não ter casa própria aos 30, ter casado e construído família aos 35 e ser concursado aos 40 não significa que estamos atrasados ou à frente das demais pessoas. Estamos simplesmente no nosso tempo! Quem pode legislar sobre o tempo, essa abstração que decorre das mais variadas formas em cada vida humana?

Somando o parco período em que dei leite materno para o meu bebê ao fato de ter tido um parto cesariano (meu filho estava enlaçado no cordão umbilical), devo estar catalogada como uma mãe de quinta categoria, se seguidos os critérios das supermães. Por algum tempo, me senti assim, mas logo percebi que a maternidade é muito mais que um tipo de parto e a quantidade de tempo amamentando.

Não me considero uma mãe infalível, tampouco uma péssima mãe: sou a melhor mãe que posso ser, dentro dos meus critérios e valores. Tenho orgulho de ter abdicado de muitas coisas na vida pessoal e profissional para privilegiar os cuidados com meu pequeno; nunca o joguei em casa de vovó para que eu tivesse uma vida igual a antes da maternidade, terceirizando uma responsabilidade que era minha. Sempre fiz questão de cuidar dele, não hesitei em declinar de empregos pra ficar com ele, de investir tempo em devocionais noturnas – prática que cultivo até hoje – ensinando-lhe do amor de Cristo e de valores humanitários que considero essenciais. Jamais me eximi das minhas responsabilidades de mãe e tenho até certo orgulho dos meus erros, chiliques e excessos.

Agora grandinho, assisto a outra disputa: o filho-troféu. Há uma moda que considero bastante perigosa: os filhos “adiantados na escola”. Tenho visto uma espécie de gosma escorrendo no canto da boca de alguns pais que se envaidecem de terem filhos em séries desniveladas de sua idade. Pessoas assim desconhecem que existe uma série adequada para cada idade, inclusive do ponto de vista legal. “Adiantar” uma criança de série só traz um benefício: os pais podem se gabar disso nas reuniões entre amigos. Por vezes, a criança pode estar preparada do ponto de vista cognitivo, mas provavelmente não o estará do ponto de vista da maturidade. Resultados: adolescentes inseguros, terminando o ensino médio aos 16 anos sem saber que rumo tomar na vida. Claro que não há problema em terminar a 3ª série do ensino médio com essa idade, mas também não há nenhuma vantagem nisso. De que serve a educação “carbureto”? Quem nunca ouviu um depoimento de alguém que entrou na faculdade muito jovem e depois se deu conta de que não era aquilo que queria como profissão? Sem falar nos casos em que um estudante conclui o ensino médio precocemente e passa mais alguns anos fazendo cursinho, o que dá na mesmíssima coisa.

Não intento aqui normatizar a maternidade ou a paternidade de ninguém; antes, pelo contrário. Apenas sugiro que não há um jeito perfeito de parir, de amamentar, de educar ou de ofertar escolaridade. Cada um tem um jeito, do seu jeito, da melhor forma que puder fazer. Seja a melhor mãe que você puder ser; você é seu referencial. Demorei a entender que um parto vaginal, seios fartos de leite e apenas um filho (ainda tem isso, a moda de “mãe de dois, mãe de três, mãe de dez”) não me faz menos mãe que qualquer outra mulher deste mundo. Sou a melhor mãe que consigo ser, dentro das minhas módicas possibilidades e da vastidão das minhas imperfeiçoes. E quer saber? Isso me torna a melhor mãe que o meu filho poderia ter.

A maternidade, enfim, é um poema. Uns a compõem em rimas parnasianas; outros em versos modernistas. Eu, por exemplo, fico com a turma dos Andrade e a Semana de 22.



De gratidão ou sobre Manoel Onofre Jr.

Michelle Paulista,


  A gentileza tem muitos nomes e um deles é Manoel Onofre Jr.

  A bajulação é flácida, não se porta com substância. A gratidão é firme, altiva, de pé. Diria que, se personificadas, a primeira seria uma senhora caquética, cheia de recalques e amarguras, manca e feia. A última, uma jovem senhora de andar endireitado, passos incisivos, cheia de frescor.

  Promessas de fim de ano, faço muitas. Como não consigo emagrecer nem juntar dinheiro, resolvi almejar algo mais possível e nobre. A perda de um velho vizinho boêmio – por quem eu nutria um amor de avô – me motivou uma promessa de fim de ano: jamais deixaria de expressar gratidão por medo da velha mole e feia.

  Neutralizada a velha, fico livre para expressar meu agradecimento sem parecer bajulação. Gratidão de graça, assim mesmo, redundante. Porque gratidão é mesmo superlativa, transbordante: um dos mais belos gestos-sentimentos.

  E em se tratando de Manoel Onofre Jr., vem junto à admiração a sua exuberante simplicidade. A simplicidade de quem carrega um dos mais importantes títulos da carreira jurídica. De quem é imortal com assento na Academia norte-rio-grandense de Letras. No entanto, falo de alguém que sempre me tratou – uma professora anônima da rede pública – como se fosse uma figura de grande notoriedade social. Mais que isso, emprestou-me seu tempo e atenção em conversas fundamentais à escrita do meu projeto de ingresso ao doutorado e artigos diversos.

  Chamo-lhe gentleman. Tenho-o assim. Gentil nas palavras e nos gestos; também o é nos silêncios. Eu seria capaz de passar muito tempo conversando com ele ou ouvindo-o falar de outros grandes, tais quais ele.

  Esse não é um texto para sair em revistas ou jornais. É, digamos, um Hermes de papel, mensageiro que diz por mim: obrigada, muito obrigada, Manoel Onofre Jr. A gratidão tem uma irmã menos virtuosa: a audácia. Não é que ela me autorizou a nos considerarmos amigos? Já me refiro a você como tal. Não me censure. Dessa vez, livre a mim e a velha caquética. É agora culpa da gratidão.

  Junto com a jovem senhora, muitos sentimentos nobres. 

A sinestesia que habita no integrar

Michelle Paulista,


Tenho com as palavras uma relação sinestésica. Algumas são mofadas, umas cheirosas, outras têm forma de um tacape, tamanho seu poder de nos pôr no chão.

Integrar, por exemplo, tem cor e cheiro, pra mim. Acho que é um vocábulo meio verde. Meio azul. Não digo verde-lodo, escuro, sombrio. Seus matizes transitam entre verde natureza e azul céu. Assim mesmo, do tipo propaganda natureba.

É certo que o verde imprime frescor. O azul, ah, o azul... enlevo, regularidade... fluxo contínuo.

Nessa mistura de sensações, começo a ver rumores de impressão colorida, em vez de preto e branco. Parece que o novo ano deseja revestir-se de novos tons – ano cromoterápico. Vê-se um movimento, embora incipiente, de se pintar o mundo da vida de verde e azul, as cores cheirosas e simpáticas da integração. Tarefa difícil, mas de resultados maravilhosos. E o vermelho, cor das sensações quentes, metaforiza as coisas do coração.

Não, não estou me deixando seduzir. Quem é das letras e das lutas e faz dessas coisas uma militância pessoal tem lentes para enxergar que, do outro lado, também pode haver colorações interessantes.

Suspeito de que há uma aquarela diferente no país. De perto, é possível começar a enxergar outros ângulos do mesmo caleidoscópio. Sim, há cores gris. Mas vejo também uma “horda do bem”, seres humanos que se dispõem a cuidar dos animais, das plantas, do planeta, do outro. Para cada tirano, um jovem cheio de esperança; para cada gesto de violência, uma iniciativa voluntária; para cada campo queimado, uma horta orgânica.

Vamos em frente: há esperança em processo. Se bem observarmos, há amarelos saltitando pelas ruas, a aquarela da vida aí está... diante de nós. Já pegou seus lápis-de cor?



Os Marvel em mim – Uma crônica carnavalesca

Michelle Paulista,


Alguns dirão que não tive infância. Teria eu nascido já adolescente/adulta? Tive infância sim, numa família comum de interior, que não era paupérrima tampouco abastada. Vida comum, todas as refeições, sem grandes luxos. Assisti, muitas vezes, à programação de tv na casa da vizinha, todos deitados no chão de cerâmica da finada Alzenir, deleitando-nos com a tv colorida de sua sala, artefato raro naqueles tempos. Anos depois, chegaria uma preto e branco em minha casa. Vi muitos episódios de He-Man, She-Ra, Caverna do dragão, Tartaruga ninja etc.

Mas foi na adolescência que conheci os heróis da Marvel. Sempre os preferi aos da DC. E hoje, podendo pagar pelo serviço de streaming nos televisores sabidos e o ingresso do cinema, não perco um filme dos Vingadores.

Você deve estar estranhando, leitor. Como uma professora pesquisadora de literatura gosta do “lixo ianque”? Talvez pelo fato de não considerar lixo. Assim como existe a literatura de banheiro (aquela consumida na intimidade do vaso sanitário), existem também filmes que esvaziam a mente e alimentam a fantasia. Onde tem dizendo que só podemos/devemos assistir a filmes que tratem das grandes questões da vida? Preciso eu da chancela de alguém na hora de ver uma película?

Mas eu falava dos Marvel. Sou fã confessa do Iron man. Adoro o personagem Tony Stark e admiro a excelente interpretação de Robert Downey Jr. Guardadas as proporções devidas e (espero) perdoadas por algum zeloso, me lembra Macunaíma. É o anti-herói: playboy, beberrão, presunçoso e de grande coração. Não tenho paciência para heróis extremamente bonzinhos; tem um quê de chato nisso. Thor, por exemplo, só ganhou minha simpatia quando assisti ao primeiro filme e vi sua verve rebelde e egoísta, seu temperamento intempestivo: nada mais humano.

Acho que somos um pouco herói da Marvel, assim nos seja conveniente. Somos incrivelmente maravilhosos ao ajudar uma campanha de arrecadação nas redes sociais, chegando a pingar filantropia dos nossos poros. Mas somos igualmente antipáticos quando, de manhã cedo, alguém resolve sentar justamente ao nosso lado no ônibus, mesmo havendo várias cadeiras vazias. Por vezes, vivemos como se fôssemos imortais como Wolverine, apontando nossas garras impiedosamente pra qualquer suposta ameaça.

Amamos nossa melhor amiga, mas julgamos a outra pessoa de quem alguém falou mal, sem sequer ouvir o outro lado. Falamos tanto em bondade, solidariedade, ser do bem, mas somos incapazes de convidar um morador de rua pra cear conosco.

Como Stark, gostamos de aparecer. Escolhemos a dedo a foto e a legenda para “postar” nas redes sociais, geralmente com conotação de extrema felicidade e leveza. Mas daqui a pouco viramos um Hulk, explodindo em fúria, destruindo tudo ou lançando flechas envenenadas como o Arqueiro verde. Isso sem falar nos dramas existenciais do Thor, que usa uma ferramenta de apoio, porque sozinho não é nada; a propósito, qual é o meu martelo e o seu?

Nesse período momesco, em que reinam as fantasias, vale perguntar: Em que muletas pomos nossa crença de poder? Quais martelos, capas, armaduras, escudos e martelos usamos para encobrir nossos eus? Pensemos nisso!

Dando o devido desconto para a manifestação imperialista cinematográfica de Holywood, dá sim pra pensar na vida nossa de cada dia entre uma armadura e outra do Homem de ferro. Fiquemos atentos ao nosso sensor aranha.



O poema em sala de aula

Michelle Paulista,


  Um dos depoimentos mais comuns dos professores de Língua Portuguesa e Literatura é a dificuldade de se trabalhar com textos literários, visualizando a boa recepção dos alunos. Decerto, a resistência deve existir. Entretanto, percebemos a resistência igualmente de muitos colegas docentes em buscar alternativas metodológicas para sua prática. Segundo o professor Hélder Pinheiro (2012), três grandes desafios precisam ser assumidos e enfrentados: os conteúdos de fortes vieses historiográficos – especialmente os de literatura, os procedimentos metodológicos equivocados e, por fim, a dependência quase total dos livros didáticos com seus “manuais do professor”.

  É certo que todo aluno tem direito a conhecer e fruir do texto literário (CANDIDO, 1995). Mas igualmente certo é o fato de que, embora cursem nove anos de Ensino Fundamental e mais três de Ensino Médio, os nossos estudantes apresentam resultados pífios nas avaliações nacionais de proficiência na língua materna, tais como Prova Brasil, Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

  Entretanto, mesmo cientes de tais lacunas, pouco se tem feito no sentido de alargar o horizonte literário dos alunos, submetendo-os a procedimentos estéreis nas aulas de leitura. Geralmente, tais momentos constroem-se a partir de leituras fragmentadas de obras literárias, com as tradicionais fichas de leitura, prescindindo-se o efetivo contato com o texto literário, experiência “pessoal e intransferível”.

  É claro que os aspectos historiográficos das obras literárias devem ser considerados, mas nunca podem ser um fim em si mesmo, sob risco de termos aulas nas quais os alunos passem o tempo todo a olhar para os relógios, torcendo para que a aula acabe logo.

Nesse sentido, pensamos numa proposta de trabalho com o gênero poema, muitas vezes mal compreendido em suas particularidades e pouco utilizado como instrumento de fruição estética e humanizadora. Há ainda que se quebrar o preconceito que persiste na leitura de tais textos, como sendo coisa “de mulher” ou de gente muito “delicada”.

Para tal intento, escolhemos o poema Elogio à preguiça, de Juvenal Antunes e o cordel O preguiçoso, de Almyr Lira, por considerarmos que se trata de um tema bastante sugestivo para o público adolescente.

A temática em si já causará respostas dos alunos: certamente, muitos se identificarão como “preguiçosos” e ficarão curiosos para descobrir qual elogio pode ser feito a quem assim o seja.

Com um pouco de vontade de realizar um trabalho efetivo de letramento literário e um repertório satisfatório de leitura, o professor de língua portuguesa e literatura deve buscar textos que atendam às expectativas dos alunos. Isso pode ser feito a partir de conversas informais, aparentemente sem intenção didática, nas quais é possível “descobrir” as preferências da turma. Num bate-papo mais despojado de contornos de “aula”, vamos ouvindo os gostos, os temas que interessam nossos alunos; vamos traçando uma espécie de “perfil” da turma. Semana que vem, conversaremos mais... Até logo!



Um dever amaríssimo

Michelle Paulista,


Talvez seja uma das expressões mais célebres da literatura nacional, essa de José Dias. Descrito como agregado no famoso romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, José Dias é um personagem deveras interessante. Ou interessantíssimo, como ele provavelmente definiria a si próprio. José Dias amava os superlativos. Era um modo de dar feição monumental às ideias; não as havendo, servir a prolongar as frases. (Dom Casmurro, capítulo IV).

Por expedientes de charlatanismo, JD chega à casa de Bentinho e por lá fica, tornando-se quase da família. Figura caricata, “chupado”, é dúbio, camaleônico. No início da narrativa, é autor da “denúncia” do amor indisfarçável entre Bento e Capitu; ao avançar da narrativa, é peça fundamental à consumação do amor dos dois. Se fora José Dias o responsável pela ida de Bentinho para o seminário, também foi ele quem ajudou o jovem seminarista a sair.

Considero o agregado de Bentinho um dos personagens mais interessantes da obra machadiana. Assim como ele, também sou afeita aos superlativos, especialmente os absolutos sintéticos. Por vezes, transgrido a regra gramatical e transformo tudo em superlativos, desde nome de pessoas a substantivos incomuns. É meu chegado o obrigadíssimo, como o é o endereço de correio eletrônico.

De igual modo, também cometo inocentes maldades quando faço denúncias...

Tolero intolerantes, concedo meio sorrisos, acato um modismo aqui e acolá, um silogismo completo, a premissa antes da consequência, a consequência antes da conclusão. Um dever amaríssimo!

Mas a redenção vem e chega por “Bentinhos e Capitus” que, desmerecidamente, ajudo, poupando-lhes do pagamento das feridas que me causam...

Caro JD, nesses tempos pós-modernos, em que o termômetro de uma vida bem sucedida é uma selfie sem filtros, viver e sermos nós mesmos é, por vezes, um dever muito amargo: um dever amaríssimo!



Pipocas e fror

Michelle Paulista,

Se era imaginação ou realidade...  Vezes tantas, não poucas. Muitas vezes me perguntei: delírio individual, amigo imaginário?

Era um homem moreno, pele marrom. Não era negro, exatamente. Um marrom bem marcado, do tipo coleção de madeira: o marrom longe das cores quentes, justapostas na caixinha de papel.

O expediente vespertino era na praça da Bíblia, meu castelo de Grayskull, hoje apenas um recanto minúsculo na salina motorizada. Eram palestras de horas marcadas, regadas às pipocas de S. Chico da pipoca, lentes grossas e sorriso franco. O velho pipoqueiro esbanjava generosidade, quando não tínhamos moedas e ele nos dava um saco cheinho, dizendo: pegue, filha, são só torreiros – não eram, eram pipocas mesmo!

Lembro-me das pernas. Sim, tortas e paralelas. Inclinadas, organizadamente inclinadas. Mas o sorriso era franco, sem economia. Nada aprovisionado, jorrava e se derramava, permanecendo enquanto durasse a palestra. Era um sorriso arrumado, limpo, uniforme, alegre. Era um sorriso-manhã no meio das tardes. Jamais vi depois uma pessoa que falasse e calasse sorrindo.

Jesus era sempre o tema. Gostava de sentar perto dele na Praça da Bíblia, à tarde, para ouvir ser chamada “frozinha de Jesus”, acompanhadas de gentis exortações afáveis sobre o Filho e o Pai.

Miguel, seu nome? Sim, existiu. Vive ainda nas minhas lembranças salgadas que me sustentam a adultice, adoçando-me a alma...


OBS: Soube, por meio de uma colega, que S. Miguel andou voltando à Salinésia. De S. Chico da pipoca não mais tive notícias.



De roupas, vida e gente

Michelle Paulista,

“No presente, a mente, o corpo é diferente. E o passado é uma roupa que não nos serve mais” (Belchior)

Em tempos de liquidação, observo o quanto a vestimenta virou peça importante na sociedade pós-moderna. Muito além da função primeira de vestir, as roupas são também índice de determinação do sujeito – diferentemente da nomenclatura gramatical.

É nesse período summer que assistimos também aos desfiles de moda e tendências e as roupas da série “tem que ter”. Mas há os que, insubordinadamente, preferem as mesmas roupas do verão passado e as tratam com o critério da funcionalidade: bom estado, tamanho adequado, preço justo. Estou no grupo das pessoas que relutam e usam uma peça de vestimenta até o dia em que se rasga, velhinha, tendo cumprido sua missão...

Preferimos roupas velhas porque elas sabem de nós. Viveram conosco muitas aventuras; dormem coladinha em nós, compartilharam noites de agonia, quiçá de insônia ou noites de sono restaurador. Podemos dizer que estavam conosco nos momentos bons e ruins, como sonha dizer qualquer pessoa - romântica ou não. As roupas são um pouco gente: marcas de ferrugem, um furo aqui ou ali, uma mancha de água sanitária.  Assim somos: cicatrizes, manchas de idade ou doença, avarias que a vida nos dá de coleção. Por vezes, tentamos remendar, costura aqui, ajusta ali, aperta, afrouxa. Já dizia Guimarães Rosa, em “Grande sertão, veredas”: O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

Se prestarmos atenção, um  armário de roupas é uma metáfora da vida: todas expostas,  à espera de ser escolhida para uso.  Banho, cama fofa e a inevitável escolha por um pijama velhinho... As roupas velhas um dia já foram de tecido áspero, cores firmes, mas vencidas foram pelo uso, pelo dia a dia; amarrotadas ficam. Às vezes, por isso mesmo, são descartadas. Sempre haverá os que não gostam da vivência delas, doam-nas ou substituem por uma peça da moda. Mas há também, no equilíbrio da diversidade universal, quem goste das roupas mais experientes, sentem conforto habitando-as. Sentem-se acalentados pelas fibras lassas, afrouxadas.

Roupas velhas são generosas, parecem abraçar. Já não têm a etiqueta espetando a gente; não requerem maiores cuidados, não são melindrosas, aceitam se misturar com tudo que é pano. Não soltam mais cor; não têm necessidade de aparecer. Gosto delas, lembram - me velhas amizades − as que resistem ao tempo − trazem histórias que são um pouco da nossa também; quantas coisas testemunharam? Quantos abraços foram por elas recepcionados, secretárias de corpo que são?

Roupas velhas somos nós mesmos: manchados, um pouco rotos, tentando parecer um tecido vibrante, ávidos de escapar do próximo bazar ou virar pano de chão. Sorte se virarmos roupinha de dormir.



Especialização em Literatura e Cultura do Rio grande do Norte

Michelle Paulista,

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte, por meio do NCCEN (Núcleo Câmara Cascudo de Estudos norte-rio-grandenses) está promovendo a Especialização em Literatura e Cultura do RN, um curso importantíssimo para professores. O curso de Letras apresenta uma lacuna na sua grade, na minha opinião, que é trabalhar de forma tímida a produção artística e literária do estado.

Nesse sentido, a referida especialização cobrirá essa "falta", oferecendo aos docentes conhecer, aprimorar e aplicar conhecimentos sobre as "potiguaridades", tão nossas.

O curso terá duração de 18 meses e a mensalidade custará R$ 190,00, com 66 vagas. 

Inscrições www.sigaa.ufrn.br

Acesso ao edital: http://sigaa.ufrn.br/sigaa/public/processo_seletivo/lista.jsf?nivel=L&aba=p-lato

Confira o folder!


Feliz detox

Michelle Paulista,

Tenho visto as propagandas de detox pós-ceias, mas acho mesmo que precisamos de um detox pós-ano.  Eu mesma já sou uma faxina constante: há tempos eliminei da minha vida pessoas que não têm absolutamente nada a ver comigo. Sei que falando assim, corro o risco da incompreensão: alguns me tomarão por intransigente, ou não-fraterna, algo do tipo.

Mas não. Cada vez mais me compadeço com os mais miseráveis, não tenho dificuldade alguma em doar coisas ou ajudar quem precisa; me envolvi bastante na causa animal (tendo inclusive uma despesa mensal fixa com ajuda para cães resgatados).  

Quando falo em detox, refiro-me a respeitar a mim mesma, minhas vontades e meus limites. Sou obrigada a conviver com pessoas que não me dizem nada, absolutamente; com as quais não tenho qualquer afinidade. Dou-lhes bom dia, empresto meu sorriso, procuro ser gentil e cortês. Entretanto, reservo-me ao direito –por profundo respeito a minha pessoa e saúde – de não tê-las em minha casa, não abraço, não lhes dou dois beijinhos, não curto suas postagens nas redes sócias, acompanhando um “linda”. Que ganho eu com isso?

Alguém dirá: as pessoas vão me achar chata. Problema algum, sou mesmo. Se olharmos pra dentro de nós mesmos, todos somos “chatos”: temos nossa dose de rabugice, de preconceito e de intransigência. Todos nós temos – em maior ou menor medida – aquele hábito de escolher alguém pra “não ir com a cara”. Pode não ser a maior das virtudes, mas nada mais humano que o conflito de conviver. Tenho meus dramas, meus azedumes e os destilo na minha poesia ou afogo-os numa play list bem minha. Já as doçuras, ofereço-as aos mais queridos e aos bichos. Tudo nessa vida é balança, companheiro.  Ao levar o pacote de ser autêntica e furtar-se a fazer média pra ficar bem na fita, leva-se junto a leitura alheia, o julgamento de outrem. Posso garantir: o troco dessa transação vale muito a pena!

Defendo que cada um deve fazer constantemente o seguinte exercício: o que faz bem? Quais pessoas afagam sua alma? Com quais delas você ri de graça? Por que você tem que ir a festas e usar roupas que não o/a vestem?

Jogue fora os papéis, as embalagens vazias que jamais serão reaproveitadas, a roupa apertada para um dia que venha a caber em você. Vá à praia, à piscina, ao chuveiro. Dê-se ao direito de curtir suas fossas, sua tpm, sem a obrigatoriedade de postar fotos diárias de felicidade nas redes sociais, acompanhadas de bordões como “aí, sim”, “suave na nave” ou daquela musiquinha de filme de suspense gravado no quintal.

Nossas dores são nossas amigas: sem elas, não há movimento de mudança.  Faça um detox na vida, na casa e nas relações pessoais: dê uma descarga em gente que não enxerga qualquer possibilidade de crescimento que não seja mentindo, fraudando ou caluniando os outros. Dica: se acompanhado de abacaxi e hortelã, melhor ainda.

Feliz e abençoado 2018 pra você!!!



Sessenta e poucos minutos

Michelle Paulista,

Com votos sinceros de que 2018 seja maravilhoso, republico uma das minhas crônicas preferidas. Que o Ano Novo seja tão lindo como um passarinho...

                Era mesmo de se estranhar. Não era comum aquele ser, contrariamente à sua natureza, em atitude inerte. Como não me interessar por aquela vidinha tão fixamente instalada em um território no qual só costuma frequentar como visitante?

  Cheguei perto e, inusitadamente, ela não ofereceu resistência alguma, tampouco fez menção de levantar voo.

  - Que foi, meu amorzinho? Você está tão quietinha... que foi, hein?

  Peguei-a na mão e pude experimentar um prazer infantil de ter um bichinho daqueles na palma da mão, coisa que jamais experimentara nas terras salgadas da minha infância. Subi as escadas com cuidado, coloquei-a num cantinho da sala. Com um senso de humor que considerei negro, ouvi:

  - É uma rolinha! Isso assada é bom demais!

  - Que horror! Vou leva-la a um hospital de bichos.

  Terminado o banho (eu teria aula logo mais), acomodei-a numa ambulância improvisada – uma caixa de sapatos – e levei-a ao pronto-socorro de bichos. Pedia a Deus que tivesse misericórdia dela, tal como intercedo por pessoas. Já me achava responsável por aquela vidinha – digo pelo tamanho e não pela importância que despertara em mim. No trajeto, ela se debatia, soltava penas e girava na caixa-maca. Chegando ao hospital, debateu-se de maneira particularmente intensa, como se fosse uma bailarina que julgava ser aquela a sua última apresentação. Recusei-me a enxergar o óbvio e me encaminhei à recepção, mesmo sabendo já ser tarde. Ela parecia ter-se recusado a ser atendida e antecipou-se, pondo fim à agonia – mais minha que dela. Resolveu terminar no exato momento em que chegávamos no lugar que poderia ser seu socorro.

  Chorei. A voz embargou. O que fazer com aquele corpo miúdo, agora inanimado? Deixar num cesto de lixo para ser comido por algum cachorro ou outro bicho? Olhei em volta e no calor das 14h, que acentuava o mal-estar, vi uma calçada cheia de flores, com lindas roseiras. Depositei ali a caixa, que de ambulância tornou-se ataúde, como quem participa de um velório de um ente muito querido.

  Entrei no carro com a garganta apertada. Tinha um compromisso, enfim, e estava deveras atrasada. Que diria? Perdão, professora, me atrasei porque precisei levar uma rolinha moribunda ao hospital veterinário. A sensação de impotência me assaltava. Não conseguira socorrê-la a tempo. Talvez se não tivesse me demorado tanto na arrumação...

  Mas precisava ir. Ao menos o jazigo era uma calçada fresca, entre flores, na sombra.

  Resolvi que o melhor seria esquecer aquele acontecimento – como se fosse possível. Mas quando olho para o banco do carona, ela estava lá, na presença de uma pena que me deixou de presente, adorno usado naquela última apresentação.




Linda Natal, linda Baby

Michelle Paulista,

(Por ocasião do aniversário de Natal, republico texto de minha autoria sobre a canção "Linda Baby")


A música linda de Pedrinho Mendes

Parnamirinense de nascimento e natalense de corpo, alma, canto e tudo o mais. Assim é possível começar a falar de Pedro Mendes. Em 1981, há quase 36 anos, ele compôs aquela que seria um dos símbolos de Natal, ao lado de “Serenata do pescador” de Othoniel Menezes.

“Linda Baby” é aquela canção que mesmo os mais desatentos são capazes de dizer “já ouvi, sim”.  Não bastasse a letra constituir-se de uma escancarada declaração de amor a Natal, a música exala “potiguaridades”. Os acordes lembram o embalo gostoso das ondas: ao ouvir a linda “Linda Baby”, sinto-me entrando nas águas mornas do litoral, embalada pela maresia e o ninar das ondas. Difícil eleger o trecho mais emblemático da canção, mas se pudéssemos sintetizar a beleza da composição, bem poderia ser esse excerto:

“Linda terra para a mãe gentil

Belo cai o sol sobre esse rio

E esse rio também está perto daqui...”

Na canção-poema de Pedrinho, o mar é elevado à condição de deus, uma vez que nele habitam muitas vidas: as marinhas e as terrestres. Sim, o mar é casa dos peixes, baleias e o é também daqueles que se sentam diante dele, num fim de tarde, para apreciar a natureza, fazer poema ou uma oração. Mar e rio formam um tecido poético, cheio de cores e sais. “Linda baby” é esse apanhado de imagens, organizadas pela fina percepção artística de Pedrinho, que mobiliza cenários, num jogo sinestésico: cor, visão, sabor. Isso é Natal, palavras do poeta.

O rio que banha a cidade está perto de nós. É o coração da cidade, fonte onde beberam grandes nomes da cena literária do estado. Mas o rio também metaforiza a cartografia afetiva de um povo que vive do Potengi, tem-no como referencial (quem nunca ouviu falar da divisão “do lado de lá do rio – do lado de cá do rio”?)

“Curte-se aqui ao natural

A natureza espalha o nosso chão

Estou cantando a terra que é o meu viver

E acontece que eu estou cansado de dizer”

Há versos que se perdem no vagão do tempo. Entretanto, esses não poderiam ser mais atuais: quase 36 anos depois de composta “Linda Baby”, Pedrinho continua fazendo jus ao gerúndio do quarto verso, estrofe acima: nunca parou de cantar Natal, sua terra, seu viver.

Pedrinho Mendes é mais que “Linda Baby”. Na verdade, coexistem. “Linda Baby” é Pedrinho. Pedrinho é “Linda Baby”. Linda é a música que habita em Pedrinho Mendes. Para mim, com profundo respeito aos demais artistas da terra, Pedro Mendes é hoje a maior representação musical da cidade de Natal.

Obrigada, Pedrinho Mendes, pelo seu canto, sua musicalidade, pelo balanço gostoso que emana da sua poesia musical.

Viva Pedrinho e viva sua lindíssima “Linda Baby”.



Sobre sombrinhas

Michelle Paulista,

(Republico texto já publicado na Revista literária Kukukaya)

Gosto de observar o mundo da vida e, nessa prospecção cotidiana, ainda me surpreendo com certas prosopopeias inusitadas, que muito me ensinam... Esses dias me deparei com uma sombrinha, nem status de guarda-chuva tinha (tampouco o almejava, certamente).

Era uma sombrinha graciosa, de tecido vermelho de bolinhas brancas, toda alegre. Sim, alegre. As sombrinhas são alegres, flexíveis, femininas e cheias de personalidade. Já reparou como essa espécie é personificada? Sombrinhas e guarda-chuvas dão-se ao direito de ficarem onde bem querem. Fazem-se esquecer em lugares tantos.

Acho que, quando entram num ambiente, se gostam, resolvem ali fazer morada... outros, inadvertidamente, entregam-se literalmente ao sabor dos ventos e se curvam à delícia de se deixarem levar... algumas trabalham como bailarinas indispensáveis. Mas eu dizia das travessuras das sombrinhas... Arteiras, elas. Pois uma veio morar aqui e eu precisei dela. Toda sedutora se abriu e não é que não queria de jeito nenhum ficar firme? 

Fez greve, ria do meu aperreio e continuava mimosa, no vestido vermelho de bolinhas brancas. Sombrinha, eu, que aprendo com os passarinhos e amo igualmente os cães, digo-lhe: hoje você me deu uma lição de feminismo, elegância e subversão. Linda, quando crescer quero ser como você: livre, de posições claras e, quem sabe, me deixar levar por alguma boa tempestade!

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