Entre lanternas e livros

Uma razão a mais pra escrever - Por Thiago Gonzaga

Michelle Paulista,

Assim como muitos que amam a Literatura potiguar, sou fã de Thiago Gonzaga.Por isso, reproduzo aqui texto de sua autoria. Vale muito a pena ler:


UMA RAZÃO A MAIS PARA ESCREVER

Li muito comovido o mais novo trabalho do escritor Manoel Cavalcante, “O Menino Livro”, obra infanto-juvenil, baseada em minha história de vida, e que reflete, na verdade, a história de milhares de brasileiros, na luta pela sobrevivência, e outros tantos que são tocados pelo poder dos livros, da leitura, da literatura.

Fiquei extremamente sensibilizado, sobretudo, pela espontaneidade do autor, pois não nos conhecíamos pessoalmente. Todavia, eu já tivera notícia, há bastante tempo da carreira literária do jovem escritor pau-ferrense, que possui sete livros publicados, além de numerosos cordéis, obras estas com que obteve inúmeras premiações em concursos literários de todo o Brasil. Interessante observar que Manoel Cavalcante é graduado em Odontologia pela UFRN, e embora seja um profissional respeitado na sua área,  onde ele mais se realiza, com certeza, é na sua literatura, seja produzindo, ou se apresentando em  dezenas de eventos culturais. Evidentemente, temos que dar as honras também ao ilustrador mossoroense Teo Vianna, que fez um trabalho incrível, captando a sensibilidade do poeta ao transpassar para o desenho toda a força lúdica e poética do texto.

“O Menino Livro”, publicado através da Comunique Editora pelo jornalista e ativista cultural Rilder Medeiros, resume um tanto do que foi a minha trajetória até conhecer os livros, já adulto. A Editora, que iniciou suas atividades, oficialmente, em 2015, especializou-se em publicar livros infanto-juvenis, e já são mais de vinte obras circulando por todo Rio Grande do Norte e algumas cidades do Nordeste. Cerca de 40 escolas já adotaram os livros da editora, demonstrando seriedade e compromisso com o público infanto-juvenil, trazendo temas atuais, como bullying, alimentação saudável, educação para o trânsito, além de outros valores humanos e sociais.

O livro está realmente interessante, não por ser uma homenagem a minha história, mas, pelo fato de Manoel Cavalcante escrever muito bem. Embora seja um poeta popular, digamos assim, ele não usa palavras gastas, palavras banais, ele é muito criativo, inovador, e isso é o que diferencia o bom escritor de outros autores. O livro dele tem valor artístico, por que é esteticamente primoroso. As ilustrações seguem o mesmo padrão da prosa, criativas, inovadoras, captando a essência do texto.

 Sou filho de analfabetos. Meu pai, trabalhador autônomo e minha mãe, empregada doméstica.  Meu pai faleceu por volta dos meus sete anos de idade. Comecei a trabalhar ainda criança, empurrando carrinho de compras de supermercado, para ajudar a manter a casa. Passei muitos anos sem contato com os livros, longe da escola. Até que um dia, já crescido, minha mãe achou uns livros no lixo e trouxe-os para casa. Minha vida tomou outro rumo.

Morávamos no bairro de Cidade Nova, que foi uma espécie de refúgio para as pessoas que tinham vindo do interior, querendo conseguir residências na recém- inaugurada Cidade da Esperança.

Em meio às dunas do bairro da periferia de Natal, adorávamos soltar pipas, andar pelos arredores, correr, subir nas árvores.  Como tantos outros amigos gostávamos de brincar no leito arenoso da rua, ou na calçada em frente de casa. Era tão divertido que nem notávamos o sofrimento da vida que passava aos nossos olhos.

   Numa altura da vida em que deveria estar preocupado com os estudos, em passar num concurso público, eu também lutava pela sobrevivência. A vida era dura, mas não apenas comigo, também com milhares de brasileiros, nascidos e criados na periferia das cidades, que, muitas vezes, não têm oportunidades, seja por falta de orientação dos pais, seja pela inexistência de programas governamentais voltados para essa camada da população.

Nessa época, o aterro sanitário, o famoso forno do lixo, ficava no nosso bairro, e uma das minhas diversões era ir mexer no lixo, com uns amigos; catávamos muita coisa, brinquedos quebrados, etc., mas a motivação maior era pegar ligas cirúrgicas para fazer as nossas baladeiras, um dos nossos brinquedos favoritos.

Acredito que vários jovens da minha geração possuíam grande potencial para praticar atividades criativas e esportes, por exemplo, mas infelizmente, uma serie de fatores, - a luta pela sobrevivência, a falta de incentivo e de projetos sociais -, acabou por levá-los para outro rumo.

  Posso dizer, sem nenhuma dúvida, que os livros me salvaram. Atualmente, sou graduado em Letras (Português-Inglês), tenho duas Pós-graduações; uma em Literatura e Cultura do Rio Grande do Norte (UFRN),e outra em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica (FACEN), e possuo Mestrado em Literatura Comparada (UFRN). Tenho alguns livros publicados, já escrevi inúmeros artigos e ensaios sobre nossa literatura, para revistas e jornais como “Tribuna do Norte” e “Jornal de Fato”. Sou professor e editor da Revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras, além de coordenar um projeto social, que existe a seis anos, denominado “Caravana de Escritores Potiguares”, que distribui livros gratuitamente nas escolas públicas do Estado.

Todavia, ainda tenho guardadas em minha mente as melhores lembranças da minha infância naquele subúrbio de Natal. Cidade Nova é para mim um quadro na parede, porém, ao contrário da Itabira do poema de Drummond, não dói.



Sugestão de leitura: Indez, de Bartolomeu Campos Queirós

Michelle Paulista,


"O mundo não estava dividido em dois, um para pessoas grandes, outro para os miúdos. As emoções eram de todos."(Bartolomeu Campos Queirós)


  O início da narrativa utiliza-se das estações do ano como se fossem personagens de um reino, semelhante àquele das Águas Claras, de Monteiro Lobato. A figura de um reino remete o leitor à fantasia, cumprindo a tarefa de suscitar encantamentos. Provavelmente, essa fosse a intenção do narrador: olhar, do presente, para o passado como um reino distante, em que as divisões geográficas dessem lugar às marcações temporais, às estações climáticas do ano.

Em Indez, temos um narrador onisciente, que decide contar a história delegando a voz ao protagonista Antônio. Artifício literário ou questão de estilo?

Se em Indez essa fragmentação é ainda mais latente, poderia ser sintoma do “eu fragmentado” de BCQ, ainda tentando trilhar um caminho ou atalho para a escrita de suas memórias.

Indez não se divide em capítulos, mas em marcações de tempo, em etapas de um dia, ciclo de vinte e quatro horas. Em vez de usar termos como “alvorecer ou amanhecer”, “entardecer, anoitecer” e “escurecer ou cair a madrugada”, BCQ, por intermédio deste narrador meio distanciado e, ao mesmo tempo, aproximado, escolhe denominar cada fase de sua infância como partes de um dia, numa evidente influência da forte religiosidade do meio sociocultural em que nasceu e no qual fora criado e faz questão de preservar ainda na idade adulta. Numa disposição que sugere extremos, o primeiro momento do dia alude ao seu nascimento e reinado como caçula até que chegasse a irmã mais nova, tendo essa parte a tarefa de imprimir frescor e novidade aos primeiros tempos de vida do menino, ao passo em que o final do dia  representaria o escurecer ou anoitecer, etapa que batiza o momento de separação entre Antônio e sua família (pais, irmãos), por ocasião de sua partida para a cidade de Pitangui, onde passa a viver por um período em casa de avós paternos, cuja despedida fora marcada de rupturas e sofrimentos silenciados.

Acontecimentos comuns como nascimento, batismo, doenças típicas infantis, primeiros aniversários, brincadeiras infantis e outros semelhantes perdem o aspecto de trivialidade e ganham contornos diferenciados graças à habilidade de BCQ no trato com as palavras. Por conseguinte, a sua capacidade de engendrar arranjos semânticos de surpreendente força metafórica, mobilizam recursos de estilo que valorizam a mistura de sons, cores, cheiros e leituras. A culminância desse trajeto é a confecção de um pano estampado de cores vivas e sóbrias, alegrias e angústias na vida de um menino a quem estaria reservado o maior dos dissabores: a separação imperativa da mãe.

O desfecho da narrativa é estranhamente nostálgico e provocador de curiosidade. Diríamos que a nostalgia residiria no fato de o autor-narrador desvelar o “segredo” guardado até então: serem ele e Antônio a mesma pessoa, quer dizer, a mesma pessoa em épocas distintas, e agora já também com personalidade e identidade diversas. A provocação aconteceria pela inesperada leveza que as últimas linhas sugerem; a história se encarrega de arrematar a construção de um caráter poético em Antônio, pois em cada coisa, em cada ser, há recados de Antônio para o autor-narrador. Certamente, o leitor será acometido de grande vontade de experimentar e degustar os outros “ovos” que se seguem após Indez ter sido posto. E uma vez consumindo-os, têm-se o privilégio do sabor de um texto literário de gosto refinado.



Gestos concretos importam

Michelle Paulista,



Tenho escrito muito aqui sobre o atualíssimo “a gente marca”, espécie de virose que atacou as relações de amizade na era das redes sociais. Mas existe algo bem parecido, que é a “comiseração fake”, para combinar com o método do último pleito eleitoral.

Desde sempre, usa-se a função fática da linguagem para as saudações cotidianas, os famosos “como você está?” e “tudo bem?”, quando , na verdade, não estamos nem um pouco interessados em saber como vai a vida do outro, visto que a nossa já é cheia de demandas.

O problema é que as pessoas desaprenderam a ser amigas: amizade virou sinônimo de foto em rede social. Amizade de verdade ficou fora de moda. Refiro-me a ir à casa do outro, acompanhar-lhe numa atividade para não deixar o amigo só, ligar pra saber se o outro está bem, emprestar dinheiro pra comprar o botijão de gás, essas coisas.

Dia desses, numa das minhas visitas ao vale escuro, experimentei uma coisa já fora de moda: uma amiga importou-se com minha causa e agiu. Foi como um unguento num machucado, desses pelo qual a gente chora mais pelo episódio que pela dor física.

Sim, há cores nas estações doloridas. A viagem é positiva, embora o processo seja nauseante e com picos de dores. Elas, as estações, são pedagógicas e reveladoras, tal qual o velho rolo de filme da máquina de fotografar.

A companhia das letras e das artes é premente. Elas fazem seu papel com maestria, ofertando-nos instantes de catarse, ora de alumbramento, quiçá de deleite e inspiração. Mas falo de gente, essa invenção que traz em si a centelha do Criador de todas as coisas. Vejo bolas de sabão bailando nas pequenas atmosferas particulares de cada consórcio de amizade, quando duas almas fazem entre si um pacto de lealdade, amor fraterno e solidariedade.

Pois a amiga pegou o telefone, chamou o mensageiro e enviou o unguento, arcando com metade do ônus da remessa. Sim, o gesto foi maior que o bálsamo. 



O dia em que o texto teve que ser preenchido com clichês

Michelle Paulista,


Há verdades e mentiras nos clichês. Alguns se consagraram porque resultam das observações sobre a vida, partindo de pessoas comuns. Outros são equívocos. Um dos clichês que não fazem qualquer sentido é o que diz que os opostos se atraem.

É preciso só um pouquinho de atenção para perceber que os iguais é que se atraem. Pessoas agrupam-se conforme suas preferências. Veja uma sala de aula em que os alunos não se conheçam: logo, logo os grupinhos se formam, pequenas “panelinhas”, agremiações. E assim o é também entre adultos, vizinhos, confrades, salas de professores, funcionários de uma empresa... Pessoas se declaram melhores amigas nas redes sociais consoante preferências musicais, de programações de lazer, lugares a frequentar etc.

E pensando nos clichês e observando a cena cotidiana, concluo que é preciso admitir que a idade chegou, que a pele não tem mais viço e que estamos passando, muito, mas muito longe, da preferência e do interesse de quem ainda está na casa de idade anterior. Vale, de igual modo, para amizades.  Não, não é uma enfadonha queixa amorosa. É uma constatação ante os arranjos sociais e de amizade que contemplo nessa aventura ora entediante, enfadonha e cansativa de viver.

Por mais que nós, mulheres, nos achemos seguras, maduras, cheias de nós, independentes, o fato é que corremos o risco de contemplarmos os casais que, orgulhosamente, ostentam seus aniversários de relacionamento, sempre acompanhados de depoimentos cheios de orgulho e cumplicidade. Alguns farsescos, é certo. Mas lá estão. Constam. Acreditam-se neles, até.

Por mais que o feminismo tenha contribuído em grande medida pra emancipação da mulher, ainda persiste aquele modelo de quem chama pra sair/jantar é o homem. Mulheres que têm iniciativa são tomadas de dois grupos: se for jovem, é atirada, oferecida. Se for mais madura, é uma coroa desesperada à procura de alguém.

Mas o que ninguém sabe ou percebe ou entende é que nem todo convite traz, necessariamente, de forma subliminar, um pedido de namoro. Nem todo convite pra tomar um café é sinônimo de "tô a fim de você". Às vezes é só a aposta de que o convidado é alguém de papo interessante, que seja capaz de engatar meia hora de conversa sem fazer sinal de arma com a mão ou falar da última dupla de “sofrência”, produzida em série, do momento.



Outra vez, Diógenes da Cunha Lima

Michelle Paulista,


Todas as vezes que subo determinado viaduto, lembro-me dele. Há viadutos e viadutos. Este é encaracolado, dá até certa diversão. A gente vai experimentando uma espécie de decolagem, subindo afoitamente a pista e, do alto, consegue contemplar a emenda dos dois municípios: de um lado, a cidade Trampolim, que ainda não se deu conta de sua grandeza e se comporta como adolescente, espécie de anexo da capital. Do outro, a capital do estado, majestosa e confusa em seus próprios limites.

Já em cima, momento curto, vejo um quadro celeste que me remete ao firmamento do planalto central – azul claro, adornado de muitas nuvens. Se acontece esse momento nas primeiras horas úteis do dia, é possível ver os primeiros raios de sol se estabelecendo, escolhendo os lugares que vão abrilhantar.

Todas as vezes, me lembro dele. E fiquei pensando, certa feita, por quê?

Acho que ele tem ares de manhã nascendo. Nos seus mais de 80 anos, ousa ostentar uma pele firme, viçosa. Ela assim o é para combinar com a polidez dos seus gestos e a grandeza de sua poesia. Quando estou perto dele, sinto-me subindo numa montanha, quase uma decolagem de avião, entre as nuvens, abraçada por incipientes e matinais fios de sol.

De muitas formas, fui agraciada com sua gentileza e, ao seu lado, vivi grandes alumbramentos. Alguns públicos, como na ocasião da abertura do FLIN em 2017 e do FELICCIDADES (Festival literário e cultural das cidades) em 2018. Outros, reservados, em seu escritório, quando me levou às lágrimas com sua poesia e seus depoimentos sobre Deus, vida e amor.

Às vezes, quando sinto saudade, ligo pra ele. De outras vezes, ele me surpreende com um telefonema, dizendo que eu lhe vá visitar. Diz que tem novidades, que me quer bem. E eu me sinto novamente aquecida pelos mesmos raios solares da decolagem na subida do viaduto.

Todas as vezes que subo determinado viaduto, lembro-me de você, Diógenes da Cunha Lima, poeta do meu coração, dono dos mais significativos afetos que carrego. Você é experiência incrível de contemplação da paisagem das cidades sobre uma montanha de concreto entre duas urbes. Vida longa, meu poeta!



Gosto cheiro de plástico

Michelle Paulista,


Aquele plástico com fedor cheiroso que envolve as caixas de brinquedos comprados em magazines. Aquele plástico. O cheiro-gosto dele. Era isso que eu sentia. E subia e me fazia inventar, desafiadoramente, uma careta que não fosse dor ou nojo; fosse a expressão do gosto daquele plástico na boca, mastigado.

Nas pioneiras horas, acordei com as comuns dores. Íntimas- dores de corpo, dor de alma, dor de ausências e presenças ( é certo que há gentes que doem). A urgência em viver. A decisão de não dar corda aos questionamentos existenciais que ficam espremidos no portão da sala do pensamento, refletindo sobre os sentidos: da vida, da morte, de tudo e de nada. São mal educados, esses questionamentos. Não vêm ordenados, empurram-se, acotovelam-se.

E não estranharia se tivesse o gosto daquele plástico de fedor cheiroso. Cheiro de fuga, de transposição de momentos, de “tenho brinquedo novo”, de décimo-terceiro (fortuna dos menos abastados). O plástico. O cheiro.  Mas, para alento, resiste o  afeto operoso e vigilante, captando os empurrões e maledicências dos nada polidos questionamentos. Odores, pensamentos, existir.



Perguntas e acasos

Michelle Paulista,



Não sei se o destino de cada um está traçado. Não sei se cada um faz sua jornada. Às vezes penso que nossa sorte (expressão aqui tomada como desdobramento, curso de vida) é a interseção de inúmeras e simultâneas ações humanas. Talvez o ato de alguém comprar pão e leite nesse momento na padaria do bairro, de alguma forma, cause alguma implicação na minha vida. Não seria o exercício de viver uma espécie de jogo de dominó, em que cada peça escolhida e encaixada mexe no jogo do outro?

Enquanto rabisco agora sob a luz do abajur que faz as vezes de abraço, penso: o que faz agora uma mulher de minha idade, também professora, mãe de um filho, que adora comprar esponjas de lavar louça, escovas de dente e papel higiênico e que mora na Nova Zelândia?

Quem, além de mim, almeja uma companhia tão incrivelmente interessante a ponto de me fazer desejar fazer a sobrancelha e colocar a manicure em dia?

Não sei se me confortariam uns versos dos bons. Se me fazem pensar na finitude da vida e na imensidão do universo, rejeito-os. Tem-me pesado o exercício diuturno de observar as cenas da vida e suas pequenas grandes questões. As respostas fogem de mim e eu me apavoro delas, não comungamos caminhos.

Quero o agora, o efêmero, o dulçor dos instantes descompromissados, fragmentos de vida coloridos, que durem o suficiente para provocar , oportunamente, riso no canto da boca, enquanto dirão, na sala de espera do médico “ela é louca, ri sozinha, do nada.”



No provador

Michelle Paulista,


Sempre fui meio intrigada com provadores de lojas, especialmente as de departamento. Começa pelas roupas produzidas em série, nada exclusivas, calças extremamente compridas, como feitas para corpos longilíneos, bem distintas do padrão da mulher potiguar.

Mas eu falava dos provadores. Dispostos numa espécie de beco, mais parecem banheiros químicos de festa de rua, visto que são pequenos e desconfortáveis. Acho que quem os projeta não os usa, porque não há praticamente lugar para que alguém, confortavelmente, experimente peças de roupas ali. Alguns, mais generosos, dispõem um banquinho, o que nos leva a tomar a difícil decisão de escolher sentar ou acomodar as peças de roupas. Alojadas a peças a serem submetidas à sabatina do corpo, o desafio é achar lugar para colocar nossos pertences (bolsa, óculos) e mesmo as roupas que já trajamos.

Eu detesto provadores; fico tonta e enjoada neles e olha que não sou claustrofóbica. Incomoda-me o ritual de ter que passar pelo quartinho apertado, olhar a expressão mecânica da mocinha que está louca para que o shopping feche, acompanhada da invariável fala: deu certo? Eu sempre me divirto, tentando adivinhar se ela falará “deu certo” ou “deu certo alguma coisa?”

Talvez eu não goste de provadores de lojas de departamentos porque os veja sob a perspectiva do imbróglio e não do ensaio. A gente veste uma peça e até se imagina usando-a em alguma situação real, mas o fato é que quando a usamos, o efeito nunca é o mesmo. Talvez seja meio louco da minha parte, mas todas as vezes que passei pela etapa do provador-banheiro de rua, invariavelmente voltei para trocar a peça ou a encostei num canto, destinando-a mais tarde pra doação.

Eu prefiro a pulsação de vestir mesmo uma peça em cima da outra, no meio da loja e desfilar à procura de um daqueles espelhos distribuídos generosamente. Também gosto de adquirir a peça “de olho”, levando pra casa e descobrindo, deliciosamente, se ela me veste. Isso é relação. Assim é com tudo: levamos pra casa e vamos convivendo, às vezes apertando aqui e ali, fazendo um reparo, costurando ajustes, arriscando-nos a ficarmos nus.

O provador me subtrai a possibilidade de não ser vestida por aquela peça; me tira a certeza de que a indumentária dará certinho. Não ir ao provador é, sobretudo, a deliciosa incerteza de saber-me despida.



Ex- crevendo

Michelle Paulista,

Escrevo como quem rouba. Como quem delínque. Como quem engendra verdades enlameadas de ficção.

Escrevo como quem afunda, como quem se suja nos dejetos do exercício de viver. Escrevo como quem tem os dedos rasgados de segurar tão fortemente na corda que lhe é lançada nas horas estressadas de ser.

Escrevo, pois, solenemente, num arrepio de agonia, num arroto de existir, bolhas de sabão saindo de dentro, sabor de sardinha enlatada. Estranho familiar doloroso gosto de saber-se viva, regurgitada  boca afora.

Escrevo por necessidade, por fuga, por masoquismo. Por falta, por excesso, por perceber-me incabível, inquieta, inconveniente, inviável, in-vida.

Por ora não mais penso, apenas escrevo. E o faço entre o gosto de detergente na boca e a flecha que comprime o estômago.

Ex-crevo. Ex-isto.



Academia Macauense de Letras e Artes

Michelle Paulista,


No último dia 06 de dezembro, aconteceu a posse dos membros da AMLA - Academia Macauense de Letras e Artes. Em noite de muita emoção e arte, os agora imortais puderam dividir a emoção com familiares, amigos e autoridades no Lions Club de Macau.

A AMLA tem como presidente o poeta Horácio Paiva e Tião Maia como primeiro secretário. 

Da esquerda para a direita, na foto:

Jonas Lemos, Francisco Carlos, Getúlio Moura, Marlúcia Paiva, Getúlio Teixeira, Gilda Avelino, Herbert Martins, João Lino Dantas, Luiz Gonzaga, Ribamar Filho, Padre Murilo, Michelle Paulista, Saddock Albuquerque, Alfredo Neves, Horácio Paiva e Tião Maia. Ausentes por questões de saúde: Cláudio Guerra e Vicente Serejo.



A briga da água com o garfo lambido

Michelle Paulista,


Eu esfregava com vigor, inclinei o dedo polegar para que a unha ganhasse função de espátula. O atrito era macio, um bolinho de arroz grudado no metal. Aquele talher tinha sido lambido por carregar um delicioso arroz cremoso, ensopado com manteiga. Arroz diferente, feito com carinho e degustado quentinho. Mas agora grudava no talher e atrapalhava o término da tarefa de lavar louça.

Pratos e copos lavados, era esse artefato que dava trabalho de limpar. Então, soltei-o na pia, onde havia um pequeno açude de água e espuma. Deixei-o lá, esquecido, para brigarem – água e resto de arroz, até que um vencesse o outro.

Mais tarde, fui ver o resultado da peleja: o resto de arroz no garfo lambido sucumbira e a água, vitoriosa, fez o que normalmente fazem as águas (metafóricas ou denotativas): removeu o resto de arroz grudado no talher.

Assim é também o cotidiano: esforçamo-nos para remover resquícios, empunhamos nossas unhas e tentamos remover sujeirinhas incômodas. Mas há coisas que, de tão bobas, não valem a pena gastar unha. Há coisas que só a água resolve, nas suas diversas formas. Chame a água-choro, a água-banho, a água-mar, a água-suor. Chame a água.

Aquele garfo lambido de comida gostosa e quentinha pode ser agora um resíduo que precisamos eliminar. Abandone-o por um tempo na água. Ele amolecerá e você passará uma esponja macia, mas fatal. Uma esponja definitiva.

E depois, como sugestão, tome um banho de mar. 



Semana de excelentes lançamentos de autores potiguares

Michelle Paulista,

Semana de novidades editoriais:


Uma faca, dois gumes é o título da coleção criada pela Vento Cartonero, editora que trabalha individualmente as capas de livros, elaboradas em papelão reciclado, na cidade de Santa Maria-RS. Abre essa coleção, em volume único, os livros “Arredado pé” e “La Horda”. O Arredado pé de Humberto Hermenegildo se junta à Horda de Elizabeth Cárdenas. Poesia latino-americana – territórios irmãos de duas línguas que, embora muito próximas, têm raros lugares de encontro. Brasil (Nordeste) e Chile (Santiago), dois gumes neolatinos a denunciar conceitos inoperantes: “De boas intenções / a rua anda cheia” (versos do poema “Fraternidade”, de ARREDADO PÉ); “nunca fue día en este país /una hostia eterna en el cielo intenta cubrir el sol” (versos de LA HORDA).

O livro pode ser adquirido no seguinte endereço:
https://www.facebook.com/ventonortecartonero/
Boa leitura!

Também nesta semana, a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e a Bagaço convidam para o lançamento da COLEÇÃO LETRA VIVA POTIGUAR que reúne os autores: Bartolomeu Correia de Melo, Eulício Farias de Lacerda, Manoel Marques Filho, Manoel Onofre Jr., Tarcísio Gurgel, Violante Pimentel e Nelson Patriota.
Dia: 28/NOV/2018
Horário: A partir das 19h
Local: ANL – Rua Mipibu, 443, Petrópolis, Natal/RN



Arrevessos de ódio no meio da rua

Michelle Paulista,


Os grandes temas da vida estão escancarados no cotidiano e parecem nos caçar em dias nublados para dispararem aquele momento reflexivo.

Pois eu saía de um lugar “pesado” – sim, existem, para além de qualquer imaginação – e tais lugares parecem funcionar como uma esponja, sugando toda e qualquer vibração positiva.

Não deveria ser preciso apresentar meu currículo de motorista. Faço isso desde a adolescência, sem nenhum incidente que desabone minha trajetória de condutora. Mas isso não faz a menor diferença quando o machismo e os ódios alheios afloram.

Andava pelo centro da cidade, devagar com todas as cautelas, no exercício de respeitar os pedestres e dirigir com prudência. Ao entrar numa rua estreita e de trânsito absurdamente desordenado, sem faixa de pedestres e semáforo, fiz com cuidado e pouca velocidade. Elas tentavam atravessar a rua, correndo com sacolas, por entre os carros, driblando-os. Parei e fiz sinal para que atravessassem caminhando, com tranquilidade, a passos, sem correr.

Foi então que ouvi um xingamento; não tenho dúvida de que era maior que o calor que  assolava. Não distingui claramente, mas era algo relacionado a ser mulher, juntamente com outros adjetivos do tipo imbecil, idiota e outros semelhantes. Era um vômito de impropérios, misturado com pedaços de frustrações, machismo feminino e uma absurda necessidade de agredir alguém.

Certa feita, escrevi sobre como seria oportuno termos uma espécie de escudo igual ao de Steve Rogers. Nessas horas, é vital lançar mão dele e pensar que aquela investida odiosa é um problema de quem agride e não nosso.

Dirijo muito bem, obrigada. Faço isso com muita responsabilidade há quase 25 anos. E confesso que acho chato, mas acho fácil também. Difícil mesmo é compreender como nós, mulheres, temos uma grande responsabilidade: fazer com que outras mulheres não precisem recorrer ao exercício do machismo e da desunião para atacarem umas às outras. Que os ódios guardados nas mais profundas infelicidades sejam substituídos pela gentileza, pela polidez e pela empatia. Tenho fé. 



Sobre mudança de rota e leveza

Michelle Paulista,


Rota comum, trivial, a de todos os dias. São três, mas todas comuns, repetidas, deliciosamente rotineiras; que rotina, em certa medida, também é parte do viver.

Ouvia a rádio preferida, quase amiga que , carinhosamente, reproduz as canções que me afagam a alma. Pensava demandas, agenda do dia, requerimentos do filho – a chuteira nova, a bolsa escolar que rasgou, vencida pelo peso dos livros e dos dias, a festa da escola, a ida ao shopping – o carro pra lavar, a calota que sucumbiu ao asfalto pra repor.

De súbito, ela entra no meu campo de visão. Rosto rosa, cabelos de um loiro gasto e mal cuidado. Eram tantas e fartas as lágrimas, que precisou tirar os óculos pra contê-las. Chorava copiosamente, alto. Eu  conseguia ver o som do choro, pelo vidro fechado.

Segui minha rota. A agenda. Os pedidos do filho. O horário do trabalho. O carro e suas calotas.

Tentei dançar a música massageadora do rádio. Sem êxito. As lágrimas da outra me pesavam, mesmo dissipadas pelo vento e sol do instante.

Tive que voltar. Ela deve ter tomado um susto; carro parando e abordando-a, do nada.

Disse estar bem. Não precisava de ajuda. Ficou grata.

Eu atrasei um pouco, mudei a rota – do trajeto e do dia. Mas a consciência... essa ficou ao ponto de flutuar com o peso da situação experimentada.



Literatura Fantástica em Cordel: uma empreitada na sala de aula da Educação básica

Michelle Paulista,


Contos clássicos da literatura mundial com um sabor bem nordestino

A literatura de cordel, presente na vida de quem nasceu no severo e maravilhoso nordeste desde sempre, fez uma incursão inesperada e desafiadora: mergulhou nos contos da literatura fantástica do século XIX e nos brindou com esta obra no mínimo curiosa.

Um desses bravos professores de Literatura – gente que faz de tudo e mais um pouco para promover a leitura literária na escola – Daniel Nasser, resolveu desenvolver um trabalho em sala de aula, tão lindo quanto inusitado.

Fruto do trabalho das turmas de literatura de 7º a 9º anos da Escola Ressurreição (Macau/RN), o livro é um apanhado dos autores mais diversos como Gógol, Balzac, Dickens e Machado de Assis, entre tantos outros ilustres mestres, traduzidos em cordéis escritos pelos próprios alunos.

O resultado da empreitada foi um livro sobre a descoberta de uma nova literatura: um amálgama entre o árido e o frio deserto de ilusões desses antigos cânones e esses jovens estudantes desbravadores!



Com qual roupa se come sushi?

Michelle Paulista,


Na volta da votação, me deu vontade de comer sushi e parei num restaurante de comida japonesa. Era na cidade verde, bairro que pertence a Parnamirim mas que alguns moradores fazem de conta que é zona sul de Natal. Entrei e de repente todos os olhares se voltaram pra mim. Eu não estava vestida de gestora, com a bolsa baú, sapato alto e usando Angel. Eu estava com a camisa de um partido, de short, de sandália baixinha. Eram nítidos os olhares  de assombro, muitos de narizes empinados ,talvez se perguntando: o que essa lascada  veio fazer aqui? Uma senhora discretamente me cumprimentou. Os demais, cochichavam. Fiz meu pedido, comi: estava uma delícia.
Esqueci de dizer que eu portava uma bolsinha pequena, comprada no camelô, onde estavam meu livro e documentos. E, claro, o cartão de débito, com o qual eu poderia pagar qualquer coisa que quisesse consumir ali. 
Eu sou essa, sou várias. Uso perfume francês e uso também a lavanda do supermercado. Ando de salto e de Havaianas. Uso vestidos bons e, do mesmo jeito, uso confecções de Fortaleza e Caruaru. Adoro ser várias; eu posso ser o que eu quiser. 
Anteontem, almocei no meio da rua, no frango da esquina. Ontem comi sushi. Ontem fui votar, hoje começo a resistência. Que se danem os olhares, vamos por mais, vamos sem medo! 



I Feliccidades, sucesso de crítica e público, movimentou Parnamirim esse fim de semana

Michelle Paulista,

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Aconteceu, nos dias 18, 19 e 20 úlitmos, o I FELICCIDADES, Festival literário e cultural das Cidades. O evento teve como palco o colégio PH3 e os auditórios do Yázigi. Com vasta programação, o festival reuniu artistas, músicos, contadores de histórias, poetas, mediadores de leitura e, claro, estudantes que foram prestigiar um verdadeiro banho de cultura e arte.

Na conferência de abertura, aconteceu a Palestra: "A importância da obra de Gilberto Avelino", grande poeta das salinas e da literatura potiguar. A mesa contou com a professora e pesquisadora Michelle Paulista e o professor Diógenes da Cunha Lima, presidente da Academia norte-rio-grandense de Letras.Na ocasião, foi feita uma linda homenagem ao professor Diógenes, encenada por estudantes do Ensino Fundamental, a partir de uma obra para crianças, de Diógenes, a partir da história de Câmara Cascudo.

Outras presenças marcantes no evento: José de Castro, Eva Potiguar, Araceli Sobreira, Ana Cláudia Trigueiro, Edilberto Santos, Francisco Martins, Gilvânia Machado, Elizabeth Rose, Humberto Hermenegildo, Horácio Paiva, Thiago Gonzaga, Rejane Souza, Marcos Medeiros, Salizete Freire, Drika Duarte, José Acaci, Oreny Júnior, Marconi Branco, dentre outros. No ginásio da escola, aconteceu também feira de livros e sebos.

Outro momento marcante foi a "Rua brincante", local onde crianças se divertiram com brincadeiras clássicas como amarelinha, pé de lata, bonecas, roladeira... tudo a partir da obra de José de Castro. 

Aconteceu, ainda, um concurso de poesias, com participações de estudantes de escolas municipais, dentre elas a Escola Municipal Jacira Medeiros, cujo diretor, Edilberto Santos, era um dos organizadores do evento. 

O cenário estava lindo, as palestras com temas interessantíssimos, tudo muito organizado.

Esteve presente também a professora Angélica Vitalino, idealizadora do projeto "Parnamirim, um rio que flui para a leitura".

Parabenizamos à professora Francisca Henrique, diretora do PH3, pelo olhar visionário e sensível à cultura e às letras potiguares. 




Eu, essa ilha

Michelle Paulista,



As pequenas gotas salgadas ou o lento-rápido submergir? Coisa difícil era eleger qual deles era o protagonista desse meu espaço e momento nos quais trafego agora.

Predominava em minhas vistas o azul- esbranquiçado- marrom -meio verde da água ao redor. Era quase um alvo daqueles de atirar. Ao redor da bola central, vários outros círculos, assim como se espremendo, empurrando o círculo menor. Até ali se via a opressão e o poder que uma força maior tem sobre algo que teima em existir e resistir.

Eu era quase uma ilha, envolta de livros, pessoas, lista de compras, boletos bancários por todos os lados. Também me cercavam os aplausos, os elogios, o falso glamour, a conta bancária, os parentes. E eu não alcançava a boia, embora, de certa forma, ela estivesse em minhas mãos.

Os intervalos eram resultados de uma cansativa maratona de empurrar pensamentos positivos juízo abaixo. Tão curtos os intervalos, que não valiam a pena almejá-los. Não se podia avaliá-los intervalos, mas pequenas sobras de tempo em que as gotinhas salgadas não achavam lugar.

Insistia em me vestir de amarelo e vermelho, essas cores-tudo. Insistia em muitas outras coisas, até mesmo em insistir. Uma estranha iniciativa de fazer-me resistente, como um militante que não abandona o front. E elas, as amostras.

Amostras de vida têm gosto. Falo de paladar. Para cada hora do dia, um sabor diferente. Excedem o salgado/doce/ azedo a que somos familiarizados.

 Algumas amostras de vida têm gosto de arroz queimado, resultado de uma postura de que as coisas não vão acontecer; vou deixar o arroz no fogo, ainda tem muita água. E, de repente, o cheiro invade a casa, a panela fica quase imprestável, com as marcas de queimado ao fundo. A refeição fica incompleta, sem o elemento básico, parelha do feijão nosso de cada dia.

Há também o gosto de detergente de louça, quando tentamos abrir o bico do vasilhame com os dentes, desdobramento de minimizar o efeito horrível do líquido espumante que, ao atingir os dentes frontais, escorrem pela língua e provocam gosto terrível. É o gosto derivado da certeza de que podemos manipular substâncias indevidas, achando que sairemos incólumes.

Há o gosto de sabão na boca, de sangue na língua, de água de praia no nariz. São os sabores que a vida empurra cotidianamente e a que somos obrigados a deglutir. Mas há quem não perceba esses sabores e desfrute da incrível feliz alegria de conhecer apenas os palatos tradicionais, doce, azedo e amargo.

Morro de inveja de quem vive uma vida de triplo sabor; almejo ter somente os dissabores clássicos da existência: falta de dinheiro, filho doente, fila de ônibus, boleto atrasado. São sabores palatáveis.

Mas olhando para o meu oceano particular e para a boia que vejo em minha mão e não consigo enxergar, as amostras de vida- de minha vida- com seus sabores exóticos adentram agora minha matéria; não poupam narinas, ouvidos, boca, olhos: experimento-os por todos os órgãos do meu corpo. Sabores cruéis.



1º Festival Literário e Cultural das Cidades

Michelle Paulista,

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Pequeno conto (des)florido ao pé da porta

Michelle Paulista,


Eram duas. Embora parecidas, cada uma conduzia a um trajeto diferente. Opostos eram. Não se dava o caso de apenas optar por uma ou outra; antes, precisava posicionar-se ao menos de pé diante de uma delas. Chamou de portas, por falta de coisa melhor. Era assim, de olhos fechados, que metaforizava as opções que a vida lhe impunha naquele pedaço de viver.

Por trás, alguém lhe sufocava o pescoço, com unhas encravadas no couro que revestia sua cervical. A pele não é tão elástica nesse lugar, o que tornava o instante tão dolorido como inusitado.

De dia, tudo era amarelo. Cor alegre, iluminada, cheirinho de flores e pasta de dente. O lápis de olho, em parceria com a máscara de cílios, ajudava a dar um ar de causar inveja nos inocentes.

À noite e em dias não úteis, a evidência se estabelecia de forma implacável. As muitas flores desapareciam, como se uma criança as tivesse apagado de uma pintura no papel. Possuía várias delas, mas nenhuma era, de fato, sua.

Muitos queriam seu jardim, daria tudo para tê-los ou simplesmente regá-lo. Dessa forma, era capaz que trocasse os vastos campos floridos por um único e real botão de girassol. Um girassol que secasse e sujasse o jardim, mas um girassol.

Sublimadas as roseiras, sobravam as portas. Não tinha clareza se eram tubulações ou estrada aplainada. Não sabia sequer se elas poderiam ser abertas. Ou fechadas.

Do outro lado de cada uma dessas coisas-portas-entradas, havia um irrestível motor de sucção, tão apavorante quanto sedutor. Todos os clichês residem nas encruzilhadas da vida. Não é possível estilizar o aperto que acomete alguém que vislumbra um jardim e não pode desfrutar do caminho florido.

Não abriu nenhuma delas, as duas. Talvez haja mais duas dentro delas e mais duas, mais duas. Talvez nem haja tais portas. Nem flores. Nem girassóis. Nem cervical, nem couro esganado. Talvez o nada seja a maior das obviedades.


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