Entre lanternas e livros

A briga da água com o garfo lambido

Michelle Paulista,


Eu esfregava com vigor, inclinei o dedo polegar para que a unha ganhasse função de espátula. O atrito era macio, um bolinho de arroz grudado no metal. Aquele talher tinha sido lambido por carregar um delicioso arroz cremoso, ensopado com manteiga. Arroz diferente, feito com carinho e degustado quentinho. Mas agora grudava no talher e atrapalhava o término da tarefa de lavar louça.

Pratos e copos lavados, era esse artefato que dava trabalho de limpar. Então, soltei-o na pia, onde havia um pequeno açude de água e espuma. Deixei-o lá, esquecido, para brigarem – água e resto de arroz, até que um vencesse o outro.

Mais tarde, fui ver o resultado da peleja: o resto de arroz no garfo lambido sucumbira e a água, vitoriosa, fez o que normalmente fazem as águas (metafóricas ou denotativas): removeu o resto de arroz grudado no talher.

Assim é também o cotidiano: esforçamo-nos para remover resquícios, empunhamos nossas unhas e tentamos remover sujeirinhas incômodas. Mas há coisas que, de tão bobas, não valem a pena gastar unha. Há coisas que só a água resolve, nas suas diversas formas. Chame a água-choro, a água-banho, a água-mar, a água-suor. Chame a água.

Aquele garfo lambido de comida gostosa e quentinha pode ser agora um resíduo que precisamos eliminar. Abandone-o por um tempo na água. Ele amolecerá e você passará uma esponja macia, mas fatal. Uma esponja definitiva.

E depois, como sugestão, tome um banho de mar. 



Semana de excelentes lançamentos de autores potiguares

Michelle Paulista,

Semana de novidades editoriais:


Uma faca, dois gumes é o título da coleção criada pela Vento Cartonero, editora que trabalha individualmente as capas de livros, elaboradas em papelão reciclado, na cidade de Santa Maria-RS. Abre essa coleção, em volume único, os livros “Arredado pé” e “La Horda”. O Arredado pé de Humberto Hermenegildo se junta à Horda de Elizabeth Cárdenas. Poesia latino-americana – territórios irmãos de duas línguas que, embora muito próximas, têm raros lugares de encontro. Brasil (Nordeste) e Chile (Santiago), dois gumes neolatinos a denunciar conceitos inoperantes: “De boas intenções / a rua anda cheia” (versos do poema “Fraternidade”, de ARREDADO PÉ); “nunca fue día en este país /una hostia eterna en el cielo intenta cubrir el sol” (versos de LA HORDA).

O livro pode ser adquirido no seguinte endereço:
https://www.facebook.com/ventonortecartonero/
Boa leitura!

Também nesta semana, a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e a Bagaço convidam para o lançamento da COLEÇÃO LETRA VIVA POTIGUAR que reúne os autores: Bartolomeu Correia de Melo, Eulício Farias de Lacerda, Manoel Marques Filho, Manoel Onofre Jr., Tarcísio Gurgel, Violante Pimentel e Nelson Patriota.
Dia: 28/NOV/2018
Horário: A partir das 19h
Local: ANL – Rua Mipibu, 443, Petrópolis, Natal/RN



Arrevessos de ódio no meio da rua

Michelle Paulista,


Os grandes temas da vida estão escancarados no cotidiano e parecem nos caçar em dias nublados para dispararem aquele momento reflexivo.

Pois eu saía de um lugar “pesado” – sim, existem, para além de qualquer imaginação – e tais lugares parecem funcionar como uma esponja, sugando toda e qualquer vibração positiva.

Não deveria ser preciso apresentar meu currículo de motorista. Faço isso desde a adolescência, sem nenhum incidente que desabone minha trajetória de condutora. Mas isso não faz a menor diferença quando o machismo e os ódios alheios afloram.

Andava pelo centro da cidade, devagar com todas as cautelas, no exercício de respeitar os pedestres e dirigir com prudência. Ao entrar numa rua estreita e de trânsito absurdamente desordenado, sem faixa de pedestres e semáforo, fiz com cuidado e pouca velocidade. Elas tentavam atravessar a rua, correndo com sacolas, por entre os carros, driblando-os. Parei e fiz sinal para que atravessassem caminhando, com tranquilidade, a passos, sem correr.

Foi então que ouvi um xingamento; não tenho dúvida de que era maior que o calor que  assolava. Não distingui claramente, mas era algo relacionado a ser mulher, juntamente com outros adjetivos do tipo imbecil, idiota e outros semelhantes. Era um vômito de impropérios, misturado com pedaços de frustrações, machismo feminino e uma absurda necessidade de agredir alguém.

Certa feita, escrevi sobre como seria oportuno termos uma espécie de escudo igual ao de Steve Rogers. Nessas horas, é vital lançar mão dele e pensar que aquela investida odiosa é um problema de quem agride e não nosso.

Dirijo muito bem, obrigada. Faço isso com muita responsabilidade há quase 25 anos. E confesso que acho chato, mas acho fácil também. Difícil mesmo é compreender como nós, mulheres, temos uma grande responsabilidade: fazer com que outras mulheres não precisem recorrer ao exercício do machismo e da desunião para atacarem umas às outras. Que os ódios guardados nas mais profundas infelicidades sejam substituídos pela gentileza, pela polidez e pela empatia. Tenho fé. 



Sobre mudança de rota e leveza

Michelle Paulista,


Rota comum, trivial, a de todos os dias. São três, mas todas comuns, repetidas, deliciosamente rotineiras; que rotina, em certa medida, também é parte do viver.

Ouvia a rádio preferida, quase amiga que , carinhosamente, reproduz as canções que me afagam a alma. Pensava demandas, agenda do dia, requerimentos do filho – a chuteira nova, a bolsa escolar que rasgou, vencida pelo peso dos livros e dos dias, a festa da escola, a ida ao shopping – o carro pra lavar, a calota que sucumbiu ao asfalto pra repor.

De súbito, ela entra no meu campo de visão. Rosto rosa, cabelos de um loiro gasto e mal cuidado. Eram tantas e fartas as lágrimas, que precisou tirar os óculos pra contê-las. Chorava copiosamente, alto. Eu  conseguia ver o som do choro, pelo vidro fechado.

Segui minha rota. A agenda. Os pedidos do filho. O horário do trabalho. O carro e suas calotas.

Tentei dançar a música massageadora do rádio. Sem êxito. As lágrimas da outra me pesavam, mesmo dissipadas pelo vento e sol do instante.

Tive que voltar. Ela deve ter tomado um susto; carro parando e abordando-a, do nada.

Disse estar bem. Não precisava de ajuda. Ficou grata.

Eu atrasei um pouco, mudei a rota – do trajeto e do dia. Mas a consciência... essa ficou ao ponto de flutuar com o peso da situação experimentada.



Literatura Fantástica em Cordel: uma empreitada na sala de aula da Educação básica

Michelle Paulista,


Contos clássicos da literatura mundial com um sabor bem nordestino

A literatura de cordel, presente na vida de quem nasceu no severo e maravilhoso nordeste desde sempre, fez uma incursão inesperada e desafiadora: mergulhou nos contos da literatura fantástica do século XIX e nos brindou com esta obra no mínimo curiosa.

Um desses bravos professores de Literatura – gente que faz de tudo e mais um pouco para promover a leitura literária na escola – Daniel Nasser, resolveu desenvolver um trabalho em sala de aula, tão lindo quanto inusitado.

Fruto do trabalho das turmas de literatura de 7º a 9º anos da Escola Ressurreição (Macau/RN), o livro é um apanhado dos autores mais diversos como Gógol, Balzac, Dickens e Machado de Assis, entre tantos outros ilustres mestres, traduzidos em cordéis escritos pelos próprios alunos.

O resultado da empreitada foi um livro sobre a descoberta de uma nova literatura: um amálgama entre o árido e o frio deserto de ilusões desses antigos cânones e esses jovens estudantes desbravadores!



Com qual roupa se come sushi?

Michelle Paulista,


Na volta da votação, me deu vontade de comer sushi e parei num restaurante de comida japonesa. Era na cidade verde, bairro que pertence a Parnamirim mas que alguns moradores fazem de conta que é zona sul de Natal. Entrei e de repente todos os olhares se voltaram pra mim. Eu não estava vestida de gestora, com a bolsa baú, sapato alto e usando Angel. Eu estava com a camisa de um partido, de short, de sandália baixinha. Eram nítidos os olhares  de assombro, muitos de narizes empinados ,talvez se perguntando: o que essa lascada  veio fazer aqui? Uma senhora discretamente me cumprimentou. Os demais, cochichavam. Fiz meu pedido, comi: estava uma delícia.
Esqueci de dizer que eu portava uma bolsinha pequena, comprada no camelô, onde estavam meu livro e documentos. E, claro, o cartão de débito, com o qual eu poderia pagar qualquer coisa que quisesse consumir ali. 
Eu sou essa, sou várias. Uso perfume francês e uso também a lavanda do supermercado. Ando de salto e de Havaianas. Uso vestidos bons e, do mesmo jeito, uso confecções de Fortaleza e Caruaru. Adoro ser várias; eu posso ser o que eu quiser. 
Anteontem, almocei no meio da rua, no frango da esquina. Ontem comi sushi. Ontem fui votar, hoje começo a resistência. Que se danem os olhares, vamos por mais, vamos sem medo! 



I Feliccidades, sucesso de crítica e público, movimentou Parnamirim esse fim de semana

Michelle Paulista,

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Aconteceu, nos dias 18, 19 e 20 úlitmos, o I FELICCIDADES, Festival literário e cultural das Cidades. O evento teve como palco o colégio PH3 e os auditórios do Yázigi. Com vasta programação, o festival reuniu artistas, músicos, contadores de histórias, poetas, mediadores de leitura e, claro, estudantes que foram prestigiar um verdadeiro banho de cultura e arte.

Na conferência de abertura, aconteceu a Palestra: "A importância da obra de Gilberto Avelino", grande poeta das salinas e da literatura potiguar. A mesa contou com a professora e pesquisadora Michelle Paulista e o professor Diógenes da Cunha Lima, presidente da Academia norte-rio-grandense de Letras.Na ocasião, foi feita uma linda homenagem ao professor Diógenes, encenada por estudantes do Ensino Fundamental, a partir de uma obra para crianças, de Diógenes, a partir da história de Câmara Cascudo.

Outras presenças marcantes no evento: José de Castro, Eva Potiguar, Araceli Sobreira, Ana Cláudia Trigueiro, Edilberto Santos, Francisco Martins, Gilvânia Machado, Elizabeth Rose, Humberto Hermenegildo, Horácio Paiva, Thiago Gonzaga, Rejane Souza, Marcos Medeiros, Salizete Freire, Drika Duarte, José Acaci, Oreny Júnior, Marconi Branco, dentre outros. No ginásio da escola, aconteceu também feira de livros e sebos.

Outro momento marcante foi a "Rua brincante", local onde crianças se divertiram com brincadeiras clássicas como amarelinha, pé de lata, bonecas, roladeira... tudo a partir da obra de José de Castro. 

Aconteceu, ainda, um concurso de poesias, com participações de estudantes de escolas municipais, dentre elas a Escola Municipal Jacira Medeiros, cujo diretor, Edilberto Santos, era um dos organizadores do evento. 

O cenário estava lindo, as palestras com temas interessantíssimos, tudo muito organizado.

Esteve presente também a professora Angélica Vitalino, idealizadora do projeto "Parnamirim, um rio que flui para a leitura".

Parabenizamos à professora Francisca Henrique, diretora do PH3, pelo olhar visionário e sensível à cultura e às letras potiguares. 




Eu, essa ilha

Michelle Paulista,



As pequenas gotas salgadas ou o lento-rápido submergir? Coisa difícil era eleger qual deles era o protagonista desse meu espaço e momento nos quais trafego agora.

Predominava em minhas vistas o azul- esbranquiçado- marrom -meio verde da água ao redor. Era quase um alvo daqueles de atirar. Ao redor da bola central, vários outros círculos, assim como se espremendo, empurrando o círculo menor. Até ali se via a opressão e o poder que uma força maior tem sobre algo que teima em existir e resistir.

Eu era quase uma ilha, envolta de livros, pessoas, lista de compras, boletos bancários por todos os lados. Também me cercavam os aplausos, os elogios, o falso glamour, a conta bancária, os parentes. E eu não alcançava a boia, embora, de certa forma, ela estivesse em minhas mãos.

Os intervalos eram resultados de uma cansativa maratona de empurrar pensamentos positivos juízo abaixo. Tão curtos os intervalos, que não valiam a pena almejá-los. Não se podia avaliá-los intervalos, mas pequenas sobras de tempo em que as gotinhas salgadas não achavam lugar.

Insistia em me vestir de amarelo e vermelho, essas cores-tudo. Insistia em muitas outras coisas, até mesmo em insistir. Uma estranha iniciativa de fazer-me resistente, como um militante que não abandona o front. E elas, as amostras.

Amostras de vida têm gosto. Falo de paladar. Para cada hora do dia, um sabor diferente. Excedem o salgado/doce/ azedo a que somos familiarizados.

 Algumas amostras de vida têm gosto de arroz queimado, resultado de uma postura de que as coisas não vão acontecer; vou deixar o arroz no fogo, ainda tem muita água. E, de repente, o cheiro invade a casa, a panela fica quase imprestável, com as marcas de queimado ao fundo. A refeição fica incompleta, sem o elemento básico, parelha do feijão nosso de cada dia.

Há também o gosto de detergente de louça, quando tentamos abrir o bico do vasilhame com os dentes, desdobramento de minimizar o efeito horrível do líquido espumante que, ao atingir os dentes frontais, escorrem pela língua e provocam gosto terrível. É o gosto derivado da certeza de que podemos manipular substâncias indevidas, achando que sairemos incólumes.

Há o gosto de sabão na boca, de sangue na língua, de água de praia no nariz. São os sabores que a vida empurra cotidianamente e a que somos obrigados a deglutir. Mas há quem não perceba esses sabores e desfrute da incrível feliz alegria de conhecer apenas os palatos tradicionais, doce, azedo e amargo.

Morro de inveja de quem vive uma vida de triplo sabor; almejo ter somente os dissabores clássicos da existência: falta de dinheiro, filho doente, fila de ônibus, boleto atrasado. São sabores palatáveis.

Mas olhando para o meu oceano particular e para a boia que vejo em minha mão e não consigo enxergar, as amostras de vida- de minha vida- com seus sabores exóticos adentram agora minha matéria; não poupam narinas, ouvidos, boca, olhos: experimento-os por todos os órgãos do meu corpo. Sabores cruéis.



1º Festival Literário e Cultural das Cidades

Michelle Paulista,

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Pequeno conto (des)florido ao pé da porta

Michelle Paulista,


Eram duas. Embora parecidas, cada uma conduzia a um trajeto diferente. Opostos eram. Não se dava o caso de apenas optar por uma ou outra; antes, precisava posicionar-se ao menos de pé diante de uma delas. Chamou de portas, por falta de coisa melhor. Era assim, de olhos fechados, que metaforizava as opções que a vida lhe impunha naquele pedaço de viver.

Por trás, alguém lhe sufocava o pescoço, com unhas encravadas no couro que revestia sua cervical. A pele não é tão elástica nesse lugar, o que tornava o instante tão dolorido como inusitado.

De dia, tudo era amarelo. Cor alegre, iluminada, cheirinho de flores e pasta de dente. O lápis de olho, em parceria com a máscara de cílios, ajudava a dar um ar de causar inveja nos inocentes.

À noite e em dias não úteis, a evidência se estabelecia de forma implacável. As muitas flores desapareciam, como se uma criança as tivesse apagado de uma pintura no papel. Possuía várias delas, mas nenhuma era, de fato, sua.

Muitos queriam seu jardim, daria tudo para tê-los ou simplesmente regá-lo. Dessa forma, era capaz que trocasse os vastos campos floridos por um único e real botão de girassol. Um girassol que secasse e sujasse o jardim, mas um girassol.

Sublimadas as roseiras, sobravam as portas. Não tinha clareza se eram tubulações ou estrada aplainada. Não sabia sequer se elas poderiam ser abertas. Ou fechadas.

Do outro lado de cada uma dessas coisas-portas-entradas, havia um irrestível motor de sucção, tão apavorante quanto sedutor. Todos os clichês residem nas encruzilhadas da vida. Não é possível estilizar o aperto que acomete alguém que vislumbra um jardim e não pode desfrutar do caminho florido.

Não abriu nenhuma delas, as duas. Talvez haja mais duas dentro delas e mais duas, mais duas. Talvez nem haja tais portas. Nem flores. Nem girassóis. Nem cervical, nem couro esganado. Talvez o nada seja a maior das obviedades.



Um susto a se pensar

Michelle Paulista,


Sentada no sofá de casa, contemplando o nada, aproxima-se um barulho histérico. Julguei tratar-se de uma briga, coisa incomum por aqui. Era voz de mulher, esbravejando impropérios. Mediante inusitada situação, saí pra ver o que se passava na última e mais calma rua do condomínio onde moro. Meu filho conversava com os colegas na frente de casa.

Demorei a entender que se tratava de uma mulher, acompanhada de dois filhos pequenos. Um no braço, pouco mais de 2 anos; outro, se muito tivesse, quatro anos. Este último era o alvo dos impropérios.

Batidas ocas na parede. Esse era o som que, mais tarde, compreendi ser a mãe batendo no pequeno que sequer tinha um quinquênio de vida.

A fúria se deu porque, segundo ela, fazia uma hora que procurava o filho pelo condomínio. Certamente, ele estava brincando, imagino.

Não faço aqui julgamentos sobre a educação que cada um deve dar. Eu mesma já dei, em algum momento, umas palmadas no meu filho. Mas não posso negar que fiquei chocada quando vi aquele pedacinho de gente absorvendo bordoadas que davam pra ser ouvidas de dentro de casa. Fiquei pensando como seria o desfecho daquilo tudo, quando chegassem a casa.

Era uma mulher jovem, com um filho no braço e outro puxando pela mão. Estressada? Descompensada? Saturada pela maternidade que nem sempre é glamorosa como comercial de margarina?

As bordoadas são mesmo educativas?

Não tenho respostas. Fiquei com um terrível gosto de sabão na boca, misto de impotência e estarrecimento. Essa é pra gente pensar. Sem mais.



2ª Edição do Projeto Biblioteca Viva da Academia

Michelle Paulista,

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Em louvor a Macau

Michelle Paulista,



Hoje minha terra natal completa 143 anos. Constato, atônita, que menos da metade da minha vida passei lá, no chão salgado. É curioso porque, até dia desses, maior parte da minha caminhada na vida tinha como cenário a Salinésia. Coisa relevante, visto que o tempo não despreza o clichê de voar – ora, tempo, não poderia ser mais metafórico e passar mais devagar?

Tomando de empréstimo os versos do maior poeta macauense (em minha opinião), volto ao meu chão de sal, sempre volto...

Nasci e vivi metade da vida em Macau. Quando cerro a visão, consigo contemplar o desenho de uma Macau da minha infância/adolescência. As aulas no Duque de Caxias, com ousadas fugidas para a Rua da Maré, em que o nível máximo de transgressão era molhar os pés na maré da “rampa”, perto da lancha que me conduzia para a casa de vovó Adalgiza, na Ilha. Lembro, com emoção lhana, o medo sedutor que nos acometia violar o prédio assombrado – hoje aglomerado de lojinhas, na rua Martins Ferreira. Éramos expedicionários em busca de uma caveira enforcada, no andar de cima, sob a constante expectativa de que o prédio desabasse conosco dentro.

Mais tarde, já subindo de status escolar, estudando no colégio dos “ricos” (ainda que com livros comprados de segunda mão), o trajeto era o oposto: diariamente, uma caminhada para o porto, passando pelo mercado e enchendo as mãos de feijões, furtados docemente daqueles sacos enormes, dispostos e oferecidos nos corredores do mercado modelo, ocasião em que seus proprietários vigilantes entregavam-se à modorra da tarde.

Mas nem tudo é méleo nas reminiscências infanto-juvenis. Lembro-me da adolescência, do trabalho cheio de responsabilidades como estagiária de um banco. Impossível esquecer as incompreensões da época, a minha absurda incapacidade de me encontrar num modelo social que se estabelecia; muito ao fato de ser meio guache, acometia-me um confuso sentimento de pertencimento e não-pertencimento, coisa estranha a simultanear meu juízo. E a partida para a capital, à procura de um monte de coisas e à procura de não-sei-o- quê. Acho que fui meio “tangida” por mim mesmo da minha Macau.

Hoje visito minha terra bem menos que poderia. Encontro-me descobrindo a Macau que existiu nesse lapso de tempo entre minha viagem e este agora cheio de retornos.

Posso dizer que a amo: um amor estranho, de marcas, de sentimento natural. E, em seu louvor, não julgo que mereça uns versos meus, embora os tenha escrito algumas vezes. Ofereço-lhes, Macau, uns versos de Gilberto Avelino que, como ninguém, cantou as belezas marinhas da terra das salinas:

“Na paz das estâncias onde estás,

Eu te digo com pungir antigo:

Em mim escorre o rio, o mesmo rio

Cantando em violinos sobre espumas,

E em cujas águas de cristais em soledades

Os teus olhos de verão repousavam.”

(A paz das estâncias infinitas – Gilberto Avelino)



Escola do Legislativo promove aulas de preparação para o ENEM

Michelle Paulista,



A Escola do Legislativo Wilma de Faria da Câmara Municipal de Natal está veiculando aulas semanais de revisão para o Enem, com dicas e curiosidades para os estudantes que farão as provas do Exame.

Em parceria com a TV Câmara Natal, as aulas vão ao ar, ao vivo, sempre às segundas-feiras pelos canais 51.4 (aberto) e 10 da Cabo Telecom. Além disso, há a transmissão simultânea pelo canal da emissora no Youtube.

Após a exibição, as aulas ficam disponíveis no canal e são reprisadas durante a programação da TV Câmara.


Serviço:

O quê: Aulas de revisão para o Enem

Quando: Todas as segundas, às 8h30min

Onde: TV Câmara Natal e Youtube

Acerca de contatos e café

Michelle Paulista,



É possível que haja verdades em clichês. Um deles reza que as novas tecnologias aproximam distantes e afastam os próximos. Impossível não pensar: há distantes e próximos? Num mundo digital praticamente uniformizado, quem está perto ou longe? Todos perto, todos longe, constato.

Alvorocei-me ao descobrir que amealhei cerca de dois mil contatos em um aplicativo mensageiro. Quem são e onde estão? Acaso desse eu uma festa, caberiam? Se os convidasse, compareceriam? Que motivos os fariam declinar da invitação? Ou declinariam assim mesmo sem motivos e desculpas cuidadosamente engendradas?

O que fazem esses humanos enquanto escrevo, leio, bocejo, me enraiveço, imagino viagens e beijos ou quando acordo pra ir ao banheiro pela madrugada? O que fazem quando sentem medo? Têm dor de barriga e soluços? Ocorrem-lhe aftas e saudades? O que emociona esses dois milheiros de gentes?

Não sei se gosto de todas ou se gostam de mim. Inquiro-me se o papo com elas seria agradável como um banho de chuva com companhia, se sentiria uma vontade imediata de trocar um abraço espontâneo.

Com elas, viajaria alegremente? De alguma beijaria a boca com consistente vontade? De qual dessas gentes me agradaria o cheiro e o toque?

Que viver estranho esse em que precisamos pedir acesso para telefonar pra alguém (porque denota quase que intimidade), ao passo em que as mensagens instantâneas têm passe livre! Nosso lugar, esse de agora, em que conferimos as breves histórias de outrem é o mesmo de onde esforçamo-nos para forjar as nossas, felizes, de preferência.

Entremeio, o rádio irrompe com “Miss Sarajevo” e desperto, concordando que há, sim, um tempo para inverter o olhar e encontrar o vestido certo para se usar.

Ao descobrir tantos “contatos” em meu pequeno e valente dispositivo móvel, fico a pensar como seria tomar um café com alguns deles. Não sei se os convidaria, não sei se aceitaria o convite se convidada fosse: não bebo café. Todavia, me aprazeria receber a proposta de um; pareceria uma vida mais real tanto quanto possível.



Ler, escrever e fazer conta de cabeça - uma narrativa para qualquer vida

Michelle Paulista,


Ler, escrever e fazer conta de cabeça

O tempo amarrota a lembrança e subverte a ordem

(Bartolomeu Campos Queirós)

(O título da obra – Ler, escrever e fazer conta de cabeça – será referenciado pela sigla LEFCC)

Não é por acaso a mensagem da epígrafe que abre a narrativa. Os fatos que materializam LEFCC aconteceram antes da época em que Bartolomeu Campos de Queirós vivera em casa dos avós paternos, cujos acontecimentos principais ganham relevância em outro título seu: “Por parte de pai”(PPP). Entretanto, LEFCC é publicado somente após PPP, “subvertendo” a ordem e descompromissando-se com qualquer noção de sequência cronológica, pois a fase em que nosso protagonista viveu em Pitangui junto com S. Joaquim e D. Maria Queirós aconteceu após as primeiras experiências escolares que dão corpo ao enredo de LEFCC. Ou seria, possivelmente, um artifício do escritor para mostrar que a linguagem possibilita arranjar acontecimentos em qualquer ordem, dado o seu poder criativo. O título faz referência a uma fala do pai quando disse que essas três competências seriam as funções que a escola deveria ensinar. Tal postura do pai diante da função escolar nos remete, inevitavelmente às primeiras experiências escolares de Graciliano Ramos, descritas em Infância (1945). Ainda mais fortemente naquela época, existia a concepção de que à escola era atribuída a tarefa de ensinar a ler (decodificar a língua escrita), fazer contas e redigir palavras (sem qualquer noção de atividade textual enquanto produção). Letramento literário era algo de que sequer se ouvia falar. Este mesmo pai, que se parece com muitos – haja vista a metamorfose que a descrição feita por BCQ sofre – tinha momentos de anjo e de algoz. Já aqui Bartolomeu nos deixa escapar a angústia da expectativa de conhecer a escola. Numa perspectiva paradoxal, experimentava o medo e a vontade de conhecer o novo, o mundo escolar.

Contrapondo-se a essas perdas, havia a vontade de desamarrar os nós, entrar em acordo com o desconhecido, abrir o caderno limpo e batizar as folhas com a sabedoria da professora, diminuir o tamanho do mistério, abrir portas para receber novas lições, destramelar as janelas e espiar mais longe. Tudo isso me encantava. (QUEIRÓS, 1996, p. 8)

Embora o nome Antônio não seja, em momento algum, mencionado em LEFCC e o narrador seja em 1ª pessoa, há diversos elementos que atam a narrativas às demais (Indez e Por parte de pai), como, por exemplo, a recorrência do chocalho de cascavel amarrado ao pescoço do garoto, simpatia popular para acabar com o hábito de urinar na cama à noite.

É relevante igualmente pontuar que, desde as primeiras linhas de LEFCC, há o flagrante sentimento de não pertencimento que se deixa à mostra, como ilustrado no trecho:

Um pesar estrangeiro andou atordoando meu pouco entendimento. Ir para a escola era abandonar as brincadeiras sob a sombra antiga da mangueira; era renunciar o debaixo da mesa resmungando mentiras com o silêncio; era não mais vistoriar o atrás da casa buscando novas surpresas e outros convites. (QUEIRÓS, 1996, p. 7)

A matéria para LEFCC é – tal qual em Indez e em PPP – a descrição da vida simples no interior. Entretanto, nesta etapa da trilogia, a descrição da escola e os episódios que envolvem seus irmãos são postos mais em evidência. Interessante pontuar que os avós Joaquim Queirós e Sebastião, paterno e materno, respectivamente, também atuam nessa história. É aqui também que BCQ toma a coragem de narrar a morte prematura da mãe, aos trinta e três anos, vítima de câncer.

Embora extremamente triste e comovente, o relato da morte da mãe é, paradoxalmente, a mais bela passagem do livro. Não pela morte em si, mas pelo arranjo de palavras pelo qual BCQ decide contar tão triste acontecimento. Ele não recorre à palavra “morte”. Ele a sugere, comovendo-nos e transportando-nos para aquele triste fim de tarde:

Entrei de manso. Vi suas mãos afogadas sobre os panos da cama, como se não tivessem mais comando. Estavam imóveis. Lembrei-me do ferro de brasa acariciando a roupa, da colher de pau raspando o fundo do tacho, do regador fazendo chuva por sobre as hortaliças, da espuma no tanque esfregando nossas manchas, do pão repartido em seis, pela manhã. Um resto de sol morno do crepúsculo entrava pela janela sem muita luz, filtrado pela tristeza que arrastava as nuvens pelo céu, naquela hora. Insisti meu olhar sobre suas mãos e não vi as meias-luas nascendo em suas unhas. O padre Viegas chegou com a latinha de água-benta e o missal. (QUEIRÓS, 1996, p. 75-76)

O vazio (ausência física da mãe) serve de “recheio” para o término do livro. Desenvolvendo a ideia do nada, agora representado pela falta materna, a partir do trecho acima e de como ele é decisivo para os desdobramentos seguintes na narrativa, pensamos no episódio da morte da mãe como um marco, espécie de portal de transição, através do qual o menino deixa de sentir uma dor emocional difusa para ter a consciência de que inquietações eram partes irremediavelmente agora constantes em sua existência de órfão: “No nada cabe tudo” (QUEIRÓS, 1996, p. 78).

Ler, escrever e fazer conta de cabeça é uma narrativa para ler e sentir com o corpo inteiro. É usufruir da escrita visceral e , ao mesmo tempo, terna de Bartolomeu Campos de Queirós. 



Um pouco do muito de Getúlio Moura

Michelle Paulista,


Escrevo hoje sobre um dos maiores artistas da terra das salinas, Getúlio Moura.

Com a licença dos reducionismos, considero-o um homem talentosíssimo, na melhor acepção da palavra: fotógrafo, artista plástico, músico, diagramador e, agora, entusiasta da arqueologia. Passeia pela História, com vieses de etnógrafo. É de sua autoria “Um Rio Grande e Macau”, livro dos mais interessantes e completos sobre a Salinésia. Além de tudo, é um homem de simpatia estendida, que carrega o charme artístico que os bons têm. Abaixo um pouco mais de Getúlio*:

GETÚLIO MOURA XAVIER – Nasceu em 1962, em Tabatinga, vale do rio Açu, antigo povoado que pertenceu a Macau, Pendências e atualmente ao Alto do Rodrigues-RN. É filho de Sebastião Xavier e Francisca Moura. Sua família se mudou para a cidade de Macau quando Getúlio tinha dois anos de idade, época em que seu pai deixou os campos agrícolas para trabalhar nas salinas de Macau.

Getúlio começou a estudar aos sete anos; despertou para as artes ainda criança por meio do desenho, ilustrando trabalhos e exposições escolares. Começou atrabalhar em 1977, quando tinha 14 anos de idade, como “Menor-Aprendiz” e depois“Auxiliar de Portaria” no Banco do Brasil, até o ano de 1983. Trabalhou no controle daqualidade da Techint, durante a construção do Polo Industrial de Guamaré; é funcionário aposentado da Petrobras.

Na área artística, desenvolve a fotografia, a música, a pintura e a literatura.

Realizou várias exposições de pinturas e fotografias a partir de 1986, em Macau e Natal, com fotografias premiadas no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. É pai de três filhas: Nayara Ananda, Bruna Caroline e Cibele Maria.

Escreveu os seguintes livros:

1. OPERAÇÕES PRÁTICAS NA PRODUÇÃO DE PETRÓLEO – Poços Terrestres,

técnico - 1995;

2. INSTINTO REVERSO, poesia - 1997;

3. SOLUA, poesia - 1999;

4. A ESCOLA DE MACAU, poesia (coletivo) - 2003;

5. UM RIO GRANDE E MACAU – Cronologia da História Geral - 2005;

6. ANTÍQUÍSSIMO - Pré-história Humana do Rio Grande do Norte – No prelo.

Foi um dos fundadores do Grupo Mambembe, de música popular brasileira,

que existiu entre os anos 1987 e 2007, formado por Getúlio Moura, Tião Maia, Laércio Negão e Chico Mago, com frequentes participações dos artistas Airton Valentim, Agassis e Yale Clecino.

Desenvolve o trabalho de registro da flora, da fauna, dos fenômenos naturais e das paisagens do vale e do delta do rio Açu; têm fotografado quase todas as flores silvestres da transição litoral/sertão, das ervas às árvores.

Getúlio fez diagramações e criou as capas de mais de 50 livros de poetas e

escritores da região, através da revolucionária Imperial Casa Editora da Casqueira, fundada em parceria com o professor e poeta Benito Barros, Getúlio Moura e o pintor e poeta João Vicente Guimarães.

*Biografia do livro “Um Rio Grande e Macau”


Em sua homenagem, outro grande poeta, Horácio Paiva, assim escreveu:


Nasceu entre carnaubais

no solo das tabatingas

e tudo isto era Macau


Brincou com sal e estrelas

estrelas alvas como o sal

e tudo isto era Macau


O seu rebanho de búzios

e ossos no chão de terra

e tudo isto era Macau


Ouviu o cantar do vento

em girassóis e moinhos

e tudo isto era Macau


Ouviu o grito esquecido

dos salineiros feridos

e tudo isto era Macau


Correu mapas e papel

contou a história da ilha

e tudo isto era Macau


Juntou vaqueiro e petróleo

como prêmios na retina

e tudo isto era Macau


E viu na arara primeva

o nome da sua terra

e tudo isto era Macau


Ergueu enfim uma torre

sobre as águas de Macau

e tudo isto era Macau






Escola do Legislativo Wilma de Faria lança concurso de redação

Michelle Paulista,


A Câmara Municipal de Natal, por meio da Escola do Legislativo Wilma de Faria, lança concurso de redação por ocasião dos 70 anos da Casa parlamentar. O certame é direcionado aos estudantes do Ensino Médio e o tema é : “Parlamento jovem – Cidadania e participação social”. O edital completo, ficha de inscrição e demais documentos constam no site da Câmara Municipal, no endereço: www.cmnat. gov.rn.br

Serviço:

Concurso de redação da Câmara Municipal de Natal

Inscrições: de 23/07 a 23/08/18, por meio do site da Câmara Municipal

Entrega das redações: 24/08 a 25/09/18 na sede da Escola do Legislativo Wilma de Faria

Resultado a partir de 15/10/18 no Diário Oficial do Município



A gente marca...

Michelle Paulista,



São muitas as expressões que ouvimos cotidianamente, mas poucas são tão corriqueiras quanto “a gente marca”, pedaço de diálogo quase obrigatório nas conversas entre amigos e conhecidos.

Ouço muito que “a semana tá voando”, “já estamos pertos do Natal”, “o tempo tá passando rápido demais” e nesses falares fica evidente que, de fato, o correr da vida tem embrulhado tudo, como disse Guimarães Rosa.

Mas o que significa a expressão “a gente marca” ou a igual “vamos marcar”? 

Acho que às vezes dizemos isso por educação mesmo, quase a tal função fática da linguagem, equivalente a “tudo bem?” Tenho certeza de que, se perguntarmos a alguém como essa pessoa está, se realmente está tudo bem com ela e se a tal resolver responder... imagino que não tenhamos paciência para ouvir tudo que possa ser dito. Afinal, quem está mesmo interessado nos problemas alheios, visto que os nossos abundam?

Mas voltando ao “a gente marca”, me pego refletindo sobre o que esse texto realmente expressa. Confesso que já emiti um “a gente marca” assim meio sem querer, deixando uma possibilidade de alguma programação com a pessoa em questão. Mas, de igual modo, também já disse a mesma coisa realmente com vontade de fazer algo junto, de compartilhar momentos, de estar com. Há pessoas de quem gosto mas que parece que as agendas não batem, os horários não cruzam, os caminhos não se encontram. É um constante desencontro. Há, ainda, aquelas pelas quais não fazemos qualquer movimento para que as coisas aconteçam e os motivos são os mais diversos.

Passei a pensar muito sobre isso quando percebi que há pessoas que promovem verdadeiros entroncamentos na nossa história; para essas, separamos horários, oferecemos nosso tempo, esprememos a agenda, invertemos prioridades, aperta aqui, acomoda ali, delega-se função, acorda-se cedo...

Vejo ainda uma terceira situação: às vezes, há pessoas com as quais gostaríamos muito de estar, mas não fazemos muito esforço que aconteça, engolidos que somos pelas inúmeras demandas pós-modernas. Mas tem jeito: que tal marcarmos um encontro concreto, uma programação com aquela amiga ou amigo querido cujo papo tanto nos alegra? Ou, quem sabe, fazer uma visita àquela pessoa amiga de infância que agora já é de idade avançada e que tanto se alegrará com sua presença? Ou mesmo fazer aquela caminhada na praia, tomar um sorvete gostoso, assistir a um filme ou simplesmente ficar “de boa”, fazendo nada?

O tempo é hoje, a vida é agora, as relações são no momento; sobre amanhã, nada sabemos: quem estará vivo ainda quando resolvermos marcar algo de verdade?

Vivamos, encontremo-nos com os nossos queridos! E então, vamos marcar algo?



A vida, essa máquina de lavar

Michelle Paulista,


Máquina de lavar, vontade louca de usar. Nós, adultos, somos meio crianças, como que ávidos ante um brinquedo para experimentar. Aperta botão, descobre função, cheira as peças com perfume de plástico novo, estoura bolinhas de proteção, como que terapia.

Peças dispostas no cesto, uma sobre as outras, velhas, novas, delicadas, brancas, coloridas. Daí que a velha teoria aprendida nas aulas de “educação artística” faz sentido e vemos o branco embolado, mistura de todas as cores.

Quando a máquina para, temos um ciclo completo. Retirando as peças, quis pegar um lençol azul que repousava no fundo do cesto. Ele não vinha. Enroscou-se naquele tubo central e recusava-se a sair. Tentei de todo jeito e nada. Foi preciso retirar as outras peças para que o teimoso pano aceitasse o resgate. Não na minha hora, mas somente em determinado instante pude retirá-lo para, então estendê-lo. Disposto e em repouso, ele impunha suas vontades celestes, azul que é.

Se bem reparamos, nosso viver é bem assim. Somos roupas, indumentárias especialmente escolhidas para cada tempo e circunstâncias. Às vezes queremos remover outra peça que disposta está no fundo de algum cesto por aí. Mas ocorre que cada pedaço de pano tem sua hora de ser removido. Nós, pedaços de tecidos, nos misturamos e vamos nos debatendo num ciclo louco de lavagem, secagem e centrifugação. Uns saem úmidos desse processo, outros secos.

É preciso dosar o sabão, acertar no amaciante e aproveitar o ciclo para que, em vez de sairmos manchados e mal lavados, apresentarmos diante da vida limpos de alma e coração e perfumados.

E antes que eu me esqueça: nessa metáfora alucinante que é a vida – essa máquina de lavar – o amor existe, acontece e a magia da paixão ainda perfuma os pedaços de panos viventes.


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