Entre lanternas e livros

Um pouco do muito de Getúlio Moura

Michelle Paulista,


Escrevo hoje sobre um dos maiores artistas da terra das salinas, Getúlio Moura.

Com a licença dos reducionismos, considero-o um homem talentosíssimo, na melhor acepção da palavra: fotógrafo, artista plástico, músico, diagramador e, agora, entusiasta da arqueologia. Passeia pela História, com vieses de etnógrafo. É de sua autoria “Um Rio Grande e Macau”, livro dos mais interessantes e completos sobre a Salinésia. Além de tudo, é um homem de simpatia estendida, que carrega o charme artístico que os bons têm. Abaixo um pouco mais de Getúlio*:

GETÚLIO MOURA XAVIER – Nasceu em 1962, em Tabatinga, vale do rio Açu, antigo povoado que pertenceu a Macau, Pendências e atualmente ao Alto do Rodrigues-RN. É filho de Sebastião Xavier e Francisca Moura. Sua família se mudou para a cidade de Macau quando Getúlio tinha dois anos de idade, época em que seu pai deixou os campos agrícolas para trabalhar nas salinas de Macau.

Getúlio começou a estudar aos sete anos; despertou para as artes ainda criança por meio do desenho, ilustrando trabalhos e exposições escolares. Começou atrabalhar em 1977, quando tinha 14 anos de idade, como “Menor-Aprendiz” e depois“Auxiliar de Portaria” no Banco do Brasil, até o ano de 1983. Trabalhou no controle daqualidade da Techint, durante a construção do Polo Industrial de Guamaré; é funcionário aposentado da Petrobras.

Na área artística, desenvolve a fotografia, a música, a pintura e a literatura.

Realizou várias exposições de pinturas e fotografias a partir de 1986, em Macau e Natal, com fotografias premiadas no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. É pai de três filhas: Nayara Ananda, Bruna Caroline e Cibele Maria.

Escreveu os seguintes livros:

1. OPERAÇÕES PRÁTICAS NA PRODUÇÃO DE PETRÓLEO – Poços Terrestres,

técnico - 1995;

2. INSTINTO REVERSO, poesia - 1997;

3. SOLUA, poesia - 1999;

4. A ESCOLA DE MACAU, poesia (coletivo) - 2003;

5. UM RIO GRANDE E MACAU – Cronologia da História Geral - 2005;

6. ANTÍQUÍSSIMO - Pré-história Humana do Rio Grande do Norte – No prelo.

Foi um dos fundadores do Grupo Mambembe, de música popular brasileira,

que existiu entre os anos 1987 e 2007, formado por Getúlio Moura, Tião Maia, Laércio Negão e Chico Mago, com frequentes participações dos artistas Airton Valentim, Agassis e Yale Clecino.

Desenvolve o trabalho de registro da flora, da fauna, dos fenômenos naturais e das paisagens do vale e do delta do rio Açu; têm fotografado quase todas as flores silvestres da transição litoral/sertão, das ervas às árvores.

Getúlio fez diagramações e criou as capas de mais de 50 livros de poetas e

escritores da região, através da revolucionária Imperial Casa Editora da Casqueira, fundada em parceria com o professor e poeta Benito Barros, Getúlio Moura e o pintor e poeta João Vicente Guimarães.

*Biografia do livro “Um Rio Grande e Macau”


Em sua homenagem, outro grande poeta, Horácio Paiva, assim escreveu:


Nasceu entre carnaubais

no solo das tabatingas

e tudo isto era Macau


Brincou com sal e estrelas

estrelas alvas como o sal

e tudo isto era Macau


O seu rebanho de búzios

e ossos no chão de terra

e tudo isto era Macau


Ouviu o cantar do vento

em girassóis e moinhos

e tudo isto era Macau


Ouviu o grito esquecido

dos salineiros feridos

e tudo isto era Macau


Correu mapas e papel

contou a história da ilha

e tudo isto era Macau


Juntou vaqueiro e petróleo

como prêmios na retina

e tudo isto era Macau


E viu na arara primeva

o nome da sua terra

e tudo isto era Macau


Ergueu enfim uma torre

sobre as águas de Macau

e tudo isto era Macau






Escola do Legislativo Wilma de Faria lança concurso de redação

Michelle Paulista,


A Câmara Municipal de Natal, por meio da Escola do Legislativo Wilma de Faria, lança concurso de redação por ocasião dos 70 anos da Casa parlamentar. O certame é direcionado aos estudantes do Ensino Médio e o tema é : “Parlamento jovem – Cidadania e participação social”. O edital completo, ficha de inscrição e demais documentos constam no site da Câmara Municipal, no endereço: www.cmnat. gov.rn.br

Serviço:

Concurso de redação da Câmara Municipal de Natal

Inscrições: de 23/07 a 23/08/18, por meio do site da Câmara Municipal

Entrega das redações: 24/08 a 25/09/18 na sede da Escola do Legislativo Wilma de Faria

Resultado a partir de 15/10/18 no Diário Oficial do Município



A gente marca...

Michelle Paulista,



São muitas as expressões que ouvimos cotidianamente, mas poucas são tão corriqueiras quanto “a gente marca”, pedaço de diálogo quase obrigatório nas conversas entre amigos e conhecidos.

Ouço muito que “a semana tá voando”, “já estamos pertos do Natal”, “o tempo tá passando rápido demais” e nesses falares fica evidente que, de fato, o correr da vida tem embrulhado tudo, como disse Guimarães Rosa.

Mas o que significa a expressão “a gente marca” ou a igual “vamos marcar”? 

Acho que às vezes dizemos isso por educação mesmo, quase a tal função fática da linguagem, equivalente a “tudo bem?” Tenho certeza de que, se perguntarmos a alguém como essa pessoa está, se realmente está tudo bem com ela e se a tal resolver responder... imagino que não tenhamos paciência para ouvir tudo que possa ser dito. Afinal, quem está mesmo interessado nos problemas alheios, visto que os nossos abundam?

Mas voltando ao “a gente marca”, me pego refletindo sobre o que esse texto realmente expressa. Confesso que já emiti um “a gente marca” assim meio sem querer, deixando uma possibilidade de alguma programação com a pessoa em questão. Mas, de igual modo, também já disse a mesma coisa realmente com vontade de fazer algo junto, de compartilhar momentos, de estar com. Há pessoas de quem gosto mas que parece que as agendas não batem, os horários não cruzam, os caminhos não se encontram. É um constante desencontro. Há, ainda, aquelas pelas quais não fazemos qualquer movimento para que as coisas aconteçam e os motivos são os mais diversos.

Passei a pensar muito sobre isso quando percebi que há pessoas que promovem verdadeiros entroncamentos na nossa história; para essas, separamos horários, oferecemos nosso tempo, esprememos a agenda, invertemos prioridades, aperta aqui, acomoda ali, delega-se função, acorda-se cedo...

Vejo ainda uma terceira situação: às vezes, há pessoas com as quais gostaríamos muito de estar, mas não fazemos muito esforço que aconteça, engolidos que somos pelas inúmeras demandas pós-modernas. Mas tem jeito: que tal marcarmos um encontro concreto, uma programação com aquela amiga ou amigo querido cujo papo tanto nos alegra? Ou, quem sabe, fazer uma visita àquela pessoa amiga de infância que agora já é de idade avançada e que tanto se alegrará com sua presença? Ou mesmo fazer aquela caminhada na praia, tomar um sorvete gostoso, assistir a um filme ou simplesmente ficar “de boa”, fazendo nada?

O tempo é hoje, a vida é agora, as relações são no momento; sobre amanhã, nada sabemos: quem estará vivo ainda quando resolvermos marcar algo de verdade?

Vivamos, encontremo-nos com os nossos queridos! E então, vamos marcar algo?



A vida, essa máquina de lavar

Michelle Paulista,


Máquina de lavar, vontade louca de usar. Nós, adultos, somos meio crianças, como que ávidos ante um brinquedo para experimentar. Aperta botão, descobre função, cheira as peças com perfume de plástico novo, estoura bolinhas de proteção, como que terapia.

Peças dispostas no cesto, uma sobre as outras, velhas, novas, delicadas, brancas, coloridas. Daí que a velha teoria aprendida nas aulas de “educação artística” faz sentido e vemos o branco embolado, mistura de todas as cores.

Quando a máquina para, temos um ciclo completo. Retirando as peças, quis pegar um lençol azul que repousava no fundo do cesto. Ele não vinha. Enroscou-se naquele tubo central e recusava-se a sair. Tentei de todo jeito e nada. Foi preciso retirar as outras peças para que o teimoso pano aceitasse o resgate. Não na minha hora, mas somente em determinado instante pude retirá-lo para, então estendê-lo. Disposto e em repouso, ele impunha suas vontades celestes, azul que é.

Se bem reparamos, nosso viver é bem assim. Somos roupas, indumentárias especialmente escolhidas para cada tempo e circunstâncias. Às vezes queremos remover outra peça que disposta está no fundo de algum cesto por aí. Mas ocorre que cada pedaço de pano tem sua hora de ser removido. Nós, pedaços de tecidos, nos misturamos e vamos nos debatendo num ciclo louco de lavagem, secagem e centrifugação. Uns saem úmidos desse processo, outros secos.

É preciso dosar o sabão, acertar no amaciante e aproveitar o ciclo para que, em vez de sairmos manchados e mal lavados, apresentarmos diante da vida limpos de alma e coração e perfumados.

E antes que eu me esqueça: nessa metáfora alucinante que é a vida – essa máquina de lavar – o amor existe, acontece e a magia da paixão ainda perfuma os pedaços de panos viventes.



Segundas também podem ser felizes

Michelle Paulista,


Segunda-feira é o primeiro dia “útil” da semana, embora o consideremos “inútil”, porque é significado de obrigações e encargos. Certa vez, ouvi de alguém acerca da depressão do domingo à noite: trilha sonora de conhecida revista semanal na tv, bolsa e fardas das crianças arrumadas, expectativa de “amanhã começa tudo de novo”.

Mas o que não percebemos é que as segundas também podem ser dias proveitosos. É certo que não é sempre que podemos nos esquivar da agenda da segunda, mas é possível matizá-la de tons mais alegres.

Dia desses, tomei um lanche em plena segunda-feira, regado a um bom papo e olhares ternos – raios de sol vieram encandear o instante e a segunda – tipicamente burocrática – revestiu-se de uma roupa leve e aprazível. Abraços também têm o mesmo condão: experimente-os todos os dias, inclusive às segundas-feiras...

Segunda é dia de começar a caminhar de verdade, dia de vestir aquela roupa nova que está sendo guardada para não sei qual ocasião (que talvez nem chegue); é dia de usar aquele perfume caro, adquirido em 10 vezes no cartão de crédito. Dia de começar a leitura de um livro, de dar um telefonema para um amigo querido, dia de desviar a rota e, de repente, se ver contemplando a orla linda de Natal, quem sabe?

Numa segunda, temos a possibilidade de sonhar com aquele projeto de vida, aquela viagem. Dia de repensar valores, ouvir outras opiniões. Dia de enterrar o pretérito e exercitar o presente, conjugado ao futuro.

Tomar café da manhã no mercado, visitar uma loja de antiguidades, colocar um som incrível pra tocar alto e dançar sozinha mesmo! É dia de fazer, de viver, como todos os dias.

Segunda é dia de dizer que gosta, que sente saudade.  Dizer isso para seu amor ou sua amiga; seus filhos ou seus pais. É dia de dizer e isso já é muito. Digamos!

Que sua segunda-feira seja transformada em um dia especial. Faça-a assim. Por mais segundas-feiras felizes em nossas vidas...



Para todas as idades, Um garoto chamado RoRbeto, de Gabriel o Pensador

Michelle Paulista,


Um dos mais interessantes livros ditos de literatura infanto-juvenil que tive a oportunidade de ler foi “Um garoto chamado RoRbeto”. De autoria do rapper e compositor Gabriel o Pensador, é uma surpreendente viagem à singela e igualmente significativa vida de um garoto de seis dedos.

Já de início, o texto é simbolicamente representado pelas tentativas de encontrar um caminho para o exercício da escrita:

Vez uma era...

Quer dizer:

Uma era vez...

Ou melhor:

  Vez era uma...

  Desculpem:

   Era uma vez...

  (Agora sim!)

O próprio nome do protagonista é singular, pois, ao deslocar o R para a sílaba primeira, oferece certo desconforto à pronúncia.

O texto de “Um garoto chamado RoRbeto” é uma narrativa em versos melódicos, ritmados, o que entrega ao leitor uma leitura “cantada”. A certa altura, observa-se um quê de pragmatismo, metonímia do mundo da vida, quando, após o nascimento, os pais do garoto dizem: obrigada, tchau, doutor!

Elemento deveras significativo na história é a figura do rio – presente no início, meio e fim, banhando de significados a vida do garoto. Aqui o rio assume a perspectiva de Heráclito, agente transformador e meio de vida; suas margens, paradoxalmente, unem e dividem a vila e a vida de RoRbeto:

O rio ia sempre passando,

Sem nunca parar um segundo,

E o tempo, imitando o rio,

Passou também pra todo mundo.

E assim foi crescendo RoRbeto,

Ao lado dos seus bons amigos:

O tempo, o cachorro, as pessoas,

As árvores e o rio antigo.

Assim, a certa altura, há a descoberta dos seis dedos do menino do rio antigo, suas vivências na escola e o processo de aceitação de que era diferente, fora dos padrões previamente estabelecidos e dos enquadramentos sociais a que somos submetidos. É possível, ainda, degustar de passagens descritivas de deliciosas artimanhas infantis, carregadas de surpresas e solidariedade.

Não há dúvida de que se trata de uma das mais encantadoras obras para jovens de todas as idades – crianças ou adultos, que, como quase tudo no Brasil, termina em futebol!



Epistolografia em sala de aula do Ensino Médio

Michelle Paulista,



Em certo sentido, pode parecer paradoxal levar cartas de autores norte-rio-grandenses para o ambiente escolar do Ensino Médio, no atual contexto da contemporaneidade e das redes sociais em grande uso. Mas imaginamos ser, exatamente, essa contradição que possa atrair o interesse dos nossos alunos.

  Motivar uma turma a partir de uma carta da década de 1980, como exemplo, é também oferecer um mergulho no contexto histórico da época e suas linguagens:


Você é um danado, mestre Veríssimo, a tudo atento e providenciando.

[...]

Quanto à vaga na Academia, pode contar com o meu voto para o seu “protegido”. Você sabe que sou seu eleitor “de cabresto”.

Quando devo enviar o voto?

Você viu a minha entrevista na TV Educativa? Se viu gostaria de ter a sua opinião.

E as eleições? Viu como o povo tá ficando bom de voto?

(Peregrino, 1989)


O excerto acima é de uma carta do escritor potiguar Umberto Peregrino para Veríssimo de Melo, em janeiro de 1989. O assunto da carta é a resposta a um provável pedido de voto para a eleição da Academia norte-rio-grandense de Letras. Com razoável intimidade, Umberto Peregrino ainda trata de uma aparição na TV e “brinca” com o resultado das eleições da época, não sabemos em que âmbito. Uma abordagem interessante nessa carta passaria, certamente, pela informalidade com a qual o remetente trata assuntos geralmente formais. Acrescente-se a inexistência, ainda na época, das facilidades das mensagens espontâneas de que hoje dispomos.

Ainda sobre o ensino de Literatura por meio de cartas, queremos lembrar da utilização deste gênero por parte de muitos modernistas e parece-nos que Veríssimo, embora não tenha vivido no surgimento do movimento modernista, já tinha consciência da relevância que as correspondências teriam, pois era adepto de tal prática, tendo deixado grande número de correspondências. Lendo a correspondência de Veríssimo, temos a oportunidade de mergulhar nos bastidores da cena literária e cultural do estado.



De uma leve brisa junina

Michelle Paulista,


Cheguei antes dela, atendendo a um chamado. Recebeu-me com um abraço afetuoso, surpreendentemente familiar, embora fosse a primeira vez. Quando percebi, caminhava pelo calçadão, percorrendo uma distância não marcada, a perder de vista.

Sem marcação de tempo e espaço, ela me acompanhava, solidária, entre alternâncias travessas dos pingos de chuva que bagunçavam meu cabelo: deixei-o solto, naturalmente assanhado, para que sorvesse a maresia matinal.

A cada parada, ela me sorria meio tímida, meio cheia de iniciativa. Era uma brisa alegre, inusitada. Brisa de primeira vez, de sopro incipiente, de ternos carinhos em mim. De repente, como num rompante, ela me toca o rosto e então pude sentir seu afeto ocupando o espaço do meu corpo e alojando sua presença em minhas lembranças diárias pelo resto do dia.

Ela segurava em minhas mãos, como me dando novo impulso, algo de reset, como uma senha para novos dias a percorrer.

Era beira-mar. Uma manhã junina mesclada de sol e neblina. O sol que aparecia com timidez, a areia, o mar e ela -a brisa leve - deixaram-me temperada de felicidade.



Doce azedo amaro

Michelle Paulista,


doce-mO livro de doce azedo amaro, de Theo G. Alves é uma viagem pela poesia ainda possível de encontrar num mundo feito só de brutalidades. Cabe ao poeta descobrir essas palavras generosas ao homem para tornar a vida melhor, nem que seja por um instante. Como diz o poeta, em um de seus poemas, antes da poesia era só o estampido, o soco, o tiro, o golpe, a faca, a foice. Mas a poesia tem, sim, o poder de anular esses ferimentos cicatrizados na vida. O poeta diz: “ávido, espero/ o decreto de meu último/ silêncio/.../”, como se a dizer que a palavra, infelizmente, talvez já esteja em desuso. O poeta se afirma vítima de muitas armadilhas do poema, mas sabe se proteger. O importante é construir sempre essa poesia escondida nos becos, naquele homem que caminhava pelos desertos, nas Dulcineias caladas no caminho, à espera ou à procura do Cavaleiro da Triste Figura, D. Quixote, que luta sempre contra visões, mas sempre em favor da Beleza. Ele também recorre à memória para encontrar as imagens da infância, ainda vivas dentro de si. O livro de Theo G. Alves deixa uma mensagem significativa: muitas vezes, o amor é maior que o próprio amor. Um livro de poesia, de um poeta que sabe de seu ofício de escrever e sabe, também, como observa em um de seus poemas, que “o poema é sempre uma violência”.


Inicialmente, será lançado em Brasília; posteriormente, em terras potiguares.


SERVIÇO

Lançamento do livro doce azedo amaro

Locais /datas: Espaço Eni Fernandes, Rua 03, Chácara 95, Setor Habitacional Vicente Pires, Brasília/DF (dia 16/06/2018) | Bar Beirute – Asa Sul, Bloco A1 Loja 2/4 - Asa Sul, Brasília – DF (dia 18/06/2018)

Valor: R$ 38,00



Versos íntimos

Michelle Paulista,

O poema homônimo de Augusto dos Anjos é um dos mais impressionantes que já li. Conheci-o na faculdade de Letras e, como não poderia deixar de ser, passei a admirar o talento inquestionável desse paraibano inclassificável.

Em vão, a historiografia literária tenta classificá-lo em alguma escola literária ou estilo de época, mas o poeta, grande que é, se faz como quer: ora simbolista, ora parnasiano, ora pré-modernista. Enquadramentos à parte, é a obra augustiana que interessa.

Augusto dos Anjos é desses poetas únicos, cuja obra perturba qualquer leitor. Cético quanto à vida, às pessoas e ao amor, compôs versos melódicos, com temáticas mórbidas e científicas, em que a desesperança e a concretude da falência humana são expostas como uma ferida purulenta.

“Versos íntimos” o são sem qualquer relação com sombra de romantismo. A intimidade dos versos em questão não passa da constatação que só temos a nós mesmos diante das agruras da vida.

A célebre passagem “O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja”
revela uma potente intimidade do poeta consigo próprio, num lampejo de sobriedade e percepção do real que chega a chocar quem o lê.

Fato é que talvez a única companheira inseparável de qualquer ser humano do mundo é a solidão, embora estejamos rodeados de pessoas e acumulemos mais de 1.500 contatos nos aplicativos de redes sociais.

Já no início do século XX, temas como solidão, desesperança, ingratidão eram temas dos versos de Augusto dos Anjos, o que torna seus sonetos tão atuais quanto impactantes, ainda nessa sociedade pós-moderna do século XXI.

Versos íntimos, Psicologia de um vencido, O morcego, Solitário estão dentre os poemas mais célebres de Augusto dos Anjos, publicados no livro “Eu e outros poemas”, um clássico da literatura brasileira, diria mundial. A singularidade dos sonetos assim o credencia.

Convido à leitura de “Versos íntimos”. A interpretação fica por conta de você, leitor, que, certamente, como eu, conseguirá se identificar com as verdades cortantes que habitam os versos abaixo:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


Sobre castelos de areia, metáfora da vida

Michelle Paulista,


Uma das metáforas mais gastas é a dos castelos de areia. Castelos de areia são erguidos a partir de forminhas, geralmente presenteadas em datas infantis. Por isso mesmo, são artificiais. Não são compostos de verdades, embustes que são. Por serem moldes, são decorativos, previsíveis. Coisa impossível é habitar castelos de areia; eles não nos acomodam; não podemos ser conteúdos de tais continentes.

Embora lindos, se acaso pudéssemos adentrá-los, seríamos soterrados pela verdade indiscutível que os permeia: são burlas.

Um castelo de areia não é sequer um castelo, é uma réplica, representação desse sonho insistente que carregamos de sermos princesas e príncipes, felizes para sempre. Embora lindos, são carcomidos pela água. Sua natureza é ser ludíbrio temporário.

Às vezes, o vento os derruba. Outras, o próprio castelo vem e com um chute na cara, se desfaz.

O que se tem de certo é que sempre chega o momento: a qualquer hora, ele rui. 



Saudade de ter medo de barata

Michelle Paulista,


Os medos contemporâneos são muitos e nos apavoram. Desde sempre, tenho medo de barata. Algumas pessoas – aquelas que julgam saber de nós mais que nós mesmos – dizem não ser medo, mas nojo. A ojeriza existe, mas não é preponderante nesse caso.

Sim, é medo. A simples presença de uma barata parece-me algo intimidador, desafiante, até. Lembro-me bem de um episódio na adolescência, em que fui preparar um lanche e uma barata saltou em mim. Resultado: tive uma crise de choro que até hoje não sei se foi pelo susto, pela sensação de pavor ou tudo isso misturado.

Ocorre que esses dias estava eu absorta em pensamentos vários: as contas, as injustiças e contradições da vida, as reivindicações sem propósito, o dever de ser mulher bonita, elegante, amante ardorosa, esposa perfeita, mãe exemplar, a profissional irretocável, pesquisadora elogiável e magra! São muitas eus que me vejo obrigada a ser.

O orçamento doméstico. As provas escolares do filho. A excelência no trabalho. O sorriso no rosto. O “look” adequado. O vazamento da pia. A limpeza do quintal. O garrafão de água que secou. O almoço de amanhã. O boleto. O, o, a. Infinda é a lista de “O” e “A”.

Então ela surge: preta, enorme, atrevida. Não deu tempo de ter medo. Saquei o aerossol de veneno e com não mais que três borrifadas, minha oponente convulsionava aniquilada.

Caro leitor, cara leitora, a barata é metafórica, está claro. Ela pode ser qualquer coisa que, inexplicavelmente, nos apavora, nos fazer sentir vontade de gritar ou sair desesperadamente em busca de alguém que resolva nosso problema, mate a barata, seja ela o que for.

Nossos medos merecem respeito. Nem sempre podem ser explicados. Mas há de chegar um dia que eles se tornarão tão ínfimos e bobos ante as inúmeras demandas que a vida contemporânea nos impõe. Não temos tido tempo de curtir nossos medos inofensivos, como o de barata. Eles, os medos, ganharam vulto e hoje são de outros tipos: violência urbana, relações pessoais contaminadas pela falsidade e superficialidade, os inúmeros papéis a que somos instadas a representar, especialmente nós mulheres.

Seria ótimo que os nossos medos modernos fossem resolvidos ao sacarmos um frasco de veneno comprado em supermercado; não seria prático e libertador? Mas a vida tem-nos imposto outros medos que nem mesmo chineladas e mais chineladas amenizam. Nosso “spray” moderno são os ansiolíticos; nossas chineladas são passos confusos em direção ao não-sei-o-quê.

Saudade imensa do tempo em que meu medo maior e mais apavorante era o de encontrar uma barata.



Sebo Vermelho, recanto das letras potiguares

Michelle Paulista,


Espremido entre magazines e restaurantes populares, lá está. É um lugar de achados, sobretudo para os amantes e entusiastas das letras potiguares. Lá é possível encontrar verdadeiras relíquias da produção literária e artística do Rio Grande do Norte.

Falo do Sebo Vermelho, a Pasárgada dos que apreciam escritores – poetas, ensaístas, ficcionistas – da nossa literatura. Títulos esgotados lá podem ser encontrados; acervo valioso para pesquisadores idem.

O lugar é simples, mas cheira a literatura. Cores de cultura são refletidas no espaço. O comandante, Abimael Silva, é um desses quixotes das letras. Guardião da nossa história literária, Abimael vive do seu Sebo, o que me faz considerá-lo um homem de muita sorte e bastante felizardo: quisera eu viver de literatura potiguar.

Com cerca de 500 livros publicados (sem verba do governo ou edital, como gosta de frisar), Abimael Silva e seu Sebo Vermelho prestam um grande serviço à memória da literatura do Rio Grande do Norte. Ao entrarmos no sebo e percorrermos as estantes cheias dos grandes potiguares, sentimos uma espécie de alumbramento, por perceber que ali encontramos muito do nosso acervo potiguar, deveras esquecido e desprestigiado.

Recomendo aos leitores que, numa dessas idas à cidade, dê uma “passadinha” no Sebo: lá é possível conhecer muito da nossa história e cultura impressas nos livros à venda, todos a preços módicos.

Sábado último, estive por lá. Era a comemoração do aniversário de Abimael, disseram. O buffet era uma vistosa paçoca com feijão verde e a velha e inseparável cervejinha. Encontrei por lá alguns escritores conhecidos, batendo papo. Eu buscava uns títulos de Veríssimo de Melo para pesquisa. Conversávamos sobre isso quando fomos interrompidos por um jovem estudante, desses com cara de aspirante a Medicina, Direito ou Engenharia:

- O senhor tem o livro Física quântica de autoria de fulano de tal?

- Não, meu filho – respondeu rapidamente Abimael.  Aqui só temos livros pra gente que não estuda.



Humor natalense por Veríssimo de Melo

Michelle Paulista,


Para quem deseja conhecer a obra do poeta, músico, etnógrafo, folclorista e pesquisador Veríssimo de Melo sugiro que comece pela leitura deliciosa de seu “Pequena antologia do humor natalense”. Publicado em abril de 1959, o livro é um apanhado de “causos” engraçados de 18 personagens reunidos como numa festa, uma porção de boêmios, de contadores de “histórias de sete varas”, de improvisadores de respostas admiráveis, que ainda hoje são contadas em nossas bancas de café entre risadas e ardentes goles de bebida” como prefaciou, à época, Newton Navarro.

A antologia foi reeditada em 2003 pelo Sebo Vermelho e reúne verdadeiros clássicos do humor de uma Natal que já não existe, mas que continua viva na memória dos que viveram aquele tempo e dos que não deixam que a nossa cultura e literatura percam-se no esquecimento.

Separei alguns personagens e causos, como pequena amostra do que o leitor pode encontrar:

CEL. OLINTO GALVÃO

Conta-se que era um antigo comerciante que não costumava tratar os clientes com muita polidez. Contudo, segundo conta Veríssimo, aqui e acolá saía com tiradas muito engraçadas:

Uma vez o vigário da Catedral foi pedir ao cel. Olinto um auxílio para a Noite dos Casados, da tradicional festa da Padroeira. Ele recebeu o sacerdote muito bem, mas quando soube que era auxílio para a Noite dos Casados, fez psiu e disse: - Fale baixo, pra Candinha não ouvir! Eu não sou casado, não! Sou amigado!... (p. 23)

ROMUALDO GALVÃO

Dizem que era um homem muito “esquisito”. Carrancudo, falava pouco e adorava cerveja, tanto que teria confeccionado um paletó de bolsos enormes para carregar garrafas de cerveja. “De todos os tipos de ferramentas ele possuía três unidades. Não vendia, não dava nem emprestava”. (p. 37)

Romualdo estava uma noite na janela, com sua genitora, quando passou um cidadão bem vestido, na calçada. Muito naturalmente, a senhora indagou a Romualdo, baixinho, quem era aquele homem. Galvão, que também não o conhecia, gritou chamando o cidadão e disse:

- Mamãe quer saber quem é o senhor, como é o seu nome, se é casado, tem filhos, onde é empregado, o que anda fazendo em Natal. Diga tudo a ela! (p.39)

CARMELO PIGNATARO

Boêmio de Extremoz, com inúmeras histórias de farras.

Ouvi contar que, uma noite, Carmelo chegou em casa pelas três da madrugada, vindo de uma farra grossa. Como é lógico, sua exma. Esposa recebeu-o contrariada e reclamou: - Agora, Carmelo? Três horas da madrugada! Ao que ele contestou: -Três horas, não! Uma hora da manhã! Por coincidência, no mesmo instante, o relógio da parede bateu as três horas fatais. A senhora, vitoriosa, exclamou: - Eu não disse que eram três horas? Carmelo teve ainda esta saída genial: - Mas, minha mulher, você deixar de acreditar em mim, que sou seu marido, para acreditar num simples relógio de parede!...

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Aos caros leitores, fica a sugestão de leitura!



Serenata do Pescador, Praieira ou a canção do povo potiguar

Michelle Paulista,

Homem de muitas cidades, Othoniel Menezes é o autor de  “Serenata do Pescador”, poema que se popularizou ao ser musicado.

Nascido em Natal, criado no sertão, Othoniel Menezes também viveu um tempo em Macau, tendo convivido, inclusive, com o mestre Edinor Avelino, pai de Gilberto Avelino.

O decreto-lei nº 12, de 22 de novembro de 1971, considerou “Praieira” (como ficou mais conhecido o poema), o Hino da cidade ou Canção tradicional da cidade.

Sem dúvida, a canção, juntamente com “Linda baby” e “Avenida 10”, formam a tríade representativa das coisas de Natal, da essência do potiguar, traduzida em notas musicais.

Com música de Eduardo Medeiros, “Serenata do pescador” ou “Praieira” ganhou a célebre interpretação do cantor potiguar Fernando Tovar – versão que embalou muitos amores e verões nas varandas do litoral potiguar.

Considero lamentável que muitos estudantes natalenses jamais ouviram a canção ou leram o poema, desprovidos de acesso à cultura do seu lugar, insipientes da produção literária “clássica” do estado ou mesmo contemporânea.

Aos que nos leem, seguem o poema e o link da versão musicada (interpretação de Fernando Tovar).

https://www.youtube.com/watch?v=VA7Gbt8UvSk

SERENATA DO PESCADOR (OTHONIEL MENEZES)

Praieira dos meus amores,
Encanto do meu olhar!
Quero contar-te os rigores
Sofridos a pensar
Em ti sobre o alto mar...
Ai! Não sabes que saudade
Padece o nauta ao partir,
Sentindo na imensidade,
O seu batel fugir,
Incerto do porvir!

Os perigos da tormenta
Não se comparam querida!
Às dores que experimenta
A alma na dor perdida,
Nas ânsias da partida
Adeus à luz que desmaia,
Nos coqueirais ao sol-pôr...
E, bem pertinho da praia,
O albergue, o ninho, o amor
Do humilde pescador!

Quem vê, ao longe, passando
Uma vela, panda, ao vento,
Não sabe quanto lamento
Vai nela soluçando,
A pátria procurando!
Praieira, meu pensamento,
Linda flor, vem me escutar
A história do sofrimento
De um nauta a recordar
Amores, sobre o mar!

Praieira, linda entre as flores
Deste jardim potiguar!
Não há mais fundos horrores,
Iguais a este do mar,
Passados a lembrar!
A mais cruel noite escura,
Nortadas e cerração
Não trazem tanta amargura
Como a recordação,
Que aperte o coração!

Se, às vezes, seguindo a frota,
Pairava uma gaivota,
Logo eu pensava bem triste:
O amor que lá deixei,
Quem sabe se inda existe?!
Ela, então, gritava triste:
Não chores! Não sei! Não sei...
E eu, sempre e sempre mais triste,
Rezava a murmurar:
“Meu Deus, quero voltar!”

Praieira do meu pecado,
Morena flor, não te escondas,
Quero ao sussurro das ondas
Do Potengi amado,
Dormir sempre ao teu lado...
Depois de haver dominado
O mar profundo e bravio,
À margem verde do rio
Serei teu pescador,
Ó pérola do amor



Um escudo, como o do Capitão América

Michelle Paulista,


Gosto das metáforas com heróis: são leves, didáticas e fantásticas.  Nessas aventuras, tudo é mágico e possível e trazê-las para o mundo da vida ajuda a encarar o alucinante dia a dia, como versou Belchior.

Não sei se por consequência da idade (indícios de maturidade?), leituras sobre inteligência emocional ou saúde um tanto debilitada, decidi adotar duas ferramentas no cotidiano – um filtro e um escudo. O filtro é demanda da vida moderna: menos tv, menos grupos de whatsapp, menos barulho, menos aglomeração, menos roupa no armário, menos, menos, menos. Mas a grande “sacada” foi a adoção do escudo. Sim, um escudo é necessário. Nosso corpo é alvo fácil de toda série de ataques. Todos os dias somos bombardeados por agressões – vezes por olhares, comentários ou palavras grosseiras. Já reparou como isso nos faz mal em grandes proporções? Pois resolvi adotar um escudo na tentativa de barrar ao menos parte da energia negativa e perniciosa que emana de certos seres humanos.

Uma resolução. Decidi que tentaria criar um invólucro invisível ao meu redor, tão imaginário quanto consistente, na tentativa de me preservar de algumas grosserias e injustiças que nos acometem de vez em quando.

Foi aí que o “Inmetro” divino resolveu testar o padrão de qualidade do meu escudo e me submeteu a uns testes de qualidade bem rigorosos. Num mesmo mês, vários bombardeios poderosos.

Certo dia, uma antiga conhecida disse numa infantilidade mesclada de estupidez e bizarrice que não “queria ser minha amiga”. Faltaram só os dedos indicadores em sinal de “tô de mal” pra coisa ficar um pouco mais ridícula, posto que foi patética. Dizer desaforos, xingamentos e outras coisas afins me daria um terrível prazer, mas optei por sorrir e dar as costas.

De outra vez, fiz um comentário de solidariedade num desses grupos de whatsapp, na mais cândida e terna intenção e recebi uma interpretação exatamente ao contrário. Descontada a absoluta falta de capacidade interpretativa, ainda houve a grosseria pública. O que fazer? Emendar uma discussão virtual, com expectadores e tudo? Respirei fundo e tentei, sinteticamente, explicar a minha real boa intenção, acompanhada de um pedido de desculpas (pelo que não fiz).

Poderia citar ainda as conclusões e acusações precipitadas no trabalho, os mal-entendidos, os xingamentos e agressões verbais no trânsito, a fúria das pessoas quando passamos uma fila apenas para tirar uma dúvida etc. Escudo. Vamos de escudo.

Todas as vezes que somos afrontados, sentimos vontade de revidar, de dar o troco, de ter a última palavra. Mas será que assim ganhamos sempre? Ganhar uma discussão ou gritar mais alto é lucro? Já imaginou quanta energia dispensada? Sim, somos energia. Somos matéria. Cada vez que revidamos um ataque, que batemos boca, empreendemos força, energia, vida e saúde. Não digo que sejamos corpos dóceis, letárgicos, mas é preciso avaliar aquilo em que VALE A PENA aplicarmos energia. Temos realmente necessidade de ganhar todas as discussões? Que lucro há em bater boca com gente estúpida, afetada, grossa e destemperada? Não é melhor guardar força/energia/vida/saúde para os bons combates – aqueles nos quais se usam argumentos em vez de palavras encharcadas de ódio e imbecilidade?

Sim, é preciso dizer não. Sim, é preciso reagir. Mas é mais necessário AINDA avaliar em que batalhas estamos gastando nossos cartuchos. Como dizem os antigos: gastar cartucho em fogo de palha é tática errada. Sejamos combativos, firmes, destemidos nas causas que realmente interessam e que nos tragam algum ganho. Discutir com tolos e descompensados nos torna igualmente tolos e descompensados, pensemos nisso!

É preciso respirar fundo, avaliar a causa, preparar as armas e usá-las em batalhas mais nobres. Nos embates imbecis, lancemos mão do escudo.

Meu desejo é que Deus tenha encerrado a bateria de testes e não me ponha mais essas provas indigestas: o escudo é frágil, pode fissurar. 



Professora lança livro "Entre salinas e maledicências: Uma leitura do romance Macau em contexto de ensino"

Michelle Paulista,



A professora Aparecida Rego lançará, no próximo 04 de maio, o livro "Entre salinas e maledicências: uma leitura do romance Macau em contexto de ensino". A obra é resultado da dissertação de mestrado da professora, sob orientação do Profº. Dr. Humberto Hermenegildo, imortal da Academia de Letras do RN.

"Macau" é um romance da década de 30, de autoria de Aurélio Pinheiro e é considerado um dos mais representativos da época.

Aparecida Rego é competente professora das redes estadual e municipal de Natal, mestre em Estudos da linguagem pelo PPgEL - RN e traz, nessa pesquisa, relevantes contribuições para a prática de ensino de literatura, algo que aflige diversos colegas professores de Língua Portuguesa.

Certamente é leitura indispensável, sobretudo pelo que conheço de Aparecida nos aspectos pessoal e profissional. Vale a pena conferir.


O poema em sala de aula II

Michelle Paulista,

CONTINUAÇÃO DO TEXTO PUBLICADO NESTA COLUNA EM 05/02/2018, ACERCA DE UMA PROPOSTA DE TRABALHO COM OS POEMAS "ELOGIO À PREGUIÇA" DE JUVENAL ANTUNES E "O PREGUIÇOSO", DE ALMYR LIRA.


Os dois textos possuem evidente aproximação. Não apenas pela temática, mas pela irreverência ao tratar de tão inusitado assunto. Não que a preguiça seja incomum; incomum é tê-la como tema de poemas. Em geral, os substantivos mais comuns em matéria de versos são conceitos mais “nobres”, como amor, alegria, coragem, nobreza etc.

  Juvenal Antunes nasceu em Ceará-Mirim, no século XIX, tendo como irmã a escritora memorialista Madalena Antunes Pereira. Entretanto, foi no Acre que viveu a maior parte de sua vida adulta, ocupando o cargo de promotor público. Juvenal é dono de uma biografia curiosa, pois passava seus dias vestido de chambre, a declamar poemas em homenagem a sua amada Laura, com quem teria vivido um romance clandestino. Existe uma estátua em homenagem ao poeta na calçada do antigo hotel onde residia e vivia de farras pagas “no fiado”.

  Almyr Lira, por sua vez, é nascido em Campina Grande e advogado por formação. Mantém um blog chamado “Cordel, poesia e repente” onde é possível se ter acesso a sua vasta produção de cordéis. Há poucas informações biográficas no blog.

  Nessa atividade, não iniciaremos tratando das noções de rima ou métrica, tampouco se este ou aquele poeta pertence à determinada ‘escola literária’. O texto é o ponto de partida e de chegada. Obviamente, conclusões serão encontradas e conteúdos inerentes às duas produções aflorarão durante a atividade. Mas esse não é o objetivo maior.

A atividade de leitura deve se colocar como uma provocação, para que o leitor, diante do texto, ou seja, dos conflitos, das personagens, de suas experiências, de seu universo, de tudo que lhe revela sua humanidade, possa se colocar frente a si mesmo, na medida em que se depara com a vida do outro, ou se sente tocado pela subjetividade alheia (...). (CRUVINEL, 2008, p.126)

  Podemos dividir a turma em grupos; a depender do número de alunos, uma parte se encarregará do poema de Antunes e a outra parte, do cordel de Lira. Ressaltamos ser fundamental o papel mediador do professor, não para “interpretar” o poema, mas como instigador da leitura de inferências dos alunos.

Chamamos a atenção para a responsabilidade do professor mediador. Antes de tudo, é preciso que esse professor demonstre entusiasmo pela leitura, que a realize com certa efusão e, que, finalmente, seja um professor leitor. 

   

Eis os poemas:

TEXTO 1: Elogio à Preguiça, Juvenal Antunes



Bendita sejas tu, Preguiça amada, 
Que não consentes que eu me ocupe em nada!

Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras, 
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.

Não permuto por toda a humana ciência 
Esta minha honestíssima indolência.

Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã. 

Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício. 

Ó sábios , daí à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento! 

Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em na paz, preparar a luta, a guerra! 

Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões! 

Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas. 

Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas... 

Cresce o teu filho? É belo? É forte? É loiro?
- Mas uma rês votada ao matadouro! ... 

Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz, 

Que arda, depressa , a colossal fogueira
E morra assada, a humanidade inteira! 

Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente? 

Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte? 

Queres riquezas, glórias e poder? ...
Para que, se amanhã tens de morrer? 

Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro, 

Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens? 

Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas! 

Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras! 

Ó Laura, tu te queixas que eu, farsista,
Ontem faltei, à hora da entrevista, 

E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor - por outro amor... 

Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal. 

Que me não faças mais essa injustiça! ...
Se ontem não fui te ver - foi por preguiça. 

Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir... sonhar ...

TEXTO 2 – O preguiçoso, de Almy Lira

O que ora sinto faz lembrar

D’um sermão dito na missa:

- Atire a primeira pedra

Quem, incansável na liça.

Nunca parou pra dizer:

‘Ai, Jesus, que preguiça!’

Mas não é da preguicinha

Do cansaço da labuta

Da fadiga do espinhaço

Querendo u’a cama de juta

Ou depois se empanzinar

Comendo um balaio de fruta

Não! Essa todo mundo tem

É fisiológica, normal

O pecado é o da preguiça

Que o cabra morre no pau

Mas não move um dedo só

Nem pra ir pro hospital

É um Macunaíma da vida

Não sabe o valor do que come

Pois quando ouve: ‘ao trabalho!’

É o primeiro que some

E se o chamam pra mesa

Da cama diz: ‘perdi a fome’

Se o preguiçoso está

Sentindo frio ou calor

Não vai pegar um agasalho

Nem liga o ventilador

E se o mandam ir à farmácia

Logo diz: ‘passou a dor’

Eita cabra preguiçoso

Esse geme de preguiça

Pra se levantar da rede

Nem um par de seios o atiça

E pode ir ver se o danado

Não cheira igual a carniça...!

Brincadeiras à parte

Não concebo um tal seujeito

Sem vitaminas, proteínas

Um Macunaíma perfeito

Mas se existir, o mal está

Num DNA com defeito.

Dividida a turma em grupos, sugerimos que cada aluno, individualmente, faça a sua leitura preliminar, sucedida da leitura em voz alta do professor mediador. Consideramos fundamental a leitura em voz alta, pois o professor certamente usará a entonação adequada, com oscilações no volume da voz ou mesmo uma vez “com tom de riso”, se for o caso.

Em seguida, pode-se solicitar que identifiquem as semelhanças entre os dois textos e de que maneira os poetas abordam o tema. Quem é mais irônico? Quem faz uso de uma linguagem mais popular, regionalista? Concomitantemente, cada grupo se encarregará de fazer um levantamento das imagens mobilizadas no texto; a partir do 9º ano, já é possível identificar as figuras linguísticas utilizadas, as rimas, a sonoridade.

Nessa mesma empreitada, os alunos poderão localizar vocábulos desconhecidos e, a partir de inferências e análise do contexto, recuperar o sentido de cada palavra que não conhece. Apenas em último caso, o dicionário deverá ser consultado, visto que o sentido de uma palavra é construído no contexto em que está empregada e esse “treino” estimulará o aluno a reconhecer as  relações semânticas existentes no texto.

Realizada essa primeira aproximação, o professor pode, se achar oportuno, solicitar aos alunos que pesquisem sobre os autores, suas obras, o gênero cordel. Para estimular a curiosidade da turma, basta lembrar da presença de Juvenal Antunes na minissérie Amazônia, da Rede Globo, papel que teve como intérprete o ator Diogo Vilela. É de muita ajuda a exibição de trechos da minissérie em que Antunes apareça. A depender da realidade local e da particularidade da turma, pode-se pensar numa visita a um sebo ou, ainda, realizar uma oficina de cordéis.

Sobre o cordel de Lira, talvez não seja encontrado farto material sobre o autor, a não ser um blog no qual o poeta publica seus poemas. Outros cordelistas podem ser pesquisados, ou mesmo sugerida uma coleta de informações sobre o gênero: como surgiu, a relação com a cultura popular etc.

Logo, qualquer que seja o desdobramento da atividade proposta, ela precisa fazer sentido para o aluno, precisa propiciar a ele a oportunidade de ampliar sua competência leitora e sua capacidade de fazer inferências; precisa promover uma leitura do mundo que o rodeia:

As competências e habilidades propostas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (...) permitem inferir que o ensino de Língua Portuguesa, hoje, busca desenvolver no aluno seu potencial crítico, sua percepção das múltiplas possibilidades de expressão linguística, sua capacitação como leitor efetivo dos mais diversos textos representativos da nossa cultura. (PCN+, 2006, p.52)

Considerações

  O que propomos aqui não é algo inédito. Muitos professores de língua portuguesa têm-se esforçado para encontrar outros caminhos, outras estratégias metodológicas para uma aula de leitura “interessante”, uma aula de literatura que não se limite à simples memorização de nomes e épocas; de características textuais ou classificação estilística.



Minha primeira vez

Michelle Paulista,



A primeira de todas as coisas é, naturalmente, um marco. Para alguns, é só um início; pra outros é adentrar no inédito.

Sou mãe há 12 anos. E ser mãe sempre foi, pra mim, uma explosão de coisas. Meu filho é a pessoa mais importante da minha vida, ao lado do meu marido e meus pais - em qualquer ordem. Entretanto, nunca encarei a maternidade com o glamour do qual normalmente é revestida: chá de bebê singelo, solidão no resguardo (o que significa isso mesmo?), amamentação traumática, pouco leite, pouco tudo. Paradoxalmente, ver meu filho pela primeira vez foi o maior alumbramento que já vivi. Mas não é um memorial desse período que pretendo fazer.
Posso dizer que sempre batalhei muito pra enfrentar a tarefa mais difícil da minha existência: sem vovós, titias, vizinhas legais, aprendi a "me virar" pra dar conta de uma vida profissional e a vida daquele serzinho tão dependente. Sempre juntos estivemos. Até hoje é pesaroso e assustador deixá-lo ir ao cinema com algum coleguinha, ainda que acompanhado dos pais. Mas eis que recebo uma proposta de trabalho para passar uma semana fora. O que fazer? 
Para alguns que agora me leem, isto pode parecer drama de novela mexicana. Mas, como disse, as primeiras coisas são portais: nos levam para os começos. Pensei em desistir, inventar uma desculpa; pensei até em uma doença deliberada. Encarei. Expliquei que precisava me ausentar para uma atividade profissional, que ele já estava um "rapazinho" e que, futuramente, talvez fosse ele quem precisasse viajar pra estudar ou trabalhar e - estou certa - não levará a mamãe a tiracolo.
Ia tudo bem, até que um silêncio tomou conta da casa, antes do embarque. Preteridos o futebol e as brincadeiras com os colegas de condomínio, pra assistir tv.
Na hora do espetáculo, todo ensaio perde o sentido. Eu fui a primeira a liberar as lágrimas. Imperativas elas são. Não há músculos nos olhos que as segurem quando vêm como torrentes, empurrando as pálpebras, como batedores num evento cívico. Chorei, choramos. Era nossa primeira vez.

Contudo, os dias passaram, fui me acostumando com a ideia, envolvida em trabalho. Percebi que em casa ia tudo bem também. Tudo seguindo a ordem natural das coisas e a constatação óbvia que, apesar de importantes, não somos indispensáveis.

A vida é um tanto assim: abraçamos incumbências, desempenhamos nosso papel da melhor forma. Mas o fato é que as vidas são livres, independem de outras para viver. Ficou todo mundo bem e isto, de certa forma, é também um portal para mais um início: meu filhote já é um rapazinho e eu, apenas mais uma mãe neurótica. 



Kukukaya: precisamos

Michelle Paulista,


(Republico texto de minha autoria sobre a excelente Kukukaya, da qual tenho a honra de ser colaboradora)


Embora vivamos em terreno fértil de artistas e produção literária, falta “paú” às vezes para que nossas artes floresçam.

Talvez tenha sido essa a inspiração para a revista Kukukaya, um dos mais importantes lugares de divulgação da arte, cultura, literatura e poesia potiguares. Conversando com meu amigo Alfredo Neves, ele me contava um pouco da etimologia do termo: palavra de origem cigana que remete a algo que nasce entre dificuldades, regado a suor e lágrimas.

  Creio que é bem assim mesmo: quando tivemos alguma facilidade para tratar de literatura? Literatura não vende, não enriquece, no Brasil é difícil viver de arte em geral, quiçá de literatura... Não dá votos, nem audiência... No máximo, uma condecoração ali e acolá...

  A revista mescla poesia potiguar e nacional, artigos acadêmicos e sobre o cotidiano, crônicas, política, entrevistas. É hoje um importante refúgio para nós, quixotes das Letras, num mundo cada vez mais mecanizado, coisado, “empreendorado”, “proativado” e tantos ados, igualmente discutíveis.

  Diria que a revista traz a grife de Alfredo Neves, amigo, artista plástico, poeta e outros predicativos. Thiago Gonzaga, amigo e pesquisador da literatura potiguar (um dos melhores). Para arrematar, Manoel Onofre Jr., sem apresentações, pois sua figura e nomes assim dispensam.

  É bom saber que suor e lágrimas, líquidos que são, resultaram na virtual concretude da Kukukaya, necessária, literária e artística.


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