Entre lanternas e livros

I Feliccidades, sucesso de crítica e público, movimentou Parnamirim esse fim de semana

Michelle Paulista,

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Aconteceu, nos dias 18, 19 e 20 úlitmos, o I FELICCIDADES, Festival literário e cultural das Cidades. O evento teve como palco o colégio PH3 e os auditórios do Yázigi. Com vasta programação, o festival reuniu artistas, músicos, contadores de histórias, poetas, mediadores de leitura e, claro, estudantes que foram prestigiar um verdadeiro banho de cultura e arte.

Na conferência de abertura, aconteceu a Palestra: "A importância da obra de Gilberto Avelino", grande poeta das salinas e da literatura potiguar. A mesa contou com a professora e pesquisadora Michelle Paulista e o professor Diógenes da Cunha Lima, presidente da Academia norte-rio-grandense de Letras.

Outras presenças marcantes no evento: Edilberto Santos, Francisco Martins, Gilvânia Machado, Elizabeth Rose, Humberto Hermenegildo, Horácio Paiva, Thiago Gonzaga, Rejane Souza, Marcos Medeiros, Salizete Freire, Drika Duarte, José Acaci, Oreny Júnior, dentre outros. No ginásio da escola, aconteceu também feira de livros e sebos.

Parabenizamos à professora Francisca Henrique, diretora do PH3, pelo olhar visionário e sensível à cultura e às letras potiguares. 




Eu, essa ilha

Michelle Paulista,



As pequenas gotas salgadas ou o lento-rápido submergir? Coisa difícil era eleger qual deles era o protagonista desse meu espaço e momento nos quais trafego agora.

Predominava em minhas vistas o azul- esbranquiçado- marrom -meio verde da água ao redor. Era quase um alvo daqueles de atirar. Ao redor da bola central, vários outros círculos, assim como se espremendo, empurrando o círculo menor. Até ali se via a opressão e o poder que uma força maior tem sobre algo que teima em existir e resistir.

Eu era quase uma ilha, envolta de livros, pessoas, lista de compras, boletos bancários por todos os lados. Também me cercavam os aplausos, os elogios, o falso glamour, a conta bancária, os parentes. E eu não alcançava a boia, embora, de certa forma, ela estivesse em minhas mãos.

Os intervalos eram resultados de uma cansativa maratona de empurrar pensamentos positivos juízo abaixo. Tão curtos os intervalos, que não valiam a pena almejá-los. Não se podia avaliá-los intervalos, mas pequenas sobras de tempo em que as gotinhas salgadas não achavam lugar.

Insistia em me vestir de amarelo e vermelho, essas cores-tudo. Insistia em muitas outras coisas, até mesmo em insistir. Uma estranha iniciativa de fazer-me resistente, como um militante que não abandona o front. E elas, as amostras.

Amostras de vida têm gosto. Falo de paladar. Para cada hora do dia, um sabor diferente. Excedem o salgado/doce/ azedo a que somos familiarizados.

 Algumas amostras de vida têm gosto de arroz queimado, resultado de uma postura de que as coisas não vão acontecer; vou deixar o arroz no fogo, ainda tem muita água. E, de repente, o cheiro invade a casa, a panela fica quase imprestável, com as marcas de queimado ao fundo. A refeição fica incompleta, sem o elemento básico, parelha do feijão nosso de cada dia.

Há também o gosto de detergente de louça, quando tentamos abrir o bico do vasilhame com os dentes, desdobramento de minimizar o efeito horrível do líquido espumante que, ao atingir os dentes frontais, escorrem pela língua e provocam gosto terrível. É o gosto derivado da certeza de que podemos manipular substâncias indevidas, achando que sairemos incólumes.

Há o gosto de sabão na boca, de sangue na língua, de água de praia no nariz. São os sabores que a vida empurra cotidianamente e a que somos obrigados a deglutir. Mas há quem não perceba esses sabores e desfrute da incrível feliz alegria de conhecer apenas os palatos tradicionais, doce, azedo e amargo.

Morro de inveja de quem vive uma vida de triplo sabor; almejo ter somente os dissabores clássicos da existência: falta de dinheiro, filho doente, fila de ônibus, boleto atrasado. São sabores palatáveis.

Mas olhando para o meu oceano particular e para a boia que vejo em minha mão e não consigo enxergar, as amostras de vida- de minha vida- com seus sabores exóticos adentram agora minha matéria; não poupam narinas, ouvidos, boca, olhos: experimento-os por todos os órgãos do meu corpo. Sabores cruéis.



1º Festival Literário e Cultural das Cidades

Michelle Paulista,

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Pequeno conto (des)florido ao pé da porta

Michelle Paulista,


Eram duas. Embora parecidas, cada uma conduzia a um trajeto diferente. Opostos eram. Não se dava o caso de apenas optar por uma ou outra; antes, precisava posicionar-se ao menos de pé diante de uma delas. Chamou de portas, por falta de coisa melhor. Era assim, de olhos fechados, que metaforizava as opções que a vida lhe impunha naquele pedaço de viver.

Por trás, alguém lhe sufocava o pescoço, com unhas encravadas no couro que revestia sua cervical. A pele não é tão elástica nesse lugar, o que tornava o instante tão dolorido como inusitado.

De dia, tudo era amarelo. Cor alegre, iluminada, cheirinho de flores e pasta de dente. O lápis de olho, em parceria com a máscara de cílios, ajudava a dar um ar de causar inveja nos inocentes.

À noite e em dias não úteis, a evidência se estabelecia de forma implacável. As muitas flores desapareciam, como se uma criança as tivesse apagado de uma pintura no papel. Possuía várias delas, mas nenhuma era, de fato, sua.

Muitos queriam seu jardim, daria tudo para tê-los ou simplesmente regá-lo. Dessa forma, era capaz que trocasse os vastos campos floridos por um único e real botão de girassol. Um girassol que secasse e sujasse o jardim, mas um girassol.

Sublimadas as roseiras, sobravam as portas. Não tinha clareza se eram tubulações ou estrada aplainada. Não sabia sequer se elas poderiam ser abertas. Ou fechadas.

Do outro lado de cada uma dessas coisas-portas-entradas, havia um irrestível motor de sucção, tão apavorante quanto sedutor. Todos os clichês residem nas encruzilhadas da vida. Não é possível estilizar o aperto que acomete alguém que vislumbra um jardim e não pode desfrutar do caminho florido.

Não abriu nenhuma delas, as duas. Talvez haja mais duas dentro delas e mais duas, mais duas. Talvez nem haja tais portas. Nem flores. Nem girassóis. Nem cervical, nem couro esganado. Talvez o nada seja a maior das obviedades.



Um susto a se pensar

Michelle Paulista,


Sentada no sofá de casa, contemplando o nada, aproxima-se um barulho histérico. Julguei tratar-se de uma briga, coisa incomum por aqui. Era voz de mulher, esbravejando impropérios. Mediante inusitada situação, saí pra ver o que se passava na última e mais calma rua do condomínio onde moro. Meu filho conversava com os colegas na frente de casa.

Demorei a entender que se tratava de uma mulher, acompanhada de dois filhos pequenos. Um no braço, pouco mais de 2 anos; outro, se muito tivesse, quatro anos. Este último era o alvo dos impropérios.

Batidas ocas na parede. Esse era o som que, mais tarde, compreendi ser a mãe batendo no pequeno que sequer tinha um quinquênio de vida.

A fúria se deu porque, segundo ela, fazia uma hora que procurava o filho pelo condomínio. Certamente, ele estava brincando, imagino.

Não faço aqui julgamentos sobre a educação que cada um deve dar. Eu mesma já dei, em algum momento, umas palmadas no meu filho. Mas não posso negar que fiquei chocada quando vi aquele pedacinho de gente absorvendo bordoadas que davam pra ser ouvidas de dentro de casa. Fiquei pensando como seria o desfecho daquilo tudo, quando chegassem a casa.

Era uma mulher jovem, com um filho no braço e outro puxando pela mão. Estressada? Descompensada? Saturada pela maternidade que nem sempre é glamorosa como comercial de margarina?

As bordoadas são mesmo educativas?

Não tenho respostas. Fiquei com um terrível gosto de sabão na boca, misto de impotência e estarrecimento. Essa é pra gente pensar. Sem mais.



2ª Edição do Projeto Biblioteca Viva da Academia

Michelle Paulista,

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Em louvor a Macau

Michelle Paulista,



Hoje minha terra natal completa 143 anos. Constato, atônita, que menos da metade da minha vida passei lá, no chão salgado. É curioso porque, até dia desses, maior parte da minha caminhada na vida tinha como cenário a Salinésia. Coisa relevante, visto que o tempo não despreza o clichê de voar – ora, tempo, não poderia ser mais metafórico e passar mais devagar?

Tomando de empréstimo os versos do maior poeta macauense (em minha opinião), volto ao meu chão de sal, sempre volto...

Nasci e vivi metade da vida em Macau. Quando cerro a visão, consigo contemplar o desenho de uma Macau da minha infância/adolescência. As aulas no Duque de Caxias, com ousadas fugidas para a Rua da Maré, em que o nível máximo de transgressão era molhar os pés na maré da “rampa”, perto da lancha que me conduzia para a casa de vovó Adalgiza, na Ilha. Lembro, com emoção lhana, o medo sedutor que nos acometia violar o prédio assombrado – hoje aglomerado de lojinhas, na rua Martins Ferreira. Éramos expedicionários em busca de uma caveira enforcada, no andar de cima, sob a constante expectativa de que o prédio desabasse conosco dentro.

Mais tarde, já subindo de status escolar, estudando no colégio dos “ricos” (ainda que com livros comprados de segunda mão), o trajeto era o oposto: diariamente, uma caminhada para o porto, passando pelo mercado e enchendo as mãos de feijões, furtados docemente daqueles sacos enormes, dispostos e oferecidos nos corredores do mercado modelo, ocasião em que seus proprietários vigilantes entregavam-se à modorra da tarde.

Mas nem tudo é méleo nas reminiscências infanto-juvenis. Lembro-me da adolescência, do trabalho cheio de responsabilidades como estagiária de um banco. Impossível esquecer as incompreensões da época, a minha absurda incapacidade de me encontrar num modelo social que se estabelecia; muito ao fato de ser meio guache, acometia-me um confuso sentimento de pertencimento e não-pertencimento, coisa estranha a simultanear meu juízo. E a partida para a capital, à procura de um monte de coisas e à procura de não-sei-o- quê. Acho que fui meio “tangida” por mim mesmo da minha Macau.

Hoje visito minha terra bem menos que poderia. Encontro-me descobrindo a Macau que existiu nesse lapso de tempo entre minha viagem e este agora cheio de retornos.

Posso dizer que a amo: um amor estranho, de marcas, de sentimento natural. E, em seu louvor, não julgo que mereça uns versos meus, embora os tenha escrito algumas vezes. Ofereço-lhes, Macau, uns versos de Gilberto Avelino que, como ninguém, cantou as belezas marinhas da terra das salinas:

“Na paz das estâncias onde estás,

Eu te digo com pungir antigo:

Em mim escorre o rio, o mesmo rio

Cantando em violinos sobre espumas,

E em cujas águas de cristais em soledades

Os teus olhos de verão repousavam.”

(A paz das estâncias infinitas – Gilberto Avelino)



Escola do Legislativo promove aulas de preparação para o ENEM

Michelle Paulista,



A Escola do Legislativo Wilma de Faria da Câmara Municipal de Natal está veiculando aulas semanais de revisão para o Enem, com dicas e curiosidades para os estudantes que farão as provas do Exame.

Em parceria com a TV Câmara Natal, as aulas vão ao ar, ao vivo, sempre às segundas-feiras pelos canais 51.4 (aberto) e 10 da Cabo Telecom. Além disso, há a transmissão simultânea pelo canal da emissora no Youtube.

Após a exibição, as aulas ficam disponíveis no canal e são reprisadas durante a programação da TV Câmara.


Serviço:

O quê: Aulas de revisão para o Enem

Quando: Todas as segundas, às 8h30min

Onde: TV Câmara Natal e Youtube

Acerca de contatos e café

Michelle Paulista,



É possível que haja verdades em clichês. Um deles reza que as novas tecnologias aproximam distantes e afastam os próximos. Impossível não pensar: há distantes e próximos? Num mundo digital praticamente uniformizado, quem está perto ou longe? Todos perto, todos longe, constato.

Alvorocei-me ao descobrir que amealhei cerca de dois mil contatos em um aplicativo mensageiro. Quem são e onde estão? Acaso desse eu uma festa, caberiam? Se os convidasse, compareceriam? Que motivos os fariam declinar da invitação? Ou declinariam assim mesmo sem motivos e desculpas cuidadosamente engendradas?

O que fazem esses humanos enquanto escrevo, leio, bocejo, me enraiveço, imagino viagens e beijos ou quando acordo pra ir ao banheiro pela madrugada? O que fazem quando sentem medo? Têm dor de barriga e soluços? Ocorrem-lhe aftas e saudades? O que emociona esses dois milheiros de gentes?

Não sei se gosto de todas ou se gostam de mim. Inquiro-me se o papo com elas seria agradável como um banho de chuva com companhia, se sentiria uma vontade imediata de trocar um abraço espontâneo.

Com elas, viajaria alegremente? De alguma beijaria a boca com consistente vontade? De qual dessas gentes me agradaria o cheiro e o toque?

Que viver estranho esse em que precisamos pedir acesso para telefonar pra alguém (porque denota quase que intimidade), ao passo em que as mensagens instantâneas têm passe livre! Nosso lugar, esse de agora, em que conferimos as breves histórias de outrem é o mesmo de onde esforçamo-nos para forjar as nossas, felizes, de preferência.

Entremeio, o rádio irrompe com “Miss Sarajevo” e desperto, concordando que há, sim, um tempo para inverter o olhar e encontrar o vestido certo para se usar.

Ao descobrir tantos “contatos” em meu pequeno e valente dispositivo móvel, fico a pensar como seria tomar um café com alguns deles. Não sei se os convidaria, não sei se aceitaria o convite se convidada fosse: não bebo café. Todavia, me aprazeria receber a proposta de um; pareceria uma vida mais real tanto quanto possível.



Ler, escrever e fazer conta de cabeça - uma narrativa para qualquer vida

Michelle Paulista,


Ler, escrever e fazer conta de cabeça

O tempo amarrota a lembrança e subverte a ordem

(Bartolomeu Campos Queirós)

(O título da obra – Ler, escrever e fazer conta de cabeça – será referenciado pela sigla LEFCC)

Não é por acaso a mensagem da epígrafe que abre a narrativa. Os fatos que materializam LEFCC aconteceram antes da época em que Bartolomeu Campos de Queirós vivera em casa dos avós paternos, cujos acontecimentos principais ganham relevância em outro título seu: “Por parte de pai”(PPP). Entretanto, LEFCC é publicado somente após PPP, “subvertendo” a ordem e descompromissando-se com qualquer noção de sequência cronológica, pois a fase em que nosso protagonista viveu em Pitangui junto com S. Joaquim e D. Maria Queirós aconteceu após as primeiras experiências escolares que dão corpo ao enredo de LEFCC. Ou seria, possivelmente, um artifício do escritor para mostrar que a linguagem possibilita arranjar acontecimentos em qualquer ordem, dado o seu poder criativo. O título faz referência a uma fala do pai quando disse que essas três competências seriam as funções que a escola deveria ensinar. Tal postura do pai diante da função escolar nos remete, inevitavelmente às primeiras experiências escolares de Graciliano Ramos, descritas em Infância (1945). Ainda mais fortemente naquela época, existia a concepção de que à escola era atribuída a tarefa de ensinar a ler (decodificar a língua escrita), fazer contas e redigir palavras (sem qualquer noção de atividade textual enquanto produção). Letramento literário era algo de que sequer se ouvia falar. Este mesmo pai, que se parece com muitos – haja vista a metamorfose que a descrição feita por BCQ sofre – tinha momentos de anjo e de algoz. Já aqui Bartolomeu nos deixa escapar a angústia da expectativa de conhecer a escola. Numa perspectiva paradoxal, experimentava o medo e a vontade de conhecer o novo, o mundo escolar.

Contrapondo-se a essas perdas, havia a vontade de desamarrar os nós, entrar em acordo com o desconhecido, abrir o caderno limpo e batizar as folhas com a sabedoria da professora, diminuir o tamanho do mistério, abrir portas para receber novas lições, destramelar as janelas e espiar mais longe. Tudo isso me encantava. (QUEIRÓS, 1996, p. 8)

Embora o nome Antônio não seja, em momento algum, mencionado em LEFCC e o narrador seja em 1ª pessoa, há diversos elementos que atam a narrativas às demais (Indez e Por parte de pai), como, por exemplo, a recorrência do chocalho de cascavel amarrado ao pescoço do garoto, simpatia popular para acabar com o hábito de urinar na cama à noite.

É relevante igualmente pontuar que, desde as primeiras linhas de LEFCC, há o flagrante sentimento de não pertencimento que se deixa à mostra, como ilustrado no trecho:

Um pesar estrangeiro andou atordoando meu pouco entendimento. Ir para a escola era abandonar as brincadeiras sob a sombra antiga da mangueira; era renunciar o debaixo da mesa resmungando mentiras com o silêncio; era não mais vistoriar o atrás da casa buscando novas surpresas e outros convites. (QUEIRÓS, 1996, p. 7)

A matéria para LEFCC é – tal qual em Indez e em PPP – a descrição da vida simples no interior. Entretanto, nesta etapa da trilogia, a descrição da escola e os episódios que envolvem seus irmãos são postos mais em evidência. Interessante pontuar que os avós Joaquim Queirós e Sebastião, paterno e materno, respectivamente, também atuam nessa história. É aqui também que BCQ toma a coragem de narrar a morte prematura da mãe, aos trinta e três anos, vítima de câncer.

Embora extremamente triste e comovente, o relato da morte da mãe é, paradoxalmente, a mais bela passagem do livro. Não pela morte em si, mas pelo arranjo de palavras pelo qual BCQ decide contar tão triste acontecimento. Ele não recorre à palavra “morte”. Ele a sugere, comovendo-nos e transportando-nos para aquele triste fim de tarde:

Entrei de manso. Vi suas mãos afogadas sobre os panos da cama, como se não tivessem mais comando. Estavam imóveis. Lembrei-me do ferro de brasa acariciando a roupa, da colher de pau raspando o fundo do tacho, do regador fazendo chuva por sobre as hortaliças, da espuma no tanque esfregando nossas manchas, do pão repartido em seis, pela manhã. Um resto de sol morno do crepúsculo entrava pela janela sem muita luz, filtrado pela tristeza que arrastava as nuvens pelo céu, naquela hora. Insisti meu olhar sobre suas mãos e não vi as meias-luas nascendo em suas unhas. O padre Viegas chegou com a latinha de água-benta e o missal. (QUEIRÓS, 1996, p. 75-76)

O vazio (ausência física da mãe) serve de “recheio” para o término do livro. Desenvolvendo a ideia do nada, agora representado pela falta materna, a partir do trecho acima e de como ele é decisivo para os desdobramentos seguintes na narrativa, pensamos no episódio da morte da mãe como um marco, espécie de portal de transição, através do qual o menino deixa de sentir uma dor emocional difusa para ter a consciência de que inquietações eram partes irremediavelmente agora constantes em sua existência de órfão: “No nada cabe tudo” (QUEIRÓS, 1996, p. 78).

Ler, escrever e fazer conta de cabeça é uma narrativa para ler e sentir com o corpo inteiro. É usufruir da escrita visceral e , ao mesmo tempo, terna de Bartolomeu Campos de Queirós. 



Um pouco do muito de Getúlio Moura

Michelle Paulista,


Escrevo hoje sobre um dos maiores artistas da terra das salinas, Getúlio Moura.

Com a licença dos reducionismos, considero-o um homem talentosíssimo, na melhor acepção da palavra: fotógrafo, artista plástico, músico, diagramador e, agora, entusiasta da arqueologia. Passeia pela História, com vieses de etnógrafo. É de sua autoria “Um Rio Grande e Macau”, livro dos mais interessantes e completos sobre a Salinésia. Além de tudo, é um homem de simpatia estendida, que carrega o charme artístico que os bons têm. Abaixo um pouco mais de Getúlio*:

GETÚLIO MOURA XAVIER – Nasceu em 1962, em Tabatinga, vale do rio Açu, antigo povoado que pertenceu a Macau, Pendências e atualmente ao Alto do Rodrigues-RN. É filho de Sebastião Xavier e Francisca Moura. Sua família se mudou para a cidade de Macau quando Getúlio tinha dois anos de idade, época em que seu pai deixou os campos agrícolas para trabalhar nas salinas de Macau.

Getúlio começou a estudar aos sete anos; despertou para as artes ainda criança por meio do desenho, ilustrando trabalhos e exposições escolares. Começou atrabalhar em 1977, quando tinha 14 anos de idade, como “Menor-Aprendiz” e depois“Auxiliar de Portaria” no Banco do Brasil, até o ano de 1983. Trabalhou no controle daqualidade da Techint, durante a construção do Polo Industrial de Guamaré; é funcionário aposentado da Petrobras.

Na área artística, desenvolve a fotografia, a música, a pintura e a literatura.

Realizou várias exposições de pinturas e fotografias a partir de 1986, em Macau e Natal, com fotografias premiadas no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. É pai de três filhas: Nayara Ananda, Bruna Caroline e Cibele Maria.

Escreveu os seguintes livros:

1. OPERAÇÕES PRÁTICAS NA PRODUÇÃO DE PETRÓLEO – Poços Terrestres,

técnico - 1995;

2. INSTINTO REVERSO, poesia - 1997;

3. SOLUA, poesia - 1999;

4. A ESCOLA DE MACAU, poesia (coletivo) - 2003;

5. UM RIO GRANDE E MACAU – Cronologia da História Geral - 2005;

6. ANTÍQUÍSSIMO - Pré-história Humana do Rio Grande do Norte – No prelo.

Foi um dos fundadores do Grupo Mambembe, de música popular brasileira,

que existiu entre os anos 1987 e 2007, formado por Getúlio Moura, Tião Maia, Laércio Negão e Chico Mago, com frequentes participações dos artistas Airton Valentim, Agassis e Yale Clecino.

Desenvolve o trabalho de registro da flora, da fauna, dos fenômenos naturais e das paisagens do vale e do delta do rio Açu; têm fotografado quase todas as flores silvestres da transição litoral/sertão, das ervas às árvores.

Getúlio fez diagramações e criou as capas de mais de 50 livros de poetas e

escritores da região, através da revolucionária Imperial Casa Editora da Casqueira, fundada em parceria com o professor e poeta Benito Barros, Getúlio Moura e o pintor e poeta João Vicente Guimarães.

*Biografia do livro “Um Rio Grande e Macau”


Em sua homenagem, outro grande poeta, Horácio Paiva, assim escreveu:


Nasceu entre carnaubais

no solo das tabatingas

e tudo isto era Macau


Brincou com sal e estrelas

estrelas alvas como o sal

e tudo isto era Macau


O seu rebanho de búzios

e ossos no chão de terra

e tudo isto era Macau


Ouviu o cantar do vento

em girassóis e moinhos

e tudo isto era Macau


Ouviu o grito esquecido

dos salineiros feridos

e tudo isto era Macau


Correu mapas e papel

contou a história da ilha

e tudo isto era Macau


Juntou vaqueiro e petróleo

como prêmios na retina

e tudo isto era Macau


E viu na arara primeva

o nome da sua terra

e tudo isto era Macau


Ergueu enfim uma torre

sobre as águas de Macau

e tudo isto era Macau






Escola do Legislativo Wilma de Faria lança concurso de redação

Michelle Paulista,


A Câmara Municipal de Natal, por meio da Escola do Legislativo Wilma de Faria, lança concurso de redação por ocasião dos 70 anos da Casa parlamentar. O certame é direcionado aos estudantes do Ensino Médio e o tema é : “Parlamento jovem – Cidadania e participação social”. O edital completo, ficha de inscrição e demais documentos constam no site da Câmara Municipal, no endereço: www.cmnat. gov.rn.br

Serviço:

Concurso de redação da Câmara Municipal de Natal

Inscrições: de 23/07 a 23/08/18, por meio do site da Câmara Municipal

Entrega das redações: 24/08 a 25/09/18 na sede da Escola do Legislativo Wilma de Faria

Resultado a partir de 15/10/18 no Diário Oficial do Município



A gente marca...

Michelle Paulista,



São muitas as expressões que ouvimos cotidianamente, mas poucas são tão corriqueiras quanto “a gente marca”, pedaço de diálogo quase obrigatório nas conversas entre amigos e conhecidos.

Ouço muito que “a semana tá voando”, “já estamos pertos do Natal”, “o tempo tá passando rápido demais” e nesses falares fica evidente que, de fato, o correr da vida tem embrulhado tudo, como disse Guimarães Rosa.

Mas o que significa a expressão “a gente marca” ou a igual “vamos marcar”? 

Acho que às vezes dizemos isso por educação mesmo, quase a tal função fática da linguagem, equivalente a “tudo bem?” Tenho certeza de que, se perguntarmos a alguém como essa pessoa está, se realmente está tudo bem com ela e se a tal resolver responder... imagino que não tenhamos paciência para ouvir tudo que possa ser dito. Afinal, quem está mesmo interessado nos problemas alheios, visto que os nossos abundam?

Mas voltando ao “a gente marca”, me pego refletindo sobre o que esse texto realmente expressa. Confesso que já emiti um “a gente marca” assim meio sem querer, deixando uma possibilidade de alguma programação com a pessoa em questão. Mas, de igual modo, também já disse a mesma coisa realmente com vontade de fazer algo junto, de compartilhar momentos, de estar com. Há pessoas de quem gosto mas que parece que as agendas não batem, os horários não cruzam, os caminhos não se encontram. É um constante desencontro. Há, ainda, aquelas pelas quais não fazemos qualquer movimento para que as coisas aconteçam e os motivos são os mais diversos.

Passei a pensar muito sobre isso quando percebi que há pessoas que promovem verdadeiros entroncamentos na nossa história; para essas, separamos horários, oferecemos nosso tempo, esprememos a agenda, invertemos prioridades, aperta aqui, acomoda ali, delega-se função, acorda-se cedo...

Vejo ainda uma terceira situação: às vezes, há pessoas com as quais gostaríamos muito de estar, mas não fazemos muito esforço que aconteça, engolidos que somos pelas inúmeras demandas pós-modernas. Mas tem jeito: que tal marcarmos um encontro concreto, uma programação com aquela amiga ou amigo querido cujo papo tanto nos alegra? Ou, quem sabe, fazer uma visita àquela pessoa amiga de infância que agora já é de idade avançada e que tanto se alegrará com sua presença? Ou mesmo fazer aquela caminhada na praia, tomar um sorvete gostoso, assistir a um filme ou simplesmente ficar “de boa”, fazendo nada?

O tempo é hoje, a vida é agora, as relações são no momento; sobre amanhã, nada sabemos: quem estará vivo ainda quando resolvermos marcar algo de verdade?

Vivamos, encontremo-nos com os nossos queridos! E então, vamos marcar algo?



A vida, essa máquina de lavar

Michelle Paulista,


Máquina de lavar, vontade louca de usar. Nós, adultos, somos meio crianças, como que ávidos ante um brinquedo para experimentar. Aperta botão, descobre função, cheira as peças com perfume de plástico novo, estoura bolinhas de proteção, como que terapia.

Peças dispostas no cesto, uma sobre as outras, velhas, novas, delicadas, brancas, coloridas. Daí que a velha teoria aprendida nas aulas de “educação artística” faz sentido e vemos o branco embolado, mistura de todas as cores.

Quando a máquina para, temos um ciclo completo. Retirando as peças, quis pegar um lençol azul que repousava no fundo do cesto. Ele não vinha. Enroscou-se naquele tubo central e recusava-se a sair. Tentei de todo jeito e nada. Foi preciso retirar as outras peças para que o teimoso pano aceitasse o resgate. Não na minha hora, mas somente em determinado instante pude retirá-lo para, então estendê-lo. Disposto e em repouso, ele impunha suas vontades celestes, azul que é.

Se bem reparamos, nosso viver é bem assim. Somos roupas, indumentárias especialmente escolhidas para cada tempo e circunstâncias. Às vezes queremos remover outra peça que disposta está no fundo de algum cesto por aí. Mas ocorre que cada pedaço de pano tem sua hora de ser removido. Nós, pedaços de tecidos, nos misturamos e vamos nos debatendo num ciclo louco de lavagem, secagem e centrifugação. Uns saem úmidos desse processo, outros secos.

É preciso dosar o sabão, acertar no amaciante e aproveitar o ciclo para que, em vez de sairmos manchados e mal lavados, apresentarmos diante da vida limpos de alma e coração e perfumados.

E antes que eu me esqueça: nessa metáfora alucinante que é a vida – essa máquina de lavar – o amor existe, acontece e a magia da paixão ainda perfuma os pedaços de panos viventes.



Segundas também podem ser felizes

Michelle Paulista,


Segunda-feira é o primeiro dia “útil” da semana, embora o consideremos “inútil”, porque é significado de obrigações e encargos. Certa vez, ouvi de alguém acerca da depressão do domingo à noite: trilha sonora de conhecida revista semanal na tv, bolsa e fardas das crianças arrumadas, expectativa de “amanhã começa tudo de novo”.

Mas o que não percebemos é que as segundas também podem ser dias proveitosos. É certo que não é sempre que podemos nos esquivar da agenda da segunda, mas é possível matizá-la de tons mais alegres.

Dia desses, tomei um lanche em plena segunda-feira, regado a um bom papo e olhares ternos – raios de sol vieram encandear o instante e a segunda – tipicamente burocrática – revestiu-se de uma roupa leve e aprazível. Abraços também têm o mesmo condão: experimente-os todos os dias, inclusive às segundas-feiras...

Segunda é dia de começar a caminhar de verdade, dia de vestir aquela roupa nova que está sendo guardada para não sei qual ocasião (que talvez nem chegue); é dia de usar aquele perfume caro, adquirido em 10 vezes no cartão de crédito. Dia de começar a leitura de um livro, de dar um telefonema para um amigo querido, dia de desviar a rota e, de repente, se ver contemplando a orla linda de Natal, quem sabe?

Numa segunda, temos a possibilidade de sonhar com aquele projeto de vida, aquela viagem. Dia de repensar valores, ouvir outras opiniões. Dia de enterrar o pretérito e exercitar o presente, conjugado ao futuro.

Tomar café da manhã no mercado, visitar uma loja de antiguidades, colocar um som incrível pra tocar alto e dançar sozinha mesmo! É dia de fazer, de viver, como todos os dias.

Segunda é dia de dizer que gosta, que sente saudade.  Dizer isso para seu amor ou sua amiga; seus filhos ou seus pais. É dia de dizer e isso já é muito. Digamos!

Que sua segunda-feira seja transformada em um dia especial. Faça-a assim. Por mais segundas-feiras felizes em nossas vidas...



Para todas as idades, Um garoto chamado RoRbeto, de Gabriel o Pensador

Michelle Paulista,


Um dos mais interessantes livros ditos de literatura infanto-juvenil que tive a oportunidade de ler foi “Um garoto chamado RoRbeto”. De autoria do rapper e compositor Gabriel o Pensador, é uma surpreendente viagem à singela e igualmente significativa vida de um garoto de seis dedos.

Já de início, o texto é simbolicamente representado pelas tentativas de encontrar um caminho para o exercício da escrita:

Vez uma era...

Quer dizer:

Uma era vez...

Ou melhor:

  Vez era uma...

  Desculpem:

   Era uma vez...

  (Agora sim!)

O próprio nome do protagonista é singular, pois, ao deslocar o R para a sílaba primeira, oferece certo desconforto à pronúncia.

O texto de “Um garoto chamado RoRbeto” é uma narrativa em versos melódicos, ritmados, o que entrega ao leitor uma leitura “cantada”. A certa altura, observa-se um quê de pragmatismo, metonímia do mundo da vida, quando, após o nascimento, os pais do garoto dizem: obrigada, tchau, doutor!

Elemento deveras significativo na história é a figura do rio – presente no início, meio e fim, banhando de significados a vida do garoto. Aqui o rio assume a perspectiva de Heráclito, agente transformador e meio de vida; suas margens, paradoxalmente, unem e dividem a vila e a vida de RoRbeto:

O rio ia sempre passando,

Sem nunca parar um segundo,

E o tempo, imitando o rio,

Passou também pra todo mundo.

E assim foi crescendo RoRbeto,

Ao lado dos seus bons amigos:

O tempo, o cachorro, as pessoas,

As árvores e o rio antigo.

Assim, a certa altura, há a descoberta dos seis dedos do menino do rio antigo, suas vivências na escola e o processo de aceitação de que era diferente, fora dos padrões previamente estabelecidos e dos enquadramentos sociais a que somos submetidos. É possível, ainda, degustar de passagens descritivas de deliciosas artimanhas infantis, carregadas de surpresas e solidariedade.

Não há dúvida de que se trata de uma das mais encantadoras obras para jovens de todas as idades – crianças ou adultos, que, como quase tudo no Brasil, termina em futebol!



Epistolografia em sala de aula do Ensino Médio

Michelle Paulista,



Em certo sentido, pode parecer paradoxal levar cartas de autores norte-rio-grandenses para o ambiente escolar do Ensino Médio, no atual contexto da contemporaneidade e das redes sociais em grande uso. Mas imaginamos ser, exatamente, essa contradição que possa atrair o interesse dos nossos alunos.

  Motivar uma turma a partir de uma carta da década de 1980, como exemplo, é também oferecer um mergulho no contexto histórico da época e suas linguagens:


Você é um danado, mestre Veríssimo, a tudo atento e providenciando.

[...]

Quanto à vaga na Academia, pode contar com o meu voto para o seu “protegido”. Você sabe que sou seu eleitor “de cabresto”.

Quando devo enviar o voto?

Você viu a minha entrevista na TV Educativa? Se viu gostaria de ter a sua opinião.

E as eleições? Viu como o povo tá ficando bom de voto?

(Peregrino, 1989)


O excerto acima é de uma carta do escritor potiguar Umberto Peregrino para Veríssimo de Melo, em janeiro de 1989. O assunto da carta é a resposta a um provável pedido de voto para a eleição da Academia norte-rio-grandense de Letras. Com razoável intimidade, Umberto Peregrino ainda trata de uma aparição na TV e “brinca” com o resultado das eleições da época, não sabemos em que âmbito. Uma abordagem interessante nessa carta passaria, certamente, pela informalidade com a qual o remetente trata assuntos geralmente formais. Acrescente-se a inexistência, ainda na época, das facilidades das mensagens espontâneas de que hoje dispomos.

Ainda sobre o ensino de Literatura por meio de cartas, queremos lembrar da utilização deste gênero por parte de muitos modernistas e parece-nos que Veríssimo, embora não tenha vivido no surgimento do movimento modernista, já tinha consciência da relevância que as correspondências teriam, pois era adepto de tal prática, tendo deixado grande número de correspondências. Lendo a correspondência de Veríssimo, temos a oportunidade de mergulhar nos bastidores da cena literária e cultural do estado.



De uma leve brisa junina

Michelle Paulista,


Cheguei antes dela, atendendo a um chamado. Recebeu-me com um abraço afetuoso, surpreendentemente familiar, embora fosse a primeira vez. Quando percebi, caminhava pelo calçadão, percorrendo uma distância não marcada, a perder de vista.

Sem marcação de tempo e espaço, ela me acompanhava, solidária, entre alternâncias travessas dos pingos de chuva que bagunçavam meu cabelo: deixei-o solto, naturalmente assanhado, para que sorvesse a maresia matinal.

A cada parada, ela me sorria meio tímida, meio cheia de iniciativa. Era uma brisa alegre, inusitada. Brisa de primeira vez, de sopro incipiente, de ternos carinhos em mim. De repente, como num rompante, ela me toca o rosto e então pude sentir seu afeto ocupando o espaço do meu corpo e alojando sua presença em minhas lembranças diárias pelo resto do dia.

Ela segurava em minhas mãos, como me dando novo impulso, algo de reset, como uma senha para novos dias a percorrer.

Era beira-mar. Uma manhã junina mesclada de sol e neblina. O sol que aparecia com timidez, a areia, o mar e ela -a brisa leve - deixaram-me temperada de felicidade.



Doce azedo amaro

Michelle Paulista,


doce-mO livro de doce azedo amaro, de Theo G. Alves é uma viagem pela poesia ainda possível de encontrar num mundo feito só de brutalidades. Cabe ao poeta descobrir essas palavras generosas ao homem para tornar a vida melhor, nem que seja por um instante. Como diz o poeta, em um de seus poemas, antes da poesia era só o estampido, o soco, o tiro, o golpe, a faca, a foice. Mas a poesia tem, sim, o poder de anular esses ferimentos cicatrizados na vida. O poeta diz: “ávido, espero/ o decreto de meu último/ silêncio/.../”, como se a dizer que a palavra, infelizmente, talvez já esteja em desuso. O poeta se afirma vítima de muitas armadilhas do poema, mas sabe se proteger. O importante é construir sempre essa poesia escondida nos becos, naquele homem que caminhava pelos desertos, nas Dulcineias caladas no caminho, à espera ou à procura do Cavaleiro da Triste Figura, D. Quixote, que luta sempre contra visões, mas sempre em favor da Beleza. Ele também recorre à memória para encontrar as imagens da infância, ainda vivas dentro de si. O livro de Theo G. Alves deixa uma mensagem significativa: muitas vezes, o amor é maior que o próprio amor. Um livro de poesia, de um poeta que sabe de seu ofício de escrever e sabe, também, como observa em um de seus poemas, que “o poema é sempre uma violência”.


Inicialmente, será lançado em Brasília; posteriormente, em terras potiguares.


SERVIÇO

Lançamento do livro doce azedo amaro

Locais /datas: Espaço Eni Fernandes, Rua 03, Chácara 95, Setor Habitacional Vicente Pires, Brasília/DF (dia 16/06/2018) | Bar Beirute – Asa Sul, Bloco A1 Loja 2/4 - Asa Sul, Brasília – DF (dia 18/06/2018)

Valor: R$ 38,00



Versos íntimos

Michelle Paulista,

O poema homônimo de Augusto dos Anjos é um dos mais impressionantes que já li. Conheci-o na faculdade de Letras e, como não poderia deixar de ser, passei a admirar o talento inquestionável desse paraibano inclassificável.

Em vão, a historiografia literária tenta classificá-lo em alguma escola literária ou estilo de época, mas o poeta, grande que é, se faz como quer: ora simbolista, ora parnasiano, ora pré-modernista. Enquadramentos à parte, é a obra augustiana que interessa.

Augusto dos Anjos é desses poetas únicos, cuja obra perturba qualquer leitor. Cético quanto à vida, às pessoas e ao amor, compôs versos melódicos, com temáticas mórbidas e científicas, em que a desesperança e a concretude da falência humana são expostas como uma ferida purulenta.

“Versos íntimos” o são sem qualquer relação com sombra de romantismo. A intimidade dos versos em questão não passa da constatação que só temos a nós mesmos diante das agruras da vida.

A célebre passagem “O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja”
revela uma potente intimidade do poeta consigo próprio, num lampejo de sobriedade e percepção do real que chega a chocar quem o lê.

Fato é que talvez a única companheira inseparável de qualquer ser humano do mundo é a solidão, embora estejamos rodeados de pessoas e acumulemos mais de 1.500 contatos nos aplicativos de redes sociais.

Já no início do século XX, temas como solidão, desesperança, ingratidão eram temas dos versos de Augusto dos Anjos, o que torna seus sonetos tão atuais quanto impactantes, ainda nessa sociedade pós-moderna do século XXI.

Versos íntimos, Psicologia de um vencido, O morcego, Solitário estão dentre os poemas mais célebres de Augusto dos Anjos, publicados no livro “Eu e outros poemas”, um clássico da literatura brasileira, diria mundial. A singularidade dos sonetos assim o credencia.

Convido à leitura de “Versos íntimos”. A interpretação fica por conta de você, leitor, que, certamente, como eu, conseguirá se identificar com as verdades cortantes que habitam os versos abaixo:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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