Entre lanternas e livros

Caravana de escritores desembarca na escola Régulo Tinoco

Michelle Paulista,


A última quinta-feira, 8 de agosto, foi diferente na Escola Estadual Régulo Tinoco. Situada em Lagoa Nova, a escola passou recentemente por uma reforma na estrutura física e conta com um excelente corpo docente, oferecendo vagas para o Ensino Fundamental (anos finais) e Ensino Médio.

A Caravana de escritores potiguares, capitaneada por Thiago Gonzaga, visitou a escola, numa palestra para as turmas de Ensino Médio. Na oportunidade, os estudantes puderam ouvir os depoimentos dos autores presentes, bem como receber brindes e livros, todos de autores potiguares.  Estiveram presentes o ficcionista e membro da Academia norte-rio-grandense de Letras, Manoel Onofre Jr, o jornalista e poeta Sávio Hackradt, professores Valdenides Cabral e João Batista Neto.

A Caravana cumpre papel fundamental na formação leitora dos estudantes de escolas públicas, pois favorece o estreitamento da relação aluno-escritor, além de oportunizar aos estudantes a interação com autores potiguares contemporâneos.






O expressionimo abstrato de Alfredo Neves - Por Thiago Gonzaga

Michelle Paulista,



O dramaturgo e jornalista gaúcho Pedro Augusto Gomes Cardim, que fundou, em 1925, a Academia de Belas Artes de São Paulo, disse certa vez, referindo-se à liberdade do artista parar voar livre em seu oficio: “há quem julgue as obras de arte produtos sem regras nem preceitos, sob o domínio do imprevisto, sem princípios, manifestados arbitrariamente, consoante a força criadora do gênio que as produz”.

Vivemos em um mundo rodeado de imagens, muitas destas são obras de artistas plásticos, ou seja, objetos artísticos. O artista plástico e escritor pernambucano Francisco Brennand disse, certa vez, em uma entrevista, que “a arte representa valores do espírito”.  Em nosso entendimento esse importante artista brasileiro quis dizer, entre outras coisas, que o conhecimento sobre arte amplia a nossa visão do mundo, além de melhorar a nossa capacidade de reflexão e expressão. Acreditamos que a escola deve aproximar dos seus alunos as artes plásticas, mostrando-lhes a variedade de pinturas e artistas, e os ajudando a fazer uma reflexão sobre os mesmos, ampliando assim o leque de imagens a serem apreciadas

 Mas, afinal o que seria Arte?

Evidentemente é quase impossível encontrar uma definição exata para o que seja a Arte, achamos até que seria muito mais fácil definir algo que não seja arte como o que temos visto aos montes por ai, sobretudo em tempos de redes sociais. Sabemos que a arte, por exemplo, não pode ser confundida com a moral, com a religião, com a ciência, nem pode também ser reduzida simplesmente a uma ideologia. Arte também não tem nenhuma obrigação de refletir o real ou a verdade. Acreditamos que tentar definir o que é arte é também empobrecê-la, limitar algo tão belo. Assim, entendemos que a missão do artista é simplesmente criar, seja o belo, o feio, e sobretudo não querer fazer propaganda do que quer que seja.

Enfocamos o assunto após presenciarmos a exposição de pinturas abstratas de Alfredo Neves,poeta e artista plástico e cientista social, graduado pela UFRN. Alfredo ocupa a Cadeira 2 da AMLA -  Academia Macauense de Letras e Artes. Em parceria com o poeta e artista plástico João Andrade, participou de Exposição Coletiva na Pinacoteca do Estado do RN. Participou ainda da Feira de Arte Potiguar - FEIRART, exposição e palestra sobre Arte Contemporânea no Setor Jurídico da Caixa Econômica Federal do RN e teve duas de suas telas selecionadas para o III Salão Dorian Gray de Arte Potiguar. Além desses, seus trabalhos já estiveram presentes na antiga Livraria Nobel, exposição Cores de Orvalho, em 2016. Alfredo, embora esteja no início da sua carreira como artista plástico, já milita há mais de trinta anos pela cultura, sobretudo na cidade de Macau.

Em 2013, nos concedeu entrevista para o livro “Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos, Vol. 1”, onde anunciou de que iria se dedicar as artes plásticas, e no futuro a publicação de um romance, que trata de uma Macau imaginária. Além disso dedica-se também à publicação de uma revista cultural bimensal, com nome de Kukuaia, e que circula na internet há exatos cincos anos.

 Os quadros de Alfredo Neves, em boa parte, nos remetem diretamente ao pintor norte-americano Jackson Pollock, referência no movimento do expressionismo abstrato. Não retratam objetos físicos específicos. Eles são mais difíceis de analisar que os quadros figurativos, por exemplo.  A interpretação fica por conta do leitor do quadro, ou seja, meramente subjetiva. Alfredo Neves pinta, desta maneira como uma forma de evocar emoções do inconsciente. Diferente das pessoas comuns é a posição do artista: ao criar suas obras e por mais estranhas que possam parecer, estará normalmente debatendo questões intrínsecas de metalinguagem.  Por isso o sentido da pintura, que Alfredo Neves tem em mente, é de outra ordem, um sentido ótico, relativo à própria natureza desse objeto, independente, senão da consciência inserida num contexto humano mais abrangente, pelo menos das formas reconhecidas da nossa realidade.

No Rio Grande do Norte temos alguns exemplos de artistas plásticos que também são poetas: Newton Navarro, Dorian Gray Caldas, Leopoldo Nelson, J. Medeiros, Carlos Humberto Dantas, Anchieta Rolim, João Andrade, Iaperi Araújo, Vicente Vitoriano, inclusive esses dois últimos também são críticos de arte.  Merecem destaque igualmente como artistas visuais, os poetas Falves Silva, que compõe a sua obra a partir de um processo de colagem, e Avelino de Araújo, que trabalha também o jogo de palavras e imagens e aqueles que seguem na mesma linha do impressionismo abstrato como Carlos Soares.

Encontramos nos quadros desses artistas características interessantes como na própria composição, ou seja, na organização das imagens, seguindo, algumas vezes, esquemas geométricos, em outras, não; o movimento interno característico da composição dinâmica (às vezes estática); o desenho, nesse caso, as linhas marcantes.  Nos quadros se concentram cores frias e quentes, por vezes fundamentais, outras, complementares. A própria natureza da cor também é peça- chave. A luz uniforme e o seu efeito junto com a dinâmicas das formas visuais; a técnica da pintura pontilhada, linear, modelada e por fim o material de trabalho que varia entre óleo, acrílico, colagem, misto, guache, aquarela, pastel de óleo ou seco.

Evidentemente, sempre vamos ouvir das pessoas que não entendem de arte abstrata que esta não é compreensível, explicável. Mas precisamos ter a consciência do seu sentido, que é de fundamental importância para desfazer equívocos de análise e de opinião. Na cultura ocidental, por exemplo, na pré-história vamos encontrar vários registros de prevalência das formas abstratas, muito mais comuns do que na arte oriental.

Concluímos nossa reflexão lembrando que, depois dos impressionistas, as artes plásticas puderam se voltar para dentro de si e subsistir sem o auxílio de qualquer referência explicativa, e que assim continuaram a ser usufruídas por todos.

As telas de Alfredo Neves estão em exposição no Espaço Cultural da Justiça Federal com o título de “Imaginarium”, entre os dias 01 e 31 de julho de 2019, de segunda a sexta-feira, das 09 às 12h, trazendo ao público uma amostra da arte abstrata e contemporânea.



As rádios da minha infância

Michelle Paulista,


Na minha época de criança, as rádios eram coisa muito presente no cotidiano das pessoas. E essa, sem dúvida, é uma das lembranças afetivas mais doces que trago na memória. Falo de rádios AM. As FMs eram “coisas da capital”, que eu só poderia ouvir quando viajava para Natal, onde passava os dias de férias na velha Quintas, em casa de tia que morava perto do Grupamento de fuzileiros navais. Vir de ônibus da Cabral para a capital para passar uns dias perto da Guarita era um verdadeiro veraneio.

Lembro, na adolescência, que achava o máximo ouvir a Rede Transamérica e sua seleção de canções de pop rock internacional, bem como o adesivo promocional da emissora que trazia um enorme T vermelho. Uma vez ganhei um e grudei na parede do quarto, como troféu.

Mas eu falava de rádios AM. Em Macau, a campeã de audiência era a Rádio Verdes Mares, a verdinha, 810. Cresci ouvindo João Inácio Jr., Ênio Carlos, José Augusto, Paulo Oliveira, Paulo Lélis, Tom Barros e outros. Também ouvíamos muito as rádios Difusora e Rural de Mossoró, com o lendário locutor “Seu Mané” e sua inconfundível voz nas “mensagens musicais”. Era o máximo, em data natalícia, receber uma mensagem musical na rádio. Ao mesmo tempo em que surgiam histórias pitorescas e até certo ponto fabulosas, de mensagens enviadas para parentes de outros lugares, visto que o telefone era coisa de rico e não contávamos ainda com o advento da internet. Assim, para encomendar um porco para um churrasco ou solicitar um remédio caseiro, até avisar da ida de alguém para casa de outrem, tudo era matéria para as famosas mensagens de seu Mané.

No fim da década de 80, em 1986, se não me trai a memória, foi inaugurada a Rádio Salinas de Macau, 1520. Naquele tempo, as músicas tocadas obedeciam ao sucesso natural; não havia cantores ou estilos fabricados, impostos goela abaixo aos ouvintes, condicionando-os a uma hegemonia que se vê hoje, pobre de arte e em plena era da reprodutibilidade técnica, como já escreveu Walter Benjamin.

A Rádio Salinas tinha uma programação relativamente variada: lembro-me do programa “Mulher em Debate” (apresentado por Regina Barros e Wilma Pinheiro), que tinha como trilha sonora “Maria, Maria” de Milton Nascimento. Eu achava o máximo aquele programa diferente, que tanto estranhamento trazia a mim, pois era algo a frente do seu tempo, numa Macau provinciana e machista. Mas eu, que sempre fui meio guache, gostava de ouvir e pensar sobre as temáticas trazidas.

Também me recordo das transmissões esportivas feitas por Nicolau Dantas e Luizinho, com comentários de Jota Batista. De igual modo, foi pelas transmissões esportivas da Verdes Mares, capitaneadas por Gomes Farias, que aprendi a simpatizar com o Ceará Sporting Clube, o Vovô, depois, por semelhança, virei abecedista.

Havia ainda na moderna Rádio Salinas o programa “Rimas e Violas”, programa de cantorias, ao fim de cada tarde, quando chegava da escola. Não posso esquecer a voz inconfundível de Arafran Peter, que comandava um programa muito parecido com a dinâmica dos programas afins das FMs da capital. Lembro-me com perfeição das cartas que eu enviava pedindo músicas: O nosso amor a gente inventa, de Cazuza; O exército de um homem só, dos Engenheiros do Hawaii, Tédio, do Biquíni Cavadão, dentre outras do Rock nacional (Titãs, Paralamas do Sucesso etc). Importante destacar que me tornei amiga aproximada de Arafran, que sempre me mandava “alôs”, o que era o máximo, na época. Embora eu ainda bem menina e ele já adulto, sempre tivemos uma amizade respeitosa, sem maldades, cujos assuntos eram sempre música e, certa vez, fui apresentada ao rádio amador pelo meu amigo locutor.

À noite, a pedida era o programa “Noite total” (será mesmo esse o nome?) com Magnus Fonseca, cuja trilha sonora era a lindíssima Naja, do RPM.

Nessa época eu ganhara um “motoradio” da minha mãe, presente que me encantou imensamente. Eu colocava o rádio embaixo do travesseiro, no quarto improvisado, dividido por uma cortina, na velha esquina da Princesa Isabel, 223. Quando batiam as 23h e eu ouvia “Despedida”, de Roberto Carlos, era sinal de que a rádio encerrara a programação daquele dia. Eu detestava aquela música;  era frustrante ter a programação interrompida... eu, que desobedecendo a ordem de hora pra dormir, queria mais música! Então, eu ia passando o seletor de sintonia e ouvia a distante Rádio Sociedade da Bahia, cuja vinheta lembro até hoje, com palminhas e tudo.

Houve também a época de ouvir o “Panorama esportivo” da Rádio Globo, fortemente influenciada pelo amigo Marcos Cabral, botafoguense que não me conseguiu tornar alvinegra. Adorava ficar feito uma maluquinha, na esquina da Casa Cabral, tentando sintonizar o sinal que “fugia”, exatamente quando Gilson Ricardo iria trazer as notícias do Flamengo.

Ouvi muita música dita “brega” e elas fazem parte do meu repertório musical afetivo. Assim como preciosidades que aprendi a gostar, grandes nomes da MPB, que tocavam nas rádios, numa época em que tínhamos mais ecletismo e menos uniformização da cultura musical popular.

Não tenho dúvidas de que esse convívio com as rádios AM da minha infância tem relação estreita e direta com meu gosto musical de hoje e, por conseguinte, pela aproximação com o literário.

Afirmo que, indubitavelmente, muito da minha literatura veio das ondas compridas das Rádios AMs que forjaram a trilha sonora do meu gosto musical e artístico.



Festa-poema; não fui mas estive lá

Michelle Paulista,



Eu não fui, mas estive lá. Não sei se cabe o termo festa. Era uma festa-baile-dia-de-alegria-alumbramento. Havia pó mágico, como o de pirlimpimpim, colorindo os ares perfumados do lugar.

De repente, eu me via como que no Reino das águas claras, da história da Narizinho, mas... espere, lá vem o príncipe escamoso espalhando jatos de água azulzinha, à procura da menina do nariz arrebitado.

Ouvi dizer que tudo saía de uma cápsula, espécie de fábrica de ideias. Elas, as ideias, não surgiam como um pensamento articulado de gente grande; antes, eram fabricadas, inusitadas, coloridas e com cheiro de lavanda e aromas de infantil alegria. Alegria no raso, beirinha de arrebentação, em que não se precisa de afogamentos para desfrutá-la. Alegria de graça, redundante, hiperbólica. Alegria alegre.

Havia um pouco de João e Maria também, nos docinhos dispostos sobre as mesas flutuantes, adornadas de frutas convidativas, cuidadinhos e amostras de pôr-do-sol. Cada convidado saía levando um alvorecer ou um entardecer de lembrança, ao seu gosto.

Não era mais uma festa, era um poema modernista, desobrigado de rimas, versos livres, afrontando o parnasianismo hermético de quem insistia em ser sisudo. Festa-poema, festa-cor, festa-cheiro.

Estive lá, contemplando pelo vidro do aquário (tudo que é bonito me lembra um aquário, por isso a metáfora). Minhas digitais apareciam marcando o vidro, olhos grudados, estupefatos, distinguindo cada cor, cada matiz.

Era uma festa dessas que, além de gosto na boca, deixa cor no olhar. Parabéns, seu dono fabricador de ideias coloridas e perfumadas. A paleta de cores do seu baile ainda passeia na minha retina.



Clauder Arcanjo e sua paródia à literatura policial - Por Thiago Gonzaga

Michelle Paulista,



O escritor cearense, radicado em Mossoró, Clauder Arcanjo, desembarcou em Natal, semana passada, para lançar, na Academia Norte-rio-grandense de Letras, instituição da qual ele é membro, seu mais novo livro, “O Fantasma de Licânia”, novela (Sarau das Letras, 2019). 

Em “O Fantasma de Licânia”,  o  criativo autor nos traz novamente à sua cidade imaginária, “Licânia”, desta vez habitada por um fantasma, “um único e mísero fantasma”, numa trama repleta de humor, diálogos e sustos,  espécie de paródia à literatura policial, em que homenageia vários escritores da literatura universal, como, por exemplo, Conan Doyle ,com o Holmes da caatinga, “elementar, elementar”, e Machado de Assis, referência a “Missa do Galo” , e proximidade com a linguagem permeada de ironia.  Afora Sherlock Holmes, outros personagens estão ali de cara para o leitor mais atento, como o Conselheiro Acácio, da obra “O Primo Basílio”, de Eça de Queirós, e vários outros tipos e cenários como a cidade de Mossoró, e lugares não muito conhecidos, ao menos para o grande público, como o “Beco da Galinha Morta”, rua da pequena cidade litorânea de Areia Branca. Interessante notar que o próprio autor se torna personagem da sua narrativa, numa experiência criativa, misturando-se narrador e autor. A divertida novela é uma espécie de folhetim, onde os capítulos podem ser lidos de forma individual, e tem um final atípico, todavia curioso e interessante. Leitura muito agradável, bem que vale a pena tirar duas horas longe do computador ou smartfone, para se aventurar nas páginas adentro e tentar descobrir que mistério é esse do Fantasma de Licânia.

Clauder Arcanjo é natural de Santana do Acaraú (CE), e reside em Mossoró (RN), desde 1986. Graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ficcionista, cronista, poeta e ensaísta. Durante anos foi professor universitário e é um dos idealizadores-produtores do programa Pedagogia da Gestão, na Tv a Cabo Mossoró (TCM), programa voltado para o incentivo às boas ações de gestão, educação e cultura na região Oeste do Estado. Clauder Arcanjo fundou juntamente com o escritor David de Medeiros Leite, a Editora Sarau das Letras, que já publicou mais de 200 livros.

Por anos, Clauder foi cronista semanal do Jornal “Gazeta do Oeste” (Mossoró), e usou durante muito tempo o heterônimo Carlos Meireles, (homenagem a Carlos Drummond e Cecília Meireles) para resenhar textos literários, colaborando em sites, revistas e jornais de várias partes do país. Atualmente coordena, no “Jornal de Fato”, o Espaço Martins de Vasconcelos e escreve para a versão on line do jornal “O Mossoroense”, para o site “Substantivo Plural” e a revista cultural “Kukukaya”, dentre outros veículos literários.

Publicou os seguintes livros: “Licânia” (contos), “Lápis nas Veias” (minicontos), “Novenário de Espinhos” (poemas), “Uma Garça no Asfalto” (crônicas), “Pílulas para o Silêncio” (aforismos, edição português-espanhol),“Cambono” (romance), “Separação” (contos). Organizou em parceria com David de Medeiros Leite, “Sarau das Letras – Entrevistas com Escritores”; e com Ângela Rodrigues Gurgel e Raimundo Antônio, a coletânea “Café & Poesia”: volume I e Vol. II, em parceria com  Kaliane Amorim e David de Medeiros Leite.

Clauder Arcanjo é membro da Academia de Letras do Brasil (ALB), Academia Mossoroense de Letras (AMOL), da Sociedade Brasileira para Estudos do Cangaço (SBEC), do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), e de outras instituições culturais e literárias de todo o país.

Em 2017, o escritor recebeu o título de cidadão norte-rio-grandense, que lhe foi concedido pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, e na ocasião, discursou, dizendo a certa altura: “Minha Santana do Acaraú está um pouco enciumada, sabe que estou morrendo de amores pelo solo potiguar, mas devo dizer que nunca rompemos com nossa terra natal. Mas, o solo potiguar está marcado em minha memória afetiva”.

O escritor ainda tem no prelo “Mulheres Fantásticas”, contos, e “Carlos Meireles: Oficio de Bibliófilo”, ensaios críticos e resenhas de sua autoria, dispersos em revistas e jornais.



Alma de flores e senador

Michelle Paulista,


Ele era baixinho, gordinho, branco. A esposa queixava-se de que quando ele estava “bom”, era o maior cara-dura, não falava com ninguém, mas quando tomava umas cervejas, saía cumprimentando todo mundo. O seu “tá bom, tá bom?” que acompanhava os apertos de mão em todos os moradores da rua, ecoa na minha memória até hoje.

Meu quarto dividia a parede com a sala dele. Do outro lado, a sua “3 em 1” era emparelhada com minha cama. Dormi muitas vezes embalada ao som de “Meu vício é você”, de Nelson Gonçalves. Quando fecho os olhos, vejo-o sentado na cadeira de balanço, ouvindo a melodia e ostentando um riso travesso, de canto de boca.

Eu o conheci quando nos mudamos para a Marechal, uma das principais ruas de Macau. Morando vizinho, logo adotei Raimundo Andrade como uma categoria inexistente, que não consigo descrever: era meio pai, meio tio, meio avô. Eu tinha por ele um apego, um amor que talvez ele nem tivesse tomado conhecimento de sua extensão.

Na sala de estar da casa comprida, ele tinha uma cadeira de balanço que ninguém ousava ocupar. Sentava-se de frente à tv e os demais que procurassem se posicionar para poder ter acesso à visão da tela. Lembro-me das suas bermudas jeans amarradas com um cinto, do relógio bonito sempre adornando o braço. E da inseparável bicicleta, que teimou em pedalar até longa idade.

Particularmente, nunca experimentei sua carranca, como acusava Madrinha (a quem eu adotei como tal, sua esposa, dona de grande percentual do meu amor). Comigo era sempre amigo, carinhoso, de risada generosa.

Com ele e Madrinha e o resto da família, vivi alguns dos melhores anos da minha vida. Sandra, Tonho (que me deram as minhas meninas Aninha e Cecília), Tia Elza tornaram-se gente promovida em meu coração a parentes queridos. Impossível esquecer as conversas na calçada à noite, os almoços de Páscoa que sempre tinham baião-de-dois, peixe e pão; do frango à cabidela, infalível aos domingos.

Minha última lembrança dele foi de quando estava internado, depois de retirar as cordas vocais. Quando me viu, tentava me dizer coisas que não podia vocalizar. Percebi que reclamava do soro e da fralda geriátrica. Não sei se me reconhecia, mas eu fiz um grande esforço pra demonstrar o grande amor que habita em mim, desde e para sempre. Dias depois, a confirmação de sua ida, que recebi como um soco na boca do estômago. Fui covarde, não consegui ir ao seu sepultamento; meu corpo fibromiálgico não deixou.

Esse texto se desenhou prontificado num corredor de supermercado, quando ousei cheirar dois sabonetes: “Alma de flores” e “Senador”, o aroma característico do banheiro da casa comprida da Marechal, onde viviam S. Andrade e Madrinha Mundinha, amores de uma vida inteira. Talvez tenha sido o cheiro forte dos tabletes de sabonete, mas alguma coisa saiu de meus olhos, como sai agora, lubrificando este teclado.



Uma razão a mais pra escrever - Por Thiago Gonzaga

Michelle Paulista,

Assim como muitos que amam a Literatura potiguar, sou fã de Thiago Gonzaga.Por isso, reproduzo aqui texto de sua autoria. Vale muito a pena ler:


UMA RAZÃO A MAIS PARA ESCREVER

Li muito comovido o mais novo trabalho do escritor Manoel Cavalcante, “O Menino Livro”, obra infanto-juvenil, baseada em minha história de vida, e que reflete, na verdade, a história de milhares de brasileiros, na luta pela sobrevivência, e outros tantos que são tocados pelo poder dos livros, da leitura, da literatura.

Fiquei extremamente sensibilizado, sobretudo, pela espontaneidade do autor, pois não nos conhecíamos pessoalmente. Todavia, eu já tivera notícia, há bastante tempo da carreira literária do jovem escritor pau-ferrense, que possui sete livros publicados, além de numerosos cordéis, obras estas com que obteve inúmeras premiações em concursos literários de todo o Brasil. Interessante observar que Manoel Cavalcante é graduado em Odontologia pela UFRN, e embora seja um profissional respeitado na sua área,  onde ele mais se realiza, com certeza, é na sua literatura, seja produzindo, ou se apresentando em  dezenas de eventos culturais. Evidentemente, temos que dar as honras também ao ilustrador mossoroense Teo Vianna, que fez um trabalho incrível, captando a sensibilidade do poeta ao transpassar para o desenho toda a força lúdica e poética do texto.

“O Menino Livro”, publicado através da Comunique Editora pelo jornalista e ativista cultural Rilder Medeiros, resume um tanto do que foi a minha trajetória até conhecer os livros, já adulto. A Editora, que iniciou suas atividades, oficialmente, em 2015, especializou-se em publicar livros infanto-juvenis, e já são mais de vinte obras circulando por todo Rio Grande do Norte e algumas cidades do Nordeste. Cerca de 40 escolas já adotaram os livros da editora, demonstrando seriedade e compromisso com o público infanto-juvenil, trazendo temas atuais, como bullying, alimentação saudável, educação para o trânsito, além de outros valores humanos e sociais.

O livro está realmente interessante, não por ser uma homenagem a minha história, mas, pelo fato de Manoel Cavalcante escrever muito bem. Embora seja um poeta popular, digamos assim, ele não usa palavras gastas, palavras banais, ele é muito criativo, inovador, e isso é o que diferencia o bom escritor de outros autores. O livro dele tem valor artístico, por que é esteticamente primoroso. As ilustrações seguem o mesmo padrão da prosa, criativas, inovadoras, captando a essência do texto.

 Sou filho de analfabetos. Meu pai, trabalhador autônomo e minha mãe, empregada doméstica.  Meu pai faleceu por volta dos meus sete anos de idade. Comecei a trabalhar ainda criança, empurrando carrinho de compras de supermercado, para ajudar a manter a casa. Passei muitos anos sem contato com os livros, longe da escola. Até que um dia, já crescido, minha mãe achou uns livros no lixo e trouxe-os para casa. Minha vida tomou outro rumo.

Morávamos no bairro de Cidade Nova, que foi uma espécie de refúgio para as pessoas que tinham vindo do interior, querendo conseguir residências na recém- inaugurada Cidade da Esperança.

Em meio às dunas do bairro da periferia de Natal, adorávamos soltar pipas, andar pelos arredores, correr, subir nas árvores.  Como tantos outros amigos gostávamos de brincar no leito arenoso da rua, ou na calçada em frente de casa. Era tão divertido que nem notávamos o sofrimento da vida que passava aos nossos olhos.

   Numa altura da vida em que deveria estar preocupado com os estudos, em passar num concurso público, eu também lutava pela sobrevivência. A vida era dura, mas não apenas comigo, também com milhares de brasileiros, nascidos e criados na periferia das cidades, que, muitas vezes, não têm oportunidades, seja por falta de orientação dos pais, seja pela inexistência de programas governamentais voltados para essa camada da população.

Nessa época, o aterro sanitário, o famoso forno do lixo, ficava no nosso bairro, e uma das minhas diversões era ir mexer no lixo, com uns amigos; catávamos muita coisa, brinquedos quebrados, etc., mas a motivação maior era pegar ligas cirúrgicas para fazer as nossas baladeiras, um dos nossos brinquedos favoritos.

Acredito que vários jovens da minha geração possuíam grande potencial para praticar atividades criativas e esportes, por exemplo, mas infelizmente, uma serie de fatores, - a luta pela sobrevivência, a falta de incentivo e de projetos sociais -, acabou por levá-los para outro rumo.

  Posso dizer, sem nenhuma dúvida, que os livros me salvaram. Atualmente, sou graduado em Letras (Português-Inglês), tenho duas Pós-graduações; uma em Literatura e Cultura do Rio Grande do Norte (UFRN),e outra em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica (FACEN), e possuo Mestrado em Literatura Comparada (UFRN). Tenho alguns livros publicados, já escrevi inúmeros artigos e ensaios sobre nossa literatura, para revistas e jornais como “Tribuna do Norte” e “Jornal de Fato”. Sou professor e editor da Revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras, além de coordenar um projeto social, que existe a seis anos, denominado “Caravana de Escritores Potiguares”, que distribui livros gratuitamente nas escolas públicas do Estado.

Todavia, ainda tenho guardadas em minha mente as melhores lembranças da minha infância naquele subúrbio de Natal. Cidade Nova é para mim um quadro na parede, porém, ao contrário da Itabira do poema de Drummond, não dói.



Sugestão de leitura: Indez, de Bartolomeu Campos Queirós

Michelle Paulista,


"O mundo não estava dividido em dois, um para pessoas grandes, outro para os miúdos. As emoções eram de todos."(Bartolomeu Campos Queirós)


  O início da narrativa utiliza-se das estações do ano como se fossem personagens de um reino, semelhante àquele das Águas Claras, de Monteiro Lobato. A figura de um reino remete o leitor à fantasia, cumprindo a tarefa de suscitar encantamentos. Provavelmente, essa fosse a intenção do narrador: olhar, do presente, para o passado como um reino distante, em que as divisões geográficas dessem lugar às marcações temporais, às estações climáticas do ano.

Em Indez, temos um narrador onisciente, que decide contar a história delegando a voz ao protagonista Antônio. Artifício literário ou questão de estilo?

Se em Indez essa fragmentação é ainda mais latente, poderia ser sintoma do “eu fragmentado” de BCQ, ainda tentando trilhar um caminho ou atalho para a escrita de suas memórias.

Indez não se divide em capítulos, mas em marcações de tempo, em etapas de um dia, ciclo de vinte e quatro horas. Em vez de usar termos como “alvorecer ou amanhecer”, “entardecer, anoitecer” e “escurecer ou cair a madrugada”, BCQ, por intermédio deste narrador meio distanciado e, ao mesmo tempo, aproximado, escolhe denominar cada fase de sua infância como partes de um dia, numa evidente influência da forte religiosidade do meio sociocultural em que nasceu e no qual fora criado e faz questão de preservar ainda na idade adulta. Numa disposição que sugere extremos, o primeiro momento do dia alude ao seu nascimento e reinado como caçula até que chegasse a irmã mais nova, tendo essa parte a tarefa de imprimir frescor e novidade aos primeiros tempos de vida do menino, ao passo em que o final do dia  representaria o escurecer ou anoitecer, etapa que batiza o momento de separação entre Antônio e sua família (pais, irmãos), por ocasião de sua partida para a cidade de Pitangui, onde passa a viver por um período em casa de avós paternos, cuja despedida fora marcada de rupturas e sofrimentos silenciados.

Acontecimentos comuns como nascimento, batismo, doenças típicas infantis, primeiros aniversários, brincadeiras infantis e outros semelhantes perdem o aspecto de trivialidade e ganham contornos diferenciados graças à habilidade de BCQ no trato com as palavras. Por conseguinte, a sua capacidade de engendrar arranjos semânticos de surpreendente força metafórica, mobilizam recursos de estilo que valorizam a mistura de sons, cores, cheiros e leituras. A culminância desse trajeto é a confecção de um pano estampado de cores vivas e sóbrias, alegrias e angústias na vida de um menino a quem estaria reservado o maior dos dissabores: a separação imperativa da mãe.

O desfecho da narrativa é estranhamente nostálgico e provocador de curiosidade. Diríamos que a nostalgia residiria no fato de o autor-narrador desvelar o “segredo” guardado até então: serem ele e Antônio a mesma pessoa, quer dizer, a mesma pessoa em épocas distintas, e agora já também com personalidade e identidade diversas. A provocação aconteceria pela inesperada leveza que as últimas linhas sugerem; a história se encarrega de arrematar a construção de um caráter poético em Antônio, pois em cada coisa, em cada ser, há recados de Antônio para o autor-narrador. Certamente, o leitor será acometido de grande vontade de experimentar e degustar os outros “ovos” que se seguem após Indez ter sido posto. E uma vez consumindo-os, têm-se o privilégio do sabor de um texto literário de gosto refinado.



Gestos concretos importam

Michelle Paulista,



Tenho escrito muito aqui sobre o atualíssimo “a gente marca”, espécie de virose que atacou as relações de amizade na era das redes sociais. Mas existe algo bem parecido, que é a “comiseração fake”, para combinar com o método do último pleito eleitoral.

Desde sempre, usa-se a função fática da linguagem para as saudações cotidianas, os famosos “como você está?” e “tudo bem?”, quando , na verdade, não estamos nem um pouco interessados em saber como vai a vida do outro, visto que a nossa já é cheia de demandas.

O problema é que as pessoas desaprenderam a ser amigas: amizade virou sinônimo de foto em rede social. Amizade de verdade ficou fora de moda. Refiro-me a ir à casa do outro, acompanhar-lhe numa atividade para não deixar o amigo só, ligar pra saber se o outro está bem, emprestar dinheiro pra comprar o botijão de gás, essas coisas.

Dia desses, numa das minhas visitas ao vale escuro, experimentei uma coisa já fora de moda: uma amiga importou-se com minha causa e agiu. Foi como um unguento num machucado, desses pelo qual a gente chora mais pelo episódio que pela dor física.

Sim, há cores nas estações doloridas. A viagem é positiva, embora o processo seja nauseante e com picos de dores. Elas, as estações, são pedagógicas e reveladoras, tal qual o velho rolo de filme da máquina de fotografar.

A companhia das letras e das artes é premente. Elas fazem seu papel com maestria, ofertando-nos instantes de catarse, ora de alumbramento, quiçá de deleite e inspiração. Mas falo de gente, essa invenção que traz em si a centelha do Criador de todas as coisas. Vejo bolas de sabão bailando nas pequenas atmosferas particulares de cada consórcio de amizade, quando duas almas fazem entre si um pacto de lealdade, amor fraterno e solidariedade.

Pois a amiga pegou o telefone, chamou o mensageiro e enviou o unguento, arcando com metade do ônus da remessa. Sim, o gesto foi maior que o bálsamo. 



O dia em que o texto teve que ser preenchido com clichês

Michelle Paulista,


Há verdades e mentiras nos clichês. Alguns se consagraram porque resultam das observações sobre a vida, partindo de pessoas comuns. Outros são equívocos. Um dos clichês que não fazem qualquer sentido é o que diz que os opostos se atraem.

É preciso só um pouquinho de atenção para perceber que os iguais é que se atraem. Pessoas agrupam-se conforme suas preferências. Veja uma sala de aula em que os alunos não se conheçam: logo, logo os grupinhos se formam, pequenas “panelinhas”, agremiações. E assim o é também entre adultos, vizinhos, confrades, salas de professores, funcionários de uma empresa... Pessoas se declaram melhores amigas nas redes sociais consoante preferências musicais, de programações de lazer, lugares a frequentar etc.

E pensando nos clichês e observando a cena cotidiana, concluo que é preciso admitir que a idade chegou, que a pele não tem mais viço e que estamos passando, muito, mas muito longe, da preferência e do interesse de quem ainda está na casa de idade anterior. Vale, de igual modo, para amizades.  Não, não é uma enfadonha queixa amorosa. É uma constatação ante os arranjos sociais e de amizade que contemplo nessa aventura ora entediante, enfadonha e cansativa de viver.

Por mais que nós, mulheres, nos achemos seguras, maduras, cheias de nós, independentes, o fato é que corremos o risco de contemplarmos os casais que, orgulhosamente, ostentam seus aniversários de relacionamento, sempre acompanhados de depoimentos cheios de orgulho e cumplicidade. Alguns farsescos, é certo. Mas lá estão. Constam. Acreditam-se neles, até.

Por mais que o feminismo tenha contribuído em grande medida pra emancipação da mulher, ainda persiste aquele modelo de quem chama pra sair/jantar é o homem. Mulheres que têm iniciativa são tomadas de dois grupos: se for jovem, é atirada, oferecida. Se for mais madura, é uma coroa desesperada à procura de alguém.

Mas o que ninguém sabe ou percebe ou entende é que nem todo convite traz, necessariamente, de forma subliminar, um pedido de namoro. Nem todo convite pra tomar um café é sinônimo de "tô a fim de você". Às vezes é só a aposta de que o convidado é alguém de papo interessante, que seja capaz de engatar meia hora de conversa sem fazer sinal de arma com a mão ou falar da última dupla de “sofrência”, produzida em série, do momento.



Outra vez, Diógenes da Cunha Lima

Michelle Paulista,


Todas as vezes que subo determinado viaduto, lembro-me dele. Há viadutos e viadutos. Este é encaracolado, dá até certa diversão. A gente vai experimentando uma espécie de decolagem, subindo afoitamente a pista e, do alto, consegue contemplar a emenda dos dois municípios: de um lado, a cidade Trampolim, que ainda não se deu conta de sua grandeza e se comporta como adolescente, espécie de anexo da capital. Do outro, a capital do estado, majestosa e confusa em seus próprios limites.

Já em cima, momento curto, vejo um quadro celeste que me remete ao firmamento do planalto central – azul claro, adornado de muitas nuvens. Se acontece esse momento nas primeiras horas úteis do dia, é possível ver os primeiros raios de sol se estabelecendo, escolhendo os lugares que vão abrilhantar.

Todas as vezes, me lembro dele. E fiquei pensando, certa feita, por quê?

Acho que ele tem ares de manhã nascendo. Nos seus mais de 80 anos, ousa ostentar uma pele firme, viçosa. Ela assim o é para combinar com a polidez dos seus gestos e a grandeza de sua poesia. Quando estou perto dele, sinto-me subindo numa montanha, quase uma decolagem de avião, entre as nuvens, abraçada por incipientes e matinais fios de sol.

De muitas formas, fui agraciada com sua gentileza e, ao seu lado, vivi grandes alumbramentos. Alguns públicos, como na ocasião da abertura do FLIN em 2017 e do FELICCIDADES (Festival literário e cultural das cidades) em 2018. Outros, reservados, em seu escritório, quando me levou às lágrimas com sua poesia e seus depoimentos sobre Deus, vida e amor.

Às vezes, quando sinto saudade, ligo pra ele. De outras vezes, ele me surpreende com um telefonema, dizendo que eu lhe vá visitar. Diz que tem novidades, que me quer bem. E eu me sinto novamente aquecida pelos mesmos raios solares da decolagem na subida do viaduto.

Todas as vezes que subo determinado viaduto, lembro-me de você, Diógenes da Cunha Lima, poeta do meu coração, dono dos mais significativos afetos que carrego. Você é experiência incrível de contemplação da paisagem das cidades sobre uma montanha de concreto entre duas urbes. Vida longa, meu poeta!



Gosto cheiro de plástico

Michelle Paulista,


Aquele plástico com fedor cheiroso que envolve as caixas de brinquedos comprados em magazines. Aquele plástico. O cheiro-gosto dele. Era isso que eu sentia. E subia e me fazia inventar, desafiadoramente, uma careta que não fosse dor ou nojo; fosse a expressão do gosto daquele plástico na boca, mastigado.

Nas pioneiras horas, acordei com as comuns dores. Íntimas- dores de corpo, dor de alma, dor de ausências e presenças ( é certo que há gentes que doem). A urgência em viver. A decisão de não dar corda aos questionamentos existenciais que ficam espremidos no portão da sala do pensamento, refletindo sobre os sentidos: da vida, da morte, de tudo e de nada. São mal educados, esses questionamentos. Não vêm ordenados, empurram-se, acotovelam-se.

E não estranharia se tivesse o gosto daquele plástico de fedor cheiroso. Cheiro de fuga, de transposição de momentos, de “tenho brinquedo novo”, de décimo-terceiro (fortuna dos menos abastados). O plástico. O cheiro.  Mas, para alento, resiste o  afeto operoso e vigilante, captando os empurrões e maledicências dos nada polidos questionamentos. Odores, pensamentos, existir.



Perguntas e acasos

Michelle Paulista,



Não sei se o destino de cada um está traçado. Não sei se cada um faz sua jornada. Às vezes penso que nossa sorte (expressão aqui tomada como desdobramento, curso de vida) é a interseção de inúmeras e simultâneas ações humanas. Talvez o ato de alguém comprar pão e leite nesse momento na padaria do bairro, de alguma forma, cause alguma implicação na minha vida. Não seria o exercício de viver uma espécie de jogo de dominó, em que cada peça escolhida e encaixada mexe no jogo do outro?

Enquanto rabisco agora sob a luz do abajur que faz as vezes de abraço, penso: o que faz agora uma mulher de minha idade, também professora, mãe de um filho, que adora comprar esponjas de lavar louça, escovas de dente e papel higiênico e que mora na Nova Zelândia?

Quem, além de mim, almeja uma companhia tão incrivelmente interessante a ponto de me fazer desejar fazer a sobrancelha e colocar a manicure em dia?

Não sei se me confortariam uns versos dos bons. Se me fazem pensar na finitude da vida e na imensidão do universo, rejeito-os. Tem-me pesado o exercício diuturno de observar as cenas da vida e suas pequenas grandes questões. As respostas fogem de mim e eu me apavoro delas, não comungamos caminhos.

Quero o agora, o efêmero, o dulçor dos instantes descompromissados, fragmentos de vida coloridos, que durem o suficiente para provocar , oportunamente, riso no canto da boca, enquanto dirão, na sala de espera do médico “ela é louca, ri sozinha, do nada.”



No provador

Michelle Paulista,


Sempre fui meio intrigada com provadores de lojas, especialmente as de departamento. Começa pelas roupas produzidas em série, nada exclusivas, calças extremamente compridas, como feitas para corpos longilíneos, bem distintas do padrão da mulher potiguar.

Mas eu falava dos provadores. Dispostos numa espécie de beco, mais parecem banheiros químicos de festa de rua, visto que são pequenos e desconfortáveis. Acho que quem os projeta não os usa, porque não há praticamente lugar para que alguém, confortavelmente, experimente peças de roupas ali. Alguns, mais generosos, dispõem um banquinho, o que nos leva a tomar a difícil decisão de escolher sentar ou acomodar as peças de roupas. Alojadas a peças a serem submetidas à sabatina do corpo, o desafio é achar lugar para colocar nossos pertences (bolsa, óculos) e mesmo as roupas que já trajamos.

Eu detesto provadores; fico tonta e enjoada neles e olha que não sou claustrofóbica. Incomoda-me o ritual de ter que passar pelo quartinho apertado, olhar a expressão mecânica da mocinha que está louca para que o shopping feche, acompanhada da invariável fala: deu certo? Eu sempre me divirto, tentando adivinhar se ela falará “deu certo” ou “deu certo alguma coisa?”

Talvez eu não goste de provadores de lojas de departamentos porque os veja sob a perspectiva do imbróglio e não do ensaio. A gente veste uma peça e até se imagina usando-a em alguma situação real, mas o fato é que quando a usamos, o efeito nunca é o mesmo. Talvez seja meio louco da minha parte, mas todas as vezes que passei pela etapa do provador-banheiro de rua, invariavelmente voltei para trocar a peça ou a encostei num canto, destinando-a mais tarde pra doação.

Eu prefiro a pulsação de vestir mesmo uma peça em cima da outra, no meio da loja e desfilar à procura de um daqueles espelhos distribuídos generosamente. Também gosto de adquirir a peça “de olho”, levando pra casa e descobrindo, deliciosamente, se ela me veste. Isso é relação. Assim é com tudo: levamos pra casa e vamos convivendo, às vezes apertando aqui e ali, fazendo um reparo, costurando ajustes, arriscando-nos a ficarmos nus.

O provador me subtrai a possibilidade de não ser vestida por aquela peça; me tira a certeza de que a indumentária dará certinho. Não ir ao provador é, sobretudo, a deliciosa incerteza de saber-me despida.



Ex- crevendo

Michelle Paulista,

Escrevo como quem rouba. Como quem delínque. Como quem engendra verdades enlameadas de ficção.

Escrevo como quem afunda, como quem se suja nos dejetos do exercício de viver. Escrevo como quem tem os dedos rasgados de segurar tão fortemente na corda que lhe é lançada nas horas estressadas de ser.

Escrevo, pois, solenemente, num arrepio de agonia, num arroto de existir, bolhas de sabão saindo de dentro, sabor de sardinha enlatada. Estranho familiar doloroso gosto de saber-se viva, regurgitada  boca afora.

Escrevo por necessidade, por fuga, por masoquismo. Por falta, por excesso, por perceber-me incabível, inquieta, inconveniente, inviável, in-vida.

Por ora não mais penso, apenas escrevo. E o faço entre o gosto de detergente na boca e a flecha que comprime o estômago.

Ex-crevo. Ex-isto.



Academia Macauense de Letras e Artes

Michelle Paulista,


No último dia 06 de dezembro, aconteceu a posse dos membros da AMLA - Academia Macauense de Letras e Artes. Em noite de muita emoção e arte, os agora imortais puderam dividir a emoção com familiares, amigos e autoridades no Lions Club de Macau.

A AMLA tem como presidente o poeta Horácio Paiva e Tião Maia como primeiro secretário. 

Da esquerda para a direita, na foto:

Jonas Lemos, Francisco Carlos, Getúlio Moura, Marlúcia Paiva, Getúlio Teixeira, Gilda Avelino, Herbert Martins, João Lino Dantas, Luiz Gonzaga, Ribamar Filho, Padre Murilo, Michelle Paulista, Saddock Albuquerque, Alfredo Neves, Horácio Paiva e Tião Maia. Ausentes por questões de saúde: Cláudio Guerra e Vicente Serejo.



A briga da água com o garfo lambido

Michelle Paulista,


Eu esfregava com vigor, inclinei o dedo polegar para que a unha ganhasse função de espátula. O atrito era macio, um bolinho de arroz grudado no metal. Aquele talher tinha sido lambido por carregar um delicioso arroz cremoso, ensopado com manteiga. Arroz diferente, feito com carinho e degustado quentinho. Mas agora grudava no talher e atrapalhava o término da tarefa de lavar louça.

Pratos e copos lavados, era esse artefato que dava trabalho de limpar. Então, soltei-o na pia, onde havia um pequeno açude de água e espuma. Deixei-o lá, esquecido, para brigarem – água e resto de arroz, até que um vencesse o outro.

Mais tarde, fui ver o resultado da peleja: o resto de arroz no garfo lambido sucumbira e a água, vitoriosa, fez o que normalmente fazem as águas (metafóricas ou denotativas): removeu o resto de arroz grudado no talher.

Assim é também o cotidiano: esforçamo-nos para remover resquícios, empunhamos nossas unhas e tentamos remover sujeirinhas incômodas. Mas há coisas que, de tão bobas, não valem a pena gastar unha. Há coisas que só a água resolve, nas suas diversas formas. Chame a água-choro, a água-banho, a água-mar, a água-suor. Chame a água.

Aquele garfo lambido de comida gostosa e quentinha pode ser agora um resíduo que precisamos eliminar. Abandone-o por um tempo na água. Ele amolecerá e você passará uma esponja macia, mas fatal. Uma esponja definitiva.

E depois, como sugestão, tome um banho de mar. 



Semana de excelentes lançamentos de autores potiguares

Michelle Paulista,

Semana de novidades editoriais:


Uma faca, dois gumes é o título da coleção criada pela Vento Cartonero, editora que trabalha individualmente as capas de livros, elaboradas em papelão reciclado, na cidade de Santa Maria-RS. Abre essa coleção, em volume único, os livros “Arredado pé” e “La Horda”. O Arredado pé de Humberto Hermenegildo se junta à Horda de Elizabeth Cárdenas. Poesia latino-americana – territórios irmãos de duas línguas que, embora muito próximas, têm raros lugares de encontro. Brasil (Nordeste) e Chile (Santiago), dois gumes neolatinos a denunciar conceitos inoperantes: “De boas intenções / a rua anda cheia” (versos do poema “Fraternidade”, de ARREDADO PÉ); “nunca fue día en este país /una hostia eterna en el cielo intenta cubrir el sol” (versos de LA HORDA).

O livro pode ser adquirido no seguinte endereço:
https://www.facebook.com/ventonortecartonero/
Boa leitura!

Também nesta semana, a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras e a Bagaço convidam para o lançamento da COLEÇÃO LETRA VIVA POTIGUAR que reúne os autores: Bartolomeu Correia de Melo, Eulício Farias de Lacerda, Manoel Marques Filho, Manoel Onofre Jr., Tarcísio Gurgel, Violante Pimentel e Nelson Patriota.
Dia: 28/NOV/2018
Horário: A partir das 19h
Local: ANL – Rua Mipibu, 443, Petrópolis, Natal/RN



Arrevessos de ódio no meio da rua

Michelle Paulista,


Os grandes temas da vida estão escancarados no cotidiano e parecem nos caçar em dias nublados para dispararem aquele momento reflexivo.

Pois eu saía de um lugar “pesado” – sim, existem, para além de qualquer imaginação – e tais lugares parecem funcionar como uma esponja, sugando toda e qualquer vibração positiva.

Não deveria ser preciso apresentar meu currículo de motorista. Faço isso desde a adolescência, sem nenhum incidente que desabone minha trajetória de condutora. Mas isso não faz a menor diferença quando o machismo e os ódios alheios afloram.

Andava pelo centro da cidade, devagar com todas as cautelas, no exercício de respeitar os pedestres e dirigir com prudência. Ao entrar numa rua estreita e de trânsito absurdamente desordenado, sem faixa de pedestres e semáforo, fiz com cuidado e pouca velocidade. Elas tentavam atravessar a rua, correndo com sacolas, por entre os carros, driblando-os. Parei e fiz sinal para que atravessassem caminhando, com tranquilidade, a passos, sem correr.

Foi então que ouvi um xingamento; não tenho dúvida de que era maior que o calor que  assolava. Não distingui claramente, mas era algo relacionado a ser mulher, juntamente com outros adjetivos do tipo imbecil, idiota e outros semelhantes. Era um vômito de impropérios, misturado com pedaços de frustrações, machismo feminino e uma absurda necessidade de agredir alguém.

Certa feita, escrevi sobre como seria oportuno termos uma espécie de escudo igual ao de Steve Rogers. Nessas horas, é vital lançar mão dele e pensar que aquela investida odiosa é um problema de quem agride e não nosso.

Dirijo muito bem, obrigada. Faço isso com muita responsabilidade há quase 25 anos. E confesso que acho chato, mas acho fácil também. Difícil mesmo é compreender como nós, mulheres, temos uma grande responsabilidade: fazer com que outras mulheres não precisem recorrer ao exercício do machismo e da desunião para atacarem umas às outras. Que os ódios guardados nas mais profundas infelicidades sejam substituídos pela gentileza, pela polidez e pela empatia. Tenho fé. 



Sobre mudança de rota e leveza

Michelle Paulista,


Rota comum, trivial, a de todos os dias. São três, mas todas comuns, repetidas, deliciosamente rotineiras; que rotina, em certa medida, também é parte do viver.

Ouvia a rádio preferida, quase amiga que , carinhosamente, reproduz as canções que me afagam a alma. Pensava demandas, agenda do dia, requerimentos do filho – a chuteira nova, a bolsa escolar que rasgou, vencida pelo peso dos livros e dos dias, a festa da escola, a ida ao shopping – o carro pra lavar, a calota que sucumbiu ao asfalto pra repor.

De súbito, ela entra no meu campo de visão. Rosto rosa, cabelos de um loiro gasto e mal cuidado. Eram tantas e fartas as lágrimas, que precisou tirar os óculos pra contê-las. Chorava copiosamente, alto. Eu  conseguia ver o som do choro, pelo vidro fechado.

Segui minha rota. A agenda. Os pedidos do filho. O horário do trabalho. O carro e suas calotas.

Tentei dançar a música massageadora do rádio. Sem êxito. As lágrimas da outra me pesavam, mesmo dissipadas pelo vento e sol do instante.

Tive que voltar. Ela deve ter tomado um susto; carro parando e abordando-a, do nada.

Disse estar bem. Não precisava de ajuda. Ficou grata.

Eu atrasei um pouco, mudei a rota – do trajeto e do dia. Mas a consciência... essa ficou ao ponto de flutuar com o peso da situação experimentada.


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