Entre lanternas e livros

De uma leve brisa junina

Michelle Paulista,


Cheguei antes dela, atendendo a um chamado. Recebeu-me com um abraço afetuoso, surpreendentemente familiar, embora fosse a primeira vez. Quando percebi, caminhava pelo calçadão, percorrendo uma distância não marcada, a perder de vista.

Sem marcação de tempo e espaço, ela me acompanhava, solidária, entre alternâncias travessas dos pingos de chuva que bagunçavam meu cabelo: deixei-o solto, naturalmente assanhado, para que sorvesse a maresia matinal.

A cada parada, ela me sorria meio tímida, meio cheia de iniciativa. Era uma brisa alegre, inusitada. Brisa de primeira vez, de sopro incipiente, de ternos carinhos em mim. De repente, como num rompante, ela me toca o rosto e então pude sentir seu afeto ocupando o espaço do meu corpo e alojando sua presença em minhas lembranças diárias pelo resto do dia.

Ela segurava em minhas mãos, como me dando novo impulso, algo de reset, como uma senha para novos dias a percorrer.

Era beira-mar. Uma manhã junina mesclada de sol e neblina. O sol que aparecia com timidez, a areia, o mar e ela -a brisa leve - deixaram-me temperada de felicidade.



Doce azedo amaro

Michelle Paulista,


doce-mO livro de doce azedo amaro, de Theo G. Alves é uma viagem pela poesia ainda possível de encontrar num mundo feito só de brutalidades. Cabe ao poeta descobrir essas palavras generosas ao homem para tornar a vida melhor, nem que seja por um instante. Como diz o poeta, em um de seus poemas, antes da poesia era só o estampido, o soco, o tiro, o golpe, a faca, a foice. Mas a poesia tem, sim, o poder de anular esses ferimentos cicatrizados na vida. O poeta diz: “ávido, espero/ o decreto de meu último/ silêncio/.../”, como se a dizer que a palavra, infelizmente, talvez já esteja em desuso. O poeta se afirma vítima de muitas armadilhas do poema, mas sabe se proteger. O importante é construir sempre essa poesia escondida nos becos, naquele homem que caminhava pelos desertos, nas Dulcineias caladas no caminho, à espera ou à procura do Cavaleiro da Triste Figura, D. Quixote, que luta sempre contra visões, mas sempre em favor da Beleza. Ele também recorre à memória para encontrar as imagens da infância, ainda vivas dentro de si. O livro de Theo G. Alves deixa uma mensagem significativa: muitas vezes, o amor é maior que o próprio amor. Um livro de poesia, de um poeta que sabe de seu ofício de escrever e sabe, também, como observa em um de seus poemas, que “o poema é sempre uma violência”.


Inicialmente, será lançado em Brasília; posteriormente, em terras potiguares.


SERVIÇO

Lançamento do livro doce azedo amaro

Locais /datas: Espaço Eni Fernandes, Rua 03, Chácara 95, Setor Habitacional Vicente Pires, Brasília/DF (dia 16/06/2018) | Bar Beirute – Asa Sul, Bloco A1 Loja 2/4 - Asa Sul, Brasília – DF (dia 18/06/2018)

Valor: R$ 38,00



Versos íntimos

Michelle Paulista,

O poema homônimo de Augusto dos Anjos é um dos mais impressionantes que já li. Conheci-o na faculdade de Letras e, como não poderia deixar de ser, passei a admirar o talento inquestionável desse paraibano inclassificável.

Em vão, a historiografia literária tenta classificá-lo em alguma escola literária ou estilo de época, mas o poeta, grande que é, se faz como quer: ora simbolista, ora parnasiano, ora pré-modernista. Enquadramentos à parte, é a obra augustiana que interessa.

Augusto dos Anjos é desses poetas únicos, cuja obra perturba qualquer leitor. Cético quanto à vida, às pessoas e ao amor, compôs versos melódicos, com temáticas mórbidas e científicas, em que a desesperança e a concretude da falência humana são expostas como uma ferida purulenta.

“Versos íntimos” o são sem qualquer relação com sombra de romantismo. A intimidade dos versos em questão não passa da constatação que só temos a nós mesmos diante das agruras da vida.

A célebre passagem “O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja”
revela uma potente intimidade do poeta consigo próprio, num lampejo de sobriedade e percepção do real que chega a chocar quem o lê.

Fato é que talvez a única companheira inseparável de qualquer ser humano do mundo é a solidão, embora estejamos rodeados de pessoas e acumulemos mais de 1.500 contatos nos aplicativos de redes sociais.

Já no início do século XX, temas como solidão, desesperança, ingratidão eram temas dos versos de Augusto dos Anjos, o que torna seus sonetos tão atuais quanto impactantes, ainda nessa sociedade pós-moderna do século XXI.

Versos íntimos, Psicologia de um vencido, O morcego, Solitário estão dentre os poemas mais célebres de Augusto dos Anjos, publicados no livro “Eu e outros poemas”, um clássico da literatura brasileira, diria mundial. A singularidade dos sonetos assim o credencia.

Convido à leitura de “Versos íntimos”. A interpretação fica por conta de você, leitor, que, certamente, como eu, conseguirá se identificar com as verdades cortantes que habitam os versos abaixo:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


Sobre castelos de areia, metáfora da vida

Michelle Paulista,


Uma das metáforas mais gastas é a dos castelos de areia. Castelos de areia são erguidos a partir de forminhas, geralmente presenteadas em datas infantis. Por isso mesmo, são artificiais. Não são compostos de verdades, embustes que são. Por serem moldes, são decorativos, previsíveis. Coisa impossível é habitar castelos de areia; eles não nos acomodam; não podemos ser conteúdos de tais continentes.

Embora lindos, se acaso pudéssemos adentrá-los, seríamos soterrados pela verdade indiscutível que os permeia: são burlas.

Um castelo de areia não é sequer um castelo, é uma réplica, representação desse sonho insistente que carregamos de sermos princesas e príncipes, felizes para sempre. Embora lindos, são carcomidos pela água. Sua natureza é ser ludíbrio temporário.

Às vezes, o vento os derruba. Outras, o próprio castelo vem e com um chute na cara, se desfaz.

O que se tem de certo é que sempre chega o momento: a qualquer hora, ele rui. 



Saudade de ter medo de barata

Michelle Paulista,


Os medos contemporâneos são muitos e nos apavoram. Desde sempre, tenho medo de barata. Algumas pessoas – aquelas que julgam saber de nós mais que nós mesmos – dizem não ser medo, mas nojo. A ojeriza existe, mas não é preponderante nesse caso.

Sim, é medo. A simples presença de uma barata parece-me algo intimidador, desafiante, até. Lembro-me bem de um episódio na adolescência, em que fui preparar um lanche e uma barata saltou em mim. Resultado: tive uma crise de choro que até hoje não sei se foi pelo susto, pela sensação de pavor ou tudo isso misturado.

Ocorre que esses dias estava eu absorta em pensamentos vários: as contas, as injustiças e contradições da vida, as reivindicações sem propósito, o dever de ser mulher bonita, elegante, amante ardorosa, esposa perfeita, mãe exemplar, a profissional irretocável, pesquisadora elogiável e magra! São muitas eus que me vejo obrigada a ser.

O orçamento doméstico. As provas escolares do filho. A excelência no trabalho. O sorriso no rosto. O “look” adequado. O vazamento da pia. A limpeza do quintal. O garrafão de água que secou. O almoço de amanhã. O boleto. O, o, a. Infinda é a lista de “O” e “A”.

Então ela surge: preta, enorme, atrevida. Não deu tempo de ter medo. Saquei o aerossol de veneno e com não mais que três borrifadas, minha oponente convulsionava aniquilada.

Caro leitor, cara leitora, a barata é metafórica, está claro. Ela pode ser qualquer coisa que, inexplicavelmente, nos apavora, nos fazer sentir vontade de gritar ou sair desesperadamente em busca de alguém que resolva nosso problema, mate a barata, seja ela o que for.

Nossos medos merecem respeito. Nem sempre podem ser explicados. Mas há de chegar um dia que eles se tornarão tão ínfimos e bobos ante as inúmeras demandas que a vida contemporânea nos impõe. Não temos tido tempo de curtir nossos medos inofensivos, como o de barata. Eles, os medos, ganharam vulto e hoje são de outros tipos: violência urbana, relações pessoais contaminadas pela falsidade e superficialidade, os inúmeros papéis a que somos instadas a representar, especialmente nós mulheres.

Seria ótimo que os nossos medos modernos fossem resolvidos ao sacarmos um frasco de veneno comprado em supermercado; não seria prático e libertador? Mas a vida tem-nos imposto outros medos que nem mesmo chineladas e mais chineladas amenizam. Nosso “spray” moderno são os ansiolíticos; nossas chineladas são passos confusos em direção ao não-sei-o-quê.

Saudade imensa do tempo em que meu medo maior e mais apavorante era o de encontrar uma barata.



Sebo Vermelho, recanto das letras potiguares

Michelle Paulista,


Espremido entre magazines e restaurantes populares, lá está. É um lugar de achados, sobretudo para os amantes e entusiastas das letras potiguares. Lá é possível encontrar verdadeiras relíquias da produção literária e artística do Rio Grande do Norte.

Falo do Sebo Vermelho, a Pasárgada dos que apreciam escritores – poetas, ensaístas, ficcionistas – da nossa literatura. Títulos esgotados lá podem ser encontrados; acervo valioso para pesquisadores idem.

O lugar é simples, mas cheira a literatura. Cores de cultura são refletidas no espaço. O comandante, Abimael Silva, é um desses quixotes das letras. Guardião da nossa história literária, Abimael vive do seu Sebo, o que me faz considerá-lo um homem de muita sorte e bastante felizardo: quisera eu viver de literatura potiguar.

Com cerca de 500 livros publicados (sem verba do governo ou edital, como gosta de frisar), Abimael Silva e seu Sebo Vermelho prestam um grande serviço à memória da literatura do Rio Grande do Norte. Ao entrarmos no sebo e percorrermos as estantes cheias dos grandes potiguares, sentimos uma espécie de alumbramento, por perceber que ali encontramos muito do nosso acervo potiguar, deveras esquecido e desprestigiado.

Recomendo aos leitores que, numa dessas idas à cidade, dê uma “passadinha” no Sebo: lá é possível conhecer muito da nossa história e cultura impressas nos livros à venda, todos a preços módicos.

Sábado último, estive por lá. Era a comemoração do aniversário de Abimael, disseram. O buffet era uma vistosa paçoca com feijão verde e a velha e inseparável cervejinha. Encontrei por lá alguns escritores conhecidos, batendo papo. Eu buscava uns títulos de Veríssimo de Melo para pesquisa. Conversávamos sobre isso quando fomos interrompidos por um jovem estudante, desses com cara de aspirante a Medicina, Direito ou Engenharia:

- O senhor tem o livro Física quântica de autoria de fulano de tal?

- Não, meu filho – respondeu rapidamente Abimael.  Aqui só temos livros pra gente que não estuda.



Humor natalense por Veríssimo de Melo

Michelle Paulista,


Para quem deseja conhecer a obra do poeta, músico, etnógrafo, folclorista e pesquisador Veríssimo de Melo sugiro que comece pela leitura deliciosa de seu “Pequena antologia do humor natalense”. Publicado em abril de 1959, o livro é um apanhado de “causos” engraçados de 18 personagens reunidos como numa festa, uma porção de boêmios, de contadores de “histórias de sete varas”, de improvisadores de respostas admiráveis, que ainda hoje são contadas em nossas bancas de café entre risadas e ardentes goles de bebida” como prefaciou, à época, Newton Navarro.

A antologia foi reeditada em 2003 pelo Sebo Vermelho e reúne verdadeiros clássicos do humor de uma Natal que já não existe, mas que continua viva na memória dos que viveram aquele tempo e dos que não deixam que a nossa cultura e literatura percam-se no esquecimento.

Separei alguns personagens e causos, como pequena amostra do que o leitor pode encontrar:

CEL. OLINTO GALVÃO

Conta-se que era um antigo comerciante que não costumava tratar os clientes com muita polidez. Contudo, segundo conta Veríssimo, aqui e acolá saía com tiradas muito engraçadas:

Uma vez o vigário da Catedral foi pedir ao cel. Olinto um auxílio para a Noite dos Casados, da tradicional festa da Padroeira. Ele recebeu o sacerdote muito bem, mas quando soube que era auxílio para a Noite dos Casados, fez psiu e disse: - Fale baixo, pra Candinha não ouvir! Eu não sou casado, não! Sou amigado!... (p. 23)

ROMUALDO GALVÃO

Dizem que era um homem muito “esquisito”. Carrancudo, falava pouco e adorava cerveja, tanto que teria confeccionado um paletó de bolsos enormes para carregar garrafas de cerveja. “De todos os tipos de ferramentas ele possuía três unidades. Não vendia, não dava nem emprestava”. (p. 37)

Romualdo estava uma noite na janela, com sua genitora, quando passou um cidadão bem vestido, na calçada. Muito naturalmente, a senhora indagou a Romualdo, baixinho, quem era aquele homem. Galvão, que também não o conhecia, gritou chamando o cidadão e disse:

- Mamãe quer saber quem é o senhor, como é o seu nome, se é casado, tem filhos, onde é empregado, o que anda fazendo em Natal. Diga tudo a ela! (p.39)

CARMELO PIGNATARO

Boêmio de Extremoz, com inúmeras histórias de farras.

Ouvi contar que, uma noite, Carmelo chegou em casa pelas três da madrugada, vindo de uma farra grossa. Como é lógico, sua exma. Esposa recebeu-o contrariada e reclamou: - Agora, Carmelo? Três horas da madrugada! Ao que ele contestou: -Três horas, não! Uma hora da manhã! Por coincidência, no mesmo instante, o relógio da parede bateu as três horas fatais. A senhora, vitoriosa, exclamou: - Eu não disse que eram três horas? Carmelo teve ainda esta saída genial: - Mas, minha mulher, você deixar de acreditar em mim, que sou seu marido, para acreditar num simples relógio de parede!...

***   ***   ***

Aos caros leitores, fica a sugestão de leitura!



Serenata do Pescador, Praieira ou a canção do povo potiguar

Michelle Paulista,

Homem de muitas cidades, Othoniel Menezes é o autor de  “Serenata do Pescador”, poema que se popularizou ao ser musicado.

Nascido em Natal, criado no sertão, Othoniel Menezes também viveu um tempo em Macau, tendo convivido, inclusive, com o mestre Edinor Avelino, pai de Gilberto Avelino.

O decreto-lei nº 12, de 22 de novembro de 1971, considerou “Praieira” (como ficou mais conhecido o poema), o Hino da cidade ou Canção tradicional da cidade.

Sem dúvida, a canção, juntamente com “Linda baby” e “Avenida 10”, formam a tríade representativa das coisas de Natal, da essência do potiguar, traduzida em notas musicais.

Com música de Eduardo Medeiros, “Serenata do pescador” ou “Praieira” ganhou a célebre interpretação do cantor potiguar Fernando Tovar – versão que embalou muitos amores e verões nas varandas do litoral potiguar.

Considero lamentável que muitos estudantes natalenses jamais ouviram a canção ou leram o poema, desprovidos de acesso à cultura do seu lugar, insipientes da produção literária “clássica” do estado ou mesmo contemporânea.

Aos que nos leem, seguem o poema e o link da versão musicada (interpretação de Fernando Tovar).

https://www.youtube.com/watch?v=VA7Gbt8UvSk

SERENATA DO PESCADOR (OTHONIEL MENEZES)

Praieira dos meus amores,
Encanto do meu olhar!
Quero contar-te os rigores
Sofridos a pensar
Em ti sobre o alto mar...
Ai! Não sabes que saudade
Padece o nauta ao partir,
Sentindo na imensidade,
O seu batel fugir,
Incerto do porvir!

Os perigos da tormenta
Não se comparam querida!
Às dores que experimenta
A alma na dor perdida,
Nas ânsias da partida
Adeus à luz que desmaia,
Nos coqueirais ao sol-pôr...
E, bem pertinho da praia,
O albergue, o ninho, o amor
Do humilde pescador!

Quem vê, ao longe, passando
Uma vela, panda, ao vento,
Não sabe quanto lamento
Vai nela soluçando,
A pátria procurando!
Praieira, meu pensamento,
Linda flor, vem me escutar
A história do sofrimento
De um nauta a recordar
Amores, sobre o mar!

Praieira, linda entre as flores
Deste jardim potiguar!
Não há mais fundos horrores,
Iguais a este do mar,
Passados a lembrar!
A mais cruel noite escura,
Nortadas e cerração
Não trazem tanta amargura
Como a recordação,
Que aperte o coração!

Se, às vezes, seguindo a frota,
Pairava uma gaivota,
Logo eu pensava bem triste:
O amor que lá deixei,
Quem sabe se inda existe?!
Ela, então, gritava triste:
Não chores! Não sei! Não sei...
E eu, sempre e sempre mais triste,
Rezava a murmurar:
“Meu Deus, quero voltar!”

Praieira do meu pecado,
Morena flor, não te escondas,
Quero ao sussurro das ondas
Do Potengi amado,
Dormir sempre ao teu lado...
Depois de haver dominado
O mar profundo e bravio,
À margem verde do rio
Serei teu pescador,
Ó pérola do amor



Um escudo, como o do Capitão América

Michelle Paulista,


Gosto das metáforas com heróis: são leves, didáticas e fantásticas.  Nessas aventuras, tudo é mágico e possível e trazê-las para o mundo da vida ajuda a encarar o alucinante dia a dia, como versou Belchior.

Não sei se por consequência da idade (indícios de maturidade?), leituras sobre inteligência emocional ou saúde um tanto debilitada, decidi adotar duas ferramentas no cotidiano – um filtro e um escudo. O filtro é demanda da vida moderna: menos tv, menos grupos de whatsapp, menos barulho, menos aglomeração, menos roupa no armário, menos, menos, menos. Mas a grande “sacada” foi a adoção do escudo. Sim, um escudo é necessário. Nosso corpo é alvo fácil de toda série de ataques. Todos os dias somos bombardeados por agressões – vezes por olhares, comentários ou palavras grosseiras. Já reparou como isso nos faz mal em grandes proporções? Pois resolvi adotar um escudo na tentativa de barrar ao menos parte da energia negativa e perniciosa que emana de certos seres humanos.

Uma resolução. Decidi que tentaria criar um invólucro invisível ao meu redor, tão imaginário quanto consistente, na tentativa de me preservar de algumas grosserias e injustiças que nos acometem de vez em quando.

Foi aí que o “Inmetro” divino resolveu testar o padrão de qualidade do meu escudo e me submeteu a uns testes de qualidade bem rigorosos. Num mesmo mês, vários bombardeios poderosos.

Certo dia, uma antiga conhecida disse numa infantilidade mesclada de estupidez e bizarrice que não “queria ser minha amiga”. Faltaram só os dedos indicadores em sinal de “tô de mal” pra coisa ficar um pouco mais ridícula, posto que foi patética. Dizer desaforos, xingamentos e outras coisas afins me daria um terrível prazer, mas optei por sorrir e dar as costas.

De outra vez, fiz um comentário de solidariedade num desses grupos de whatsapp, na mais cândida e terna intenção e recebi uma interpretação exatamente ao contrário. Descontada a absoluta falta de capacidade interpretativa, ainda houve a grosseria pública. O que fazer? Emendar uma discussão virtual, com expectadores e tudo? Respirei fundo e tentei, sinteticamente, explicar a minha real boa intenção, acompanhada de um pedido de desculpas (pelo que não fiz).

Poderia citar ainda as conclusões e acusações precipitadas no trabalho, os mal-entendidos, os xingamentos e agressões verbais no trânsito, a fúria das pessoas quando passamos uma fila apenas para tirar uma dúvida etc. Escudo. Vamos de escudo.

Todas as vezes que somos afrontados, sentimos vontade de revidar, de dar o troco, de ter a última palavra. Mas será que assim ganhamos sempre? Ganhar uma discussão ou gritar mais alto é lucro? Já imaginou quanta energia dispensada? Sim, somos energia. Somos matéria. Cada vez que revidamos um ataque, que batemos boca, empreendemos força, energia, vida e saúde. Não digo que sejamos corpos dóceis, letárgicos, mas é preciso avaliar aquilo em que VALE A PENA aplicarmos energia. Temos realmente necessidade de ganhar todas as discussões? Que lucro há em bater boca com gente estúpida, afetada, grossa e destemperada? Não é melhor guardar força/energia/vida/saúde para os bons combates – aqueles nos quais se usam argumentos em vez de palavras encharcadas de ódio e imbecilidade?

Sim, é preciso dizer não. Sim, é preciso reagir. Mas é mais necessário AINDA avaliar em que batalhas estamos gastando nossos cartuchos. Como dizem os antigos: gastar cartucho em fogo de palha é tática errada. Sejamos combativos, firmes, destemidos nas causas que realmente interessam e que nos tragam algum ganho. Discutir com tolos e descompensados nos torna igualmente tolos e descompensados, pensemos nisso!

É preciso respirar fundo, avaliar a causa, preparar as armas e usá-las em batalhas mais nobres. Nos embates imbecis, lancemos mão do escudo.

Meu desejo é que Deus tenha encerrado a bateria de testes e não me ponha mais essas provas indigestas: o escudo é frágil, pode fissurar. 



Professora lança livro "Entre salinas e maledicências: Uma leitura do romance Macau em contexto de ensino"

Michelle Paulista,



A professora Aparecida Rego lançará, no próximo 04 de maio, o livro "Entre salinas e maledicências: uma leitura do romance Macau em contexto de ensino". A obra é resultado da dissertação de mestrado da professora, sob orientação do Profº. Dr. Humberto Hermenegildo, imortal da Academia de Letras do RN.

"Macau" é um romance da década de 30, de autoria de Aurélio Pinheiro e é considerado um dos mais representativos da época.

Aparecida Rego é competente professora das redes estadual e municipal de Natal, mestre em Estudos da linguagem pelo PPgEL - RN e traz, nessa pesquisa, relevantes contribuições para a prática de ensino de literatura, algo que aflige diversos colegas professores de Língua Portuguesa.

Certamente é leitura indispensável, sobretudo pelo que conheço de Aparecida nos aspectos pessoal e profissional. Vale a pena conferir.


O poema em sala de aula II

Michelle Paulista,

CONTINUAÇÃO DO TEXTO PUBLICADO NESTA COLUNA EM 05/02/2018, ACERCA DE UMA PROPOSTA DE TRABALHO COM OS POEMAS "ELOGIO À PREGUIÇA" DE JUVENAL ANTUNES E "O PREGUIÇOSO", DE ALMYR LIRA.


Os dois textos possuem evidente aproximação. Não apenas pela temática, mas pela irreverência ao tratar de tão inusitado assunto. Não que a preguiça seja incomum; incomum é tê-la como tema de poemas. Em geral, os substantivos mais comuns em matéria de versos são conceitos mais “nobres”, como amor, alegria, coragem, nobreza etc.

  Juvenal Antunes nasceu em Ceará-Mirim, no século XIX, tendo como irmã a escritora memorialista Madalena Antunes Pereira. Entretanto, foi no Acre que viveu a maior parte de sua vida adulta, ocupando o cargo de promotor público. Juvenal é dono de uma biografia curiosa, pois passava seus dias vestido de chambre, a declamar poemas em homenagem a sua amada Laura, com quem teria vivido um romance clandestino. Existe uma estátua em homenagem ao poeta na calçada do antigo hotel onde residia e vivia de farras pagas “no fiado”.

  Almyr Lira, por sua vez, é nascido em Campina Grande e advogado por formação. Mantém um blog chamado “Cordel, poesia e repente” onde é possível se ter acesso a sua vasta produção de cordéis. Há poucas informações biográficas no blog.

  Nessa atividade, não iniciaremos tratando das noções de rima ou métrica, tampouco se este ou aquele poeta pertence à determinada ‘escola literária’. O texto é o ponto de partida e de chegada. Obviamente, conclusões serão encontradas e conteúdos inerentes às duas produções aflorarão durante a atividade. Mas esse não é o objetivo maior.

A atividade de leitura deve se colocar como uma provocação, para que o leitor, diante do texto, ou seja, dos conflitos, das personagens, de suas experiências, de seu universo, de tudo que lhe revela sua humanidade, possa se colocar frente a si mesmo, na medida em que se depara com a vida do outro, ou se sente tocado pela subjetividade alheia (...). (CRUVINEL, 2008, p.126)

  Podemos dividir a turma em grupos; a depender do número de alunos, uma parte se encarregará do poema de Antunes e a outra parte, do cordel de Lira. Ressaltamos ser fundamental o papel mediador do professor, não para “interpretar” o poema, mas como instigador da leitura de inferências dos alunos.

Chamamos a atenção para a responsabilidade do professor mediador. Antes de tudo, é preciso que esse professor demonstre entusiasmo pela leitura, que a realize com certa efusão e, que, finalmente, seja um professor leitor. 

   

Eis os poemas:

TEXTO 1: Elogio à Preguiça, Juvenal Antunes



Bendita sejas tu, Preguiça amada, 
Que não consentes que eu me ocupe em nada!

Mas queiras tu, Preguiça, ou tu não queiras, 
Hei de dizer, em versos, quatro asneiras.

Não permuto por toda a humana ciência 
Esta minha honestíssima indolência.

Lá está, na Bíblia, esta doutrina sã:
-Não te importes com o dia de amanhã. 

Para mim, já é grande sacrifício
Ter de engolir o bolo alimentício. 

Ó sábios , daí à luz um novo invento:
A nutrição ser feita pelo vento! 

Todo trabalho humano, em que se encerra?
Em na paz, preparar a luta, a guerra! 

Dos tratados, e leis, e ordenações,
Zomba a jurisprudência dos canhões! 

Juristas, que queimais vossas pestanas,
Tudo que legislais dá em pantanas. 

Plantas a terra, lavrador? Trabalhas
Para atiçar o fogo das batalhas... 

Cresce o teu filho? É belo? É forte? É loiro?
- Mas uma rês votada ao matadouro! ... 

Pois, se assim é, se os homens são chacais,
Se preferem a guerra à doce paz, 

Que arda, depressa , a colossal fogueira
E morra assada, a humanidade inteira! 

Não seria melhor que toda gente,
Em vez de trabalhar, fosse indolente? 

Não seria melhor viver à sorte,
Se o fim de tudo é sempre o nada, a morte? 

Queres riquezas, glórias e poder? ...
Para que, se amanhã tens de morrer? 

Qual mais feliz? O mísero sendeiro,
Sob o chicote e as pragas do cocheiro, 

Ou seus antepassados que, selvagens,
Viviam, livremente, nas pastagens? 

Do Trabalho por serem tão amigas,
Não sei se são felizes as formigas! 

Talvez o sejam mais, vivendo em larvas,
As preguiçosas, pálidas cigarras! 

Ó Laura, tu te queixas que eu, farsista,
Ontem faltei, à hora da entrevista, 

E, que ingrato, volúvel e traidor,
Troquei o teu amor - por outro amor... 

Ou que, receando a fúria marital,
Não quis pular o muro do quintal. 

Que me não faças mais essa injustiça! ...
Se ontem não fui te ver - foi por preguiça. 

Mas, Juvenal, estás a trabalhar!
Larga a caneta e vai dormir... sonhar ...

TEXTO 2 – O preguiçoso, de Almy Lira

O que ora sinto faz lembrar

D’um sermão dito na missa:

- Atire a primeira pedra

Quem, incansável na liça.

Nunca parou pra dizer:

‘Ai, Jesus, que preguiça!’

Mas não é da preguicinha

Do cansaço da labuta

Da fadiga do espinhaço

Querendo u’a cama de juta

Ou depois se empanzinar

Comendo um balaio de fruta

Não! Essa todo mundo tem

É fisiológica, normal

O pecado é o da preguiça

Que o cabra morre no pau

Mas não move um dedo só

Nem pra ir pro hospital

É um Macunaíma da vida

Não sabe o valor do que come

Pois quando ouve: ‘ao trabalho!’

É o primeiro que some

E se o chamam pra mesa

Da cama diz: ‘perdi a fome’

Se o preguiçoso está

Sentindo frio ou calor

Não vai pegar um agasalho

Nem liga o ventilador

E se o mandam ir à farmácia

Logo diz: ‘passou a dor’

Eita cabra preguiçoso

Esse geme de preguiça

Pra se levantar da rede

Nem um par de seios o atiça

E pode ir ver se o danado

Não cheira igual a carniça...!

Brincadeiras à parte

Não concebo um tal seujeito

Sem vitaminas, proteínas

Um Macunaíma perfeito

Mas se existir, o mal está

Num DNA com defeito.

Dividida a turma em grupos, sugerimos que cada aluno, individualmente, faça a sua leitura preliminar, sucedida da leitura em voz alta do professor mediador. Consideramos fundamental a leitura em voz alta, pois o professor certamente usará a entonação adequada, com oscilações no volume da voz ou mesmo uma vez “com tom de riso”, se for o caso.

Em seguida, pode-se solicitar que identifiquem as semelhanças entre os dois textos e de que maneira os poetas abordam o tema. Quem é mais irônico? Quem faz uso de uma linguagem mais popular, regionalista? Concomitantemente, cada grupo se encarregará de fazer um levantamento das imagens mobilizadas no texto; a partir do 9º ano, já é possível identificar as figuras linguísticas utilizadas, as rimas, a sonoridade.

Nessa mesma empreitada, os alunos poderão localizar vocábulos desconhecidos e, a partir de inferências e análise do contexto, recuperar o sentido de cada palavra que não conhece. Apenas em último caso, o dicionário deverá ser consultado, visto que o sentido de uma palavra é construído no contexto em que está empregada e esse “treino” estimulará o aluno a reconhecer as  relações semânticas existentes no texto.

Realizada essa primeira aproximação, o professor pode, se achar oportuno, solicitar aos alunos que pesquisem sobre os autores, suas obras, o gênero cordel. Para estimular a curiosidade da turma, basta lembrar da presença de Juvenal Antunes na minissérie Amazônia, da Rede Globo, papel que teve como intérprete o ator Diogo Vilela. É de muita ajuda a exibição de trechos da minissérie em que Antunes apareça. A depender da realidade local e da particularidade da turma, pode-se pensar numa visita a um sebo ou, ainda, realizar uma oficina de cordéis.

Sobre o cordel de Lira, talvez não seja encontrado farto material sobre o autor, a não ser um blog no qual o poeta publica seus poemas. Outros cordelistas podem ser pesquisados, ou mesmo sugerida uma coleta de informações sobre o gênero: como surgiu, a relação com a cultura popular etc.

Logo, qualquer que seja o desdobramento da atividade proposta, ela precisa fazer sentido para o aluno, precisa propiciar a ele a oportunidade de ampliar sua competência leitora e sua capacidade de fazer inferências; precisa promover uma leitura do mundo que o rodeia:

As competências e habilidades propostas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (...) permitem inferir que o ensino de Língua Portuguesa, hoje, busca desenvolver no aluno seu potencial crítico, sua percepção das múltiplas possibilidades de expressão linguística, sua capacitação como leitor efetivo dos mais diversos textos representativos da nossa cultura. (PCN+, 2006, p.52)

Considerações

  O que propomos aqui não é algo inédito. Muitos professores de língua portuguesa têm-se esforçado para encontrar outros caminhos, outras estratégias metodológicas para uma aula de leitura “interessante”, uma aula de literatura que não se limite à simples memorização de nomes e épocas; de características textuais ou classificação estilística.



Minha primeira vez

Michelle Paulista,



A primeira de todas as coisas é, naturalmente, um marco. Para alguns, é só um início; pra outros é adentrar no inédito.

Sou mãe há 12 anos. E ser mãe sempre foi, pra mim, uma explosão de coisas. Meu filho é a pessoa mais importante da minha vida, ao lado do meu marido e meus pais - em qualquer ordem. Entretanto, nunca encarei a maternidade com o glamour do qual normalmente é revestida: chá de bebê singelo, solidão no resguardo (o que significa isso mesmo?), amamentação traumática, pouco leite, pouco tudo. Paradoxalmente, ver meu filho pela primeira vez foi o maior alumbramento que já vivi. Mas não é um memorial desse período que pretendo fazer.
Posso dizer que sempre batalhei muito pra enfrentar a tarefa mais difícil da minha existência: sem vovós, titias, vizinhas legais, aprendi a "me virar" pra dar conta de uma vida profissional e a vida daquele serzinho tão dependente. Sempre juntos estivemos. Até hoje é pesaroso e assustador deixá-lo ir ao cinema com algum coleguinha, ainda que acompanhado dos pais. Mas eis que recebo uma proposta de trabalho para passar uma semana fora. O que fazer? 
Para alguns que agora me leem, isto pode parecer drama de novela mexicana. Mas, como disse, as primeiras coisas são portais: nos levam para os começos. Pensei em desistir, inventar uma desculpa; pensei até em uma doença deliberada. Encarei. Expliquei que precisava me ausentar para uma atividade profissional, que ele já estava um "rapazinho" e que, futuramente, talvez fosse ele quem precisasse viajar pra estudar ou trabalhar e - estou certa - não levará a mamãe a tiracolo.
Ia tudo bem, até que um silêncio tomou conta da casa, antes do embarque. Preteridos o futebol e as brincadeiras com os colegas de condomínio, pra assistir tv.
Na hora do espetáculo, todo ensaio perde o sentido. Eu fui a primeira a liberar as lágrimas. Imperativas elas são. Não há músculos nos olhos que as segurem quando vêm como torrentes, empurrando as pálpebras, como batedores num evento cívico. Chorei, choramos. Era nossa primeira vez.

Contudo, os dias passaram, fui me acostumando com a ideia, envolvida em trabalho. Percebi que em casa ia tudo bem também. Tudo seguindo a ordem natural das coisas e a constatação óbvia que, apesar de importantes, não somos indispensáveis.

A vida é um tanto assim: abraçamos incumbências, desempenhamos nosso papel da melhor forma. Mas o fato é que as vidas são livres, independem de outras para viver. Ficou todo mundo bem e isto, de certa forma, é também um portal para mais um início: meu filhote já é um rapazinho e eu, apenas mais uma mãe neurótica. 



Kukukaya: precisamos

Michelle Paulista,


(Republico texto de minha autoria sobre a excelente Kukukaya, da qual tenho a honra de ser colaboradora)


Embora vivamos em terreno fértil de artistas e produção literária, falta “paú” às vezes para que nossas artes floresçam.

Talvez tenha sido essa a inspiração para a revista Kukukaya, um dos mais importantes lugares de divulgação da arte, cultura, literatura e poesia potiguares. Conversando com meu amigo Alfredo Neves, ele me contava um pouco da etimologia do termo: palavra de origem cigana que remete a algo que nasce entre dificuldades, regado a suor e lágrimas.

  Creio que é bem assim mesmo: quando tivemos alguma facilidade para tratar de literatura? Literatura não vende, não enriquece, no Brasil é difícil viver de arte em geral, quiçá de literatura... Não dá votos, nem audiência... No máximo, uma condecoração ali e acolá...

  A revista mescla poesia potiguar e nacional, artigos acadêmicos e sobre o cotidiano, crônicas, política, entrevistas. É hoje um importante refúgio para nós, quixotes das Letras, num mundo cada vez mais mecanizado, coisado, “empreendorado”, “proativado” e tantos ados, igualmente discutíveis.

  Diria que a revista traz a grife de Alfredo Neves, amigo, artista plástico, poeta e outros predicativos. Thiago Gonzaga, amigo e pesquisador da literatura potiguar (um dos melhores). Para arrematar, Manoel Onofre Jr., sem apresentações, pois sua figura e nomes assim dispensam.

  É bom saber que suor e lágrimas, líquidos que são, resultaram na virtual concretude da Kukukaya, necessária, literária e artística.



Câmara Municipal recebe visitas de estudantes da Rede básica às suas dependências

Michelle Paulista,

A Câmara Municipal de Natal, por meio da Escola do Legislativo Municipal Wilma de Faria, dá início às atividades do Programa "Escola na Câmara" para este ano letivo. 

O Programa recebe visitas de estudantes da Educação básica de escolas públicas e privadas e consiste em um "tour" pelas dependências da Casa legislativa. Os estudantes têm a oportunidade de conhecer o Plenário Érico Hackradt (onde acontecem as sessões ordinárias e audiências públicas), a TV Câmara, a Biblioteca Carlos Moreno e outros espaços. Em seguida, lancham e seguem para o Auditório da Escola, onde interagem com um dos vereadores (que explica sobre o papel do parlamentar) e, por fim, assistem a uma palestra com um mentor do PROERD, programa da Polícia Militar.

As visitas são acompanhadas pela equipe técnico-pedagógica da Escola do Legislativo e acontecem às quintas-feiras, a partir das 8h.

Interessados em agendar uma visita, basta entrar em contato com a Escola por meio do telefone 3232-9403 ou pelo e-mail [email protected]



Escola do Legislativo faz aula inaugural e apresenta programação

Michelle Paulista,

A Escola do Legislativo da Câmara Municipal - agora Escola do Legislativo Wilma de Faria - faz sua aula inaugural do ano letivo 2018 nesta terça, 13/03. 

Na ocasião, serão apresentados os projetos desenvolvidos pela Escola, tais como "Escola na Câmara", "Câmara na Escola" (que promovem a interação com os estudantes da Educação Básica), "Pensando a Grande Natal" (Ciclo de Discussões acerca das problemáticas da Região Metropolitana) e os Programas "Câmara no Enem" e "Hora-aula", exibidos pela TV Câmara Natal.

A aula inaugural será ministrada por um representante do MPT, com o tema: "Contratos de prestação de serviços terceirizados na administração pública e a Reforma Trabalhista".

Segue programação da Escola do Legislativo Wilma de Faria para o mês de março:

13/03 - Aula inaugural - 9h

14/03 - Oficina: "Processo Legislativo", com Waldenir Oliveira, 9h

15/03 - Workshop "Empoderamento feminino", com Kalina Veloso, 9h

19/03 - Curso de Cidadania para líderes comunitários, Módulo I, 1º encontro (com lanche) - 8h

21/03 - Minicurso: "Regra de ouro: o que é? Necessário mudar? Com Ana Paula (TCE) - 9h

26/03 -  Curso de Cidadania para líderes comunitários, Módulo I, 2º encontro (com lanche) - 8h

27/03 - Minicurso "Políticas públicas para as mulheres", Parceria coma Fundação Ulysses Guimarães - 9h

28/03 - Workshop "Como empreender nas redes sociais", com Vítor Santhiago - 9h


Todos os eventos acima são gratuitos e com emissão de certificado de participação. A Escola do Legislativo Wilma de Faria está situada na Câmara Municipal de Natal, R. Jundiaí, 546, Tirol.


Mais informações: 

[email protected]

3232-9403

99988-5989

99941-7894

@escolacmn (Instagram)




Páreo de mães

Michelle Paulista,


Torna-se lugar comum falar que o mundo está cada vez mais competitivo. Não me refiro às competições salutares da vida – essas são até necessárias e nos impulsionam a melhorar a cada dia. Quem nunca disputou com o irmão ou o colega de classe a melhor nota, o trabalho mais legal da feira de Ciências? O chute mais forte ou o mais belo gol na pelada com os amigos?

Contudo, nada se me apresenta mais curioso e sem fundamento que o páreo de mães. Isso mesmo, aquela disputa entre mulheres que estreiam na maternidade e parece mais um certame, cheio de categorias.

Ainda no período pós-parto, começa a briga: parto “normal” ou cesáreo? Que horror! Mãe que faz cesariana é fresca, não quer sentir dor, não sabe o que é ser mãe de verdade, o bebê vai ter problemas respiratórios... a lista de contravenções é imensa. Depois, a amamentação. Ninguém questiona que leite materno é excelente para os bebês, mas há mulheres que não conseguem, porque não produzem o suficiente, porque os seios ferem até sangrar, porque estão sozinhas, estressadas, desassistidas, porque, porque... Vivi um pouco disso: muito pouco amamentei o meu filho (nascido prematuro), doía muito, não tive orientação, tempos difíceis. Inúmeras vezes, fiquei angustiada ao ver aquelas fotos de mulheres amamentando felizes da vida e satisfeitas, enquanto as sessões pra mim mais pareciam tortura.  Fiquei fora do comercial de margarina; não recebi a medalha de mãe nota 10.

Depois, vem a fase “meu filho sentou com 4 meses, andou com 8 e falou com 1ano”. Fico me perguntando se essas coisas farão dele um gerente de multinacional ou o tornará um ser humano mais... humano! Não deveriam ser o centro das preocupações a problemática da pedofilia (tão horrenda quanto real), a formação do caráter, a construção de um ambiente familiar adequado e sadio?

Li, dia desses, um texto interessantíssimo nas redes sociais: falava do fuso horário de cada indivíduo. Quer dizer, cada um tem um tempo e não ter casa própria aos 30, ter casado e construído família aos 35 e ser concursado aos 40 não significa que estamos atrasados ou à frente das demais pessoas. Estamos simplesmente no nosso tempo! Quem pode legislar sobre o tempo, essa abstração que decorre das mais variadas formas em cada vida humana?

Somando o parco período em que dei leite materno para o meu bebê ao fato de ter tido um parto cesariano (meu filho estava enlaçado no cordão umbilical), devo estar catalogada como uma mãe de quinta categoria, se seguidos os critérios das supermães. Por algum tempo, me senti assim, mas logo percebi que a maternidade é muito mais que um tipo de parto e a quantidade de tempo amamentando.

Não me considero uma mãe infalível, tampouco uma péssima mãe: sou a melhor mãe que posso ser, dentro dos meus critérios e valores. Tenho orgulho de ter abdicado de muitas coisas na vida pessoal e profissional para privilegiar os cuidados com meu pequeno; nunca o joguei em casa de vovó para que eu tivesse uma vida igual a antes da maternidade, terceirizando uma responsabilidade que era minha. Sempre fiz questão de cuidar dele, não hesitei em declinar de empregos pra ficar com ele, de investir tempo em devocionais noturnas – prática que cultivo até hoje – ensinando-lhe do amor de Cristo e de valores humanitários que considero essenciais. Jamais me eximi das minhas responsabilidades de mãe e tenho até certo orgulho dos meus erros, chiliques e excessos.

Agora grandinho, assisto a outra disputa: o filho-troféu. Há uma moda que considero bastante perigosa: os filhos “adiantados na escola”. Tenho visto uma espécie de gosma escorrendo no canto da boca de alguns pais que se envaidecem de terem filhos em séries desniveladas de sua idade. Pessoas assim desconhecem que existe uma série adequada para cada idade, inclusive do ponto de vista legal. “Adiantar” uma criança de série só traz um benefício: os pais podem se gabar disso nas reuniões entre amigos. Por vezes, a criança pode estar preparada do ponto de vista cognitivo, mas provavelmente não o estará do ponto de vista da maturidade. Resultados: adolescentes inseguros, terminando o ensino médio aos 16 anos sem saber que rumo tomar na vida. Claro que não há problema em terminar a 3ª série do ensino médio com essa idade, mas também não há nenhuma vantagem nisso. De que serve a educação “carbureto”? Quem nunca ouviu um depoimento de alguém que entrou na faculdade muito jovem e depois se deu conta de que não era aquilo que queria como profissão? Sem falar nos casos em que um estudante conclui o ensino médio precocemente e passa mais alguns anos fazendo cursinho, o que dá na mesmíssima coisa.

Não intento aqui normatizar a maternidade ou a paternidade de ninguém; antes, pelo contrário. Apenas sugiro que não há um jeito perfeito de parir, de amamentar, de educar ou de ofertar escolaridade. Cada um tem um jeito, do seu jeito, da melhor forma que puder fazer. Seja a melhor mãe que você puder ser; você é seu referencial. Demorei a entender que um parto vaginal, seios fartos de leite e apenas um filho (ainda tem isso, a moda de “mãe de dois, mãe de três, mãe de dez”) não me faz menos mãe que qualquer outra mulher deste mundo. Sou a melhor mãe que consigo ser, dentro das minhas módicas possibilidades e da vastidão das minhas imperfeiçoes. E quer saber? Isso me torna a melhor mãe que o meu filho poderia ter.

A maternidade, enfim, é um poema. Uns a compõem em rimas parnasianas; outros em versos modernistas. Eu, por exemplo, fico com a turma dos Andrade e a Semana de 22.



De gratidão ou sobre Manoel Onofre Jr.

Michelle Paulista,


  A gentileza tem muitos nomes e um deles é Manoel Onofre Jr.

  A bajulação é flácida, não se porta com substância. A gratidão é firme, altiva, de pé. Diria que, se personificadas, a primeira seria uma senhora caquética, cheia de recalques e amarguras, manca e feia. A última, uma jovem senhora de andar endireitado, passos incisivos, cheia de frescor.

  Promessas de fim de ano, faço muitas. Como não consigo emagrecer nem juntar dinheiro, resolvi almejar algo mais possível e nobre. A perda de um velho vizinho boêmio – por quem eu nutria um amor de avô – me motivou uma promessa de fim de ano: jamais deixaria de expressar gratidão por medo da velha mole e feia.

  Neutralizada a velha, fico livre para expressar meu agradecimento sem parecer bajulação. Gratidão de graça, assim mesmo, redundante. Porque gratidão é mesmo superlativa, transbordante: um dos mais belos gestos-sentimentos.

  E em se tratando de Manoel Onofre Jr., vem junto à admiração a sua exuberante simplicidade. A simplicidade de quem carrega um dos mais importantes títulos da carreira jurídica. De quem é imortal com assento na Academia norte-rio-grandense de Letras. No entanto, falo de alguém que sempre me tratou – uma professora anônima da rede pública – como se fosse uma figura de grande notoriedade social. Mais que isso, emprestou-me seu tempo e atenção em conversas fundamentais à escrita do meu projeto de ingresso ao doutorado e artigos diversos.

  Chamo-lhe gentleman. Tenho-o assim. Gentil nas palavras e nos gestos; também o é nos silêncios. Eu seria capaz de passar muito tempo conversando com ele ou ouvindo-o falar de outros grandes, tais quais ele.

  Esse não é um texto para sair em revistas ou jornais. É, digamos, um Hermes de papel, mensageiro que diz por mim: obrigada, muito obrigada, Manoel Onofre Jr. A gratidão tem uma irmã menos virtuosa: a audácia. Não é que ela me autorizou a nos considerarmos amigos? Já me refiro a você como tal. Não me censure. Dessa vez, livre a mim e a velha caquética. É agora culpa da gratidão.

  Junto com a jovem senhora, muitos sentimentos nobres. 

A sinestesia que habita no integrar

Michelle Paulista,


Tenho com as palavras uma relação sinestésica. Algumas são mofadas, umas cheirosas, outras têm forma de um tacape, tamanho seu poder de nos pôr no chão.

Integrar, por exemplo, tem cor e cheiro, pra mim. Acho que é um vocábulo meio verde. Meio azul. Não digo verde-lodo, escuro, sombrio. Seus matizes transitam entre verde natureza e azul céu. Assim mesmo, do tipo propaganda natureba.

É certo que o verde imprime frescor. O azul, ah, o azul... enlevo, regularidade... fluxo contínuo.

Nessa mistura de sensações, começo a ver rumores de impressão colorida, em vez de preto e branco. Parece que o novo ano deseja revestir-se de novos tons – ano cromoterápico. Vê-se um movimento, embora incipiente, de se pintar o mundo da vida de verde e azul, as cores cheirosas e simpáticas da integração. Tarefa difícil, mas de resultados maravilhosos. E o vermelho, cor das sensações quentes, metaforiza as coisas do coração.

Não, não estou me deixando seduzir. Quem é das letras e das lutas e faz dessas coisas uma militância pessoal tem lentes para enxergar que, do outro lado, também pode haver colorações interessantes.

Suspeito de que há uma aquarela diferente no país. De perto, é possível começar a enxergar outros ângulos do mesmo caleidoscópio. Sim, há cores gris. Mas vejo também uma “horda do bem”, seres humanos que se dispõem a cuidar dos animais, das plantas, do planeta, do outro. Para cada tirano, um jovem cheio de esperança; para cada gesto de violência, uma iniciativa voluntária; para cada campo queimado, uma horta orgânica.

Vamos em frente: há esperança em processo. Se bem observarmos, há amarelos saltitando pelas ruas, a aquarela da vida aí está... diante de nós. Já pegou seus lápis-de cor?



Os Marvel em mim – Uma crônica carnavalesca

Michelle Paulista,


Alguns dirão que não tive infância. Teria eu nascido já adolescente/adulta? Tive infância sim, numa família comum de interior, que não era paupérrima tampouco abastada. Vida comum, todas as refeições, sem grandes luxos. Assisti, muitas vezes, à programação de tv na casa da vizinha, todos deitados no chão de cerâmica da finada Alzenir, deleitando-nos com a tv colorida de sua sala, artefato raro naqueles tempos. Anos depois, chegaria uma preto e branco em minha casa. Vi muitos episódios de He-Man, She-Ra, Caverna do dragão, Tartaruga ninja etc.

Mas foi na adolescência que conheci os heróis da Marvel. Sempre os preferi aos da DC. E hoje, podendo pagar pelo serviço de streaming nos televisores sabidos e o ingresso do cinema, não perco um filme dos Vingadores.

Você deve estar estranhando, leitor. Como uma professora pesquisadora de literatura gosta do “lixo ianque”? Talvez pelo fato de não considerar lixo. Assim como existe a literatura de banheiro (aquela consumida na intimidade do vaso sanitário), existem também filmes que esvaziam a mente e alimentam a fantasia. Onde tem dizendo que só podemos/devemos assistir a filmes que tratem das grandes questões da vida? Preciso eu da chancela de alguém na hora de ver uma película?

Mas eu falava dos Marvel. Sou fã confessa do Iron man. Adoro o personagem Tony Stark e admiro a excelente interpretação de Robert Downey Jr. Guardadas as proporções devidas e (espero) perdoadas por algum zeloso, me lembra Macunaíma. É o anti-herói: playboy, beberrão, presunçoso e de grande coração. Não tenho paciência para heróis extremamente bonzinhos; tem um quê de chato nisso. Thor, por exemplo, só ganhou minha simpatia quando assisti ao primeiro filme e vi sua verve rebelde e egoísta, seu temperamento intempestivo: nada mais humano.

Acho que somos um pouco herói da Marvel, assim nos seja conveniente. Somos incrivelmente maravilhosos ao ajudar uma campanha de arrecadação nas redes sociais, chegando a pingar filantropia dos nossos poros. Mas somos igualmente antipáticos quando, de manhã cedo, alguém resolve sentar justamente ao nosso lado no ônibus, mesmo havendo várias cadeiras vazias. Por vezes, vivemos como se fôssemos imortais como Wolverine, apontando nossas garras impiedosamente pra qualquer suposta ameaça.

Amamos nossa melhor amiga, mas julgamos a outra pessoa de quem alguém falou mal, sem sequer ouvir o outro lado. Falamos tanto em bondade, solidariedade, ser do bem, mas somos incapazes de convidar um morador de rua pra cear conosco.

Como Stark, gostamos de aparecer. Escolhemos a dedo a foto e a legenda para “postar” nas redes sociais, geralmente com conotação de extrema felicidade e leveza. Mas daqui a pouco viramos um Hulk, explodindo em fúria, destruindo tudo ou lançando flechas envenenadas como o Arqueiro verde. Isso sem falar nos dramas existenciais do Thor, que usa uma ferramenta de apoio, porque sozinho não é nada; a propósito, qual é o meu martelo e o seu?

Nesse período momesco, em que reinam as fantasias, vale perguntar: Em que muletas pomos nossa crença de poder? Quais martelos, capas, armaduras, escudos e martelos usamos para encobrir nossos eus? Pensemos nisso!

Dando o devido desconto para a manifestação imperialista cinematográfica de Holywood, dá sim pra pensar na vida nossa de cada dia entre uma armadura e outra do Homem de ferro. Fiquemos atentos ao nosso sensor aranha.



O poema em sala de aula

Michelle Paulista,


  Um dos depoimentos mais comuns dos professores de Língua Portuguesa e Literatura é a dificuldade de se trabalhar com textos literários, visualizando a boa recepção dos alunos. Decerto, a resistência deve existir. Entretanto, percebemos a resistência igualmente de muitos colegas docentes em buscar alternativas metodológicas para sua prática. Segundo o professor Hélder Pinheiro (2012), três grandes desafios precisam ser assumidos e enfrentados: os conteúdos de fortes vieses historiográficos – especialmente os de literatura, os procedimentos metodológicos equivocados e, por fim, a dependência quase total dos livros didáticos com seus “manuais do professor”.

  É certo que todo aluno tem direito a conhecer e fruir do texto literário (CANDIDO, 1995). Mas igualmente certo é o fato de que, embora cursem nove anos de Ensino Fundamental e mais três de Ensino Médio, os nossos estudantes apresentam resultados pífios nas avaliações nacionais de proficiência na língua materna, tais como Prova Brasil, Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

  Entretanto, mesmo cientes de tais lacunas, pouco se tem feito no sentido de alargar o horizonte literário dos alunos, submetendo-os a procedimentos estéreis nas aulas de leitura. Geralmente, tais momentos constroem-se a partir de leituras fragmentadas de obras literárias, com as tradicionais fichas de leitura, prescindindo-se o efetivo contato com o texto literário, experiência “pessoal e intransferível”.

  É claro que os aspectos historiográficos das obras literárias devem ser considerados, mas nunca podem ser um fim em si mesmo, sob risco de termos aulas nas quais os alunos passem o tempo todo a olhar para os relógios, torcendo para que a aula acabe logo.

Nesse sentido, pensamos numa proposta de trabalho com o gênero poema, muitas vezes mal compreendido em suas particularidades e pouco utilizado como instrumento de fruição estética e humanizadora. Há ainda que se quebrar o preconceito que persiste na leitura de tais textos, como sendo coisa “de mulher” ou de gente muito “delicada”.

Para tal intento, escolhemos o poema Elogio à preguiça, de Juvenal Antunes e o cordel O preguiçoso, de Almyr Lira, por considerarmos que se trata de um tema bastante sugestivo para o público adolescente.

A temática em si já causará respostas dos alunos: certamente, muitos se identificarão como “preguiçosos” e ficarão curiosos para descobrir qual elogio pode ser feito a quem assim o seja.

Com um pouco de vontade de realizar um trabalho efetivo de letramento literário e um repertório satisfatório de leitura, o professor de língua portuguesa e literatura deve buscar textos que atendam às expectativas dos alunos. Isso pode ser feito a partir de conversas informais, aparentemente sem intenção didática, nas quais é possível “descobrir” as preferências da turma. Num bate-papo mais despojado de contornos de “aula”, vamos ouvindo os gostos, os temas que interessam nossos alunos; vamos traçando uma espécie de “perfil” da turma. Semana que vem, conversaremos mais... Até logo!


1-20 de 45