Quinta-feira de samba...

Edmo Sinedino,

No cachorro quente do Chaguinha, Cidade Alta, ao lado da minha irmã Edilma. Na hora de pagar, do meu lado, um senhorzinho chato de galocha, conhecido por sempre perturbar as pessoas vai se chegando.

Olha pra mim, sorrí e pergunta: você é lutador de UFC? Não respondo, confesso, estava muito mal humorado, acho que ainda efeito desse noticiário de reforma da previdência.

-Moço, você luta UFC - pegunta de novo o idoso ao mesmo tempo que bafora seu cigarro fedorento perto de meu nariz.

Como não respondo ainda, ele me olha como se eu fosse demente. -Você não sabe o que é UFC?, questiona com cara de espanto.

-Não! Não luto nada, luto para terminar de criar meus filhos e me  manter, respondo finalmente

-Você tem o corpo de lutador de UFC, por isso perguntei e arremata: se tiver precisando de emprego você pode trabalhar aqui vigiando o cachorro quente de Chaguinha, ele paga bem.

Olhei para ele sem entender porquê ele falou aquilo,  e aí chega aquele momento da dúvida, você não sabe se o manda à PQP ou se cai na risada. Saio.

Deixo minha irmã em casa e vou dar uma passada no samba das quintas-feiras, lá em Nazaré. Estaciono o carro bem no começo da Praça Padre João Maria fugindo do pede-pede dos flanelinhas (que não são, na verdade).

Vou chegando na calçada do Banco do Nordeste, cheio de jovens e não tão jovens pedindo dinheiro para, infelizmente, consumo de drogas.

Um que eu nunca tinha visto por aquelas bandas vem ao meu encontro: Puxa vida! Pensei que o senhor era Bomba, irmão de Marinho Chagas...

Eita noite!

Vou me esgueirando por trás do antigo BNB e chego no samba. Boa música, movimento, muita gente bonita, alegre, e claro, minha intenção é escutar e até cantar junto as letras, esquecer um pouco das mazelas do dia.

Tem jeito não. Chega um cara e me cutuca  para perguntar por um jogador famoso que conheceu, como se a eu soubesse de tudo. E como se não bastasse começa a contar dos anos que, junto a essa craque, montou um "time imbatível" de futsal , e blá, blá, blá...

Começa a cair uma chuva fininha.  E pela primeira vez, no samba, não achei ruim. Foi a senha, caí fora, mas como a chuva parou dei a volta no banco, passei pela frente e fui para o outro lado, na Vigário Bartolomeu...

Sossego, enfim. Nada a vista. A chuva parou e o samba ia reiniciar. Me posicionei numa esquina, ponto estratégico, poderia me esconder diante de algum "novo perigo".

Não deu tempo. Falei cedo demais. Lá vem aquele amigo de infância, cheio de canjibrina (não, não é Bora Porra!) e já me viu, vai logo  me apresentando um novo amigo, que também já conhecia, e começa a repetir as mesmas histórias de nossas peladas, da "nossa inteligência" (ele e eu diferenciados, diz orgulhoso) e da repetição doentia de palavras na língua italiana, decorada daquela novela 'Terra Nostra',  um terror...

Depois de muito papo chato, eles se viram, dão um passo na direção de um vendedor ambulante:  vou pegar uma cervejinha e volto já, diz esse meu velho amigo (na verdade, nem tanto, se fosse eu gostaria de encontrar)...mal eles se viram para pegar a bebida eu escapulo, corro para o carro.

Ainda não estou livre. Lá vem, de novo,  todo sorridente o rapaz que pensou que eu era Bomba, o irmão de Marinho Chagas (não conto as vezes que já me confundiram com o próprio Marinho, isso até mesmo depois de sua morte, juro que é verdade!).

E o cara chega, sorridente e já falando: rapaz eu tenho um DVD lá em casa de um show de Elton John, ele é a sua cara...

Caramba! Estouro: peraí, meu irmão, decida aí, eu pareço com Bomba, irmão de Marinho, ou com Elton John?

O rapaz, surpreso, até esqueceu de pedir dinheiro, pois era o que queria.

Disse isso e fechei a cara, entrei no carro e saí com tudo. Fui conversar com  meu amigo Remo, lá na sua loja de doces, o que devia ter feito desde cedo.


Tags: bomba chato elton john galocha marinho chagas
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