Amor de Cemitério

Edmo Sinedino,

amorcemi_09Não sei bem porquê, mas olho para meu amigo velho, cansado, romântico, confiante, amoroso e gastador e lembro da música "Sozinha", do mestre Lupa. Ele conheceu seu amor não foi num rancho velho ou barraco, foi não, tudo aconteceu num Dia de Finados, no Cemitério do Alecrim e resolvi escrever esse texto domingueiro em sua homenagem.

Foi assim. Ele, acompanhado de sua trupe - tia e primos - fazia a visita de todos os anos aos entes queridos que já se foram na data sagrada. A morena, faceira, limpava algumas covas para ganhar uns trocados, o que não deixa de ser um bom sinal. Ele foi passando, parou, olhou, se engraçou e a cumprimentou. Todos pararam e testemunharam a paquera vamos dizer assim. E tudo começou.

A tia, notando o sorriso falho da criatura sugeriu que ela fosse no destista. "Você é uma moça bonita, se botar os dentes...". Ela pegou na palavra: "a senhora paga?" Foi aí que entrou na jogada o nosso Don Juan da Santa Cruz da Bica, praça da Cidade Alta (abandonada), onde o nosso príncipe levava suas conquistas, as queridas empregadas domésticas das imediações, isso uns quarenta anos atrás. "Eu pago", disse afoito. E foi assim. 

Os encontros se sucederam, o amor floresceu. O sorriso da "francesa de pele cor de ébano" está perfeito hoje, e os dois são vistos sempre juntos, vivendo uma linda história de amor. É bem verdade que ela aparece mais no Ap de nosso herói lá depois do dia 15, a data do pagamento depois que a governadora Fátima assumiu. Isso não quer dizer nada, mas os fofoqueiros da rua, vocês sabem como são...

Nos atrasos do governo passado, sem salário no dia certo, sem décimo, um sofrimento, lá se foi quase toda a "poupancilha" de meu amigo velho 'gastoso'. Sim, porque não se vive só de dentista. A madame precisou de um celular, e ele, consciente, atencioso, não ia dar de presente qualquer porcaria para seu "amor". Só que,  o primeiro celular, fiquei sabendo, era "pebinha" demais, nossa amante atriz reclamou e depois, estranhamente, a "bombinha" se quebrou. Dessa vez, ela bateu o pé e o atencioso amado teve que comprar um celular de última geração, até para ela poder mandar, com mais nitidez, mensagens de amor e fotografias sensuais, quando não pudesse aparecer para atender, ao vivo, os anseios eróticos de nosso assanhando velhinho.

Na casa da nossa francesa já chegou geladeira, tevê de plasma, um quarda-roupa, claro, com roupas, pois a pobrezita nem tinha onde guardar seus trapos de chita, que agora são  vestidos, shorts, blusas, se não de cetim como a musa de Lupicínio, mas de 'marca'. Ela exige que as roupas sejam das melhores para fazer inveja às amigas. 

Teve até reforma na casa, é, teve sim. Claro, ele tinha que conquistar os sogros, pai e mãe, e nada melhor do que levantar a parede da entrada, alargar a sala, pintar as paredes com tinta de qualidade, aumentar a cozinha e o quarto de seu "chocolatezinho". 

E não ficou só nisso, não, ora, uma cozinha nova para a sogrona tinha que estrear com fogão também zero bala. E ele comprou logo um Brastemp para delírio da veinha que constumava, muitas vezes, na falta do gás, caro nesta era bolsonariada pós golpe, cozinhar na fogão de lenha no quintal. "Foi Deus que botou esse meu genro no caminho da minha filha", diz ela com os olhos marejados.

Todos os sábados, faça chuva ou faça sol, é dia de sair às compras no comércio da Cidade Alta. Ele se chateia quando o pessoal sai espalhando que a francesa passou carregada de pacotes. "Um bando de infelizes, todos têm inveja de meu romance, de minha felicidade", afirma com os olhos brilhando. Sim, uma particularidade que gera muito conversê. Ela, a amada amante, só sai de dia.  De noite, já sabe, não conte com ela para nada. "Pai diz que deu sete horas fecha as portas e eu tenho que ficar em casa para cuidar do meu filho e, logo cedo estou com sono", garante.

 Os invejosos fofocam, inventam, maldades, futricas  questionando o fato dele ter sempre que sair sozinho quando vai tomar umas e outras. De novo, a gente sabe, é inveja. A moça é prendada, protegida pelo pai e pela mãe, mesmo já tendo quase 30 aos e dois filhos,  não pode sair de noite, e ponto. Mentira! Mentira! Ela não fica em nenhum bar lá de seu bairro parolando e escutando música não, é safadeza de quem inventa essa coisas para chatear nosso Bentinho.

De vez em quando, já cheio de canjibrina, o moço velho tem uns ataque. E aí, em plena crise braba de ciúme, liga para esculhambar com a pobre moça, chamando-a de todos os nomes ruins que conhece. Calejada,  ela já sabe, fica no seu canto quieta, deixa passar uns dias, a crise, aí aparece lá no Ap,  sorridente, cheirosa, manhosa, dengosa, agrada dali, agrada daqui e o veinho fica mansinho. Arrependido do arroubo, dos impropérios proferidos contra a sua musa que é um poço de fidelidade, fica mais e mais compreensivo, compra tudo que ela pede com  o melhor de seus sorrisos. 

Mas, peraí,  não vão pensando ruindade não ! Ao contrário da música do compositor gaúcho, autor do hino do Grêmio e de inúmeras melodias  para corno nenhum botar defeito, não pense que a deusa negra de meu apaixonado amigo vai traí-lo, ela não conhece e nem vai conhecer nenhum "doutor", até porque ela nunca pegou bicho de pé. 

E essa semana foi pra lá de especial. Menino, Dia dos Namorados, comemoração num restaurante fino e tudo mais. Duvido com um "D" do tamanho do mundo que alguma namorada tenha recebido tanta atenção e presentes. Um brinco, uma corrente de ouro e pingente, perfume francês, dinheiro para cabelo, maquiagem e unhas, o vestido dos sonhos e, claro, a noitada de gala. 

A noite só não foi completa, completíssima, porque a amada tem o costume de dormir logo cedo, e por volta das 19h já começou a abrir a boca, o sono bateu, a noite findou, nem deu para o desfecho que nosso herói planejava naquele lindo motel cinco estrelas que ele havia escolhido. 

O amor é uma coisa muito linda. Eu só espero que a poupança dele, construída com sacrifício, mês a mês, nesses anos todos de labuta no seu bom emprego, um dia não se acabe...

PS: qualquer semelhança com alguém que você conheça é mera coincidência. Esse é um texto ficcional.

Tags: cemiterio francesa paquera presentes primos tia
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