Vaivém Indômito

Lígia Limeira,

Os Movimentos ‘Vem pra Rua’ e ‘Brasil Livre’ seguem firmes à frente do chamamento para os protestos do próximo dia 15 de março. Em pauta, o escandaloso crime perpetrado contra a Petrobras, a insatisfação quanto ao quadro político nacional e o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Do lado oposto, a CUT, sindicalistas e representantes de vários segmentos sociais, que conclamam a população para, no dia 13 de março, defender a gigante estatal, protestar contra o arrocho econômico e salvaguardar o Governo e a reforma política propagada pelo Partido dos Trabalhadores.

Ambos os movimentos têm vieses democráticos e se revestem de legitimidade. O grande problema, que advém de um pensamento flagrantemente equivocado, é a polarização das siglas partidárias, que se confrontam e trocam farpas desde as eleições passadas. Isso é facilmente apreendido dos debates travados nas mídias sociais, que são acirrados por um e por outro lado. Ora, os problemas que enfrentamos desde sempre, dentre os quais figura a endêmica corrupção, não têm sigla nem bandeira: têm contornos generalizados e estão entranhados desde os primórdios.

Tanto é assim que o escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral, descobridor dos férteis e formosos solos indígenas denominados Terra de Santa Cruz, redigiu uma carta ao Venturoso Rei de Portugal, D. Manuel I, a fim de lhe dar ciência da boa nova, exarando, ao final, um pedido mais que especial, em bom e claro português: “E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que por me fazer singular mercê, mande vir da Ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que d'Ela receberei em muita mercê.”

E eis que, uma vez deflagrada a colonização das terras canarinhas, os fiscais da Coroa Portuguesa deram início ao comércio ilegal de pau-brasil, especiarias, tabaco, ouro e diamantes. Nascia, pois o famosíssimo jeitinho brasileiro e a não menos conhecida propina, que, no decorrer dos anos, somente vêm crescendo e se modernizando, em todos os setores da sociedade e níveis de dificuldade. Ou seriam de facilidades?

Na esteira desse raciocínio, temos por patente a nossa imaturidade no que tange à cidadania. Estamos, ainda, engatinhando no processo democrático e se faz imperioso ajustarmos as velas da embarcação que nos transporta para o futuro. Precisamos - e muito - lutar por melhores dias, calcados em fatos e na nossa história, a partir de uma luta permanente por uma realidade mais justa e equânime. Os partidos políticos, portanto, devem ficar em segundo plano, pois que estão todos contaminados e há muito deixaram de representar o ideário popular.

É preciso também que tenhamos a exata noção do alcance da corrupção, que não se circunscreve apenas ao campo político, mas que está enraizada em todos os demais, alcançando a sociedade civil, cujos membros, por vezes, valem-se dos caminhos mais curtos e obscuros e de ações inescrupulosas para alcançarem o que desejam, nada obstante somente tenham olhos para enxergar o ilícito nas atitudes alheias, muito distantes das suas.

Quanto ao pretenso pedido de impeachment da Chefe do Executivo, há que se reconhecer a considerável e crescente insatisfação em relação às medidas tomadas pelo Governo Federal, embora seja importante realçar que a presidente da República foi recente e democraticamente reeleita e que não há provas concretas de seu envolvimento no desvio de verbas da Petrobras, o que, em tese, caracterizaria crime de responsabilidade e, por via reflexa, autorizaria o tal pedido. Pelo menos, é o que diz a lei, que deve ser fielmente observada.

Torna-se imperioso, pois, diferenciarmos a insatisfação política inerente à crise econômica que assola o país e os institutos jurídicos de que dispomos, sempre passíveis de utilização quando satisfeitos seus requisitos legais. Desse modo, estaremos lutando o bom combate, aquele travado em nome dos nossos mais caros ideais, com coerência. Que os manifestos deste mês sejam marcados pela sensatez, respeito, tolerância e paz!


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