Uma Ode ao Livre-arbítrio

Lígia Limeira,

Decididamente, 2015 não foi um ano fácil. É como se tivéssemos vivido uma década de catástrofes em doze meses. Porém, a maior delas foi, sem dúvida, o tsunami nazista que assolou o país. E a onda gigante parece não ter fim. O povo brasileiro, considerado feliz, cordial e acolhedor, virou uma horda de ódio, revolta e intolerância. Por óbvio, este trio de maus sentimentos resvala, necessariamente, em violência, que - já se comprovou - gera mais e mais violência.

A crise de contornos sociais encontrou o seu ápice nas eleições deste ano. Convencionou-se, de forma tácita, que cada um abraçaria ferrenhamente um partido político e, por ele, faria sangrar quem quer que se atrevesse a discordar de suas plataformas. Isto num país com um sistema eleitoral tosco, quase falido, com um número alarmante de políticos corruptos e fanfarrões. É uma vergonha para o processo democrático a duras penas conquistado, mesmo que o tenhamos ainda tão fragilizado. Somente comprova o quão perdidos nos encontramos e o quão distante estamos de uma realidade mais aprazível e condizente com as nossas necessidades enquanto povo.

De lá para cá, o movimento vem se acirrando e gerando fortes e aterradores tentáculos. Agora, no apagar das luzes de um ano que não deixará saudades, um rapper carioca e seus amigos, enfurecidos, interpelaram o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Hollanda, quando este saía de um restaurante localizado no Leblon, Rio de Janeiro.  

Sem adentrar na vida pregressa dos meninos que, de forma tão contundente, municiaram-se de palavras de baixo calão para se dirigir ao artista, talvez não por mera coincidência, parte da vida de Chico foi retratada no documentário Chico: Artista Brasileiro, em exibição nas melhores salas de cinema do território nacional. Dúvidas não persistem quanto à valorosa formação e à envergadura moral deste homem, que vem participando ativamente da construção da democracia brasileira.

Nesse contexto, cumpre destacar um pequeno trecho da película, em que Chico é questionado acerca da qualidade da música brasileira contemporânea, em contraponto ao movimento da bossa nova. Humilde, o artista responde que a bossa nova, muito dificilmente, seria bem-sucedida se originada nos dias atuais, porquanto nascera da elite, que não mais detém poder de mando sobre o país, ressaltando, na sequência, que o Brasil é muito melhor hoje, por comportar várias nuances rítmicas, que a todos alcançam.

Noutro pórtico, indagado sobre como gostaria de ser lembrado, ele respondeu que não tem preocupação com isso e que o importante é o que pode fazer aqui e agora. Chico Buarque de Hollanda é dono de uma história decente e absurdamente rica, em inspiração, poesia, amigos, amores, ritmos, generosidade e bom humor. O ataque do Leblon é vergonhoso, tacanho e indigno para com um dos melhores artistas que esta terra concebeu. E para com quem não se utiliza de meios tão desprezíveis de expressão e de manifestação. No final, é apenas mais um triste episódio quotidiano, mas que, somado aos demais, denota a existência de uma sociedade medíocre e gravemente enferma.

O cenário é deprimente e preocupante, mas, como Deus é bom e benevolente e nos concedeu o livre-arbítrio, pode ser revertido. Que na alvorada de 2016, possamos repensar a nossa errante trajetória e refazer o caminho que nos conduzirá a dias melhores. Parece difícil, mas não é impossível. Por mais clichê que o jargão possa parecer, só depende de nós! Que o ano novo seja pleno de amor, saúde, congraçamento e cidadania. São os mais sinceros votos da Coluna Civitatis, com fé no porvir. #feliz2016 


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