Trem das Onze

Lígia Limeira,

Um dos lados mais óbvios da crise generalizada na qual estamos imersos, de vieses sombrios, é a pouca representatividade. Prova maior de que escolhemos mal. Prova também da nossa desídia e omissão enquanto agentes fiscalizadores, frutos de uma arraigada e perversa cultura, que privilegia futebol, novela e carnaval, em detrimento do que realmente importa e que pode se traduzir no nosso grande supedâneo democrático.  

Excetuando-se uns e outros casos, o que vemos no cenário político é uma desprezível horda de gatunos aventureiros, ávidos por ganhos fáceis e pelo poder que caracteriza o sistema atualmente vigente, onde quase tudo se compra e onde o clientelismo e o escambo escrachante reverberam as maledicentes intenções daqueles que aspiram à perpetuação dos status quo social e político prevalentes.

Também preocupa o excesso de variáveis que tipificam o caótico momento que vivenciamos - e que desafia sentidos e razão -, consubstanciando-se em elemento estorvador para o povo brasileiro, em virtude de suas próprias características, que primam pela imaturidade política, pela falta de acuidade e de consciência crítica e pela idiotia, aqui utilizada nos exatos termos do significado nascido no berço da Grécia antiga, que considerava idiota aquele que desprezava os interesses coletivos e somente se preocupava com a sua própria realidade.

Por outro lado, a riqueza deste momento é irrefutável, redundando esperança cívica. Isto porque estamos diante de fatos inéditos no país, que enobrecem a histórica luta por moralidade e transparência. Nunca se mostrou tanto; nunca nos incomodamos tanto; nunca nos surpreendemos tanto.

Ademais, a contemporaneidade nos garante ferramentas, como as mídias eletrônicas, que promovem a chamada tecnologia da limpeza, farta em notícias, estudos, estatísticas e dialética, com alcance e nitidez suficientes e que, uma vez bem utilizadas,  promovem inquietantes reflexões, visões críticas e conhecimento.

O processo de construção democrática é árduo e permanente, exigindo engajamento e postura proativa, embora possa ser fortemente impulsionado pela insatisfação, nada obstante isso venha a ocorrer pela via reagente. A participação popular é imprescindível para a formação de uma consciência crítica e para o fortalecimento dos institutos da democracia direta, como a iniciativa popular, que, por sinal, produziu apenas quatro diplomas legais, desde a promulgação da Constituição Federal de 88.

Um povo atento, compromissado e combativo é motor propulsor de uma perspectiva democrática progressista. O sistema político brasileiro agoniza e urge reformulá-lo. Estamos diante de uma oportunidade ímpar, de rompimento de patamares equivocados, retrógrados, espoliantes, usurpadores e intransigentes, que não representam a vontade do povo, mas, ao revés, privilegia uma casta encastelada, cuja dominação é milenar.

Precisamos ser agentes catalisadores do nosso legado enquanto povo. O futuro é logo ali e está sendo construído agora. Estamos diante do trem das onze e ele está prestes a partir. Se o perdermos, o próximo só virá amanhã. E o amanhã poderá trazer danos incomensuráveis à nossa jovem democracia. Lutemos, pois, o bom combate! E, em contrapartida, ele nos libertará.


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