O pandemônio é Aqui

Lígia Limeira,

É inacreditável o conjunto de fatos e contradições que temos testemunhado em solo canarinho. E a realidade se reproduz nos quatro cantos do país, independentemente de credo, etnia, time de futebol, gosto musical, orientação sexual e classe social. Em comum, uma horda de gente sem escrúpulos, descarada mesmo, cínica, que, desdenhosamente, mostra-se segura quanto à sua superioridade em relação aos demais, considerados bobalhões e fracos, e, sobretudo, quanto à impunidade e às suas crenças pessoais. Há até os que alardeiam as suas proezas sem qualquer sinal de pudor e os que o fazem em nome de Deus. Estes, sem qualquer sombra de dúvidas, os maiores crápulas.

A incoerência, as inconsistências e as vicissitudes têm lugar de destaque nesse triste cenário, assim como a apatia. Nunca se viu tanto descaso com o coletivo. Paradoxalmente, a indolência que nos assola é aterradora e flagrantemente antidemocrática. Para onde foi mesmo o gigante desperto? Voltou a dormir? Ou jamais acordou? Algo para se pensar...

Vivemos um enredo digno de um filme medonho, daqueles que nos causam calafrios e que conseguem tirar o nosso sono por dias. O momento é tão crítico que a sensação é de falência múltipla, sem um único poder digno da menor credibilidade que seja. Afinal, os conchavos se constroem diuturnamente, para quem quiser ver e/ou ouvir, e tiver estômago para digerir.

A violência, velha conhecida, na proa da nossa embarcação, senhora da sua força e onipotência. O sistema prisional agonizante, em essência e esperança, produz ainda mais violência e segue na contramão de países como a Suécia e a Holanda, que vêm fechando presídios, por falta de hóspedes e por exímias destreza e competência. As coisas mudaram tanto para tais países, que há prédios prisionais virando hotel, com museu, que alimentam a economia.

A natureza, desde sempre agredida, dá mostras de esgotamento. Reações climáticas adversas dão o tom da nossa precariedade e põem em xeque a nossa sobrevivência, expondo as mais nefastas e odiosas consequências da incomensurável fome humana por dinheiro e poder.

Falando em economia, e a crise econômica? A coisa tá preta, mas nada se mostra pior do que a nossa acomodação enquanto povo e, especialmente, a paralisia da nossa condição racional.  Façamos um exercício não tão divertido, mas simples, muito simples: e se o país passasse a ser regido pelos animais ditos irracionais? Alguém duvida que viveríamos uma realidade infinitamente melhor? E o nosso diferencial?  Perdeu-se ou sequer nos apercebemos dele? São questões que, pelo visto, ficarão sem respostas por muito tempo.

Há 47 anos instalava-se no país o regime ditatorial. Sofremos o maior golpe da nossa história: a perda da liberdade, em todos os seus níveis de acepção. Mártires entregaram as suas vidas, foram humilhados e torturados por dias melhores. E agora, o que fazemos nós para honrar e respeitar a parca democracia que conquistamos? Entregamo-nos à alienação e ao comodismo? Fazemos de conta que não é conosco?

Aristóteles costumava utilizar a expressão - e a utilizou pela primeira vez em “Ética e Nicômano” - ‘uma andorinha só não faz primavera’. Porém, juntas, essas aves são capazes de fazer todas as estações. E por que nós não podemos? Precisamos mudar. Precisamos criar uma realidade cooperativa, voltada ao bem-comum. Somente assim poderemos nos salvar e garantir o futuro dos nossos descendentes. 


A+ A-