O Canto da Sereia e o Poder da Transformação

Lígia Limeira,

O presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha, não fosse o desprazer de ver o nome envolvido na Operação Lava Jato, estaria feliz da vida, embora não tenha desperdiçado a chance de tirar vantagem da situação: o Plenário arrebentou no quesito produtividade no 1º semestre deste ano! Foram 90 proposições aprovadas, número que se traduz em aumento de 53,8% em relação ao mesmo período em 2011. Uau!

Entusiasmado, Cunha aposta que vem mais por aí. Acredita que a sociedade tem a clara percepção dos esforços que ele está ultimando em prol da moralização dos trabalhos parlamentares. Chegou a afirmar que sente especial orgulho por ter dado independência à Casa, e também por ter priorizado a votação das matérias mais aspiradas pela sociedade e ter mantido a governabilidade. Governabilidade? Onde é que esse rapaz vive mesmo? E a quem quer enganar?  

O presidente da Câmara dos Deputados é um sujeito irascível, pronto para dar o bote quando minimamente desafiado ou contrariado. É chegado a pequenas e a grandes chantagens, às vezes proferindo-as e cumprindo-as publicamente. É adepto, portanto, do velho e conhecido adágio ‘eu mato a cobra e mostro o pau’. Para ele, isto é governabilidade. E vejam que esta qualidade deriva de liderança, nascida da inspiração e da motivação.  A quem Eduardo Cunha inspira? A quem encanta, com gestos, atitudes e palavras?

Basta uma brevíssima reflexão para constatarmos o quão atropeladas e duvidosas vêm sendo as votações da Câmara. Que o digam os debates em torno da redução da maioridade penal, da terceirização e da reforma política, ultimados de modo atropelado, por meio de defesas rasas, hesitantes e contraditórias. Gente, são questões decisivas para a construção do processo democrático! E eles estão ali pela força do povo, para representá-lo e lutar por uma realidade menos mutilada, mais aconchegante. É chocante sabê-los tão frios e indiferentes. É vergonhoso. Mais do que isso: é imoral.

Aliás, cabe aqui uma reflexão sobre o tanto de artifícios que as pessoas vêm utilizando para tentar provar o que jamais poderão ser ou fazer, destinando a elas próprias uma espécie de troféu existencial, criado especialmente para a ocasião. Não se sabe se o fazem de forma proposital, embebidos de maledicência, ou se são eles destituídos da capacidade de discernir o bem e o mal, o real e o ficto.

Não muito diferente é o comportamento de quem ouve ou acompanha tais preleções. Boa parte dessas testemunhas, simplesmente faz eco dessas falas e atitudes, sem fazer uso da mínima capacidade de autorreflexão. Somos o diferencial da cadeia animal, por sermos dotados de raciocínio. Mas, para quê, se não nos utilizamos dela? Somos verdadeiros ‘Joãos e Marias vão com os outros e as outras’, até o último grau. Como mudar uma situação se não a percebemos, tal como ela se apresenta?

Precisamos, urgentemente, de um choque de realidade! E, mais triste do que o que impera no país, é o que impera em nós mesmos, que fazemos esta mesma nação. Sim, somos eu, você e os demais indivíduos que fazemos, toleramos e permitimos a triste existência nossa de todos os dias. Podemos mudar isso? Sim, porque podemos mudar a nós mesmos. Comecemos hoje mesmo! Comecemos mergulhando e meditando na letra da canção "Pra não Dizer que não Falei das Flores"", do paraibano Geraldo Vandré: Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer...”. Vem!


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