Habilidades em Xeque

Lígia Limeira,

Na contramão de países como Estados Unidos, Japão e Israel, o Estado Brasileiro está longe de reconhecer os seus maiores talentos. Tanto é verdade que somente em dezembro passado despertou para a necessidade de identificar alunos com altas habilidades ou superdotação nas educações básica e superior.

Sancionada no apagar das luzes de 2015, a Lei nº 13.234 institui um cadastro nacional para o cômputo de tal contingente. Nada obstante, os procedimentos e os meios para que a identificação precoce desses alunos ocorra dependem de Regulamento, ainda pendente de edição. Espera-se, contudo que, neste caso específico, não se opere situação análoga ao direito de greve do servidor público, pendente de regulamentação desde a promulgação da Constituição Federal, em 5/10/1988.

Envoltos em indiferença e preconceito, crianças e adolescentes superdotados são alvos de bullying, perpetrado até mesmo pelos educadores que, confrontados por comportamentos e atitudes atípicas e não sabendo como lidar com a situação, corriqueiramente partem para o embate acalorado, em não raras vezes taxando-os de enfermos ou problemáticos e associando o seu comportamento à hiperatividade ou ao transtorno de déficit de atenção, o que, em muitos casos, é aceito pelos pais e especialistas, obrigando-os até à ingestão de medicamentos que combatem tais males.

Em verdade, a chave-mestra da inclusão desses indivíduos, além de regras claras e bem definidas, é um corpo docente preparado e comprometido, com sensibilidade para identificar altas habilidades, capacidade para direcioná-los a uma vida escolar digna e disponibilidade para o diálogo, inclusive com suas famílias.

É que a identificação dessa prodigiosa característica não se faz apenas pela medição do QI - Quociente de Inteligência, que se presta a avaliar o raciocínio lógico. Apesar de os superdotados apresentarem características comuns, como QI acima de 130 (o regular oscila entre 90 e 110), pensamento divergente, com apresentação de soluções próprias para os problemas que se afiguram, modéstia e comportamento espacial e social compatíveis com suas idades, faz-se necessário um exame acurado, para melhor direcioná-los, inclusive porque as altas habilidades não se mostram em todas as esferas da vida, de sorte que é possível um indivíduo apresentar um notório saber para determinada área e ser absolutamente mediano em uma outra.

Segundo a OMS - Organização Mundial da Saúde, há algo em torno de 10 milhões de superdotados no Brasil. Porém, sabe-se que este quantum está relacionado à esfera intelectual, que prima pelo raciocínio matemático ou linguístico. Levando em conta que os indivíduos assim considerados podem se sobressair em outras dimensões, estima-se que tal número seja duas vezes maior. Entretanto, a última divulgação lançada pelo INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, órgão responsável pelas estatísticas oficiais no campo da educação brasileira, aponta a existência de apenas 13.308 superdotados no país. Isso, por si só, comprova a crassa ineficiência no processo de identificação dos super talentos pelas escolas.

Os Estados Unidos trabalham essa questão há mais de um século e já comemora grandes resultados, inclusive com a absorção de indivíduos-prodígio no alto escalão do Governo. O Japão, embora tenha menos tempo de caminhada, está a um passo de se igualar à prática americana, apesar das críticas no sentido de o seu programa privilegiar superdotados nas ciências que o país julga estratégicas. A política de excelência nessa seara vem de Israel, que propicia o acompanhamento de superdotados já na mais tenra infância, trabalhando suas habilidades e incentivando a sua ação criativa, estendendo-o até a vida adulta. Lá, os sistemas social e de educação andam de mãos dadas, de modo a possibilitar que os alunos com altas habilidades avancem no currículo segundo o seu grau de amadurecimento.

Como se vê, há um longo caminho para que a Pátria Educadora ofereça à sociedade uma educação inclusiva de fato e de direito. Para tanto, far-se-ão necessárias vontade política, mudança de cultura e formação continuada dos quadros docentes, que deverão integrar-se a equipes multifuncionais da área de saúde, com vistas ao adequado apoio e suporte aos alunos e suas famílias. Somente assim haveremos de ver cumprido, ipsis litteris, os termos lavrados na Carta Maior: “a educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” E, ante essa realidade, a nossa esperança será renovada e nosso destino, transmudado.


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